Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT064. Visualidades Indígenas

O GT Visualidades Indígenas visa reunir pesquisas recentes que analisem as produções audiovisuais feitas por povos indígenas ou sobre eles. O escopo das investigações a serem apresentadas deve agregar reflexões sobre as concepções de imagem do ponto de vista das cosmologias de distintos povos indígenas, mas também reflexões sobre a apropriação das técnicas de produção de imagens, análises de processos de socialização da linguagem do cinema e do vídeo por meio de oficinas e seus paradoxos e experiências correlatas.

O objetivo das sessões será analisar as novas visualidades que se colocam para dentro e para fora dos grupos indígenas, o protagonismo dos jovens indígenas na produção de discursos audiovisuais a partir de dentro das lógicas culturais; relações entre imagem e xamanismo; circulação de pontos de vista indígena e sua recepção acadêmica, apropriação do audiovisual em processos de transmissão de conhecimento, seus limites e possibilidades. Os temas gerais que serão acolhidos no GT tratam de comunicação intercultural, relações entre imagem e política, questões de autoria, tecnologias nativas do tornar visível, jovens indígenas e apropriação das técnicas do vídeo, transmissão oral e o audiovisual.

Ana Lúcia Marques Camargo Ferraz (UFF/FLACSO-EC)
(Coordenador/a)
Paula Morgado Dias Lopes (UNIVERSIDADE DE SAO PAULO)
(Coordenador/a)
Junia Torres (UFMF/FAFICH)
(Debatedor/a)


O vídeo como encontro: a visita dos Kariri-Xocó aos Xucuru-Kariri mediada pela câmera

Autor/es: Alice Martins Villela Pinto
Desde os trabalhos de Jean-Rouch o filme etnográfico pôde passar a ser pensado como encontro entre o antropólogo-cineasta e os sujeitos pesquisados, sendo o vídeo um modo de estabelecer uma relação de comunicação com os interlocutores da pesquisa. Neste trabalho, o vídeo exerce um papel de dupla mediação: entre pesquisadores-cineastas e índios e entre dois grupos indígenas. Apresento aqui uma experiência em que o vídeo teve um papel central na comunicação entre dois grupos indígenas que se encontram pela primeira vez: os Xucuru-Kariri e os Kariri-Xocó. O grupo Xukuru-Kariri vive em uma terra indígena no município de Caldas, Minas Gerais, desde 2001, quando foram obrigados a sair da região de Palmeira dos Índios em Alagoas em decorrência de conflitos fundiários; os Kariri-Xocó vivem em uma terra indígena em processo de demarcação no município de Porto Real do Colégio também em Alagoas, e atualmente vêem ocupando parte de suas terras invadidas por uma fazenda na luta pela retomada de parte do seu território. A convite dos Xucuru-Kariri, os Kariri-Xocó visitam sua aldeia em Caldas. Os anfitriões preparam uma festa com muita comida além de cantos e danças do Toré. Mas a condição para que o encontro se realize é que seja filmado: os Kariri Xocó querem levar imagens do encontro para sua aldeia em Alagoas e os Xucuru-Kariri querem que o encontro fique registrado para uso da comunidade. Este paper pretende explorar o potencial reflexivo da imagem em situações de encontro; trata-se de investigar em que medida o vídeo pode ser pensado como um dispositivo para o encontro dos dois grupos, e até que ponto o encontro entre as duas etnias pode ser pensado como dispositivo para a realização do vídeo.
Apresentação Oral em GT

O sonho do nixi pae - O Movimento dos Artistas Huni Kuin

Autor/es: Amilton Pelegrino de Mattos, Amilton Pelegrino de Mattos
O objetivo da apresentação é tratar do processo de produção do filme O sonho do nixi pae, bem como a trajetória do MAHKU – Movimento dos Artistas Huni Kuin, que é tema do filme. A obra resulta de um projeto de pesquisa que teve início em 2009 na Licenciatura Indígena da Universidade Federal do Acre de Cruzeiro do Sul (Universidade da Floresta) reunindo inicialmente três pesquisadores Ibã Huni Kuin, Bane Huni Kuin e eu. A pesquisa tem origem na convergência de três linguagens: a música dos cantos tradicionais huni meka, da qual Ibã é especialista e pesquisador; o desenho, elaborado como tradução visual dos cantos por Bane; e o vídeo que visa criar o espaço multimídia para a interação de som e imagem. Os desenhos de Bane e seus companheiros ganharam projeção em 2012 com o convite para a exposição Histoires de Voir da Fundação Cartier, quando realizamos o filme O espírito da floresta. A partir daí o MAHKU se consolida como coletivo de artistas huni kuin que pesquisam e recriam artisticamente os cantos visionários do nixi pae (ayahuasca) e passa a ser convidado para uma série de exposições de artes visuais. Paralelamente o grupo segue desenvolvendo suas pesquisas musicais e multimídia participando em espaços acadêmicos como publicações e encontros. Dessa perspectiva da arte e da pesquisa acadêmica que nos miramos mutuamente, que podemos trocar olhares e refletir a respeito de como pensamos o outro e como somos pensados por ele. O filme que acompanha essa trajetória é uma realização do LABI – Laboratório de Imagem e Som da UFAC Floresta.
Apresentação Oral em GT

