Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT004. Antropologia da comunicação: teorias, metodologias e experiências etnográficas do campo.


Nas últimas décadas a pesquisa sobre os meios de comunicação de massa dentro da Antropologia tem crescido, tanto em termos quantitativos, quanto qualitativos. Se antes a mídia aparecia nos trabalhos antropológicos para ajudar a entender como uma questão estava sendo apresentada pelos meios de comunicação, hoje ela é encarada como um tema relevante para compreender o mundo contemporâneo em sua complexidade e diversidade. Pensar no uso das novas tecnologias, em como os indivíduos se relacionam com a internet, na produção dos jornais e suas transformações ou ainda em como as rádios continuam tendo um lugar num mundo cada vez mais visual, são questões que se colocam para os antropólogos. E os trabalhos de Spitulnik, Dickey, Ginsburg, Abu-Lughod, Appadurai, para citar apenas alguns autores, já se tornaram referência para esse campo em expansão.
O objetivo deste grupo de trabalho é discutir as pesquisas em antropologia da comunicação que vem sendo realizadas por antropólogos no Brasil e em outros países, tanto em seu aspecto teórico quanto metodológico. E o ponto de partida para essa discussão se centrará na comparação entre dois eixos temáticos: de um lado trabalhos etnográficos sobre os meios “clássicos” da comunicação de massa e, de outro, etnografias das novas tecnologias, sejam elas digitais ou virtuais. Será fundamental analisar o que estas etnografias trazem de novo para o entendimento do campo da Antropologia da comunicação e quais os desafios e dilemas elas colocam.

 

Isabel Siqueira Travancas (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
(Coordenador/a)
Silvia Garcia Nogueira (UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAIBA)
(Coordenador/a)


Entre práticas e saberes: A construção do Campo jornalístico e Jurídico em uma perspectiva comparada

Autor/es: Breno Henrique Pires De Seixas
Este trabalho tem como objetivo enunciar algumas aproximações/divergências do campo jornalístico com o campo jurídico(Bourdieu,2002).Através do trabalho de campo, percebemos que os jornalistas lançam-se em suas atribuições orientados pela busca da`verdade dos fatos`.A busca da `verdade dos fatos` sendo adotada, tanto pelo campo jornalístico quanto pelo jurídico, permite traçar um paralelo entre eles demonstrando os procedimentos adotados pelos agentes que lhes permitem narrar os fatos, afirmando o que ocorreu tanto aos olhos do Direito como aos olhos do Jornalismo. Nos dois campos a busca da verdade organiza e tipifica um mapa pelos quais os agentes orientam suas ações O artigo dialoga em torno das práticas jornalísticas a partir do trabalho de campo realizado, no interior de uma sala de redação, de um jornal carioca de grande circulação. Neste sentido, as reflexões do artigo partem do convívio e observações acerca dos jornalistas e do acompanhamento do dia a dia da sala de redação. Parto da noção de Campo de Bourdieu(2009)pretendo (re) construir os processos que tornam as atividades dos jornalistas e seus conteúdos, princípios e regras como conhecidas e reconhecidas por todos os atores dentro do Campo Jornalístico. Dessa forma, a noção de Campo do autor oferece no trabalho uma dupla função:a) estabelece um recorte de pesquisa;b) Situa as propriedades simbólicas e legítimas que são necessárias ao procedimento jornalístico. Em relação à metodologia de pesquisa, partimos da compreensão de que a etnografia é uma descrição densa (Geertz,1989).A descrição densa foi realizada a partir do convívio do pesquisador com os diversos agentes que estão localizados no âmbito da sala de redação. A descrição densa permitiu captar os signos, sinais, linguagem jornalística e os diversos recursos que orientam a prática dos agentes. Estas atitudes captadas permitem a realização de uma pesquisa que apreenda, justamente, o ponto de vista dos nativos(Geertz,2008).A pesquisa, então, tenta compreender os sentidos que os jornalistas atribuem no contexto da produção das notícias. Em seguida, compara-se a produção do campo jornalístico tomando a sala de redação como lócus de pesquisa relacionando com o campo jurídico a partir do Tribunal do Júri, entendendo que as duas instituições colocam em seus mecanismos a busca da verdade. Neste sentido, há um mecanismo de produção de verdade /saber(Foucault,1995,1999;Kant,1995,2011) que circula nos dois campos. Sendo assim, a pesquisa coloca as seguintes questões:Quais são as condições sociais da produção e circulação do saber que constroem o campo jornalístico?Quais são as condições sociais de circulação do campo jurídico? Como o sistema de verdade destas duas instituições funcionam?Como a verdade circula nos dois campos?
Apresentação Oral em GT

