Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT059. Risco: entre teoria e práticas sociais/coletivas

Riscos industriais, ambientais, econômicos e políticos, que podem afetar toda a humanidade, tornaram-se centro de um debate com múltiplas e complexas dimensões. Entre nós, a noção de risco se difunde no senso comum, acumula significados e expressa ethos e visões de mundo, cujos efeitos estão associados à normatização/regulação das relações interpessoais, das relações com as coisas/natureza e à produção de modos de vida. Como conceito, adquiriu hegemonia nas ciências modernas com o sentido de possibilidade de um evento negativo acontecer, mas só ganhou visibilidade nas ciências sociais a partir dos anos 1980. A proposta deste GT é reunir pesquisadores que tomam o risco como chave para interpretar a contemporaneidade e a sociedade brasileira. Ensaios teóricos e pesquisas serão aceitos de maneira a apresentar a diversidade teórico-metodológica deste campo, principalmente na antropologia. Os seguintes temas poderão ser abordados: 1) riscos e incertezas produzidos pelo desenvolvimento técnico-científico; 2) políticas de comunicação, administração e prevenção de riscos; 2) domínios profissionais e práticas de esportes radicais/competições esportivas; 3) políticas de saúde, tecnologias da vida/morte, “geneticização” da vida e formas de resistência; 4) percepção dos riscos e suas implicações socioculturais; 5) o “gosto pelo risco” por parte de quem valoriza sua experiência; 6) o conceito de risco nas diretrizes éticas para pesquisa em ciências humanas e sociais.

Ednalva Maciel Neves (Universidade Federal da Paraíba/UFPB)
(Coordenador/a)
Leila Sollberger Jeolás (Universidade Estadual de Londrina (UEL))
(Coordenador/a)

Sessão 1

Daniela Riva Knauth (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
(Debatedor/a)

Sessão 2

Glaúcia Oliveira da Silva (UFF)
(Debatedor/a)

Sessão 3

Luiz Antonio de Castro Santos (UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL DA BAHIA)
(Debatedor/a)


Grande mídia, pânico moral e práticas culturais juvenis: produção, invenção e experimentação de riscos

Autor/es: Alexandre Barbosa Pereira
A partir de um enfoque sobre duas práticas culturais juvenis, a pichação e os rolezinhos, pretende-se discutir as abordagens estigmatizantes da grande mídia, que produzem pânico moral. A pichação em São Paulo é uma atividade, cuja noção de risco é expressa de duas maneiras, pela ideia de adrenalina e a de perrengue. A primeira é definida como uma experimentação de riscos que lhes confere reconhecimento e sentido para a sua existência. Já o perrengue refere-se aos perigos aos quais são expostos por causa de suas condições sociais de jovens moradores de bairros periféricos da cidade, como o de ser preso pela polícia ou mesmo assassinado. Assim, ao arriscarem-se no alto de um prédio para deixar uma marca, tentam mostrar-se no controle dos riscos aos quais são submetidos cotidianamente. A repercussão midiática dessas práticas, no entanto, produz um duplo efeito sobre a ação dos pichadores. Por um lado, estimulam-nos ainda mais a atuar na cidade, pois sabem que, dessa forma, alcançarão ainda maior visibilidade. Por outro lado, no entanto, ao serem vítimas de um enfoque criminalizante, que os estigmatiza como bandidos, sua prática torna-se ainda mais arriscada e a perseguição policial mais violenta. A outra atividade, os rolezinhos, apesar de a princípio não ser caracterizada diretamente pelo risco, explicitou ainda mais como a estigmatização midiática gera um pânico moral sobre as condutas juvenis, apresentando-as como perigosas. Os rolezinhos foram encontros em shopping centers combinados pelas redes sociais que levaram, nas férias de final do ano de 2013 e início de 2014, centenas de jovens pobres, fãs da música funk, para os centros comerciais da cidade. O medo dos jovens levou alguns lojistas e frequentadores a chamarem a polícia. Com a presença desta a reprimir, iniciou-se grandes correrias e tumultos nesses espaços. A grande mídia logo noticiou tais eventos como arrastões em shopping centers. Desse modo, aquele que seria o espaço mais seguro, na concepção de uma grande parcela da população paulistana, tornar-se-ia um lugar de risco e medo, o que levou a invenção de arrastões e roubos que nunca existiram. Desse modo, a proposta é discutir como as noções de risco e medo produzem diferentes associações nas práticas culturais juvenis em si, mas também nas representações sociais que são feitas a respeito delas. Nesse sentido, o papel da mídia em aumentar a sensação de risco sobre determinadas atividades, propiciando pânico moral, e em atenuar os risco de atividades com potencial muito mais perigoso, revela-se fundamental. Em alguns casos, as mídias acabam por inventar perigos e, dessa forma, promover a perseguição a determinados grupos sociais e indivíduos.
Apresentação Oral em GT

