Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT062. Tradução, conexões e re(criações) culturais das religiões brasileiras na Europa e em outros contextos nacionais

Este GT analisa os nexos entre globalização e configurações do religioso na contemporaneidade em suas múltiplas faces. Uma das dimensões a ser explorada compreende a das práticas religiosas brasileiras na Europa e em outros contextos nacionais. Cabe lembrar que o Brasil é um dos maiores atores na geografia global do sagrado. Grupos e práticas religiosas do Brasil, tão diversas quanto o Candomblé, Santo Daime, Capoeira, Pentecostalismo e o Catolicismo, podem ser identificados em diversas partes do mundo. Consideramos que os conceitos existentes – transnacionalismo, globalização, localização, migração e tradução – apresentam limitações para examinar as novas realidades com as quais identificamos em trabalhos de campo. Pensamos em que extensão ideias sobre religião como mediação e/ou como invenção podem contribuir para as pesquisas sobre fenômeno religioso em diversos contextos.Assim como, partindo do entendimento da religião como construção,-- olhar para o modo como práticas religiosas, tem sido atravessadas por noções, ideias e linguagens seculares,instituindo novas invenções do laico e do religioso.Convidamos a apresentação de trabalhos etnográficos sobre as diferentes manifestações religiosas brasileiras, com distintas dimensões, com por exemplo ritual e produção simbólica (música, corpo); o papel da tecnologia,(re)criação de relações sociais e conexões e mediações da religião com gênero, família e sexualidade, os direitos e as políticas públicas.

Joana D'Arc do Valle Bahia (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
(Coordenador/a)
Marcelo Tavares Natividade (Universidade de São Paulo)
(Coordenador/a)


Tradução, diferenças e possibilidades de construções simbólicas do sentido de “casa” nas práticas religiosas de mulheres católicas em Haia N

Autor/es: Andrea Damacena Martins
Nesta apresentação queremos explorar as possibilidades dos conceitos de tradução e localização da religião, a partir dos significados atribuídos ao sentido de casa elaborado por mulheres católicas brasileiras residentes na cidade de Haia e participantes de grupos religiosos católicos numa situação de diáspora. Concentraremos nossa atenção nas diversas formas simbólicas e práticas religiosas, que essas mulheres reconstroem para estabelecerem um sentido de estar "em casa" e "pertença" neste contexto local. Entendemos que o sentido de sentir-se “em casa” em contexto de migração depende de um lado do resultado de elaboração simbólica a partir de laços e redes transnacionais, de outro expressa um processo criativo de produção idéias, noções e práticas religiosas, que inventadas ou reelaboradas expressam dinâmicas de integração entre global e local.
Apresentação Oral em GT

Gênero, Feminismo e Catolicidade no Pensamento de Rose Marie Muraro

Autor/es: Anna Marina M. de P. Barbará Pinheiro
Rose Marie Muraro foi uma das pioneiras do feminismo de segunda onda, no Brasil. Trabalhando na Editora Vozes desde 1961, produziu uma vasta obra sobre o que hoje designamos como estudos de gênero. Seu primeiro livro Ä Mulher na construção do mundo futuro", de 1966, traz ainda uma perspectiva bastante conservadora quanto ao tema, fortemente ancorada numa leitura livre de Theilhar de Chardin. Entretanto, na medida em que Rose se aprofunda na vivência do feminismo, e que o próprio movimento se rearticula no país, sua perspectiva quanto aos gêneros e à sexualidade vai se alterando, sem, contudo, deixar de respaldar-se em referenciais católicos. Nesse sentido, temos como objetivo no presente trabalho, redesenhar um pouco desta transição nas concepções da autora, comparando, pontualmente, três das suas obras"A Mulher na construção do mundo futuro", de 1966, "A Sexualidade da Mulher Brasileira: corpo e classe social no Brasil", de 1982 e "Sexualidade, Libertação e Fé: por uma erótica cristã".
Apresentação Oral em GT