Etnografias da comunicação em ambientes on-line:alguns desafios metodologicos

Autor/es: Carla Fernanda Pereira Barros
O artigo pretende abordar determinados desafios da pesquisa etnográfica em ambientes digitais voltada para a comunicação. Após a apresentação de algumas discussões gerais relativas à utilização no método etnográfico no mundo virtual, o artigo se detém em questões específicas ligadas às novas práticas metodoló gicas voltadas aos meios de comunicação na contemporaneidade, especialmente no que tange aos estudos de recepção. Uma das principais questões que animam o debate refere-se às relações entre os mundos “online” e “offline”, tanto em termos da compreensão dos processos de subjetivação aí constituídos, quanto da abrangência da pesquisa etnográfica nesses dois “campos”. A definição do contexto de pesquisa e o exercício da reflexividade do pesquisador, pontos vitais na abordagem etnográ fica, revelam-se especialmente complexos nos estudos midiáticos atuais, devido às vivências em múltiplas plataformas, à erosão da dicotomia produtor/receptor e ao “imperativo” da interação em ambientes virtuais.
Apresentação Oral em GT

O papel da Imprensa Feminina na disseminação de modelos hegemônicos de corpo, beleza e condutas femininas

Autor/es: Charles Antonio Pereira
Abordar a relação que vem sendo construída historicamente entre a imprensa feminina e o público a que ela se direciona, majoritariamente mulheres de diversos estratos sociais, é tratar de relações de poder. Desde os seus primórdios, a partir de mecanismos discursivos a imprensa feminina vem atuando como um meio de disseminação de modelos hegemônicos de corpo, beleza e condutas femininas. A modo de demonstrar como são produzidos tais discursos, para este trabalho, optou-se por priorizar o fenômeno da imprensa feminina, tendo como foco de análise duas publicações específicas, uma revista feminina de grande visibilidade na década de 1920 e uma publicação atual, com certo grau de equivalência. A publicação da década de 1920 selecionada para a análise foi a revista feminina A Cigarra, que era uma Revista ilustrada de variedades fundada em 1914 na cidade de São Paulo e extinta em 1975. A publicação atual selecionada foi a revista Marie Claire, uma revista mensal feminina, com seu surgimento em 1937 na França. É imperioso ressaltar, que torna-se possível analisar e comparar publicações de épocas distintas devido ao fato de que, “sob certo plano de observação, as imagens publicitárias apontam para a mudança; porém observados de outro plano, vemos uma impressionante recorrência entre os significados dessas imagens em momentos diversos. Em outras palavras, as representações e as imagens mudam sem mudar” (ROCHA, 2006, p. 40). O recorte de análise das publicações será orientado pela sua centralidade em aspectos como corpo, beleza e condutas femininas. E primariamente a metologia utilizada será a Análise Crítica do Discurso (ACD), proposta por Fairclough (1992). Em suma, com a Análise Crítica do discurso pretendo mostrar como as praticas linguístico- discursivas estão submetidas às estruturas de poder e dominação. Complementar a metodologia da Análise Crítica do Discurso (ACD) que será utilizada para o tratamento dos objetos selecionados, proponho ainda uma reflexão a respeito da Etnografia de Arquivos, no que se refere à coleta e análise dos dados da revista A Cigarra, por meio do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Diferentes perspectivas em torno do uso e naturezas dos acervos arquivísticos convergem sempre em uma mesma preocupação: é preciso conceber os conhecimentos que compõem os arquivos como um sistema de enunciados, verdades parciais, interpretações histórica e culturalmente constituídas — sujeitas à leitura e novas interpretações (Foucault 1986, p. 149). Devido a esse fato, refletir a respeito da Etnografia de Arquivos se apresenta como essencial na realização do trabalho.
Apresentação Oral em GT

