Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT063. Trajetórias religiosas em trânsito e novas configurações identitárias

As trajetórias religiosas de diferentes lideranças e adeptos de movimentos religiosos na contemporaneidade permitem explorar as dinâmicas de transformação no campo religioso, bem como os processos de construção étnico-identitária-religiosa, que segundo Stuart Hall (2000) revelam o caráter “estratégico e posicional” submetido a uma historicização da mudança constante. Tais processos são, também, multifacetados, permitindo que líderes religiosos e seus grupos ou comunidades religiosas sejam mediadores de diversas fontes e fluxos culturais que convivem e se contrapõem. A nossa proposta é realizar um debate, no que tange o entendimento teórico de narrativas etnográficas que exponham experiências, ora como fenômeno racional de natureza social, ora não-racional com o transcendente. Visamos discutir o que se tem produzido hoje acerca da grande circulação ou trânsito de novos adeptos entre as religiões, nas últimas três décadas. Serão privilegiados trabalhos que explorem as trajetórias em trânsito no âmbito das diferentes religiões no cenário atual brasileiro, entre as quais as religiões de matriz africana, as religiões do campo cristão, bem como os recentes trânsitos no campo judaico, islâmico e as expressões religiosas da Nova Era.

Maristela Oliveira de Andrade (Universidade Federal da Paraíba)
(Coordenador/a)
Sylvana Maria Brandão de Aguiar (UFPE)
(Coordenador/a)
Antonio Giovanni Boaes Gonçalves (Universidade Federal da Paraíba)
(Debatedor/a)
Eduardo Henrique Araújo de Gusmão (UFCG)
(Debatedor/a)


Conversão ao Judaísmo: voluntarismo e agenciamento

Autor/es: Abel de Castro Tavares, Yakov M. Rabkin
Esse trabalho tem por tema a conversão ao judaísmo a que se submetem indivíduos de outras profissões religiosas – ou nenhuma, nas cidades de Fortaleza, Brasília, Recife e Montreal. Para ser considerado um judeu, as interpretações rabínicas apontam a descendência matrilinear como o caminho natural para a transmissão identitária. Na contemporaneidade, uma maior autonomia do sujeito - fornecida pelos fluxos de informações transmitidas pelas novas tecnologias, pelas ofertas religiosas e pela globalização - possibilita ao indivíduo cambiar sua religião, sua história e seu destino. Entretanto, mesmo com autonomia para alterar sua vida e sua tradição familiar, é imperativo que a instituição religiosa pretendida o aceite e o reconheça como um deles. É uma relação de reciprocidade, onde a conversão aparece como um percurso que só é possível compreender na sua profundidade através da análise das narrativas dos candidatos que se submeteram a esse processo e o papel da instituição judaica na formação da nova identidade. Nesse trabalho, as modernas discussões sobre voluntarismo e agenciamento são fundamentais para a compreensão dos processos de identificação em que esses indivíduos se inscrevem levando-os a empreender uma caminhada rumo ao judaísmo. A busca por pertencimento e reconhecimento são os determinantes aos sujeitos quando se aventuram nessa caminhada, que no caso da escolha ao judaísmo, carrega em si um paradoxo: a possibilidade extremamente moderna de escolher uma nova identidade – voluntarismo, e a busca – agenciamento, em direção a uma religião normativa. As considerações feitas nesse trabalho sobre o fenômeno da conversão convidam o judaísmo a um contato com a alteridade e evidencia a necessidade de um vento novo em suas interpretações de si mesmo. Para a antropologia, o trabalho enfatiza a entrada e saída de religiões e a produção de um novo ator étnico e religioso: o judeu contemporâneo.
Apresentação Oral em GT