Turismo de células-tronco: fronteiras entre risco e esperança

Autor/es: Angela Vasconi Speroni
Desde a virada do século XXI, as células-tronco assumem posição de destaque entre os atores biotecnológicos privilegiados, cujo protagonismo reside na perspectiva de uma tecnologia regenerativa, capaz de superar os desafios do adoecer e do envelhecimento, a partir de uma fonte potencialmente ilimitada de tecidos para transplantes. Com o advento de uma medicina que pretende-se personalizada, aumenta o número de doentes e familiares mobilizados pelas promessas das ditas “células da esperança”. No horizonte de constituição de um novo mercado de saúde, também cresce o montante de clínicas que ofertam tratamentos com células-tronco para os mais variados quadros patológicos, em escala global – especialmente em países com restrita ou nenhuma regulação referente à terapia celular, por parte do Estado. No Brasil, a mídia frequentemente anuncia casos de enfermos que viajaram para outros países, na busca por acesso a modalidades terapêuticas inovadoras, mediante judicialização de demandas em prol de financiamento do Governo Federal, para cobertura dos gastos com a viagem e tratamento. Por outro lado, pesquisadores e entidades regulatórias do campo concentram esforços na divulgação dos riscos desse movimento conhecido como “turismo de células-tronco”, alertando para a exploração do desespero de indivíduos acometidos por doenças cujas expectativas de cura são ínfimas. As principais organizações nacionais e internacionais vinculadas às pesquisas com células-tronco afirmam que a maior parte do que existe de mais avançado no mundo, até o momento, são apenas ensaios com testagens em pacientes, destacando os desafios para passagem do âmbito da pesquisa básica às aplicações clínicas, sobretudo no que concerne ao tempo e rigor científico para comprovação da eficácia, segurança e autorização legal dos procedimentos. A partir da análise de notícias divulgadas pela mídia nacional e websites de clínicas internacionais que comercializam tratamentos celulares, este trabalho tem por finalidade pensar o “turismo de células-tronco” como parte de um movimento mais amplo, determinado pela intensificação das relações entre ciência, mercado e Estado(s). Frente à instauração de novas articulações biopolíticas entre verdade, poder e comércio, tecidos, células humanas, conhecimentos, recursos e potenciais clientes se convertem em capital de investimento, refletindo a produção de novas sensibilidades e moralidades, decorrentes de uma democratização das informações e do imperativo do gerenciamento dos riscos.
Apresentação Oral em GT

Riscos, Enfermidades e Narrativas das doenças do Amianto: uma proposta de etnografia das percepções de risco e adoecimento em Minaçu-GO

