Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT006. Antropologia da morte: teorias de ritual

O uso da teoria de ritual em suas mais diversas abordagens para a análise dos processos associados à morte é considerado um instrumental clássico na antropologia. Contudo, já há alguns anos a utilização desta categoria tem sido questionada, principalmente a partir do reconhecimento das transformações nas dinâmicas contemporâneas. Nesse cenário revisionista, temáticas como as da laicização, da secularização, e do individualismo, dentre outras, foram compreendidas como obstáculos para o uso de uma categoria que anteriormente se aproximava da arena do social e do formal. De forma diferente, recentes pesquisas tem evidenciado que a existência desses mesmos elementos incentivou a criação de novas formas de observação dos rituais que colocam em voga temáticas como relacionalismo, interatividade, reflexividade, reposicionamento.

Neste grupo de trabalho propomos um aprofundamento e revisão dessa arena analítica já consagrada, buscando pesquisas nas quais as mais diversas possibilidades de teorias de ritual estejam em evidência: rituais formais, informais, individuais, coletivos, em presença, à distância, públicos, privados, ritualizações. Enfim, desejamos selecionar trabalhos nos quais a vivência da morte, do enterro e/ou do luto sejam debatidas assumindo o uso da teoria de ritual como modelo para análise. Nosso objetivo é encontrar lugares de criatividade e inovação em um campo já consagrado na história da disciplina.

Andreia Vicente da Silva (Universidade Estadual do Oeste do Paraná)
(Coordenador/a)
Mísia Lins Vieira Reesink (UFPE)
(Coordenador/a)


Fazer das cinzas diamantes: a busca pela eternidade no mundo visível através de joias de família

Autor/es: Aline Lopes Rochedo
As reflexões que proponho neste artigo emergem de uma investigação mais ampla sobre lógicas de transmissão e circulação de joias no âmbito familiar. Sendo a morte uma dimensão fundamental no repasse de um adorno entre gerações e na própria instituição de um artefato como sendo “de família”, visitei trabalhos sobre ritos funerários, relações entre vivos e mortos e diferentes concepções acerca da morte. Neste processo, deparei-me com produções acadêmicas que tratam de joias de afeto, de luto ou de cabelo, acessórios vitorianos que foram moda entre membros das elites nos séculos XVIII e XIX. Venho considerando estes resíduos materiais móveis como agentes sociais capazes de afetar e prolongar as relações entre ancestrais e herdeiros após procedimentos e ritos de despedida e descarte de cadáveres. Paralelamente a essa produção, interessei-me pelos processos de cremação e rituais posteriores envolvendo cinzas mortuárias, até me deparar com reportagens e sites de diferentes países – Brasil, inclusive – contendo narrativas ritualísticas sobre diamantes sintéticos fabricados em laboratórios a partir de carbono humano, pedras que, depois de serem lapidadas e retornadas a famílias enlutadas em porta-joias, não raras vezes são encrustadas em ouro, platina ou prata e transformadas em adornos corporais carregados e reverenciados pelos descendentes. Purificadas, tornam-se relíquias humanas, peças que cabem na palma da mão e/ou podem enfeitar corpos e que, provavelmente, serão incluídas em inventários, convertendo-se em nova modalidade de joias de família e borrando ainda mais as fronteiras entre pessoas e coisas. A discussão que proponho neste trabalho envolve uma nova ritualização a partir da materialização de cinzas (reformulação do corpo morto) em diamantes (purificação), joias e itens a ser inventariados. Entendo que este processo concede nova vida social e novo estatuto ao corpo morto e que, ritualizado de diferentes maneiras por períodos posteriores aos ritos funerários “convencionais”, interfere na presença-ausência-presença. Em forma de bem de luxo com identidade conflituosa, o(a) falecido(a) é móvel, pode circular e viajar, e também pode ser pensado(a) como um agente social capaz de provocar emoções nos vivos e protagonizar novos ritos. Não há um ato final prescrito para quem morreu e teve as cinzas convertidas em gema, muito menos para aqueles que guardam a relíquia do antepassado, até porque, como indicam depoimentos reunidos em reportagens a que tive acesso de diferentes países, enlutados do(a) morto(a) transformado(a) em diamante aderem à retórica dos laboratórios, que prometem a eternidade também no plano material, no “mundo visível”.
Palavras chave: Cinzas, diamantes, joias
Apresentação Oral em GT

Um dia de sol para cultuar os antepassados: o Shokonsai como fator climático e identitário