Vídeo-Ritual: Circuitos imagéticos e cerimoniais entre os Mebengôkre (Kayapó)

Autor/es: André Luis Campanha Demarchi
A presente comunicação trata das redes de relações imagéticas e rituais tecidas por indivíduos e grupos pertencentes ao povo Mebengôkre (Kayapó). Destaca-se a profícua produção nativa de vídeos sobre o complexo sistema cerimonial mebengôkre, uma prática iniciada ainda nos anos de 1980 e bem documentada na literatura etnográfica desse povo. Com o acesso em massa às tecnologias de gravação e reprodução de imagens os vídeos sobre rituais circulam em uma rede imagético-cerimonial inter-aldeã que abrange as aldeias presentes em todo o sul do Pará e também do Mato Grosso, atingindo, inclusive, aldeias de outros grupos indígenas como os Krahô e Apinajé. Essa rede constituída por meio da circulação de vídeos mobiliza e incrementa a dispersão, entre diferentes aldeias, de conhecimentos, formas rituais, designs de objetos cerimoniais, grafismos da pintura corporal, canções e passos de dança – enfim, tudo aquilo que os Mebêngôkre denominam metoro kukràdjà (conhecimento ritual). Busca-se assim refletir sobre a importância do vídeo não apenas para a circulação, mas também para a própria produção ritual em si, destacando as formas de apropriação e conhecimento mobilizadas na prática do vídeo, bem como sua presença constante a mais de três décadas nos rituais e cerimônias dos Mebengôkre (Kayapó).
Palavras chave: Ritual, vídeo, Kayapó
Apresentação Oral em GT

O vídeo como ibirapema: a possibilidade de uma memória prospectiva para os Manoki

Autor/es: André Luís Lopes Neves
A apresentação se fundamentará em reflexões realizadas a partir de uma pesquisa de mestrado em antropologia social que tratou da apropriação de recursos audiovisuais pelo povo indígena Manoki. Habitantes do noroeste de Mato Grosso e falantes de uma língua de tronco isolado, os Manoki têm utilizado nos últimos anos as ferramentas de vídeo e fotografia em estratégias de autorrepresentação e registro para as próximas gerações. Diante da percepção nativa de um tempo atual em que “tudo muda” depressa demais (na qual a mudança adquire um valor negativo), a demanda manoki pelo vídeo e outras ferramentas potenciais de registro parece trazer simbolicamente a possibilidade reversa de retomar elementos ditos tradicionais na construção de um futuro diferenciado. Se levarmos em conta o argumento de Lévi-Strauss (2013), nas relações dos diferentes tipos de registros com a história e a memória dos coletivos há sobretudo duas tendências possíveis a serem enfatizadas: essa relação pode ser mais retrospectiva, para fundamentar uma ordem tradicional num passado remoto, ou prospectiva, para fazer desse passado o germe de um porvir que começa a tomar forma. Para os Manoki e potencialmente outros povos indígenas que vêm se apropriando das ferramentas audiovisuais, o interesse primordial nos registros fílmicos e fotográficos parece enfatizar seu caráter prospectivo sobretudo. Os significados atribuídos à maneira pela qual vídeos e fotos vêm sendo usados pelos Manoki têm demonstrado uma valorização das imagens que amparam seu sentimento de pertencimento a uma trajetória coletiva específica, o que também representa uma tomada de consciência de seu poder de mudança e da necessidade de defesa de seu espaço físico e simbólico como povo indígena. Nesse sentido, esses registros audiovisuais parecem ser concebidos como uma possibilidade de auxiliar na criação de uma memória social, mais voltada à garantia de um destino culturalmente diferenciado, que uma memória interessada na reconstrução de um passado. Dito de outra forma, nas palavras de Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro (1985) a respeito da vingança tupinambá, “um modo de fabricação do futuro”. A partir disso, pretendo buscar algumas analogias entre as dimensões simbólicas sobretudo do vídeo entre os Manoki e da ibirapema tupinambá, já que ambos podem operar em duas lógicas distintas: não só no regime interétnico de disputas guerreiras e políticas, mas numa dimensão cosmológica que organiza a percepção temporal.
Apresentação Oral em GT

