Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

MR021. Interculturalidade na Universidade brasileira: tensões, conflitos e desafios

A adoção de ações afirmativas mediante reservas de vagas assegurou a inserção, nas universidades públicas, de um conjunto expressivo de índios, negros e pardos, o que ajudou a reduzir o déficit histórico da sua presença. Tal não ocorreu sem resistências, seja por parte de partidos políticos conservadores, seja por comportamentos racistas. Esta proposta de MR tem como objetivo discutir os desafios suscitados pela entrada de milhares de indígenas e negros nas universidades públicas desde o início da década passada, através de cotas ou outros processos de acesso especial. De nativos e distantes objetos de pesquisa, estes atores, hoje, integram o corpo acadêmico das universidades no país e trazem novos desafios e questionamentos, especialmente para as Ciências Sociais e, particularmente, para a antropologia. Paradigmas teóricos aparentemente bem resolvidos nos livros, como a alteridade e o combate ao etnocentrismo, têm-se mostrado frágeis. Este cenário tem, por outro lado, suscitado diálogos, com forte potencial crítico-reflexivo, sobre o respeito que deve prevalecer em face da diversidade representada por agentes e comunidades que vivenciam diferentes situações históricas de organização social e política, mas que, não obstante, convergem na busca ao reconhecimento das suas identidades étnicas. A possibilidade de criação, no âmbito da 30ª. RBA, de um espaço de diálogo, crítico e construtivo, em torno a tais questões, nos motivou, e impulsionou, a propor esta MR.

Maria Rosário Gonçalves de Carvalho (Universidade Federal da Bahia)
(Coordenador)
Florêncio Almeida Vaz Filho (Universidade Federal do Oeste do Pará)
(Participante)
Gersem José dos Santos Luciano (Universidade Federal do Amazonas)
(Participante)
Osmundo Santos de Araújo Pinho (UFRB)
(Participante)
Ana Cláudia Gomes de Souza (UCSAL)
(Debatedor)


A rebelião indígena na Ufopa e a forçada interculturalidade

Autor/es: Florêncio Almeida Vaz Filho
O respeito pelo diferente é uma condição para a interculturalidade. Porém, o que vemos nas universidade brasileiras, a partir da entrada de um número expressivo de indígenas, é que, se a entrada destes grupos, através de processos diferenciados de seleção e pela Lei de Cotas, está garantida, a sua assimilação como grupos diferenciados não está sendo tranquila. Mas se a Universidade não tem reconhecido de fato esses outros na sua diferença, os próprios estudantes indígenas se organizam e pressionam a instituição. E criam dinâmicas em favor de melhores condições de permanência. A rebelião dos indígenas na UFOPA, em 2015, ilustra este momento de pressão em vista de relações mais igualitárias. O novo está sendo construído por sujeitos que não chegam apenas para aprender, mas que trazem consigo seu modo de ser e seus valores. Eles estão forçando a Universidade a se fazer intercultural.
Trabalho para mesa redonda

Racismo epistemológico na trilha acadêmica dos povos indígenas

Autor/es: Gersem José dos Santos Luciano
Trata-se de expor os fantasmas que rondam as salas de aulas, os gabinetes e os corredores universitários, com a derrubada dos muros racistas que impediam o acesso dos indígenas à formação superior. Mas há outras maneiras de impedir a emancipação intelectual, cidadã e humana do índio, dentre as quais, a discriminação cultural, linguistica, epistemológica. O índio não pode efetivar sua emancipação, pois estaria ameaçando o lugar cômodo dos seus tutores. Ele só é tolerável enquanto subalterno, tutelado e subserviente intelectualmente. Do contrário, ele precisa ser desqualificado , deslegitimado. Em uma relação de poder intelectual e epistemológico tão assimétrico há alguma chance para a verdadeira e efetiva interculturalidade? Ou ela é mais uma arma de dominação, de promessa ilusória que produz esperança, domestica, ao esmo tempo que domina e subalterniza.
Trabalho para mesa redonda

Integração e Subversão – Produção de conhecimento e transformação social

Autor/es: Osmundo Santos de Araújo Pinho
Partindo dos termos clássicos do debate sobre a integração do negro na sociedade de classes, discute-se - em correlação a vozes criticas tanto a natureza excludente da sociedade, quanto da própria possibilidade ou conveniência da integração na sociedade capitalista – os impactos da crescente presença negra na universidade publica brasileira, presença não meramente física, mas politica e critica. Toma-se a experiência da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, como caso teste e ambiente institucional para discutirmos os impasses e configurações dessa tensão entre integração e subversão.
Trabalho para mesa redonda