Autor/es: Arthur Pires Amaral
Através do método etnográfico, a pesquisa de doutorado proposta neste paper terá como objetivos: (i) analisar as diferentes percepções de risco construídas sobre/em Minaçu – cidade do interior goiano, que abriga a única mina de amianto em atividade na América Latina e a terceira maior do mundo – vinculadas às doenças asbesto-relacionadas; (ii) investigar os usos políticos e médicos, tanto na legitimação dos interesses econômicos da indústria do amianto quanto no possível reconhecimento público do adoecimento de moradores daquela cidade devido à inalação das fibras desse mineral; (iii) investigar marcadores sociais de identidade e de diferença presentes entre os moradores de Minaçu, postos em circulação na cidade por meio de narrativas sobre os possíveis riscos decorrentes da exploração e industrialização do amianto, e (iv) analisar os sentidos e valores que a indústria do amianto vincula aos corpos de seus trabalhadores em Minaçu. Seu referencial teórico se fundamenta em estudos – desenvolvidos no campo das Ciências Sociais – sobre a construção social de riscos, suas múltiplas formas de percepção e aceitabilidade, mas, também, em discussões levantadas por variados autores do campo da Antropologia da Saúde e da Doença. Com a justaposição e análise de argumentos jurídicos, epidemiológicos e de saúde coletiva acerca do uso do amianto e de seus produtos no Brasil, do papel da S.A. Minerações Associadas (SAMA) em Minaçu e do modo como os habitantes da cidade pensam a sua condição de trabalhadores e moradores, minha pesquisa pretende trazer uma contribuição aos estudos antropológicos sobre a construção social de riscos e de "illness narratives".
Apresentação Oral em GT

"A gente faz a linha": notas antropológicas sobre percepções do risco de violência de gênero na saída de um bar GLS em Goiânia

Autor/es: Bruno dos Santos Hammes
O presente artigo visa apresentar uma discussão referente as noções ou percepções de risco com as quais tive contato durante a realização da etnografia da qual resultou minha dissertação de mestrado apresentada ao programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Goiás no ano de 2015. Para tanto tomo como ponto de partida as experiências compartilhadas em campo com jovens gays frequentadores de um bar GLS de uma região periférica da cidade de Goiânia (GO), e articulo as narrativas à bibliografia sobre o tema para ajudar a entender como, apesar de todos os riscos (JEOLÁS, 2010) aparentes, ainda assim os jovens insistem em frequentar o “Feirão do chopp” bar onde foi realizada a pesquisa sobre as sociabilidades juvenis na periferia de Goiânia. Exploro ainda nessa análise algumas das diferentes percepções do que é ou não arriscado trazendo para análise reflexões que mostram diferentes percepções inclusive entre o pesquisador e os frequentadores. O fato é que, de acordo com a forma através da qual estes sujeitos encaram cada uma das experiências tratadas neste artigo, as mesmas podem representar perigos ou riscos: perigo de “ser confundido com homossexual”, perigo de “ter sua virilidade questionada”, perigo de “ser visto”, perigo de “se relacionar com alguém que não seja de Goiás” entre outros. Havendo uma última dimensão de perigo que é a possibilidade da violência que pode ocorrer tanto dentro quanto fora do local, mas que toma proporções e, via de regra, exige mais precauções, quando se esta do lado de fora do bar. Uma vez que lá dentro, como vimos, os sujeitos conseguem negociar o “controle” das reações dentro de uma margem do tolerável. Por fim, abordo a imprevisibilidade do limite e das manobras possíveis no ambiente da rua é que, enfoco o que chamo de riscos e/ou medos de “ir embora sozinho”. E de forma complementar, tal qual pude aprender com os sujeitos, destaco a busca dos sujeitos pela melhor estratégia para encerrar, “são e salvo” e livre dos riscos inerentes à trajetória que se inicia ao planejar sair de casa e termina quando se chega de volta ao mesmo local. Por fim, abordo o que é ou não perigoso para os interlocutores da pesquisa, a leitura de Jeolás (2010) nos remete a uma série de sutilezas e nuances, dentre estas elencadas pela autora, nos interessam ao menos duas. A saber, a dimensão geracional e suas implicações na formulação e vivência do risco e a segunda o gênero e suas consequências no estabelecimento de riscos diferentes para gêneros e/ou sexos diferentes, como veremos mais a frente.
Apresentação Oral em GT

“Pixo pra me sentir vivo”: notas etnográficas sobre a concepção de risco na pixação.