Autor/es: Aline Yuri Hasegawa
Esta pesquisa trata de um ritual de culto aos ancestrais realizado no município de Álvares Machado-SP por descendentes de imigrantes japoneses. O Shokonsai, nativamente traduzido por "convite às almas", pode ser considerado a síntese de dois rituais: o hakamairi, que tem um caráter familiar e privado; e o O-bon, que é público e comunitário. O hakamairi pode ser traduzido como “visita a sepultura”. Em geral, familiares e amigos costumam praticá-lo a seus entes queridos que faleceram. Datas como aniversário de vida, aniversário de morte, ano novo, Finados e até mesmo dias de O-bon são consideradas importantes para a prática do ritual. O O-bon, por sua vez, pode ser traduzido por festival das lanternas, e no contexto brasileiro é um evento organizado pelas associações de cultura japonesa, engajando suas lideranças e membros ativos. As associações de cultura japonesa são chamadas nativamente de kai会e, – neste contexto, a tradução deste termo seria associação, sociedade. Nos O-bons são convidadas personalidades “de fora” – membros e lideranças de outros kais, figuras públicas da localidade, alianças importantes para a comunidade local. Seguindo as datas das comemorações do O-bon no Japão, no Brasil também são realizados em julho ou agosto. No caso do ritual realizado no município de Álvares Machado-SP, além das especificidades listadas acima, ainda há algumas características que o tornam peculiar com relação aos demais festivais de O-bon realizados no Brasil. Neste local, a festa é realizada em um clube de campo da associação, onde fica localizado seu cemitério étnico. Neste cemitério, estão enterrados ancestrais de muitas lideranças e de membros ativos da comunidade atual. As festividades ocorrem durante o dia, iniciando-se com uma missa em homenagem à memória dos ancestrais e, no final do dia, há o espetáculo de acendimento de velas nos túmulos. Este cemitério étnico nikkei, cuja manutenção é de responsabilidade do kai local, é único no Brasil. Neste contexto, funde-se ao sentido do hakamairi, o O-bon, e o festival recebe o nome de Shokonsai. Outro aspecto que compõe o ritual, além dos já mencionados, é a importância das condições climáticas. Diz-se que há 95 anos, durante a realização do evento, jamais choveu e ainda que, ao final do dia, no momento do acendimento das velas nos túmulos, os ventos cessam e as velas permanecem acesas até que a última se apague naturalmente. Só então os ventos retornam. O objetivo deste texto é apresentar os elementos filosóficos religiosos que embasam uma noção de morte que permita a conexão das práticas das pessoas (mortas e vivas) com as condições climáticas, ou seja, uma cosmologia em que morte, vida e natureza façam parte de um mesmo contínuo que se interconectam por meio das práticas fúnebres.
Apresentação Oral em GT

DE COMPANHEIRA A VILÃ: nós, os outros, e a morte.

Autor/es: Anne Caroline Nava Lopes, Anne Caroline Nava Lopes Isanda Maria Falcão Canjão Silvia Cristianne Nava Lopes
A abordagem sobre a temática da morte que aqui se deseja construir tomando como referência a adotada perspectiva histórica aplicada por Elias ao estudo sobre os costumes ultrapassa, portanto, uma conotação biológica e assume sua significação na esfera social. Portanto, a presente discussão não é sobre a morte física ou sua experiência em nível psicológico, mas sobre a morte como uma expressão de nível coletivo - sociogênese. Não queremos substituir uma explicação biológica por uma explicação puramente social, mas sim explorar a imbricação entre os fenômenos sociais e biológicos observando o controle estatal sobre o morrer. O presente trabalho decorre da pesquisa desenvolvida no Mestrado em Ciências Sociais e pretende explorar um aspecto específico sobre a morte, qual seja, as relações entre saber médico e a morte. Acreditamos que o estudo sobre as relações entre a medicina e a morte é uma das maneiras mais eficazes de se compreender o impacto que o desenvolvimento –tecnológico e o saber médico exercem sobre a sociedade contemporânea, principalmente no que concerne ao controle social sobre a forma como as pessoas morrem, sob o prisma regulador estatal que legitima o saber médico. Esse tipo de controle social no âmbito da biopolítica atua no domínio dos controles exteriores calcados na disciplina. Trata-se de uma ação estatal tanto direta quanto indireta que aciona instrumentos coercitivos sobre os indivíduos. Por trás existe tanto uma imposição de uma forma de morrer, refiro-me a hegemonicamente hospitalar, quanto um adestramento com base em condicionantes que incutem nos indivíduos um aprendizado cada vez mais forte. De acordo com Elias em sua obra A Solidão dos Moribundos (2001, p.57): “Os indivíduos aprendem não somente desejarem a assistência hospitalizada, mas a ela se submeterem docilmente”. Uma das consequências da perfeição técnica da medicina e dos novos hábitos instituídos e reconhecidos foi o fato de os moribundos terem sido fatalmente afastados para os bastidores da vida social como sugere Elias. É sobre essa dimensão medicalizada que desejamos refletir. Finalmente, a atualidade do tema e a reflexão realizada neste trabalho dão-se pela motivação de discutir um tema por muito tempo silenciado, enquanto um assunto interditado e banido do cenário da vida, uma vida moderna que se caracteriza cada vez mais pela atitude de recusa da morte.
Apresentação Oral em GT