As lagartas-espírito e a invenção do cinema Maxakali

Autor/es: Bernard Pêgo Belisário
Nesta comunicação propomos investigar como o filme-ritual ‘Tatakux da aldeia Vila Nova’ (2009), dirigido pelo cacique e xamã Guigui Maxakali, pode dar a ver traços da cosmologia deste povo ao elaborar passagens entre os domínios do visível e do invisível. Para caracterizar essas passagens, observaremos as relações entre a ‘mise-en-scène’ documentária e os efeitos desencadeados pelo fora-de-campo. Assim como outros documentários filmados por indígenas em suas próprias aldeias, endereçados aos espectadores não-indígenas das salas de cinema, esse filme pode ser concebido como um gesto de ‘invenção da cultura com o cinema’. “Antes, ninguém sabia de onde os ‘tatakox’ tiravam as crianças, mas agora nós vimos. E em todos os lugares, em todas as cidades todos vão ver”, comenta Manuel Damásio em cena. A convocação que o xamã nos faz à visão dos ‘tatakox’ e de seus filhos desenterrados no ritual traz consigo um “equívoco” (Viveiros de Castro, 2004) que desloca consideravelmente o lugar daquele que se dispõe a analisar essas imagens. Ao ser incorporado às dinâmicas do ritual – “evento de extrema intensidade que é a aparição, a abertura da visão, a possibilidade de ver e de se dar a ver entre corpos que estão próximos, mas nem sempre acessíveis ao olhar” (Tugny, 2011: 89) –, o cinema se transforma. Não bastaria então descrever ‘aquilo’ que o filme dá a ver. Como percebeu André Brasil (2016), é a dimensão fenomenológica do cinema que se encontra alterada nesses documentários. O equívoco que nos desafia está precisamente naquilo que o filme inventa ao tomar o ritual como matéria de sua invenção: “ver” (‘penãhã’). Somos convocados assim a um outro território da visão, a uma outra ‘ontologia da imagem’. E, na medida em que essa outra ontologia é irredutível às oposições e descontinuidades que fundam nosso pensamento acerca das imagens – não há para os Tikmũ’ũn (Maxakali) “uma distinção entre dimensões separadas e excludentes para as coisas materiais e as imateriais, as verdadeiras e as falsas, as essências e as aparências” (Tugny, 2011: 88) –, o analista encontra-se de certo modo desamparado. As categorias cinematográficas que elegemos para orientar nossa análise não podem servir senão como um ponto de partida para essa outra coisa que nós mesmos, amparados por tantas outras invenções (etnográficas, antropológicas, epistemológicas), nos arriscamos a inventar. ____ BRASIL, André 2016. “Ver por meio do invisível: o cinema como tradução xamânica”. In: Novos Estudos – CEBRAP (no prelo). TUGNY, Rosângela Pereira de 2011. Escuta e poder na estética Tikmũ’ũn_Maxakali. Rio de Janeiro: Museu do Índio. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo 2004. “Perspectival Anthropology and the method of controlled equivocation”. In: Tipití, 2 (1), p. 2-22.
Apresentação Oral em GT

Apontamentos e questões de pesquisa para pensar configurações da visualidade indígena a partir das dimensões comunicacional, política e pública