Uma igreja inclusiva em um inusitado vértice missionário

Autor/es: Aramis Luis Silva
Por meio da limitada rede de internet existente em Cuba, três grupos espalhados na ilha tiveram acesso à predicação eletrônica da Metropolitan Community Churches (Igrejas da Comunidade Metropolitana), entidade religiosa de origem norte-americana que se autoproclama a igreja dos direitos humanos empenhada em garantir a “radical inclusão”, religiosa e política, de pessoas e grupos segredados em qualquer parte do mundo. Organizados em comunidades, esses núcleos cubanos estão agora tratando da implementação da igreja no seu país. Para ajudá-los nesse processo, poucos meses após do encontro histórico do presidente Barack Obama e Raúl Castro no país, vale destacar, o braço ibero-americano da organização despachou para Cuba uma missão missionária. Designados para cumpri-la: as Igrejas da Comunidade Metropolitana do Brasil. Mas, afinal, como é uma viagem missionária de uma organização religiosa cristã tão particular, conhecida por congregar homens e mulheres que se diferenciam nos seus grupos de pertencimento por identidades de gênero e preferências sexuais destoantes da norma? Por que uma igreja de matriz norte-americana, que se estende por múltiplos países, aciona seu braço brasileiro para entrar em ação em um país no qual a presença norte-americana é tão combatida quanto desejada? O que a experiência brasileira dessa igreja teria a contribuir para as comunidades cubanas? Quais os seus projetos de Igreja? O que haveria de diferença entre suas pautas internas? Visibilidade, questão cara à instituição, é um imperativo que se impõe para as igrejas nacionais da mesma forma? A fim de responder essas questões, esta apresentação será articulada em torno de informações colhidas em viagem de campo empreendida para acompanhar a jornada missionária da Metropolitan Community Churches e dos seus representantes brasileiros (e ibero-americanos) em Cuba. Por meio da observação participante, atentos particularmente às formas de interação das lideranças brasileiras com as suas audiências cubanas, nossa meta etnográfica é demonstrar de que modo o nosso objeto “igreja”, para além de sua aparente estrutura institucional, pode ser descrito e compreendido de melhor forma quando o enxergamos enquanto plataforma de trocas comunicacionais, na qual discursos e seus sentidos estão continuamente em disputa.
Apresentação Oral em GT

Espiritismo no Uruguai: influência das redes espíritas brasileiras na constituição dos centros espíritas em Montevidéu

Autor/es: Carla Patrícia Pintado Núñez
Esta pesquisa foi iniciada a partir de levantamento bibliográfico e contato eletrônico com a Federação Espírita Uruguaia (FEU) e centros federados de Montevidéu. Segui uma abordagem qualitativa, na que privilegiei o método etnográfico, com observação participante para conhecer algumas das atividades desenvolvidas nos quatro centros montevideanos. Os objetivos do trabalho foram perceber como as redes espíritas foram sendo tecidas em Montevidéu, que relações há entre espíritas uruguaios e espíritas de outros países, principalmente do Brasil e como os sujeitos pesquisados percebem o espiritismo no Uruguai. Os resultados iniciais apontam que o perfil dos espíritas entrevistados varia: muitos são naturais da fronteira com o Brasil, residentes em Montevidéu; outros procuraram o Espiritismo por afirmarem possuir mediunidade; e alguns começaram a estudar essa doutrina após a perda ou doença de entes queridos. Os meios eletrônicos da FEU nem sempre estavam atualizados. Percebeu-se forte influência do espiritismo brasileiro no Uruguai e frequente contato com as federações brasileira e argentina, bem como com o CEI (Conselho Espírita Internacional). Nas falas os entrevistados reconhecem o Brasil como a principal referência do espiritismo atualmente, tanto pela sua produção bibliográfica, quanto pela atuação de seus médiuns mais conhecidos e federações espíritas.
Apresentação Oral em GT

Jovens brasileiros na Austrália: vivendo entre o pentecostalismo brasileiro e australiano