O ritual de morte como dignificação social em Luanda

Autor/es: Francisco José Barbosa
Esta pesquisa foi parte da Tese “Nas fronteiras da liberdade: colonização, descolonização e ritos fúnebres na Angola contemporânea”, pois, convivendo por mais de cinco anos entre o povo angolano, dentre tantos ritos que compõem essa sociedade, o ritual de morte foi o que mais me chamou atenção, devido a grande repercussão, comoção e ajuntamento que promove na sociedade. A força em querer viver independentemente do sofrimento, é uma marca desse povo, que dignifica seus ancestrais com atos de coragem no quesito enfrentar as agruras sociais. Essa pesquisa teve como objetivo analisar as práticas ritualísticas fúnebres do grupo kimbundu e Umbundu na região de Luanda/Angola, tendo como metodologia a pesquisa qualitativa pela via etnográfica, pois participei de mais de vinte rituais fúnebres em Luanda. Dessa pesquisa constatamos que a morte é encarada como uma parte da vida e também como possibilidade de resgatar a estrutura da família novamente, juntando-se com seus ancestrais que já se foram (morreram) e, consequentemente, passam a aguardar aqueles que ainda não passaram por esse ritual (morte), era uma forma de juntar-se à família, e acabar com o sofrimento causado pelas violências na colonização e descolonização. Com a invasão cristã advinda da colonização e da cultura portuguesa, a morte para os angolanos sofre um pouco a influência católica e passa a ser além da busca da ancestralidade (concepção africana) ser também a busca do céu (concepção católica), que não pode ser conquistado através dos suicídios, e sim pela influência e a adesão ao cristianismo, que exige a dedicação total do fiel para ter direito ao céu. No caso de Angola, nem o Estado com suas concepções ocidentais de modernidade, que tentam ignorar a importância social dos ritos de morte, e nem a igreja cristã, conseguiram impedir a prática tradicional do ritual. Com facilidade é possível encontrar e participar dos rituais fúnebres em qualquer província de Angola, e perceber que há algo em comum em todos: a expectativa de fazer um bom ritual fúnebre em casa e convidar a família e amigos para participar, pois o ritual é aglutinador, une e ajuda a dar esperança para uma sociedade que sofreu com a violência e dignificar a memória em vida daquele que se foi. Conversando informalmente com vários estudantes constatamos que é comum às suas famílias ao longo da vida, guardar dinheiro e encarregar outras pessoas para lhes fazerem funerais dignos, com todos os detalhes e requintes possíveis, evidenciando, assim, a importância que o arcabouço simbólico do ritual de morte tem na atual sociedade, mostrando como essa prática une o povo em qualquer segmento da estrutura social.
Palavras chave: Ritual; Morte; Dignidade
Apresentação Oral em GT

Consoada: a morte como alivio

Autor/es: Gicele Brito Ferreira
A origem do nome “Consoada” vem do Latim "consolata", de "consolare", "consolar", alguem que vê no dizer de Bandeira a indesejada das gentes chegar. Conjugar o verbo Morrer não é tarefa simples, pois nos impõe a regra gramatical que no presente se inicie por Eu morro; logo sou perecível, finito. Porém pensar a morte como referência totalizante constitui um espaço para reflexão sobre a sociedade como um todo, com sua visão de mundo e o ethos a ela associado; afinal todos nós morreremos e buscar entender o que ocorre no ato de morrer e todos os ritos que o cercam é buscar entender as “teias” que constroem a vida. Na primeira parte deste artigo apresento fragmentos do discurso teórico elaborado por Antropólogos que pensam a morte, para segui-la com auxilio de um exercício etnográfico feito a partir do acompanhamento de velórios de pessoas idosas, onde observei que os anos conquistados com aumento da expectativa de vida, nem sempre significam viver, e a morte vem consoada como alivio. Na sequencia fecho as linhas deste texto com questões do trato dispendido aos muitos idosos e aos centenários quando a morte chega. A morte como comportamento complexo que se origina nas bases do inconsciente se materializa na construção de espaços sociais, sejam eles de pequeno ou grande reconhecimento para os vivos que ficam. Todo o dia morre-se , mas no ritual de enterramento percebe-se que vida se viveu, são situações recorrentes que tentei apresentar ao trazer a dissonância que há entre morrer velho verso morrer em vida por que envelheceu.
Apresentação Oral em GT