Autor/es: Daniela Sales de Souza Leão
Através de experiências de campo, pretende-se discutir sobre como a pixação proporciona reflexões acerca das concepções de risco e como esta passa a ser valorizada como experiência nos espaços de sociabilidade frequentado por grupos de pixadores. Nas rodas de conversa, formadas nesses espaços, frequentemente ouve-se sobre histórias de pixadores que viveram ou morreram após tentativas arriscadas, e que posteriormente passaram a adquirir respeito e reconhecimento entre seus pares. Demostrando como ao se arriscarem se sentem vivos e acionam dispositivos de memória, respeito e reconhecimento, possibilitando a relação destes ao modo como experimentam e percebem o risco, pois, como enfatizou um pixador ao descrever uma de suas experiências que quase lhe custou a vida, “pixo pra me sentir vivo” (Diário de Campo, 10 de Dezembro de 2015). Além disto, “Quem não é visto, não é lembrado” (PEREIRA,2012) é uma expressão frequentemente dita entre os pixadores para se referir a uma lógica seguida pela maioria deles se referindo a uma busca por ser reconhecido e lembrado, principalmente entre seus pares, através de suas ações mais arriscadas - para isso os pixadores procuram lugares de difícil acesso colocando em risco a sua própria vida. Ou seja, aquele que consegue gravar seu nome no maior número de lugares, e de maior destaque, alcança reconhecimento, memória e respeito. O que nos faz refletir sobre como o “gosto pelo risco” passa a ser valorizado quando se coloca como critério a experiência do pixador e sua prática, considerando, também, que os mais respeitados são aqueles que se arriscam nas escaladas, pixam órgãos jurídicos e ousam em lugares de difícil acesso. Desta forma, há um modo próprio de se pensar e experimentar o risco na pixação. Tentarei trazer, a partir de histórias de vida compartilhadas nas rodas de conversa que participei em festas de pixação, como os pixadores da cidade do Recife/Pernambuco utilizam-se da concepções de risco e o modo que experimentam através das noções de adrenalina e perigo para atribuir reconhecimento entre seus pares. Portando, pretende-se trazer a forma como experimentam e dão sentido ao risco a partir de suas próprias histórias de vida. Mary Douglas (2011) nos mostra que inicialmente a ideia de risco se referia a algo neutro, que poderia tanto apontar uma perda ou um ganho. Então, por que não poderíamos pensar sobre o risco a partir da ótica dos prazeres e ganhos? Os pixadores nos convidam a refletir sobre.
Apresentação Oral em GT

ESPAÇOS PARA ESCONDER E ESPAÇOS PARA SER: a convivência e as conveniências dos riscos na experiência de bairros urbanos em Limeira (SP)

Autor/es: Eduardo José Marandola Junior, Stephanie Maldonado Raíssa Salgado Rodrigues
A experiência urbana de bairros urbanos conhecidos como “periféricos” é marcada pela retórica da perda e daquilo que falta: serviços públicos, urbanização, segurança, condições ambientais e de vida. O estigma da distância, da precariedade da urbanização e das condições de vida reforçam a imagem da exclusão e da violência. Tudo que falta ou que marca negativamente tais bairros está sob o signo do risco, expressando tanto perigo para os habitantes (os de dentro) quanto para os visitantes (os de fora). Estes bairros marcam a própria constituição da nossa história urbana, de um lado, e são marcados por ela, mantendo consigo o estigma do risco, mesmo depois de sua consolidação urbana ou da superação de sua condição de “periferia”. O risco, portanto, é percebido e vivido como integrante da própria identidade e constituição do bairro, tencionando a convivência no bairro e expressando seu próprio sentido, tanto como imagem projetada (sua representação no imaginário urbano) quanto os sentidos que são constituintes pelos grupos e pessoas que nele vivem. Em vista disso, conviver com o risco se torna imperativo, embora não de maneira inequívoca. Como lidar com este estigma, esta imagem marcante na experiência cotidiana? Se o acúmulo de riscos pode marcar negativamente as tentativas de inserção em outras esferas e espaços da cidade, há também uma conveniência dos riscos, que se materializam em determinados espaços destes bairros destinados a uma maneira de ser, como contravenção, que dribla e manipula o estigma do risco a seu próprio favor. São espaços de reunião e de sombreamento; espaços para celebração e para proteção; espaços que expressam a tensão da existência e convivência com o risco no bairro, servindo de salvaguarda e de prisão. Na tensão vivida nestes bairros marcados pelos riscos, estes espaços escondem e revelam as possibilidades de ser-e-estar-no-mundo, como vida criadora que se opõe e resiste, transformando o sentido de risco e sua forma de experiencia-lo no urbano contemporâneo. Este estudo reflete sobre estas questões a partir de pesquisas realizadas em dois bairros de Limeira (SP): o Jardim Cortez e o Jardim Nossa Senhora das Dores. Bairros com histórias próprias, compartilhando o estigma de periferia e revelando, cada um à sua maneira, a constituição destes espaços distópicos de experiência dos riscos urbanos contemporâneos.
Apresentação Oral em GT