Migração e Pentecostalismo: ressignificações identitárias de mulheres migrantes

Autor/es: Ana Keila Mosca Pinezi, Marilda Aparecida de Menezes (Universidade Federal do ABC)
O trabalho objetiva compreender o discurso de mulheres migrantes nordestinas, moradoras de uma periferia paulistana, em relação às transformações identitárias e às reconfigurações familiares após a adesão ao pentecostalismo. Originalmente católicas, essas mulheres transitaram, ao chegar na região metropolitana de São Paulo, por várias religiões de passagem até a adesão ao pentecostalismo. Em seus discursos, essas mulheres entrelaçam a relação entre as mudanças vivenciadas na experiência migratória, a constituição da nova família, o trânsito e as experiências religiosos, as relações de gênero e seus anseios de emancipação. Ressignificações no que se refere à moralidade aparecem atreladas a uma emancipação restrita ou relativa. Foi realizada etnografia nos cultos e rituais de uma igreja pentecostal, a Igreja Avivamento Bíblico, situada em um bairro paulistano, além de entrevistas com mulheres adeptas dessa denominação religiosa, todas migrantes de áreas rurais ou de pequenas cidades do nordeste brasileiro. Periferia, gênero, pentecostalismo e migração se hibridizam na condição dessas mulheres que criam e recriam, no interior da igreja, espaços de sociabilidade que lhes proporcione acolhimento, compartilhamento e solidariedade diante de preconceitos e necessidades materiais e imateriais que sua condição lhes impõe.
Apresentação Oral em GT

Reafricanização e construção da identidade negra nas religiões de origem africana em João Pessoa/PB: o caso do terreiro Ilê Tata do Axé

Autor/es: Bárbara Luna de Araújo
Este trabalho tem por objetivo analisar os movimentos de reafricanização e construção da identidade negra nos terreiros de candomblé da cidade de João Pessoa/PB através de um estudo sobre o Ilê Tata do Axé da mãe Renilda de Oxóssi. Faz-se mister destacar que entende-se por reafricanização as tentativas, pela comunidade de afro-descendentes, de retomada dos valores africanos no que diz respeito ao resgate ou construção de tradições que possam expressar a particularidade de uma identidade negro-orientada. Reginaldo Prandi (1991) enxerga a reafricanização como uma espécie de invenção de uma identificação intelectualizada, na qual o retorno às raízes africanas representa a busca da origem e da autenticidade do ser negro. Diante disso, surge o interesse de investigar o fenômeno no campo religioso pessoense por meio do citado terreiro. A escolha se deu pelo fato da ialorixá Renilda Bezerra de Albuquerque ter uma história de vida muito ligada às lutas sociais, possuindo assim uma liderança política que ultrapassa os muros da sua casa religiosa. A pesquisa de caráter empírico ocorreu em dois momentos: primeiro realizou-se levantamento preliminar no âmbito do projeto “Mulheres de Terreiro” (documentário financiado pelo Fundo de Incentivo à Cultura da Cidade de João Pessoa – ainda em fase de conclusão) e, logo em seguida, houve um aprofundamento do estudo, realizado por meio de entrevistas com mãe Renilda de Oxóssi e observação direta das festas e rituais. Os resultados obtidos apontam para uma série de transformações que candomblé pessoense vem passando diante das quais os líderes religiosos estão buscando, cada vez mais, a construção de uma identidade negra e a ocupação das esferas públicas locais e nacionais, com o intuito de dar visibilidade e legitimação aos seus cultos. Tais movimentos acabam por trazer mudanças nos próprios rituais, pois se busca uma espécie de “volta às origens” e/ou “purificação” das celebrações. Porém, vale ressaltar, que o retorno a esses valores africanos não se dá de forma absoluta. Pelo contrário, a reafricanização que se faz presente trabalha muito mais em um sentido de mobilização dos grupos negros do que na busca de uma base pura de elementos inalterados para os cultos religiosos. Seria, portanto, uma estratégia política de marcação de diferenças que, por sua vez, não se apresenta de forma consensual entre os adeptos.
Palavras chave: Reafricanização. Candomblé. Identidade.
Apresentação Oral em GT

A regulação da instanciação religiosa na Capoeira Angola globalizada: A relação entre o Grupo Irmâos Guerreiros e o Ilê Obá Silekê de Berlim, Alemanha