Moradas eternas, morada dos vivos: um olhar sobre o culto dos mortos no cemitério da Soledad em Belém - Pará .

Autor/es: Helio Figueiredo da Serra Netto, José Leandro Gomes de Souza Jorge Oscar Santos Miranda
Ainda que a técnica se desenvolva ao seu mais alto nível a natureza nunca se desdobra ao homem, a morte em sua sutileza – ou sem nenhuma – sempre se faz presente e nos espreita em nossa caminhada diária, mas onde ela nos encontrará? Em Belém do Pará, toda segunda-feira, pessoas dos diversos tipos – de classes, cor, gênero, idade e credos – peregrinam nos cemitérios da cidade em busca de graças, pagamento de promessas e gratidão nos chamados “Culto das Almas”. Santos populares, exús, novenas e oferendas fazem parte deste tímido, mas não menos importante, acontecimento da cidade, e que encontra no famoso cemitério da Soledad uma importante expressão da relação das pessoas com o espaço urbano. Este cemitério é conhecido por ser situado no centro da cidade e por se constituir como uma importante referência arquitetônicas, além de uma pérola da cultura imaterial local, nele se encontram não só as imponentes esculturas e mausoléus herdados do período histórico da belle époque, como também as importantes figuras que compõem o imaginário das “visagens e assombrações” da cidade. O doce “Menino Cícero”, a poderosa “Raimundinha Picanço” e a benevolente “Preta Domingas” figuram, entre outros, como ilustres habitantes e como um dos mais milagrosos e cultuados; placas, velas, novenas, oferendas, fotografias e outros objetos são deixados em um ritual semanário em sinal de agradecimento, muitas são as graças alcançadas. O cemitério se torna um enclave em meio ao caos urbano, as buzinas dos engarrafamentos caóticos são docemente abafadas pelo canto dos pássaros, pelo som das folhas e dos galhos soprados pelo vento e, principalmente, pela ferocidade das chamas que consomem as centenas de velas espalhadas pelo local. Os mortos tornam-se íntimo dos vivos, as moradas eternas abrem suas portas e se tornam uma espécie de sala de visita onde os vivos adentram e realizam sus orações e oferendas. Em meio aos rituais individuais, em uma pequena capela castigada pelo tempo e pela invisibilidade pública, um padre – que esbanja uma simplicidade visível –, realiza ao longo do dia orações do terço e abençoa as pessoas e seus objetos. Lá as pessoas não só peregrinam, mas também conversam, se sentam e leem seus jornais e revistas, a paisagem amena, que se constrói nessas relações, são invadidas pelo cheiro das velas nos fazem lembrar da nossa fatídica e humana fragilidade diante da morte. Mas neste espaço é tempo de paz. Este trabalho é fruto de uma tese de doutorado, em andamento, que busca compreender a relação entre a imagem, a memória, o sagrado e as tecnologias fotográficas.
Apresentação Oral em GT

Patrimônios afetivos e acervos familiares: Morte, memória e materialidades entre famílias vítimas da violência urbana em Belém-PA.