Quando cinema e saúde se cruzam: repensando a noção de “risco” e “adoecimento” à partir do filme “Kids”

Autor/es: Esmael Alves de Oliveira
O presente trabalho busca refletir sobre a intersecção entre cinema e saúde. Ao voltar-me para a análise do filme norte-americano “Kids” (1995), dirigido por Larry Clark, me proponho pensar, numa perspectiva antropológica, em que medida a narrativa cinematográfica constrói significados tanto sobre a noção de “risco” quanto sobre processos de adoecimento e, desse modo, reitera ou reelabora imaginários e compreensões em torno da problemática do HIV/Aids. Quais os discursos? Quais os sentidos? Quais possíveis as conexões entre a ficção e “realidade”? Como pensar a saúde a partir de uma perspectiva estético-cinematográfica? Seria possível uma antropologia da saúde a partir do cinema? São questões que busco problematizar e refletir a partir dos principais aspectos que compõem da mise-en-scène de “Kids”.
Apresentação Oral em GT

Percepção de riscos e implicações socioculturais: uma análise sobre o uso de agrotóxicos por camponeses integrados à agroindústria do dendê no Estado do Pará.

Autor/es: Genisson Paes Chaves, Sônia Maria Simões Barbosa Magalhães dos Santos
Analisamos como e através de que constructos sociais uma sociedade camponesa da Amazônia Oriental, “integrada” a agroindústria de dendê (Elaeis guineensis Jacq.) do Grupo Agropalma SA, faz sua leitura sobre os agrotóxicos inicialmente aplicados no dendezeiro e posteriormente em outros cultivos. À luz das contribuições de “Risco e cultura” de Douglas e Wildavsky (2012) e de outros trabalhos que versam sobre o tema, analisamos que tipo de agrotóxico é utilizado na referida vila, quem e como o aplica, como é compreendido e como o mesmo entra no sistema de classificação local. O trabalho apresenta parte de uma dissertação de mestrado, baseada em estudo de caso realizado em São Vicente, uma vila rural localizada no nordeste paraense, precisamente no município de Moju. Nesta sociedade, o agrotóxico, que antes não era um elemento presente no cotidiano, é identificado como veneno ou química. Entra no sistema de classificação local como algo perigoso e danoso à saúde, pois fica no ar, “anda” na terra e no igarapé e se manifesta sob a forma de sereno, fortidão e catinga. Ademais, parece haver uma propriedade no veneno que é sua ambiguidade a qual se expressa no lado positivo, para a planta, e negativo, para o ser humano. Essa ambiguidade, de certo modo, resulta uma inexorável relação com o veneno. Ou seja, ao mesmo tempo em que os camponeses da referida Vila reconhecem o risco/perigo, advindo dos agrotóxicos, e o discurso das regras ditas como de proteção, entendem que não há como evitá-lo. E desenvolvem soluções próprias para lidar com essa ambiguidade, que vão desde proteções como o uso de lenços para proteger o nariz à formulação da "cola", por exemplo - um preparado local utilizado para concentrar o veneno, para que ele não voe. É, portanto, o elemento que fixa o potencial de evaporação do orvalho, para que o sereno e a fortidão não se propaguem. Nesse sentido, a cola impede que o veneno ande pela vila São Vicente. Na prática, estas categorias são formas de pensar os agrotóxicos e denotam como as sociedades camponesas se apercebem do alto grau de risco - algo que está no ar, que se transmuta em gotículas e entra pela respiração e pelos poros. Embora haja um discurso de valorização de normas para um suposto uso seguro do agrotóxico, estas não são nem plena nem majoritariamente seguidas. Assim, parece haver uma espécie de saber silenciado sobre o risco, cuja aceitação passa a ser localmente mediada por um curso de capacitação para lidar com o veneno. Esse trabalho reflete sobre um processo de envenenamento que vem atualmente ocorrendo em diversas sociedades amazônicas.
Apresentação Oral em GT