Autor/es: Celso de Brito
A Capoeira Angola tida como “tradicional” mantém uma forte relação com a religiosidade afro-brasileira (FRIGERIO, 1989, ARAÚJO, 2005). Apesar disso, diferentes estudos mostram que sua prática vem sendo resignificada em diferentes localidades do globo, segundo referências de diversos credos como a “capoeira gospel” (BRITO, 2008) e “capoeira New Age” (BRITO, 2010, ACETI, 2010). Em meu estudo de mestrado (BRITO, 2010), analisei os fluxos transnacionais no universo da Capoeira Angola entre Brasil e França e me deparei com uma organização social peculiar que nomeei, com referência a um termo nativo, de “sistema de linhagem”. O alcance da noção de “sistema de linhagem” foi posto à prova em um recente estudo (BRITO, 2015) considerando núcleos de Capoeira Angola de diferentes países da Europa (Polônia, Portugal, França, Áustria, Espanha e Alemanha) e se mostrou passível de ser generalizado. Trata-se de um sistema global organizado em torno da noção de “ancestralidade” que reúne adeptos de diferentes países através da mediação de um mestre em comum que, por sua vez, propicia uma dupla “religação”: 1, entre membros de diferentes nacionalidades e, 2, entre eles (dimensão terrena) e os ancestrais (dimensão sagrada). Esse duplo sentido do “sistema de linhagem” da Capoeira Angola globalizada nos remete à ideia de Csordas (2009) de “transcendência transnacional”. Na presente proposta, buscarei sustentar duas hipóteses: 1° apesar de haver grande valor à relação entre Capoeira Angola e religiosidade afro-brasileira, a Capoeira Angola pode ser entendida como uma forma singular de religiosidade, aberta a diferentes instanciações, de acordo com culturas locais e, 2, as lideranças brasileiras dos grupos de Capoeira Angola em funcionamento na Europa elaboram estratégias de regulação das instanciações religiosas na Capoeira Angola criando conexões entre Capoeira Angola e religiosidades afro-brasileiras, inserindo novos agentes, não capoeiristas, ao “sistema de linhagem”. A análise se centrará no grupo de Capoeira Angola Irmãos Guerreiros e sua conexão com o Babalorixá Murah, cujo ilê Obá Silekê, sediado em Berlim-Alemanha, tornou-se uma das fontes da tradição religiosa afro-brasileira para capoeiristas de diversas localidades da Europa. Assim, a pergunta central dessa proposta é: quais as estratégias de regulação da instanciação religiosa elaboradas pelas lideranças dos grupos de Capoeira Angola na Europa e, em que medida, tais estratégias produzem o resultado esperado, qual seja, evitar a deturpação da tradição afro-brasileira durante o atual processo de expansão da Capoeira Angola em terras europeias.
Apresentação Oral em GT

Neo-pentecostalismo em Juazeiro do Norte: a Igreja Mundial do Poder de Deus na trama das classificações

Autor/es: Clécio Jamilson Bezerra dos Santos, Orivaldo Pimentel Lopes Junior
A formação de novos grupos religiosos no Brasil está inserida em uma dinâmica mais ampla de transformações do campo religioso nacional, fenômeno que não é recente, mas que se acelerou, tornando-se mais evidente, com a ascensão de igrejas neo-pentecostais no país. No meio pentecostal, a formação de novos grupos religiosos a partir de cismas entre fortes lideranças carismáticas e suas respectivas igrejas abriu possibilidade para novos fluxos culturais inerentes ao surgimento de novas denominações. Imersa nesse contexto está a Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), denominação cindida da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na década de 90 e que tem como líder-fundador o então denominado Apóstolo Waldemiro Santiago, cuja trajetória religiosa é bastante significativa para se compreender aspectos da própria denominação. Em detrimento dos diversos templos que possui, este trabalho dedica-se a uma reflexão crítica acerca de aspectos da atuação da IMPD em Juazeiro do Norte-CE, analisando a sua presença no campo religioso local e a situando na seara do protestantismo nacional. Ricardo Mariano, em seu livro Neopentecostais ([1999] 2010), assim como fazem outros autores, propõe uma tipologia do pentecostalismo brasileiro, enfatizando, sobretudo, as principais características do "neopentecostalismo" e ressaltando o tom de novidade que caracteriza a emergência dessa vertente pentecostal no campo religioso nacional. Conforme tal classificação, é possível afirmar que a IMPD em Juazeiro do Norte apresenta as típicas características de uma igreja "neopentecostal", podendo ser considerada, a priori, pertencente a tal segmento e equiparada à sua maior representante, a IURD. Apesar disso, a partir da realização de pesquisa de campo preliminar (2012-2014), composta pela participação em cultos no templo central da IMPD na cidade de Juazeiro e de entrevistas com os seus membros, percebi divergências entre a caracterização típica do "neopentecostalismo" e determinados aspectos apresentados pela Igreja na localidade. Nesse sentido, este trabalho problematiza e evidencia as tensões encontradas no emprego da tipologia pentecostal vigente no campo acadêmico para a leitura da atuação da IMPD em Juazeiro do Norte, levando em conta as relações de convergência e de contraposição entre elementos dessa denominação e aqueles presentes na igreja-mãe (IURD), da qual se originou. A pesquisa ainda está em andamento, mas, a partir das atividades já realizadas, é possível inferir acerca da adequação, pertinência e possíveis limitações do emprego de tal tipologia para a leitura da referida igreja, tendo como pano de fundo um contexto de trânsito religioso, de cissiparidade e de pluralismo que caracteriza o campo religioso nacional nas ultimas décadas.
Apresentação Oral em GT