Autor/es: Carmem Rejane Antunes Pereira
O trabalho oferece alguns apontamentos de pesquisa para pensar a visualidade indígena em uma dimensão que se propõe entendida como visibilidade comunicacional, política e pública, considerando para isso "expressões coletivas" do sujeito indígena construídas em "redes sociais étnicas". A pesquisa parte dos referenciais teóricos e metodológicos dos estudos dos usos e apropriações das mídias, tendo em seus cenários de observação etnográfica os perfis indígenas em site de redes sociais, tais como o Faceboock . Leva-se em conta a popularização do site no Brasil e a construção da visibilidade indígena, frente a um contexto histórico de relações interculturais assimétricas e aos processos de inclusões excludentes de uma sociedade multicultural e desigual (Santos, 2006). No mapeamento dos perfis são tomados como critérios relevantes a etnia e o contexto geográfico territorial para situar expressões coletivas ameríndias, as quais também podem ser pensadas no âmbito de identidades cidadãs e compreendidas em um conjunto de mediações tais como a organização política, a escolaridade e o gênero. Além disso, elege-se a geração como categoria/mediação fundamental para investigar as construções da memória étnica nas configurações da visualidade indígena nas dimensões comunicacional, política e pública. Ao fazer referência à "rede social étnica" procura-se refletir um elemento aglutinador de sentidos nas ambiguidades e liminaridades da esfera pública contemporânea; portanto, não se alude a um grupo fechado ou único e sim às marcas do sujeito comunicacional, nas suas relações e vínculos, o qual também se utiliza da internet para construir sentidos enquanto "rede social étnica". Dessa forma, os perfis e suas expressões coletivas se tornam relevantes porque permitem observar a personalização do ator e ações de compartilhamento de conteúdo, da publicização de imagens endógenas, das projeções identitárias e do fortalecimento da memória étnica, entre outros aspectos.
Apresentação Oral em GT

“Cinema indígena ou Cinema indigenizado? O processo de etnização através da produção de imagens”

Autor/es: Debora Fernandes Herszenhut
Neste trabalho parto do levantamento do acervo filmográfico desenvolvido pela ONG Vídeo nas Aldeias com grupos indígenas de diversas etnias ao redor do Brasil. Apresento algumas questões acerca destes filmes e relaciono-as com teorias antropológicas e cinematógraficas, especificamente, do cinema documentário. As questões apresentadas a seguir, referem-se principalmente ao papel desempenhado pela imagem na construção de relações e de elaboração de identidades étnicas no contexto político-social contemporâneo, especialmente no que tange à história da constituição dos direitos legislativos das populações indígenas brasileiras. Quando as novas tecnologias possibilitaram o acesso a equipamentos de filmagem em larga escala e o vídeo torna-se uma ferramenta acessível, vemos surgir no cenário cinematográfico um novo cinema, ou um rompimento com tudo o que o cinema já havia experimentado até então. Pois se antes fazer filmes era para poucos, agora é para qualquer um. Isto pode significar o fim do cinema ou a criação de uma nova categoria fílmica. O documentário chegou aonde não se chegava e passou a ser visto através dos olhos daqueles que só eram vistos. Foi como virar do avesso e conhecer o mundo filmado, de, e por dentro. Da mesma forma que a antropologia passou a conhecer uma nova categoria: os pesquisadores nativos. Os primeiros filmes produzidos pelos cineastas indígenas formados pelo projeto VNA, tratam de afirmar as suas próprias culturas através de imagens. Os índios que agora mostram ao mundo a sua “cultura” apropriam-se destes instrumentos políticos para defenderem suas causas a partir de perspectivas identitárias, isto é, o que é ser índio de fato. Para pensar este processo de empoderamento de instrumentos ocidentais para a tarefa de tornarem-se índios para os brancos, trago as discussões propostas por Carneiro da Cunha (2009) e Marco Antonio Gonçalves (2008), a respeito da apropriação e ressignificação do conceito de cultura pelos nativos ou objetos de pesquisa. Em diálogo com Golçalves a partir dos escritos de Capistrano de Abreu, situo esta produção fílmica do VNA neste esforço pela afirmação de individualidades étnicas o qual resulta numa voz homogênea que se faz ecoar no universo da luta pelos direitos indígenas. Por fim, coloco a discussão proposta por Leite Lopes (2006) sobre O processo de ambientalização em diálogo com Norbert Elias (1993, 1994) sobre o O processo civilizador para pensar sobre a legitimidade atribuída a esta etnicidade, ou como colocarei mais a adiante, a certificação de um Selo Étnico atribuído a estas populações tradicionais à partir da implementação da nova legislação e da apropriação destas identidades e seus respectivos direitos pelos sujeitos em questão.
Apresentação Oral em GT

Antropologia Simétrica e produção audiovisual: as experiências dos mebêngôkre da aldeia A'Ukre