Os sentidos do risco: a cobertura jornalística do câncer no jornal O Globo

Autor/es: Katia Lerner, Caio Leão Coelho
A noção de risco vem se constituindo uma categoria de grande importância nas formas de entendimento de eventos considerados negativos ou perigosos na contemporaneidade. Na saúde, isso pode ser observado pela sua circulação entre profissionais da área, instituições governamentais, meios de comunicação e indivíduos na vida cotidiana. No entanto, não se trata de um termo estável, sendo utilizado e compreendido de formas distintas segundo os espaços, os atores sociais e os objetos aos quais se refere. Esta comunicação tem como objetivo investigar como a noção de risco vem sendo construída em relação ao câncer, tomando como eixo de investigação os enunciados jornalísticos. Nosso objeto de análise são os textos publicados no jornal O Globo entre janeiro e março de 2013, sem distinção de editoria ou formato jornalístico. Justificamos a escolha deste jornal não apenas por se tratar de um dos veículos de maior circulação no país mas principalmente por desfrutar de importante poder simbólico no cenário nacional. A saúde vem despertando o crescente interesse das mídias, as quais por sua vez representam importante espaço de produção de sentidos sobre o mundo. O jornalismo em particular desfruta de grande autoridade e legitimidade, constituindo-se, como sugerem Giddens e Miguel, um sistema perito, baseado em relações de confiança. No entanto, ele não apenas desfruta de confiança, mas é um ator político importante que pode promovê-la, posicionando-se como instância capaz de conferir ou minar a legitimidade de certos saberes, no que Miguel conceituou como “meta-sistema perito”. Os textos analisados sugerem que a produção noticiosa sobre o risco adquire algumas especificidades devido ao caráter crônico desta enfermidade. Diferente das epidemias, que se apresentam em geral pela noção de urgência, outra temporalidade se instala, a do cotidiano, o que se atesta pela sua presença nos mais diferentes espaços do jornal. Nas editorias de cultura, observamos a visibilização de inúmeras personagens “célebres” ou de ficção caracterizadas como “vencedoras” ao debelar a doença. Nas editorias de ciência e saúde, a noção de perigo aparece domesticada pelo poder da ciência, apresentada como instância promotora de esperança mediante as novas descobertas científicas. O jornal se apresenta como espaço de orientação sobre autocuidado, convergindo com o discurso científico ou ainda sobrepondo-se a ele ao omitir por vezes as fontes e se instituindo como principal autoridade discursiva. O grande lugar do risco parece não se situar na doença em si, mas na postura das autoridades ao lidarem com ela, seja na sua associação com a saúde pública, mostrada como inepta, seja no destaque dados aos políticos doentes, frequentemente retratados como “maus” gestores da sua própria enfermidade.
Apresentação Oral em GT