"Muita religião, seu moço!": entre santos, espíritos, pretos velhos, pombas-gira e orixás

Autor/es: Dalva Maria Soares
Este trabalho tem como fio condutor a trajetória de Pedrina de Lourdes Santos como capitã de congado. Além de capitã, Pedrina é espírita kardecista, realiza reuniões de umbanda em sua casa, faz atendimentos espirituais na cidade de Oliveira, MG e frequenta o candomblé. A capitã também é frequentemente solicitada para falar em seminários, festivais, oficinas e congressos sobre suas experiências e seus conhecimentos. Embora o contexto do universo da pesquisa tenha sido o congado, o trabalho acabou sendo recortado por diversos espaços, tendo em vista a própria característica do sujeito da pesquisa, uma pessoa ecumênica, como ela mesmo se define. Guiada pelos movimentos de Pedrina segui o seu percurso, o que me levou a percorrer diferentes sítios e trajetos numa complexa rede tramada entre confluências de práticas, processos e conexões. Isso me obrigou a sair da lógica de se pensar o religioso a partir de doutrinas, instituições e rituais e a focar na experiência e na vivência de Pedrina. Embora eu tenha ido a campo perseguindo a trajetória da capitã, conhecê-la implicou acessar toda uma rede familiar que vai muito além da sua família biológica e envolve uma rede de relações sociais tecidas no reinado, na umbanda, no kardecismo e no candomblé; uma rede que entrelaça a trajetória de Pedrina com seres deste e de outros mundos, como os santos católicos, as entidades da umbanda, os nkisis do candomblé e os espíritos desencarnados do kardecismo. Este não é, portanto, uma trabalho sobre o Reinado de Nossa Senhora do Rosário ou congado em Minas Gerais, nem sobre o congado da cidade de Oliveira, muito menos uma biografia de Pedrina. É o resultado de uma relação construída entre pesquisadora e pesquisada durante um determinado período da vida de ambas. O congado na vida de Pedrina é lugar de encruzilhada, de interseção de todas as suas vivências religiosas, não para fundir tudo numa unidade, mas para seguirem enquanto pluralidades, numa lógica que não anula as diferenças. A participação em seminários acadêmicos, encontros, festivais e congressos também permite a Pedrina chamar a atenção de pesquisadores, artistas, políticos, produtores culturais, entre outros, para o lugar das manifestações culturais afro-brasileiras. Nestes encontros, a capitã amplia sua rede e legitima o seu congado. Um congado próprio, particular, resultado dos diferentes trânsitos pelos quais ela circula. O que trabalho se propõe é contar uma história que me foi contada; não só por Pedrina, mas também pelos sujeitos (desse e de outros mundos) que estão à sua volta.
Apresentação Oral em GT