Autor/es: Cristina Rocha
Cada vez mais jovens de classe-média brasileiros procuram a Austrália para aprender inglês, ter uma aventura, e morar num país de ‘primeiro mundo’. Mas além das praias, língua inglesa e vida sem criminalidade, a Austrália também tem a sede mundial da megaigreja Hillsong. Famosa no Brasil pela sua música gospel traduzida e cantada por várias bandas brasileiras como a Diante do Trono, para muitos jovens brasileiros esta viagem também é uma oportunidade de frequentar a Hillsong aos domingos, ou mesmo estudar na sua escola pastoral chamada International Leadership College. Mas, para muitos, a dificuldade com a língua inglesa no culto e de fazer amizades numa igreja tão grande faz com que eles procurem igrejas brasileiras. Nelas, apesar de não haver um espetáculo de música de tanta qualidade durante o culto, eles fazem amigos, falam português, comem comidas brasileiras, encontram apoio emocional e conseguem dicas de emprego e moradia. Como pastores evangélicos são sempre um casal, eles muitas vezes também funcionam como pais e mães para estes jovens que saíram da casa dos pais e do Brasil pela primeira vez em suas vidas. Mas ainda assim, estes jovens geralmente continuam frequentando a Hillsong para treinar o inglês e conhecer australianos e a igrejas brasileiras para se sentir em casa. Nesta apresentação mostro como uma igreja brasileira em Sydney, que assimilou muitas características da Hillsong (informalidade, abertura para diversos estilos de vida e culto como um show de música com vídeos), mas ainda é pequena o suficiente para proporcionar a sensação de família, oferece a possibilidade de que muitos vivam entre os dois tipos de pentecostalismo num lugar só.
Apresentação Oral em GT

Umbanda em Berlim. Idéias e imagens de uma religião brasileira na sua diaspora na Europa central.

Autor/es: Inga Scharf
Contrariamente à sua funcionalização como uma religião meramente indígena ou nacionalmente limitada que constrói uma síntese brasileira em seu sistema cosmológico, a umbanda se espalhou por toda a América e na diáspora transatlântica na Europa. As imagens nas mentes e corpos dos crentes como uma forma de repositório de conhecimento - transmitidos traditionalmente pela memória cultural e perceptíveis através do transe religioso – são caracterizadas geograficamente. A minha pesquisa documenta as mudanças ou recontextualizações devidas à transposição da América Latina para a região da Europa Central. A visualização de imagens ou sua consciência simbólica só pode ser feita através de uma pesquisa de campo etnográfica, já que a umbanda é uma religião que se define pela experiência cotidiana e não por dogmas ou livros sagrados. Meu estudo tem portanto como alvo descrições densas dos encontros religiosos (assentamentos, giras e camarinhas), em uma casa de umbanda fundada em 2006 na Suíça, o Ilê Axé Oxum Abalô (também chamado de Terrasagrada), com filiais espalhadas em todos os países de lingua alemã da Europa Central na Suíça (Zurique, Bern), Áustria (Graz e Viena) e Alemanha (Berlim). A mãe-de-santo Ya Habiba de Oxum Abalô vive e dirige todas as filias. Vendo conhecendo os iniciados (filhas- e filhos-de-santo) que na maioria consistem de europeus sem relação familiar no Brasil e convidados em várias localidades e tenho realizado entrevistas. Gostaria de levantar as seguintes perguntas: Desempenham as imagens de caráter dos espíritos diversos, que não são conhecidos como figuras culturais da Europa Central, um papel ainda importante? Como essa religião brasileira é percebida no contexto transnacional: Ela fica brasileira e transporta um jeito brasileiro ou será europeizada? Suspeito que não vão surgir linhas de umbanda na Europa de língua alemã que vão adorar marginalizados da sociedade local no culto religioso, como acontece no Brasil. Em países de língua alemã poderia haver linhas espirituais de desempregados, deficientes e crianças, uma vez que eles não têm todos um lobby próprio. Haverá este aspecto político-social na umbanda de língua alemã? É provável que a religião umbanda venha a acentuar diferentes aspectos de sua cosmologia no lugar do sociológico. Como tese poderia ser formulada o fato de que a natureza ou a experiência com ela é que é percebida como algo marginalizado e esquecido e que, portanto, recebe uma valorização.
Apresentação Oral em GT