Reflexões sobre as representações da alteridade no jornalismo hegemônico brasileiro

Autor/es: Danielle Parfentieff de Noronha
O presente trabalho busca apresentar algumas reflexões sobre a produção e reprodução de imaginários através da diferença no jornalismo hegemônico brasileiro, trazendo como pano de fundo o diálogo entre comunicação, mito e poder. As considerações apresentadas neste artigo são balizadas pela pesquisa de campo que realizei para minha tese doutoral, ainda em desenvolvimento, em que foram analisados os meios de comunicação: Jornal Nacional, portal UOL, Revista Veja e jornal O Estado de S. Paulo. O enfoque das análises foram as representações relacionadas com gênero, raça e trabalho, entendidas como as principais linhas com as quais os indivíduos classificam e são classificados ao mesmo tempo, segundo perspectiva desenvolvida por Anibal Quijano. Se trata de um trabalho transdisciplinar, em que busco fomentar o diálogo com o campo de uma antropologia de e para a comunicação. O jornalismo, que possibilita pensar sobre a relação entre ficção e realidade, é entendido como um importante espaço de formação de opiniões sobre o mundo que nos rodeia e de grande influência para a criação de identidades e (re)construção de tradições, memórias, relações de poder e mitos sociais. Nesse sentido, parto da ideia de que a reprodução no jornalismo de um imaginário mitológico sobre a diferença, que separa e representa “eles” e “nós”, a partir da naturalização de categorias, instituições e identidades, aporta importantes elementos para o debate sobre as tensões relacionadas aos diferentes campos de poder em nossas sociedades latino-americanas e, neste caso, especificamente, na sociedade brasileira. Na primeira parte do trabalho apresento uma fundamentação teórica sobre o tema. Na sequência, trago algumas considerações sobre a metodologia aplicada durante a pesquisa de campo e, por último, os principais resultados das análises dos meios de comunicação acima mencionados.
Palavras chave: alteridade, comunicação, poder
Apresentação Oral em GT

Os contrastes estéticos e sociais em dois filmes brasileiros recentes: Casa Grande e Que horas ela volta?

Autor/es: Janie Kiszewski Pacheco, Isabel de Castro
O Brasil é um país marcado por contrastes sociais, os quais, muitas vezes, são retratados de forma estereotipada nas obras audiovisuais, tanto documentais quanto ficcionais. A emergência e a visibilidade da periferia e da favela e seus moradores em produções cinematográficas nacionais não é recente, se se considerar os filmes urbanos identificados com a proposta estética e política do Cinema Novo (Cinco vezes favela, Rio 40º, entre outros). Neste início do século XXI, alguns filmes têm investido nessa temática com uma abordagem intimista, uma vez que focam as relações entre patrões e empregados em domicílios de classes médias altas, como é o caso de duas produções recentes: Casa Grande (2015), de Fellipe Gamarano Barbosa, e Que horas ela volta (2015), de Anna Muylaert. Em ambos a ação se passa em bairros nobres de duas metrópoles nacionais: Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e Morumbi, em São Paulo, respectivamente. As circunstâncias de cada filme são diferentes: no primeiro, acompanham-se as mudanças no cotidiano de uma família cujas condições financeiras estão em desequilíbrio, mas que são omitidas pelo progenitor. No segundo, a narrativa transcorre em torno das mudanças processadas a partir da chegada da filha da empregada doméstica que vai prestar exame vestibular. Pretende-se, num primeiro momento, destacar cenas de cada filme as quais evidenciam distintas relações sociais: patrão-empregado, homem-mulher e pais e filhos. Num segundo momento, busca-se tecer ponderações acerca de semelhanças e diferenças, tanto estéticas como sociais, relacionadas às interdições e transgressões que marcam essas relações, as quais estão secundadas também por relações de classes. Num terceiro momento, reflete-se sobre como os contrastes sociais presentes nessas narrativas são apresentados e justificados visualmente (Orichio, 2003; Monassa, 2005; Diegues, 2007). Por fim, num quarto momento, confirma-se a hipótese de que a produção cinematográfica reflete sobre o momento atual da sociedade brasileira, suas conquistas, impasses e contradições. Dentre os resultados alcançados, destacam-se os diferentes meios/recursosvisuais pelos quais as interdições e as transgressões marcam as relações entre os personagens dessas duas narrativas.
Apresentação Oral em GT