As profundas e mutáveis pegadas míticas do povo que não esperou por Deus. A vida religiosa dos índios Kadiwéu

Autor/es: Francesco Romizi
Se, nos últimos 50 anos, queremos identificar uma constante na vida religiosa dos componentes do grupo indígena Kadiwéu (guaicurus situados no município de Porto Murtinho/MS), esta pode ser representada só pela sua instabilidade; que, como tentaremos demostrar, não revela o seu caráter superficial ou efêmero, mas exatamente o contrário. Em particular, na nossa fala pretendemos: 1.) descrever e interpretar, antropologicamente, um trânsito diacrônico, feito de passagens históricas de umas crenças a outras, e dos discursos de continuidade-descontinuidade que administraram estas transições, fazendo que permanecessem dentro de um quadro mito-lógico que não pode nunca rejeitar por completo a tradição; 2.) analisar um trânsito sincrônico, representado pela capacidade dos crentes Kadiwéu, não só de frequentar simultaneamente diferentes Igrejas e dimensões místico-espirituais, mas também de selecionar e manipular as suas expressões, de modo que se tornem partes integrantes de uma única vivência religiosa, percebida como um todo lógico e coerente.
Apresentação Oral em GT

Umbanda E FTU: Intercafes do Embranquecimento das Religiões Afro-Brasileiras

Autor/es: Geisiane Batista Prates
Nas décadas de 1960 e 1970, um grupo de umbandistas inaugura uma nova forma de compreender a Umbanda. Neste grupo se insere Woodrow Wilson da Matta e Silva, que publica seu primeiro livro intitulado “Umbanda de Todos Nós” (1956), no qual dá as diretrizes dessa iniciativa. Mais de quarenta anos depois, em 2003, é inaugurada em São Paulo (SP) a Faculdade de Teologia Umbandista, dirigida por Francisco Rivas Neto, discípulo de Matta e Silva, que disponibiliza o curso de graduação em Teologia com ênfase nas religiões afro-brasileiras, reconhecido pelo Ministério da Educação e Cultura. O presente trabalho busca contribuir para a compreensão da trajetória da Umbanda em território brasileiro, conferindo a esta o status de religião nacional, trajetória esta que é marcada pela discriminação, pela luta de movimentos sociais, negação de aspectos africanos, branqueamento e iniciativas que extrapolam os limites da religião, abrindo caminhos em outras instituições sociais como a educação, por exemplo. A Faculdade de Teologia Umbandista foi uma alternativa que uma vertente da Umbanda encontrou para se inserir no mercado de bens simbólicos e religiosos e sua estrutura é voltada à formação de teólogos com ênfase em religiões afro-brasileiras. Não obstante, o que se observou através de breve etnografia, foi uma prática educacional atrelada diretamente à Umbanda, digo melhor, a uma vertente da Umbanda, mais conhecimento como Umbanda Branca ou Exotérica. Essa proposta se insere nesse GT por se pautar na discussão da trajetória de uma religião brasileira que, através da instituição de uma faculdade de teologia, busca a disseminação de uma vertente da doutrina umbandista, caracterizando uma prática educacional e religiosa em constante transformação.
Apresentação Oral em GT

Evangélikus Gyülekezet: notas etnográficas sobre uma Comunidade Protestante Húngara em Stuttgart

