Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

MR027. Os Bastidores da festa. Trabalho, performance e experiência

O estudo do ritual tem conhecido novo fôlego, ao cruzar perspectivas clássicas com abordagens inspiradas na antropologia da performance. Propomos a abordagem dos bastidores do ritual, privilegiando não tanto o ritual já feito mas o ritual enquanto está sendo feito e por quem está sendo feito. Isso significa uma ênfase na temporalidade interna aos processos rituais, no trabalho que envolve diversos atores e especialistas rituais, que produz objetos, coreografias e conexões entre pessoas e entre pessoas e divindades. Significa igualmente olhar para os bastidores do ritual como lugar de um trabalho simbólico decisivo marcado pelo desenvolvimento de sociabilidades frequentemente pensadas como “uma festa dentro da festa”, em que trabalho e devoção, folguedo e brincadeira se articulam de forma instável e variável. Trata-se de elucidar processos de transmissão e de recriação de práticas simbólicas que implicam com frequência a atribuição de diferentes sentidos à ideia mesma de tradição. Trata-se também da produção, experimentação e reprodução reflexivas do próprio pensamento antropológico. Interessa-nos, em suma, entender os bastidores dos rituais festivos não apenas como um momento decisivo de um processo ritual pensado de modo sequencial, mas também como uma instância performativa que acompanha todos os seus momentos e faz parte dos sentidos permanentemente reatualizados pelos sujeitos envolvidos

Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
(Coordenador)
João Leal (CRIA - Universidade Nova de Lisboa)
(Participante)
Luciana Gonçalves de Carvalho (UFOPA)
(Participante)
John Cowart Dawsey (Universidade de São Paulo)
(Participante)


“Uma festa dentro da festa": os bastidores e o trabalho da festa

Autor/es: João Leal
Esta apresentação visa resgatar a importância dos bastidores da festa como lugar de produção de conexões entre homens (e mulheres) entre si e entre eles (e elas) e diferentes divindades e/ou entidades espirituais. Concentra-se em particular na multiplicidade de “donos da festa” que é possível surpreender a partir dos bastidores da festa: o “dono da festa”, outros promesseiros, especialistas rituais, ajudantes. Defende que o trabalho da festa é um trabalho a várias mãos, que articula obrigação e gratuitidade e que gera a sua própria dinâmica festiva. No final propõe uma revisita das relações entre trabalho e festa. Estes domínios, frequentemente pensados como opostos, aparecem na realidade sobrepostos e articulados, e a partir dessas sobreposições e articulações torna-se possível aprofundar a crítica do utilitarismo como modo de interpretação social e ação política.
Trabalho para mesa redonda