Autor/es: Diego Soares da Silveira, Laura Zanotti (Purdue University) Ingrid Ramon Parra (Purdue University)
O trabalho visa apresentar e discutir os resultados de uma etnografia (em andamento) do projeto de extensão intitulado - "Antropologia Colaborativa e Capacitação Comunitária: a tradução de tecnologias audiovisuais no processo de afirmação étnica do povo indígena Mebêngôkre-kayapó da aldeia A'Ukre" - aprovado com recursos do PROEXT-CNPQ 2016. Essa iniciativa reflete uma demanda histórica de lideranças e jovens da aldeia A'Ukre pelo acesso e aprendizado de saberes, técnicas e tecnologias audiovisuais. A proposta foi elaborada em colaboração com lideranças da comunidade e envolve uma parceria entre a Organização Não-Governamental "Vídeo nas Aldeias", a Associação Floresta Protegida, a Universidade Federal de Uberlândia e a Purdue University (EUA). O projeto visa o estabelecimento de um "Centro de Mídia Kayapó" equipado com equipamentos de edição e registro audiovisual e a realização de oficinas na aldeia. Trata-se do resultado de um processo histórico que teve início, em 2012, com o registro audiovisual do patrimônio cultural imaterial da comunidade, incluindo a filmagem de diversos aspectos da vida cerimonial, assim como mitos e histórias contadas pelos anciões. Em paralelo a essas atividades, estamos realizando o acompanhamento etnográfico de todo o processo de envolvimento dos mebêngôkre da aldeia A'Ukre com os saberes e tecnologias audiovisuais, em diálogo com os aportes teórico-metodológicos da Etnologia Ameríndia, da Ecologia Política e da Teoria Ator-Rede. Com isso, buscamos entender as experiências estéticas da produção audiovisual mebêngôkre-kayapó, assim como as suas estratégias de uso político dos dispositivos audiovisuais na defesa do seu território e na salvaguarda do seu patrimônio imaterial. Nesse percurso, pretendemos discutir os resultados dessa experiência tendo como referência, por um lado, os conceitos de tradução e rede sociotécnica; por outro lado, a relação entre os conceitos nativos de negretx, krukdja e Mekarõn com as formas mebêngôkre-kayapó de relação com a alteridade, incluindo aí as tecnologias audiovisuais.
Apresentação Oral em GT

Imagens ameríndias: agência, memória e subjetividade

Autor/es: Edgar Teodoro da Cunha
A produção fílmica de autores indígenas tem trazido novidades, no Brasil, quanto aos seus aspectos formais e narrativos. Recentemente, vieram à luz um conjunto de filmes não centrados apenas na construção de um nós coletivo, cultural, marca de boa parte de filmografia anterior. Agora trazem sujeitos indígenas construídos nos filmes em suas singularidades, em seu cotidiano, como personalidades que operam dentro de um contexto cultural específico, criando novas possibilidades de leitura e de engajamento a espectadores de diferentes culturas. Trazem ainda a possibilidade de crítica a um contexto midiático desfavorável a eles, dando visibilidade a uma agenda de discussões que envolve a produção de conhecimento em contexto culturais específicos, a patrimonialização de saberes coletivos, e ainda formas de registro de memória e seus desdobramentos no que tange a maneira como lidam com a ideia de tradição. Parto de três questões iniciais, que estão dadas desde as primeiras experiências de apropriação do dispositivo fílmico (Worth e Adair, 1972) para pensar as linhas de continuidade e ruptura dadas na contemporaneidade: 1) em que medida esse tipo de apropriação possibilitaria a expressão de uma forma de pensamento singular que permitiria a emergência de um ponto de vista originário de contextos culturais diferenciados; 2) em que medida a “livre” apropriação da técnica cinematográfica resultaria também em expressões diferenciadas no âmbito da linguagem; 3) qual o significado politico dessas expressões, por serem construídas a partir de um olhar interno, em contraste ou diálogo com a realizada por cineastas e antropólogos.
Apresentação Oral em GT

Londres como uma Aldeia: deslocamento, narrativa e visualidade de um viajante Kuikuro

Autor/es: Fernanda Ribeiro Amaro, Takumã Kuikuro
Este artigo se propõe a pensar os deslocamentos perceptivos de um cineasta indígena, Takumã Kuikuiro, desde sua aldeia no Alto Xingu, estado do Mato Grosso, Brasil à capital, Londres, Inglaterra, cuja narrativa é mediada pelo vídeo “Londres como uma Aldeia”, produzido em 2015 e lançado em 2016. Neste texto pretendo elencar as experiências de Takumã, interlocutor desta pesquisa, a partir de etnografia e história oral, somadas a uma reflexão intercultural e pós-colonialista sobre os trânsitos e a mobilidade de indígenas para e entre territórios urbanos, e sobre as formas com as quais se constrói os relatos, os suportes da linguagem e as relações de tradução envolvidas em tais deslocamentos.
Apresentação Oral em GT