Caminhos Metodológicos nas Redes Digitais: Virtualidades e Presencialidades Juvenis

Autor/es: Josefina de Fátima Tranquilin-Silva
Esta comunicação está diretamente vinculada à minha pesquisa de Pós-Doutorado, em andamento no PPGCOM de Comunicação e Práticas do Consumo da ESPM/SP, financiada pela FAPESP/CAPES, iniciada em 2015. A proposta de pesquisa aprovada tanto pelo Programa da ESPM quanto pela FAPESP, objetivou analisar como são construídas, e por meio de quais linguagens midiáticas, as narrativas eróticas edificadas na page do facebook “Moça, Você é Machista”, locus metodológico desta pesquisa. A fim de encontrar este sujeito/objeto empírico, iniciei minha busca em redes digitais, com perfis criados por jovens e que tivessem o corpo como substancial na construção das narratividades entre os sujeitos que interagem nestes espaços. Quando a pesquisa empírica se efetivou, por meio da metodologia empregada – Etnografia – me deparei com novos questionamentos que me levaram a outros olhares para o encaminhamento da pesquisa, que acabaram ampliando aquele olhar proposto pelo projeto inicial. Foi trilhando o caminho metodológico que percebi a impossibilidade de me aprofundar no meu objeto/sujeito de estudo – Juventudes-sexualidades-redes digitais – sem construir uma forte base teórica sobre gêneros sexuais e ativismos digitais juvenis. Temos hoje, as discussões teóricas chamadas de pós-gênero e também aquelas que analisam o surgimento de um tipo de ativismo antes impossível, o ativismo digital juvenil. As teorias pós-gênero resgatam as teorias de gênero para as descontruírem; os estudiosos dos movimentos sociais e os ativistas contemporâneos, também recorrem às teorias sociais e a modelos de ativismos do passado, para construírem seus novos posicionamentos diante dessas novas pautas acadêmicas e ativistas. Portanto, é no momento em que iniciamos a pesquisa empírica que todo pesquisador testa a metodologia e percebe a sua fundamental importância. Dessa forma, defendo que toda metodologia de pesquisa, no campo da Antropologia, assim como, no da Comunicação, deve ser (re)construída no processo de investigação. Foi pensando nisso que tracei o objetivo desta comunicação: Evidenciar os caminhos metodológicos da pesquisa. Para atingi-lo demonstrarei o escopo da minha pesquisa e a escolha do objeto/sujeito de estudo – “Moça” –; o método utilizado, a construção do banco de dados e os cruzamentos destes dados; o quadro conceitual e o arcabouço teórico empregado para a construção da metodologia.
Apresentação Oral em GT

Nos bastidores da notícia: uma reflexão sobre o trabalho de jornalistas policiais cearenses