Medo, medos corriqueiros, risco e sociabilidade

Autor/es: Mauro Guilherme Pinheiro Koury
Esta comunicação parte do pressuposto de que o medo é uma emoção constituída no interior das relações sociais. Emoção esta significativa no entendimento e análise das formações societárias. Parte da questão relevante de que o medo é uma emoção socialmente disposta e uma construção social de sentidos, fundamental para se pensar os processos de sociabilidades e de formação dos instrumentos da ordem e da desordem em um social qualquer. O objetivo desta comunicação é o de compreender e discutir as bases da construção social do medo no imaginário do homem comum, como um jogo permanente de manutenção, conformação e transformação de ensaios sociais e individuais realizados enquanto redes de conflito que informam e formulam um social em um tempo e em um espaço determinado. A discussão sobre os medos privilegia, nesta comunicação, não os grandes medos, mas os medos ordinários e corriqueiros presentes na vida cotidiana de uma sociabilidade. O medo, enquanto emoção social monta, compreensivamente, as bases da construção social em que se assentam os códigos do silêncio e da discrição enquanto configurações social e psicológica de retraimento e subordinação, bem como, enquanto um processo disciplinar e da paralisia social ou individual por ele provocado. Toma como ponto de partida analítico as relações entre indivíduos ou grupos, apreendidas como permeadas pela presença direta ou indireta do medo. A problemática do estranhamento enquanto impulso que afasta ou se aproxima do outro é vista através da constituição ambígua dos medos cotidianos que informam e conformam a vida ordinária. Simmel discute a noção de segredo através do aspecto de mão dupla que este conceito permite: o do risco e insegurança e do medo que provoca a ação, e o da configuração e a remontagem dos experimentos socialmente dispostos pela ação social de indivíduos e dos grupos sociais. Nesta via de mão dupla sobressai o fenômeno da possibilidade da traição como um elemento a mais a emoldurar as ações coletivas e individuais. A possibilidade de traição entendida através da centralização e da busca do controle dos membros de uma comunidade de segredo à guarda e à manutenção do mesmo e, simultaneamente, através da ação de garantir sentido à eficácia própria do segredo, antes de apenas anestesiar os membros de uma comunidade. A ação social e socializadora e os caminhos de sua negação ou de sua imposição serão analisados como uma ação de risco, se fazendo ou se exercendo sempre sob a possibilidade de traição e quebra de confiança aliançada nas interações. Trás como resultado analítico, por fim, de que é o controle do medo ou sobre o medo de traição que parecem se assentar os códigos conformadores ou transformadores de uma instância societal qualquer.
Palavras chave: Medos, MedosCorriqueiros, Risco
Apresentação Oral em GT

O risco como governo, o governo do risco e suas implicações

Autor/es: Raquel Oliveira Santos Teixeira
Segundo Ewald (2000), risco tem se tornado um conceito ubíquo na sociedade moderna, presente no campo dos negócios, dos investimentos financeiros, das ameaças ecológicas, da seguridade social, médico, militar, do controle da criminalidade e mesmo no domínio jurídico onde o termo é associado às noções de responsabilidade e confiança. Para Guivant (1998), a despeito das divergências, as abordagens sociológicas do risco apresentam em comum a crítica às leituras estritamente técnicas e quantitativas dos riscos na medida em que estas desconsideram “que tanto as causas dos danos como a magnitude de suas consequências estão mediadas por experiências e interações sociais” (p. 3). A proposta é discutir maneira sintética as principais abordagens teóricas do risco, enfatizando as limitações da perspectiva de Ulrich Beck e discutindo novos potenciais de análise aportados pelos estudos da governamentalidade. A partir da pesquisa empírica desenvolvida no âmbito do doutorado, a saber, a análise da trajetória de luta de um grupo de moradores afetados pelas emissões de um incinerador de lixo industrial e hospitalar em Belo Horizonte, problematizo as modalidades de tratamento institucional associadas à gestão dos riscos cujos resultados são particularmente perversos para as populações afetadas e suas unidades de mobilização.
Apresentação Oral em GT