Análise e edição de imagens: reflexões com os Potiguara do Litoral Norte da PB

Autor/es: João Martinho Braga de Mendonça
ESTA COMUNICAÇÃO PARTE DE UM CONJUNTO DE EXPERIÊNCIAS DE PESQUISA COM IMAGENS DOS ÍNDIOS POTIGUARA DO LITORAL NORTE DA PARAÍBA, REGIÃO NORDESTE DO BRASIL. SÃO DADOS ELEMENTOS PARA PENSAR A PRÓPRIA PRODUÇÃO VIDEOGRÁFICA DESSES INDÍGENAS TANTO QUANTO A NOÇÃO DE COLABORAÇÃO NO TRABALHO DE EDIÇÃO DO VÍDEO “MEMÓRIAS RETOMADAS” (2015). O OBJETIVO É REFLETIR SOBRE A PRODUÇÃO VIDEOGRÁFICA RELACIONADA ÀS HISTÓRIAS DE AFIRMAÇÃO ÉTNICA E LUTA PELA TERRA. PROPÕE-SE QUE A REALIZAÇÃO VIDEOGRÁFICA INDÍGENA, COMO TAMBÉM A DE VIÉS MAIS PROPRIAMENTE ANTROPOLÓGICO, PODE SER EXPERIMENTADA SEM NECESSARIAMENTE SEGUIR PARÂMETROS E MODELOS PRÉ-FABRICADOS (DA TV OU DO CINEMA). O USO DA IMAGEM, ASSIM CONCEBIDO, PROCURA QUESTIONAR AS BARREIRAS QUE COSTUMAM SEPARAR CONHECIMENTO E LINGUAGEM.
Apresentação Oral em GT

Sombras e nuvens: notas etnográficas sobre o vídeo Sonhos e Raios

Autor/es: Paula Grazielle Viana dos Reis, Vandimar Marques Damas
Na presente comunicação, refletiremos sobre a realização do documentário intitulado Sonhos e raios, que tem como personagens dois xamãs, Valentim que é um xamã Tapirapé, e Don Aurélio um xamã mexicano do povoado de Amatlan - Tepoztlan México. Don Aurélio é um rayero, ele têm o poder de controlar o tempo, o sol, chuva e ventos. Os dois xamãs falam das suas relações com os seres humanos e não humanos. Valentim reflete sobre os animais e os espíritos que ele vê em seus sonhos. Já Don Aurélio reflete sobre a sua relação com os raios, e seu poder de fazer chover. Este vídeo documentário foi realizado em conjunto com Karanawore Fabinho Tapirapé da aldeia Tapirapé Tapi´itãwa na captação do áudio, e Itandehuy Castañeda Demesa do povoado de Tepoztlan - Morelos - México na captação do áudio e edição. Os Tapirapé sempre tiveram muito interesse na realização cinematográfica, e de participar das gravações de vídeos, eles gravam e fotografam os rituais e o cotidiano da aldeia, e essas imagens circulam entre eles e entre as aldeias. Isso demonstra que eles possuem uma cultura audiovisual bastante intensa. Realizaremos uma Mostra de Cinema na aldeia Tapirapé Tapi’itãwa e para isto este vídeo ocupa um local de paragem por nos fazer refletir sobre as possíveis e instáveis conexões entre os filmes e vídeos que pretendemos colocar em mobilidade e em circulação no momento das exibições. Quais serão os critérios que nortearão nossas escolhas? Somente filmes feitos pelos Tapirapé e sobre eles? Como os Tapirapé são falantes de uma língua Tupi abre-se como possibilidade a seleção de filmes feitos com e sobre os diferentes povos falantes dessa língua. Se levássemos em conta a área etnográfica, tendo como etnógrafo os Tapirapé, o leque de possibilidades se ampliaria, pois teríamos que selecionar os vídeos feitos com e sobre os Kayapó, Ava-canoeiros e Karajá. No entanto, na edição do vídeo Sonhos e raios já há uma proposta de reunião ou relação entre a entrevista do xamã Tapirapé com o xamã de Amatlán que vivem em regiões diversas do continente americano. Por um lado, coloca-se como recomendável pesquisarmos sobre as mostras que já ocorreram em aldeias ou em cidades com esses mesmos objetivos. Por outro, o vídeo Sonhos e raios produzido por indígenas e não indígenas está sendo pensando a luz de algumas fotografias feitas por Herbert Baldus e Charles Wagley entre os Tapirapé nas décadas de 1930 e 1940. Tais comparações não serão usadas com o intuito de propor sequencias e esquemas explicativos, apenas, para ser pensada a luz da noção de afinidade potencial ou virtual e de xamanismo, noções estas que traduzem ou dizem o que são as relações feitas pelos indígenas ou com os indígenas, e, que no caso, expressa algo da ontologia re-apresentadas em vídeos e fotografias.
Apresentação Oral em GT