Autor/es: Luciana Pinho Morales, Jânia Perla Diógenes de Aquino
O crescente número de episódios de violência(s) nas cidades brasileiras vem ganhando grande destaque nos meios de comunicação de massa, em especial na televisão, abrindo espaço para a criação de uma extensa programação diária no cenário nacional dedicada exclusivamente à divulgação de notícias relativas às ações e práticas policiais. Fenômeno semelhante pode ser observado no contexto cearense, no qual quatro programas policiais veiculados por emissoras de televisão locais disputam diariamente a atenção da audiência, totalizando cerca de catorze horas de telejornalismo policial somente no Estado do Ceará. São eles: Cidade 190 (TV Cidade); Barra Pesada (TV Jangadeiro); Rota 22 e Os malas e a lei (TV Diário). Diante desse contexto, o presente trabalho propõe uma reflexão acerca da dinâmica de funcionamento dos telejornais policiais cearenses e da maneira como as práticas e relações pessoais se desenvolvem nos bastidores dessas produções midiáticas, tendo como objetivo compreender os diversos elementos que contribuem para o processo de construção das notícias. A partir dos dados coletados, percebemos a existência de uma ampla rede de relações profundamente baseada na constante troca de informações, favores etc. entre jornalistas, policiais, testemunhas e outros agentes envolvidos nas notícias dos programas policiais de televisão. A prática da troca faz parte da rotina desses profissionais, cujo trabalho diário é continuamente atravessado por acontecimentos relacionados às temáticas da violência urbana, da criminalidade e da insegurança pública. Salientamos, no entanto, que o crime e a violência não são apenas definidos pelos jornalistas nas narrativas midiáticas, mas também por suas fontes. É nessa dinâmica de mediação que as notícias vão sendo construídas pelos meios de comunicação de massa, em constante negociação entre as diferentes instâncias da sociedade. A pesquisa empírica tem sido viabilizada pela observação intensiva das ações e práticas dos profissionais de jornalismo em dois telejornais policiais cearenses, procurando conhecer e acompanhar de perto suas rotinas de trabalho (nas redações e fora delas), suas redes de relações e de economia de trocas, no intuito de compreender como elas funcionam na prática. Problematizamos a ideia de que a profissão do jornalismo está envolta por uma atmosfera de neutralidade e imparcialidade, por acreditarmos que, no campo jornalístico ocidental, os jornalistas participam ativamente do processo de construção da realidade. Eles são subordinados à empresas privadas produtoras de notícias e precisam dar conta dos interesses dessas instâncias para assegurar seus empregos. Para isso, utilizam-se de táticas e estratégias, no plano da performance, com o objetivo de conferir exclusividade e autenticidade às notícias.
Apresentação Oral em GT

Um olho na novela e o outro no Facebook: Experimentações metodológicas para um estudo de recepção de telenovelas em comunidades virtuais do Facebook

Autor/es: Mayara Magalhães Martins, Antonio Cristian Saraiva Paiva (UFC)
Nosso objetivo é apresentar o percurso metodológico de um estudo de recepção de telenovelas em três comunidades virtuais do Facebook. A partir das interações observadas nos grupos selecionados para a pesquisa, as tramas eleitas para compor nosso estudo empírico foram: Laura e Edgar (Lado a lado – 2012/2013); Morena e Théo (Salve Jorge – 2012/2013) e Clara e Marina (em Família – 2014). Como objeto de pesquisa apresentamos as interações e ações coletivas promovidas pelos membros em suas respectivas comunidades. A etnografia virtual foi eleita como alicerce metodológico, pois o método é dito como o mais indicado na realização de estudos de recepção. Dentre as propostas do estudo destacamos o exame da experiência etnográfica em territórios virtuais. Nosso principal desafio foi realizar a pesquisa sem abandonar os pressupostos fundamentais da etnografia. Sob de luz de Malinowski (1978) e Geertz (2008) levantamos aqueles que seriam os elementos essenciais do método antropológico e em seguida investigamos a partir de Hine (2004, 2015) quais desses elementos poderiam ser aplicados nas experiências online. Conduzimos nosso estudo de recepção a partir da longa permanência em campo, ou seja, acompanhando as publicações dos membros das comunidades durante todo o período de exibição das telenovelas e registrando em nosso diário as interações. No que diz respeito às questões que conduziram a investigação, elas foram sendo construídas na medida em que os membros das comunidades revelavam suas preferencias por determinados enredos e personagens. Nas três tramas um elemento convergente foram os debates em torno da autonomia feminina. Ainda que em cada comunidade os interesses dos fãs em torno de Laura, Morena, Clara e Marina fossem bastante específicos, no que diz respeito a conflitos que falavam da autonomia feminina, percebemos que nas três comunidades as temáticas que envolviam esse assunto animavam os debates. Sobre o método etnográfico pudemos verificar que manter-se em campo durante todo o período de exibição das telenovelas foi fundamental para compreendemos a identidade de cada um desses coletivos de receptores.
Apresentação Oral em GT

Rádio cipó, radiofonia e internet, formas de comunicação desde São Gabriel da Cachoeira.