Autor/es: Hugo Menezes Neto
Nos dias 4 e 5 de novembro de 2014 ocorreu uma chacina em Belém do Pará, evento conhecido na cidade como “Chacina de Belém”, que resultou na morte de 11 jovens da periferia da cidade, atribuídas a policiais militares que ainda respondem judicialmente pelo episódio. Desde então acompanho cinco famílias das vítimas, pesquisando mais especificamente seus processos rituais de enlutamento, salvaguarda da memória e produção de acervo familiar. Neste trabalho, portanto, apresento as primeiras análises do projeto de pesquisa apoiado pelo Programa de Apoio ao Doutor Pesquisador, da Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação da UFPA, com vistas a pensar como as famílias das vítimas da violência urbana lidam, entendem e se relacionam com as coisas deixadas por esses jovens mortos. Em outras palavras, o que fazer, ou como se relacionar, com roupas, fotos, documentos, livros, e demais objetos que um dia pertenceram a um filho hoje morto pela violência urbana? Meu objetivo é refletir a respeito do processo ritual de musealização particular que articula luto, materialidade e violência, pensando nas especificidades desses ritual quando a morte está atrelada a um evento crítico de grande impacto social e familiar. Atento, outrossim, à seleção do que guardar ou descartar, às motivações, emoções e intuitos constituintes da ação de transformá-los em acervos familiares, expostos em cômodos da casa ou guardados em gavetas com acesso restrito, comunicando a ausência e ao mesmo tempo demarcando a presença dos jovens, reanimando memórias e acionando conexões entre mortos e vivos. Logo, as reflexões foram promovidas pela observação do movimento familiar de escolha, manutenção, manuseio e ressignificações desses objetos/coisas na constituição de um acervo, patrimônio afetivo, que materializa e/ou transubstancia discursos e imagens sobre os filhos assassinados no contexto de violência da capital paraense. Tais análises filam-se ao campo antropológico do ritual, a retomar trabalhos e teorias basilares de Durkheim, Gluckman, Leach e, especialmente, Victor Turner. Como também apontam para as discussões atuais sobre representação e sentidos ontológicos que envolvem as relações entre humanos e coisas na perspectiva de Tim Ingold.
Apresentação Oral em GT

“Com um ente querido eu vou até o final”. Experiências de reciprocidade dos consumidores fúnebres

Autor/es: Isabela Andrade de Lima Morais
Pesquisadores clássicos do campo ritual da morte sinalizam para uma atitude individualista, pragmática, laica, secular e por um processo de solidão, de interdição, de ocultamento e de banimento da morte e dos mortos nas sociedades contemporâneas (ARIES, 2003, 2000, 1999 e ELIAS, 2001), porém, uma pesquisa etnográfica sobre mercado e consumo fúnebre realizada para o Doutorado em Antropologia, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco, nos anos de 2006 a 2009, demonstrou atitudes relacionais estabelecidas com os mortos. Nossos mortos são lembrados, invocados e chorados. Há um vínculo com os que se foram. Os mortos possuem “mana”, tem valor mágico, religioso e social. Neste contexto relacional e mágico, a lógica da reciprocidade está presente quando do consumo fúnebre. Relatos de: “era a última coisa que eu podia fazer por ele (ou por ela)” alimentam a cadeia econômica do mercado de produtos e serviços funerários. Objetivo dessa comunicação é apresentar o consumo de produtos e serviços fúnebres como uma possibilidade de retribuir algo. É uma dádiva contratual, um “potlach”, um “kula”. Os gastos com um funeral além de cumprir uma função tranquilizadora para os viventes (THOMAS, 1991) sendo percebido como “a única forma para recompensar a perda”; significa também, para os consumidores fúnebres, a possiblidade de retribuir ao ente que morreu algo que ele ofereceu quando vivo. E é essa retribuição que mantém o vínculo entre os vivos e os mortos.
Apresentação Oral em GT

A morte narrada e as perspectivas etnográficas dos rituais fúnebres.

Autor/es: Jaqueline Pereira de Sousa
Nos arredores da cidade de Cajueiro, ao norte do Estado do Piauí (Brasil), encontram-se cemitérios à beira-mar e com eles as memórias dos seus moradores que, em situação de conflito com o crescimento do turismo e as novas formas de sociabilidades, deixa evidenciadas as transformações nas formas de lidar com morrer – amalgamados pelo tradicionalizado e pelo modernizante. Essa pesquisa busca nas narrativas da etnobiografia o acionamento da memória fúnebre através do poder de agência dos objetos que, mais do que mediadores entre o mundo dos vivos e dos mortos, tem papel fundamental na ritualização do discurso performático pelos interlocutores ao evocar os seus antepassados. A cultura material contemplada não só pelas fotografias, sepulturas, cruzes, artefatos pessoais, etc., também enquadra como circunstâncias as narrativas, os gostos e as virtudes do falecido, fazendo com que tais dispositivos enfatizem a presença desse morto (mesmo não estando presente em corpo físico), sua constante (re) memorização cria uma conexão entre vida e morte.
Palavras chave: Morte; Objetos; Narrativas.
Apresentação Oral em GT

Etnografia da Morte: uma reflexão sobre Rituais de Despedida na Cultura Fúnebre do Crato-CE