Che aporahéita ko rap kaiowa (Eu vou chegar para cantar esse rap kaiowa) - reflexões sobre cultura e “cultura” a partir do rap e do áudio visual produzidos pelos coletivos Kaiowa e Guarani da Reserva Indígena de Dourados

Autor/es: Rodrigo Amaro
O presente trabalho pretende apresentar parte do material de campo coletado durante minha pesquisa de doutorado, que teve por foco estabelecer uma etnografia dos coletivos de rap indígena da reserva indígena de Dourados. Os agentes integrantes destes coletivos da reserva de Dourados, Bro MC´s e Jovens Conscientes, desde 2008, participam de oficinas de formação de áudio visual, efetivadas tanto por indígenas quanto por não indígenas, extrapolando a luta da demarcação territorial Kaiowá e Guarani para o Brasil afora, através das suas letras de rap indígena, entoadas em português e em guarani. Deste modo, apresentaremos parte de suas produções áudio visuais com vistas a discutir temas como interculturalidade, visibilidade e a relação entre música e a produção áudio visual e a luta pela terra dos Guarani e Kaiowá; além de permitir problematizar questões no âmbito mais teórico como, por exemplo, a questão da cultura como aculturação (VIVEIROS DE CASTRO, 2006), cultura com aspas (CARNEIRO DA CUNHA, 2009) e indigenização da cultura e da modernidade (SAHLINS, 1997). Tais práticas se enquadram em um fenômeno crescente que vem ocorrendo nas últimas décadas, isto é, os debates sobre a prática, a manutenção e a revitalização da cultura indígena vêm se tornando cada vez mais intensos entre os coletivos ameríndios. A necessidade de criar um discurso objetivado sobre as culturas indígenas e sobre a natureza, próprio à dimensão da cultura com aspas, vem provocando transformações nas culturas ameríndias. Por meio da análise de algumas de suas produções áudio visuais, bem como dos dados de campo, objetivamos contribuir, principalmente, com o debate acerca do fenômeno da objetivação da cultura, sobretudo, no que diz respeito aos efeitos da “cultura” sobre a cultura que vem ocorrendo principalmente via produção áudio visual. Nesse sentido, entendemos que esses processos de elaboração e produção não produz apenas filmes, músicas e vídeo clipes, mas também auto-imagens nesse processo crescente de (auto)reflexividade. A problemática da representação neste campo dá lugar a outras lógicas, mobilizando esferas de alteridade e movimentando a socialidade Kaiowa e Guarani. Em suma, a partir da observação do material de pesquisa em torno das práticas do áudio visual, apresentaremos a hipótese de que os binômios continuidade e mudança ou de aculturação e indigenização não dizem respeito apenas aos anseios antropológicos da “guaraniologia”, mas também perfazem as próprias questões colocadas pelos ameríndios acerca do contexto contemporâneo em face da apropriação destas tecnologias advindas do mundo dos karais (brancos).
Apresentação Oral em GT