Autor/es: Ivaldinete de Araújo Delmiro Gémes, Márton Támas Gémes István Gémes
O presente trabalho é fruto de uma análise da dimensão étnica/religiosa da Comunidade Evangélica Húngara de Stuttgart (Stuttgarti Magyar Evangélikus Gyülekezet). Nele busquei compreender as experiências dos agentes sociais envolvidos nos processos sociais a partir da construção étnica/identitária e do campo religioso na Comunidade. O interesse pelo tema deve-se ao fato de que pretendo elaborar uma reflexão acerca da influência da modernidade no campo religioso protestante luterano das particularidades que envolvem etnia, migração, religião e ecumenismo. A pesquisa foi realizada através do método etnográfico, a convivência com a comunidade foi de dois anos. A minha presença no campo de pesquisa foi marcada pelas experiências, afinidades, cumplicidades e pelas diferenças existentes entre eu e o “outro”. No campo de pesquisa foram reveladas práticas construídas a partir da compreensão dos valores sociais, éticos e religiosos que marcaram esta investigação. Esta pesquisa teceu fios que me ligaram, de forma afetiva e profissional, ao cotidiano da comunidade e perfilaram as minhas experiências na condição de estrangeira e pesquisadora em território “desconhecido”. A heterogeneidade da comunidade é marcada por dois fatores: a comunidade é composta por húngaros que migraram do Leste Europeu (Hungria, Sérvia, Croácia, Eslováquia e Romênia) e outro fator é que existe uma pluralidade religiosa formada pelos Luteranos, Calvinistas, Batistas e Católicos. O tempo existência da Comunidade é um marcador étnico, pois existe há 63 anos. Ela foi criada em 1947 por indivíduos de origem húngara que fugiram durante a Segunda Guerra e fixaram-se na Alemanha. A Língua Húngara é outro elemento marcador da etnia do grupo. Os rituais, os cultos e as festas religiosas podem ser interpretados, como práticas que alimentam a identidade étnica. Os valores que orientam a ação da Comunidade são expressos através da conduta protestante e do idioma que é falado, vivido, narrado (oral e escrito) e compreendido pela coletividade. Para os membros da Comunidade, como acontece a outras coletividades religiosas, o estado de pertença no grupo se transforma em um marcador de suas identidades. As práticas sociais vivenciadas pela Comunidade são internalizadas pelos membros como atos institucionalizados, pois os indivíduos elaboram e internalizam estas práticas como parte de suas ações sociais cotidianas. O uso da Língua Húngara, como exemplo destas práticas cotidianas vivenciadas e narradas pelo grupo, porque todos os indivíduos se comunicam através da Língua Nativa. No entanto, os membros do grupo, aprenderam, nos processos anteriores de migração, outras línguas, como alemão, servo-croata, romeno e eslovaco. Estas línguas são usadas quando é necessário e também para interagir fora do grupo.
Apresentação Oral em GT

Retratos sociológicos e perfis culturais-religiosos no Maracatu de Baque Solto de Pernambuco.

Autor/es: José Roberto Feitosa de Sena, Antônio Giovanni Boaes Gonçalves.
O Maracatu de Baque Solto também conhecido como Maracatu Rural é uma manifestação de cultura popular, ao que os folcloristas e acadêmicos apontam, oriundo dos hibridismos culturais-religiosos processados na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Comumente as pesquisas das ciências sociais sobre essas agremiações culturais privilegiam as abordagens sobre os grupos e suas relações com os contextos mais amplos. A presente pesquisa em andamento, processo de construção de tese de doutoramento em sociologia, visa realizar uma abordagem do maracatu à luz da teoria sociológica disposicionalista da cultura que possibilita uma análise de retratos sociológicos de indivíduos a partir da reconstrução de suas trajetórias de vida nos mais variados e contínuos processos plurais de socialização. Tal enfoque, fundamentado nas teorias de Bernard Lahire, é pertinente uma vez que tal manifestação está inserida no contexto da esfera pública do carnaval, festa popular e midiática que envolve múltiplos e variáveis espaços e atores em jogo. Interesses diversos como os de ordem política e econômica, e, manifesta a circulação híbrida e fluida de elementos culturais e religiosos que, interpenetráveis, constituem o tecido sociocultural e simbólico de tal expressão de cultura popular.
Palavras chave: Maracatu; disposicionalismo; cultura.
Apresentação Oral em GT

A comunidade Gülen no Brasil: configurações locais de um movimento religioso turco transnacional