Autor/es: José Felipe de Lima Alves, Ednalva Maciel Neves Mauro Guilherme Pinheiro Koury
O trabalho apresenta um recorte da pesquisa de mestrado sobre cultura fúnebre no contexto urbano da cidade do Crato, localizada na região metropolitana do Cariri Cearense. A proposta desse trabalho é além de apresentar o objeto e o estudo que está sendo realizado trazer uma reflexão sobre o campo a partir da contribuição teórica da antropologia e a textualização dos resultados obtidos com o desenvolvimento dessa teoria aplicada à prática de pesquisa. Utilizamos a observação participante como metodologia, por considerar de fundamental importância a vivência do pesquisador nos rituais que são realizados, bem como de compreender as diversas nuances que permeiam as relações dos atores envolvidos no contexto fúnebre da cidade. Buscamos compreender os diversos elementos que compõem os rituais de despedida levando em consideração todos os aspectos que se dizem respeito a morte na cidade. Percebemos a dinamicidade dos eventos e as mudanças que ocorrem ao longo dos tempos, principalmente na estrutura dos rituais e no tratamento que é dado ao corpo morto. Compreendemos que essas mudanças acompanham a urbanização e integram novas práticas que são efetuadas pelos indivíduos que acompanham essa dinâmica da cultura. Assim, refletimos sobre os rituais de despedida como eventos que compõem a estrutura social através dos elementos que comunicam a cultura fúnebre da cidade para elaboramos uma etnografia que apresente a morte como fenômeno para que possamos assim, compreender as relações construídas pelos indivíduos nesse processo ritual.
Apresentação Oral em GT

O luto sem corpo e a formação da memoria de desaparecidos políticos por parte de seus familiares

Autor/es: Leticia Rodrigues Ferreira Netto
Os estudos sobre o luto costumam apresenta-lo como um processo uno apesar dos vários tipos de luto. O que identifico na pesquisa é uma diferenciação para além de caracteres culturais ou religiosos, mas na relação entre o luto e a forma como o corpo morto se apresenta ou deixa de se apresentar naquilo que podemos chamar de ritual. Intento com tal pesquisa começar um processo de expansão do entendimento sobre esse processo, não para criar um extremo relativismo que impeça a análise, mas antes para compreender e contemplar as diferenças que costumam ser tão sutis nessa situação. Pois, devido à história do país no século XX, momento em que se instauraram duas ditaduras que se utilizaram da força para manter sua legitimidade, é necessária a discussão sobre os processos de perda por que passam os envolvidos mais diretamente e que geram lutas por direitos à memória. Para realizar essa discussão, busco os estudos da Antropologia da Morte e dos rituais, bem como os Estudos da Memória, tema amplamente discutido no final do século passado e no presente século. A partir das distinções entre memória individual, memória de grupo e memória nacional, penso poder contemplar as tensões existentes sobre esse tema atualmente. Tentarei, também, compreender de que forma as diferentes instituições podem interferir no processo de luto e na elaboração da lembrança de um desaparecido. Lembrança essa que se coloca como local relacional entre a família e seu falecido. Até o presente momento, três tipos de luto foram percebidos: o luto com corpo identificável; o luto com corpo não identificável; e o luto com ausência de corpo. O estudo deste último tipo se mostra mais delicado e depende de etnografias junto a famílias que apresentem a condição de desaparecimentos políticos devido à anuência da morte. Quando se fala de desaparecimentos em que essa aceitação não ocorre, por vezes, não se pode falar em luto devido à postura com que a família se relaciona com tal individuo. A não-presença do corpo é ainda um elemento importante a ser considerado, visto que o Brasil tem diversos casos de desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres da ditadura militar não solucionados apesar das diversas comissões instituídas. Ainda, a memoria oficial veiculada por essas comissões tem um peso por ser aquela veiculada nas escolas e nas mídias e aquela que se forma para os cidadãos nascidos após a redemocratização. E quando não contempla os familiares, pode haver conflitos entre as visões do passado e o impedimento na realização de direitos. Os estudos acerca de um processo de enlutamento diferenciado pode auxiliar na construção de uma imagem de tal período que contemple as famílias e que permita perceber a gravidade de tal regime para os direitos humanos.
Apresentação Oral em GT

“Aquela Bala Me Matou Também”: Homicídio, Maternidade e o Ritual Público do Luto no Tribunal de Justiça