O Sagrado à porta fechada: etnografia de um terreiro de Candomblé em Lisboa

Autor/es: Roberta de Mello Correa
O presente trabalho busca observar o movimento de transnacionalização de uma prática religiosa afro-brasileira, o Candomblé, para Portugal, tendo como lócus da análise os fluxos das práticas culturais que são estabelecidas entre Brasil e este país. Essa análise é fruto da etnografia realizada durante meu doutorado no Ilê Asè Omin Ogun em Lisboa, onde pude observar como práticas culturais afro-brasileiras são apropriadas por seus praticantes de forma a criar novos significados para um candomblé Luso-Afro-brasileiro. Pude observar durante a pesquisa que a produção do reconhecimento de um terreiro de candomblé em Portugal opera em dois planos. O primeiro deles é o universo institucional-legal, passado por legislações que reconhecem e regulamentam as religiões, garantias previdenciárias, benefícios fiscais, etc. O outro plano trata da dimensão simbólica do reconhecimento do terreiro, sobretudo perante outros pais e mães de santo. O reconhecimento no campo do sagrado, no caso de Ilê Asè Omin Ogun, passa pela afirmação da autenticidade, e esta autenticidade remete a laços com o Brasil. O Ile Asè Omin Ogun, segundo sua página na internet, teria sido o primeiro terreiro de candomblé de Portugal a ser reconhecido religiosamente pela Fenacab, que é a Federação Nacional do Culto Afro-brasileiro localizada no Brasil na cidade de Salvador, Bahia. Neste sentido, busquei conhecer mais profundamente o cenário das práticas do candomblé português, perscrutando seus personagens, suas práticas e os estudos existentes sobre ele.
Apresentação Oral em GT

Representações de Gênero na Religião: relações e vivências na esfera domestica e familiar

Autor/es: Ricardo Justino dos Santos
A presente comunicação atenta para as representações de gênero, a partir da “experiência religiosa”; o rito de renovação do Sagrado Coração de Jesus e sua relação com as vivências na esfera doméstica e familiar. O rito tem suas raízes enquanto devoção na origem dogmática cristã e é uma prática paralitúrgica que atesta a fé dos católicos. Inicialmente faz-se a consagração da casa; a entronização da imagem do Coração de Jesus, onde um beato/ padre conduz a oração. Um ano depois de abençoado o lar, a família passa a renovar essa consagração, o rito de Renovação. Atualmente, é realizado em lares domésticos sob a orientação e realização de mulheres, “as tiradeiras”. Tem como objetivo renovar a fé em/ na família a partir do dia em que a unidade familiar se constitui naquela determinada casa. Percebendo que o rito é constituído majoritariamente por mulheres, inicialmente realizei um campo exploratório no qual objetivei compreender como se configurava a participação feminina e masculina na Renovação do Sagrado Coração de Jesus, focando em como esses gêneros eram dispostos no rito e nos espaços que o circundam. Tendo este uma ligação direta com a família, até mesmo em seu objetivo, proponho ainda compreender como as representações de gênero em dada prática religiosa (rito de Renovação do Sagrado Coração de Jesus) estabelece relação e imbricações com a estrutura familiar e doméstica. Voltar o olhar sobre o gênero para prática ritualística, é, sobretudo se voltar para o significado que os indivíduos dão a ação. Se este, até mesmo em sua preparação “orienta” as mulheres que participam/ realizam, à praticas/ atividades ligadas diretamente ao espaço familiar e domestico, faz- se necessário abordar esses espaços também.
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