Autor/es: Liza Dumovich Barros
O islã no Brasil remonta à colonização do território pelos portugueses, no século XVI, passa pela importação de escravos africanos muçulmanos, no século XVIII, e pela imigração árabe proveniente do Oriente Médio, iniciada no final do XIX. Porém, a presença do islã no Brasil se tornou significativa apenas no final do século XX. Esse incremento está relacionado, sobretudo, a dois processos: a imigração de muçulmanos provenientes do Líbano, impulsionada pela Guerra Civil Libanesa, e da Palestina, devido às guerras árabe-israelenses; e a conversão individual de brasileiros. As comunidades muçulmanas no Brasil se organizam, portanto, segundo um quadro interpretativo do islã, seja sunita ou xiita, baseado em lideranças religiosas árabes ou de origem árabe. É nesse contexto que se insere uma comunidade turca e muçulmana sunita, de caráter missionário e transnacional, vinculada ao Movimento Hizmet, também conhecido como Movimento Gülen, em referência ao líder religioso turco Fethullah Gülen. Nascido nos anos 1970, na Turquia, o Movimento Hizmet (“serviço”, em turco) se espalhou pelo mundo através, sobretudo, de escolas e dormitórios para estudantes. Presente em cerca de 150 países, o Hizmet iniciou suas atividades no Brasil há 12 anos, pelos esforços de um pequeno grupo de turcos. Desde então, formou-se uma comunidade religiosa, predominantemente, turca de cerca de 220 indivíduos, dividida por quatro cidades brasileiras – Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e São Paulo. Atualmente, a comunidade possui um colégio (duas unidades), três centros culturais e um centro de diálogo inter-religioso (duas unidades), além de parcerias com instituições locais públicas e privadas. Essa apresentação se fundamenta no trabalho de campo que realizo junto à comunidade Gülen no Brasil, há cerca de dois anos, para o meu doutorado em Antropologia e visa delinear alguns aspectos da configuração do Movimento na realidade brasileira. Embora o secularismo seja um valor constantemente reafirmado pela comunidade, os códigos morais e as práticas cotidianas são informados pelo islã - de acordo com as interpretações de Gülen, por sua vez, produto do cenário religioso turco contemporâneo. Nesse contexto, aproximadamente 30 famílias e 35 estudantes turcos (divididos entre homens e mulheres) constituem novos atores na produção e circulação de significados, tanto secular quanto religioso, no espaço público brasileiro.
Apresentação Oral em GT

Entre trajetórias, rituais e sinagogas

Autor/es: Mirella de Almeida Braga
O presente artigo abre um debate acerca do processo de formação de fronteiras étnicas e religiosas em/entre três comunidades judaicas atuantes no município de Campina Grande/PB, chamando atenção para determinados elementos e estratégias do cotidiano que operam como verdadeiros marcos de diferenciação e afirmação identitária. Por meio da descrição de eventos comunitários e da reconstrução narrativa de determinadas histórias de vida de indivíduos em suas interações sociais no espaço familiar e religioso, o trabalho analisa as ações que revelam diferenciadas “artes de se tornar judeu”.
Apresentação Oral em GT

Yoga na Laje: uma trajetória entre espiritualidade e identidade híbridas

Autor/es: Taís Dias Capelini
Segundo uma pesquisa do Instituto Namasta (2010), práticas milenares como o Yoga tem se consolidado no Ocidente, configurando-se como uma das atividades em maior expansão no mundo. Levando em consideração que essa prática tem influência direta no modo de pensar e agir do praticante, bem como na sua relação com o mundo e consigo mesmo, a proposta de pesquisa que se apresenta é o estudo de caso do projeto Yoga na Laje, iniciado em 2012, na favela da Rocinha (Rio de Janeiro). O objetivo é analisar o variado campo de trocas simbólicas, culturais e interculturais, em um sistema que abrange um intercâmbio entre sabedoria milenar oriental e cultura contemporânea ocidental, que tem a maior favela da América Latina como plano de fundo. Nesse sentido, analiso como o Yoga proporciona uma crescente autonomia da experiência do sagrado em relação à mediação das instituições religiosas tradicionais, possibilitando que os alunos - adeptos majoritariamente das religiões católica e neopentecostais - se identifiquem e se insiram em um conjunto prático, filosófico, e religioso associado ao Yoga e ao hinduísmo. Fenômeno esse que evidencia um processo de construção de "identidades híbridas", tal qual definido por Hall (2006). Nesse sentido, analiso a reinterpretação da tradição cultural relacionada ao Yoga dentro de uma chave de leitura que aqui considero como uma "ambiguidade produtiva", através da qual os alunos da favela atribuem novos sentidos e significados tanto ao Yoga em si como ao seu próprio processo de construção de subjetividades.
Apresentação Oral em GT

“Hare Krishna à la carte”: as novas configurações de devotos de Krishna no Brasil.