Autor/es: Luciane de Oliveira Rocha
Engajando com a teoria de ritual como modelo de análise, o objetivo deste artigo é analisar as manifestações públicas de mães de vítimas de violência policial como um ritual coletivo de luto. Como estratégia para dar visibilidade aos casos de homicídios cometidos por policiais e buscar a celeridade dos processos junto ao Sistema de Justiça Criminal, as mães de vítimas de violência policial promovem atos públicos em frente ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Analisados como rituais, é possível identificar nesses atos manifestações de sofrimento por meio do silêncio, cantos, poesia, fotografias e trajes. A metodologia utilizada é a análise etnográfica de três desses rituais de luto e a etnografia documental de processos criminais. O ensaio está dividido em três seções: na primeira, discuto como a morte de jovens ligada à ação policial no Estado do Rio de Janeiro é retratada nos processos criminais; na segunda, discuto o reposicionamento da morte na experiência de mães de vítimas de violência; na terceira parte, vinculo a abordagem performativa para a análise do ritual do luto realizado pelas mães. Este trabalho revisa a teoria de rituais e a relaciona com a morte e o morrer na teoria da Diáspora Africana.
Apresentação Oral em GT

Os nahuas e os rituais funerários: Estudo de caso em a Sierra Negra no Estado de Puebla em México

Autor/es: Luisa Gabriela Avila Cortés
Os membros do povo nahua do México que habitam a Sierra Negra no Estado de Puebla realizam rituais funerários para criar uma proteção para a família do morto, ou para evitar que a comunidade inteira adoeça pela “negatividade” que implica a situação liminar da própria morte. Eles comemoram esses rituais dependendo da maneira que o historicamente foi-se estabelecendo, porém os nahuas não conseguem mudanças estruturais nos rituais. Esta informação foi encontrada durante o trabalho de campo realizado para apresentar a tese do Mestrado em Antropologia na Universidad Autónoma de México entre os anos 2008 e 2010. Duas práticas se identificaram dentro do ritual funerário entre estes nahuas: as imediatas e as extensas. No primeiro grupo se incluíram a preparação do morto, as exéquias, o enterro, o novenário e o(s) levantamento(s) da cruz; no segundo grupo se abarca o término do luto, a percepção sobre o dano-benefício entre o morto e a comunidade principalmente pela doença chamada “mal aire” e a comemoração da Festa Anual dos Mortos em Novembro. A reprodução da estrutura básica do ritual continua se reproduzindo entre as novas gerações dos nahuas, mas algumas mudanças externas estão se percebendo na realização dos rituais pela influência de fatores variados como as migrações intermitentes, a carência dos recursos econômicos para obter os produtos necessários ou a divisão entre representantes políticos da comunidade e sua jurisdição regional.
Apresentação Oral em GT

O Aruê e as narrativas sobre a morte

Autor/es: Renata Freitas Machado
A comunidade pesqueira de Matarandiba, localizada na Ilha de Itaparica, Bahia, se despede do ano velho e dá boas vindas ao ano novo com a Festividade do Aruê. No Aruê é preparada uma jangada com partes da bananeira, as folhas formam um arco, no meio é colocado um mamão com olhos, nariz e boca entalhados, lembrando uma caveira. As flores rosadas também compõem o cenário. Tais elementos parecem nos remeter a um rito fúnebre. O cortejo sai do Alto do Cruzeiro (Matarandiba), antes da meia-noite, percorrendo todas as ruas da Vila, quatro homens seguram em volta da jangada, atrás uma multidão canta: Aruê, aruê, Aruê, Aruá, enterrar o ano velho que o novo vai chegar. Em volta da jangada, mulheres e homens seguem o cortejo e lamentam com gritos o enterro de mais um ano. Ao final do cortejo, quando o ano já foi despachado na maré, a comunidade festeja o ano novo com o samba de roda. O Aruê tem sido a base para compreensão da relação da comunidade com a morte e seus rituais funerários. O morto e o ano percorrem caminhos inversos dentro da comunidade. De um lado temos o ano que segue até a praia e é despachado. Do outro, o morto que também segue em cortejo, porém no caminho oposto e distante da Vila, e é enterrado. Ao tentar entender os rituais funerários, do ponto de vista da antropologia da performance, outras categorias analíticas emergem. A exemplo da religiosidade, afetividade, memória e som. Nesse trabalho a música/som ocupa um lugar de evidência. O próprio campo me apresenta a música como lugar privilegiado para compreensão dos rituais funerários. A música está presente no cotidiano das pessoas em Matarandiba, seja nas cantigas das lavadeiras, as cantigas para mariscar, os cantos das rodas de samba, cânticos das manifestações culturais e também nas canções de despedida. No caso específico do Aruê, as batidas do timbal compõem a canção em coro que acompanha o cortejo. Já nos enterros, o contexto sonoro é composto por cânticos respondidos em coro, murmúrios de tristeza e soluços. A música está inserida nas várias atividades sociais e tem estreita relação com outras formas expressivas, o que se configura como importante plano de análise da antropologia. A etnografia da performance musical traz a cena outros fenômenos, não necessariamente acústicos mas extremamente importantes do ponto de vista antropológico. A proposta do trabalho é uma reflexão, a partir do diálogo da antropologia da morte e uma etnografia da performance musical, acerca da relação da comunidade com a morte e os desdobramentos dos seus rituais mortuários. O trabalho é um recorte da pesquisa de doutorado que está sendo desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social.
Apresentação Oral em GT