Autor/es: Renato Martelli Soares
O ponto de partida desta apresentação é o registro de algumas formas de comunicação na cidade indígena de São Gabriel da Cachoeira. Mais especificamente, tratar-se-á de três formas. A rede de radiofonia, frequentemente a ligação mais estável das comunidades com o núcleo urbano; a produção audiovisual e o uso da internet pelo movimento indígena organizado; e histórias de trocas de mensagens na região pluriétnica e multilíngue que é o alto rio Negro. A primeira terá sua trajetória relatada através de memórias pessoais de operadores de radiofonia, pessoas envolvidas em sua instalação além de observações e gravações da radiofonia em funcionamento. A segunda descreve o trabalho de comunicação do movimento indígena rionegrino representado aqui pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) que conta com programa na rádio municipal, boletins, notas públicas, site, blog e participa ativamente de redes sociais. A terceira trata de momentos presentes na memória coletiva e pessoal e na bibliografia sobre a região que, além de contextualizar os atores e a região, exemplificam outros meios de comunicação, como viagens para organizar festas, recados passados sucessivamente e outros momentos de comunicação coletiva no alto rio Negro. Ou seja, ao considerar estas três formas são trazidas descrições e comparações de recados, mensagens, fotos, vídeos, notícias e discursos formulados a partir do núcleo urbano de São Gabriel da Cachoeira e de comunidades indígenas na região do município. Como subsídios para isto constam observações etnográficas, entrevistas e conversas, filmes, boletins, documentos institucionais, bibliografia americanista produzida principalmente desde os anos 1970 na região do Noroeste Amazônico e teorias sobre produção de saberes.
Apresentação Oral em GT

De Canal em Canal: a publicidade produzida em Belém do Pará entra em cena

Autor/es: Robson Cardoso de Oliveira
A “hora do intervalo” é aquele momento em que diversas propagandas adentram a casa dos/as telespectadores/as, tentando seduzi-los/as, mostrar como são bons e eficientes os produtos/serviços ali anunciados, buscando incentivá-lo/a ao consumo. Este momento de recepção, por assim dizer, dos anúncios publicitários por parte de “consumidores/as da propaganda” foi um dos objetivos da pesquisa que empreendi na realização do mestrado em Antropologia, mais especificamente o ato de descortinar a publicidade produzida em Belém do Pará e fazê-la entrar em cena. Para tanto, conversei com dez interlocutores/as (cinco homens e cinco mulheres), durante onze meses, a partir da edificação de uma etnografia de audiência (LEAL, 1990; SILVA, 1999; RIAL, 2004; ABU-LUGHOD, 2006; ASSUNÇÃO, 2007) na qual assistia propagandas com eles/as e por meio delas desenvolvia os diálogos e me tornava cúmplice de suas narrativas (ROCHA & ECKERT, 2011). O intuito era o de investigar sobre as relações dos/as interlocutores/as com os anúncios: seus gostos, desgostos, o que lhes chamam mais a atenção nas peças publicitárias por eles/elas assistidas. Como resultados, percebi discursos que apontavam limites para a criatividade na hora do intervalo, adoção de “fórmulas prontas” e resultando em modelos de peças publicitárias sem inovação como se houvesse um “medo de arriscar”. Além disso, a propaganda produzida em Belém do Pará funcionaria como um processo de ressonância do que é veiculado em grandes centros publicitários como a cidade de São Paulo, bem como a hora do intervalo é o momento no qual a publicidade entra em cena e coloca em uma arena de disputa uma reprodução do que entende por real e uma idealização dessa realidade.
Apresentação Oral em GT

“Oigaletê! Meteram fogo no CTG!”: comentários e manifestações de intolerância nas [e a partir das] publicações de veículos midiáticos em suas páginas em redes sociais