Autor/es: Vítor Hugo da Silva Adami
O objetivo desta comunicação é realizar uma breve reflexão sobre as mudanças ocorridas nas identidades dos devotos do movimento Hare Krishna brasileiro. Ao longo dos quarenta anos de existência da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna (ISKCON) no Brasil a categoria social “devoto de Krishna” vem assumindo diferentes matizes de “apercepção social”. Desde um modelo de coletivo religioso sectário, alternativo e ambientalista até a proposta de uma religião mais individualizada do que coletivizada. Portanto, a proposta será discutir e argumentar sobre as novas configurações identitárias constatadas dos devotos de Krishna e o que isto vem a refletir nas dinâmicas de transformação no campo religioso brasileiro.
Apresentação Oral em GT

O trânsito religioso e o ethos de grupo nas tradições da Umbanda e da Jurema na capital Paraibana

Autor/es: Rafael Trindade Heneine
No atual projeto de PIBIC que estou envolvido como bolsista, “A mitologia da Jurema Sagrada na capital Paraibana”, os mitos da Jurema tem sido resgatados através das toadas, que somente a observação participante, e as entrevistas, me condicionam uma relevante rede de significados dos dados coletados. Na tradição oral, as toadas da Jurema apresentam em seu conteúdo, narrativas sobre os Mestres Encantados, que são os guias espirituais dessa religião. Dos dados coletados, em particular na cidade de João Pessoa, no terreiro Templo Ilê Asé Xangô Agodô, que trabalha com o Candomblé e com a Jurema, sendo por isso também chamado de Tenda de Jurema do Caboclo Sete Flechas, as práticas litúrgicas e teúrgicas que evocam as entidades, ocupam um papel importante no ethos dos devotos desse terreiro. Nos cultos de Jurema ali realizados, entidades ditas da Umbanda são também evocadas ao iniciar os trabalhos, como por exemplo, Exu e Pomba-Gira, e esse hibridismo religioso, mais apropriadamente chamado de sincretismo na tradição dos estudos antropológicos, é o que determina o trânsito religioso aqui identificado, entre essas duas tradições, a da Umbanda e a da Jurema, e também sugere, possivelmente, uma nova identidade. Com isso proponho apresentar o andamento das investigações do projeto, e como o resgate das narrativas míticas, juntamente com as entrevistas realizadas, puderam evidenciar esse trânsito religioso in loco, através do modus operandi dos ritos, e das relações de ethos dos devotos desse terreiro com as entidades ali cultuadas.
Palavras chave: Identidade-religiosa. Sincretismo. Trânsito-religioso.
Pôster em GT

Quando o comportamento também fala: expressões vestuais e devoção na benção de São Félix.

Autor/es: Thayane Lúcia Fernandes da Silva
Este pôster está inserido no projeto de pesquisa "Santuários Pernambucos", coordenado pela profª Drª Sylvana Brandão, e é fruto de um ensaio etnográfico realizado no Santuário de São Felix da Cantalice, no bairro do Pina, Recife, durante os anos de 2014 e 2015. O local abriga o túmulo de Frei Damião de Bozzano e recebe milhares de fiéis, devotos e romeiros, durante todo o ano; aborda–se aqui, mais especificamente, as bênçãos de São Félix que ocorrem às sextas-feiras. Com base no material recolhido durante a pesquisa e considerando a reflexão de autores como Pierre Bourdieu, João Feital e Eduardo Spers e Mary Douglas, o argumento inicial é a existência de simetrias no campo do vestuário entre os frequentadores dos rituais devocionais. Resulta, que é possível alegar a existência de formas de vestimenta padronizadas por parte dos romeiros e dos devotos locais, que recebem influência do meio social onde vivem, da indústria da moda e também dos seus conceitos de espiritualidade.
Pôster em GT