Dinâmicas e fenômenos sociais: um estudo sobre a morte no cemitério da comunidade Nossa Senhora da Guia, Paraíba

Autor/es: Uliana Gomes da Silva, Ednalva Maciel Neves (edmneves@gmail.com)
Este trabalho reflete a respeito da temática da morte e o espaço de sepultamento a partir da pesquisa desenvolvida no cemitério da comunidade Nossa Senhora da Guia em Lucena-PB. O cemitério está situado na parte mais alta da comunidade entre o santuário Nossa Senhora da Guia e uma reserva florestal. Trata-se de um cemitério sem muros, cujo espaço sagrado é marcado pela grande cruz que perdura no meio dos túmulos. Os túmulos são enfeitados por “grinaldas” coloridas que chamam a atenção do transeunte, ocupando área relativamente pequena e, por isso, sua capacidade para construção de novos túmulos está limitada. No entanto, a procura pelo sepultamento tem crescido recentemente, com novas construções que chegam a adentrar a reserva florestal, outros invadem o espaço utilizado pelo comércio local, que funciona nos dias de missas. Tal singularidade nos fez refletir sobre as modalidades de enfrentamento da morte em contexto social contemporâneo diferente do modelo propagado do chamado tabu da morte, para compreender a dinâmica das atitudes e representações ali realizadas. Nosso trabalho se fundamenta em uma pesquisa de campo realizada em 2011 a 2015, quando observamos e entrevistamos as pessoas que tinham parentes enterrados no cemitério. Para a maioria dos interlocutores, o lugar aparece como “local calmo”, entendido como “lugar ideal” para ser enterrado. Outros aspectos são relevantes como: o fato de que não se paga taxa para “enterrar”, a manutenção dos túmulos é feita pelos familiares do falecido, assim como na maioria dos casos é a própria família que “cava a cova” para o sepultamento. Existem diferenças entre os túmulos que se tornam visíveis, em termos de: tamanho, estrutura e decoração. De modo geral, se percebe que a distinção faz parte do cenário. Tais diferenças podem ser explicadas a partir das diferenças relacionadas aos marcadores sociais, refletindo as condições econômica, social e também religiosa de cada família. A religiosa diferencia os túmulos pelo que seja considerado “católico” ou “crente” de acordo com as crenças local, indicando assim modalidades que envolvem as relações entre vivos e mortos segundo as normas e ethos da vida religiosa. As obrigações de manutenção do túmulo continua sendo uma responsabilidade da família e motivo de controle social por outras famílias e visitadores do cemitério. A ,manutenção é justificada pela reciprocidade com um ente querido como mecanismos para continuar a integrar a vida social daqueles que continuam. Atribuições de características para a morte foram feitas: “ela é sacana”, “covarde”, “injusta”, mostrou se presente também nos discursos as diferenciações de tipos de morte “boa morte”, “morte natural”, “morte matada”, “morte ruim”, relacionando as com o ultimo suspiro das pessoas sepultadas.
Apresentação Oral em GT

"A boa morte: O fim como metáfora"

Autor/es: Gabriela Pimentel de Araújo, Bruno José de Araújo Florêncio
O presente trabalho faz uma analise das praticas fúnebres do catolicismo popular, abordando a questão dos ritos enquanto reação das estruturas sociais e culturais, analisando a contribuição que o isolamento teológico – ocasionado pela ausencia cânones oficiais – trouxe para a consolidação dos ritos fúnebres. Sendo assim, as praticas rituais são analisadas como forma de resistência da população, que se desenvolve com a convergência do fenômeno religioso do rito com a estrutura da consciência dos praticantes. O trabalho analise rito das incelências, usando a obra “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto como objeto de estudo, tendo a “Eficácia Simbólica” de Lévi-Strauss e a “Prece” de Mauss como base teórica para explicar a relação simbólica do rito, e sua relação logica cultural.
Pôster em GT