"Tava, Casa de Pedra": património, cinema e conhecimento

Autor/es: Rodrigo Lacerda Fernandes
No início do século XXI, o IPHAN do Rio Grande do Sul iniciou um processo de actualização da narrativa histórica dos remanescentes das missões jesuítas dos séculos XVII e XVIII. No sentido de tentar compreender a rede de significados que ligava os Guarani às ruínas de São Miguel que visitavam e onde vendiam artesanato no alpendre do Museu das Missões, o Instituto, com o apoio de antropólogos da UFRGS, recorreu ao então recém desenvolvido Inventário Nacional de Referências Culturais. Após vários anos de trabalho, os Guarani revelaram uma ontologia diferente sobre as ruínas que estes identificam como “tava”, dando origem ao registro pelo IPHAN, em 2014, de “Tava, Lugar de Referência para o Povo Guarani”. Uma das demandas das comunidades Guarani atendida durante este processo foi a formação de jovens cineastas através da contratação da ONG Vídeo nas Aldeias (VnA) - projeto que há quase 30 anos apoia a luta dos povos indígenas através do audiovisual e que, desde 1997, organiza oficinas de vídeo com realizadores indígenas. Desde o início, Ariel Ortega (futuro cacique da Tekoa Koenju) e Patrícia Ferreira (professora indígena na Tekoa Koenju) destacaram-se pela sua curiosidade e paixão, tendo produzido, em colaboração com outros Guarani e o VnA, vários documentários exibidos nas escolas da região e em diversos festivais nacionais e internacionais. Tendo em conta o empenho e qualidade do trabalho realizado, o IPHAN decidiu recorrer a esta equipe para produzir a documentação audiovisual do registo. Este empreendimento deu origem ao filme Tava, Casa de Pedra (2012), assinado pelos Guarani Ariel Ortega e Patrícia Ferreira e pelos membros do VnA Vincent Carelli e Ernesto Carvalho. Assim, partindo da ideia de que o VnA funciona enquanto plataforma de tradução e mediação intermundos e que os filmes que co-produzem exploram as potencialidades da indexicalidade da imagem cinematográfica para conter diferentes “mundos de visão”, a apresentação pretende: 1) proceder a uma leitura do filme segundo o ponto de vista Guarani, recorrendo à literatura etnográfica e a conversas com Guarani; 2) reflectir, a partir do processo de realização do documentário, sobre as práticas corporais Guarani de obtenção de conhecimento; 3) equacionar a performance de produção de um documentário enquanto actividade que encontra ressonância nas práticas corporais Guarani de obtenção de conhecimento; 4) reflectir sobre a relação entre documentário e verdade para os Guarani, partindo da ideia de Patrícia Ferreira de que, “Em cada filme, a gente descobre a verdade possível.”
Apresentação Oral em GT

Visualidade e Arquivo: implicações estético-políticas da conversão da imagem indígena em informação digital

Autor/es: Samuel Leal Barquete, Francisco Antunes Caminati
“Os índios (...) têm futuro: e portanto tem passado” nos diz Manuela Carneiro da Cunha (2009c, p.126). Seja para a participação nas instâncias formais do Estado, seja para a defesa jurídica de seus direitos, a história indígena ganha importância política na sociedade contemporânea (CUNHA, loc. cit.). Os Xavante de Wede'rã sabem disso, e a relação que estabelecem com a sociedade brasileira passa por um projeto que articula uma estratégia de futuro com a memória do passado. Além de uma questão cosmológica de uma sociedade não-moderna que não se pensa em termos lineares, trata-se de uma importante questão política. Nesta, a apropriação de técnicas e de meios de produção e de registro audiovisual vem desempenhando papel de destaque há mais de 20 anos. Recentemente, alguns importantes acontecimentos como a chegada da rede elétrica, a consolidação de conexão com a internet e com a rede de telefonia celular, e, ainda, a não menos importante difusão do uso do Facebook, produziram transformações significativas em relação ao modo como as imagens produzidas tecnicamente são armazenadas e adquirem capacidades para circular. Propomos utilizar a noção de arquivo para pensar a constituição de um acervo digital (http://wederalab.blog.br) que reúne registros de práticas tradicionais, rituais e cotidianas. Parte de seus materiais é disponibilizada para acesso irrestrito pela internet. Os demais materiais são reservados à circulação entre os membros da aldeia, suas redes de parentesco, de vizinhança e de aliança, que inclui alguns e eventuais pesquisadores e parceiros de fora. Estamos interessados em identificar e analisar quais práticas são suscitadas a partir do engajamento com este acervo e se estas práticas operam transformações no modo como a comunidade se relaciona com os equipamentos de produção e de registro técnico de imagens e com o que é registrado nessas imagens. Para isso, analisaremos a proliferação da produção de imagens técnicas em formato digital na aldeia por meio de câmeras fotográficas, filmadoras e celulares e suas implicações sobre a qualidade da mediação que essas imagens operam tanto em relação com o exterior, quanto com o próprio passado e tradiçoes. A assimilação de um elemento significativo como o vídeo transforma a relação com o conhecimento local; a criação de um arquivo digital de imagem e som ao mesmo tempo que é um desdobramento desse processo, evidencia a amplificação do papel que a produção e registro de imagens podem desempenhar. Nesta apresentação investigaremos os caminhos pelos quais se formou tal acervo, e, como, pela conversão da imagem em informação digital, ele complexifica as práticas locais de produção e transmissão de conhecimento e de mediação com o exterior.
Apresentação Oral em GT