Autor/es: Ariele Silverio Cardoso
Neste trabalho proponho analisar como as ressonâncias provocadas por publicações de veículos de comunicação atuam na sociedade, promovendo redes que podem gerar manifestações para além dos meios digitais. É o caso citado já no título deste paper, onde parafraseio o título de uma música gauchesca, inspirada “em fatos reais”. Este caso, ocorrido em julho de 2014, portanto antes mesmo das eleições presidenciais que geraram furor nas redes sociais, muitas pessoas acessaram as páginas de jornais na internet e destilaram críticas a uma notícia, em particular: a programação de um casamento civil com possibilidade de inscrição de casais homoafetivos em um Centro de Tradições Gaúchas (CTG) nas proximidades da comemoração do “dia do gaúcho”. A notícia provocou um fenômeno de intolerância e agressividade, publicitada na internet. O jornalista Giovani Grizotti, do blog Repórter Farroupilha, vinculado ao Grupo Rede Brasil Sul (RBS) de Comunicação e às Organizações Globo, afirma que foi o primeiro a “dar a notícia”. Sua matéria foi veiculada em seu blog, hospedado na página da Globo na internet (G1.com) em 10 de julho de 2014, e intitulada “CTG de Livramento poderá ter casamento gay em setembro”. A relevância deste evento para analisarmos comunicação e antropologia está, para além das manifestações na internet, nos acontecimentos fora dela. O resultado, neste caso, foi uma ampla cobertura midiática e matérias nas páginas dos jornais com mais de 800 comentários. O resultado foi um “patrão de CTG” ameaçado de morte e tendo que andar escoltado pela cidade. O CTG, por sua vez, foi alvo de um incêndio criminoso, o que impossibilitou a realização do evento naquele local. O casamento civil coletivo foi concretizado com um casal de lésbicas oficializando a união no fórum da cidade, decorado com as cores da bandeira do estado do Rio Grande do Sul e com bandeiras coloridas como o arco-íris, símbolo dos movimentos LGBT. E a presença de convidados trajados, além da celebração ter sido ministrada por uma juíza “vestida de prenda”, vestida de gaúcha. Assim como neste caso, as redes sociais estão constantemente sendo palco para ressonâncias de notícias publicadas com o apelo da imediatez e com pouca análise sobre suas consequências. Os últimos acontecimentos políticos, desde a reeleição presidencial de 2014, vêm gerando debates sobre o fazer jornalístico e a repercussão na sociedade. Neste cenário, tomando como exemplo – e início – a etnografia realizada a partir do “casamento gay no CTG”, procuro analisar como os veículos de comunicação se inserem no ciberespaço - e como a sociedade reage às publicações destes veículos, além de colaborar com os debates sobre a antropologia do ciberespaço e a antropologia da comunicação.
Pôster em GT

Nas redes e nas ruas: etnografando a Mídia Ninja e o Fora do Eixo

Autor/es: Nathália Schneider,
O pôster tem como objetivo apresentar uma análise da monografia realizada para a conclusão de curso, na qual busquei compreender as práticas, o modo de organização e de vida da Mídia Ninja - coletivo midialivrista ciberativista - e por consequência, do Fora do Eixo, ambos movimentos sociais em rede. Através da pesquisa de campo com a revisão bibliográfica, foi possível perceber a construção uma gestão do comum através da ação coletiva, desenvolvendo o projeto da multidão. Por meio de uma breve análise do contexto de caráter progressista da América Latina, com ênfase no Brasil, é realizada uma narrativa das Jornadas de Junho comparando com as demais manifestações globais. Analiso este cenário sob a perspectiva de uma sociedade em rede potencializada pela internet, com ênfase na cultura hacker e nas comunidades virtuais, que construíram através da cultura do compartilhamento, uma nova concepção da produção imaterial. Todos esses aspectos eclodem numa disputa de narrativas com a mídia hegemônica e de outras formas de vida do qual os meus sujeitos de estudo fazem parte. A metodologia escolhida para esta pesquisa é a inspiração etnográfica multi situada, utilizando da técnica de observação participante com diário de campo e também com suportes visuais, principalmente a fotografia. A imagem ocupa um espaço central na apresentação do modo de vida deste coletivo altamente midiático, composto por singularidades. Com o uso da fotografia agregada à pesquisa de campo foi possível observar as características do modo de organização da Mídia Ninja e do Fora do Eixo e as relações estabelecidas com outras mídias independentes e a disputa proposta para com a mídia hegemônica.
Pôster em GT