Sociedade de risco e Legislação Antiterror

Autor/es: Veronica Tavares de Freitas
O debate da sociedade de risco acarreta uma série de consequências na modernidade. A possibilidade de destruição em massa e uso de armamentos de variados tipos criam uma atmosfera de insegurança atual. De outro lado, este mesmo discurso é utilizado para justificar políticas que reduzem direitos e aumentam a esfera do direito penal e do controle estatal. Um dos processos contemporâneos em que esta relação contraditória se verifica é na política de "combate ao terror" protagonizada pelos Estados Unidos desde 2001 e já hegemônica nas relações internacionais do ponto de vista ocidental. Além de servir como justificativa para a manutenção de guerras e intensificação de tensões entre povos, na política interna dos países cria-se por todo o mundo legislações antiterror que apresentam como característica a amplitude desta categoria, aprofundando a arbitrariedade dos operadores jurídicos, bem como a retenção do direito à manifestação e o incremento punitivo estatal. O presente trabalho tem como objetivo analisar a legislação antiterror nacional em curso, estudando o processo de institucionalização deste novo tipo penal e quais os riscos provocados pela iniciativa que justamente se pretende como uma "prevenção" ao risco do terrorismo. O Projeto de Lei 2016/2015 em tramitação prevê de 12 a 30 anos de detenção para quem "provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública". Nota-se a amplitude da legislação, ressaltando-se que se trata de um debate internacional a dificuldade em classificar o que seriam atos de terrorismo do ponto de vista legislativo. Após intensos debates na Câmara, o Projeto de Lei ressalva que manifestações políticas estariam fora do enquadramento previsto, entretanto o mesmo texto prevê entre as possibilidades de prática terrorista os atos de "incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de transporte ou qualquer bem público ou privado", o que constitui um repertório de ação das manifestações políticas, como ocorreu em 2013 nas grandes mobilizações nacionais contra o aumento das passagens. Vale assinalar que ainda não é possível pesquisar os efeitos da legislações, uma vez que a mesma não está em vigor no Brasil, entretanto faz-se necessária a análise do debate público que ensejou o Projeto, à luz das posições internacionais, bem como o estudo dos agentes do Estado envolvidos com sua aprovação.
Apresentação Oral em GT

O Policial Militar e a influência do risco percebido na vida pessoal

Autor/es: João Marcos Francisco Sampaio
Devido à natureza de suas atividades, os policiais militares são os operadores de Segurança Pública que estão mais expostos ao risco. Os integrantes das corporações policiais militares estaduais desenvolvem atividades ostensivas, encontram-se em contato direto com a população civil, prevenindo, reprimindo ou mediando conflitos, e também lidam com situações de crime, sobretudo flagrante delito e situações de combate. Vale ressaltar também, que o trabalho policial é marcado pela imprevisibilidade, o que baliza o trabalho policial é a ocorrência (MONJARDET, 2012), ela definirá os rumos e as decisões a serem tomadas, muitas vezes decisões instantâneas, que estabelecerá se o policial será bem ou mal sucedido em sua atuação e se sairá incólume. Dados esses fatores os policiais militares estão sujeitos a serem vitimados em decorrência de sua profissão seja enquanto atuam nas ruas, por sua própria condição profissional, ou como forma de retaliação por algo que tenha feito no exercício da profissão. Tais riscos são percebidos pelos policiais, e essa percepção do risco perpassa toda a vida do agente policial, não se restringe apenas para os momentos em que o mesmo está exercendo de fato atividades policiais stricto sensu, mesmo quando está em momentos de folga e de lazer o risco está presente. Isso é notado mesmo pelos policiais que não desenvolvem atividades ostensivas, os que executam atividades-meio à efetiva prestação do serviço policial, como atividades administrativas ou de inteligência, visto que a qualquer momento poderão voltar às ruas graças a uma reorganização setorial promovida pelo Comando, além do que o próprio status de ser policial gera risco por si mesmo. O risco é percebido por todos os integrantes de forças policiais, mas é notadamente maior entre os policiais militares (MINAYO, 2007). Tal problema se agrava quando os policiais vêm de comunidades periféricas, e nelas permanecem, onde a atuação da corporação é nitidamente violenta e repressiva e onde há o domínio de grupos criminosos, nessas situações a percepção de risco é majorada e leva a criar hábitos de proteção, inclusive escondendo seu status profissional (ALVES e EVANSON, 2013). A sensação de insegurança por parte dos policiais, tanto durante quanto fora da jornada de trabalho, leva a criação de hábitos diferenciados, de forma que o ser policial adentra em todas as esferas da vida do agente de segurança pública, é um status que se arraiga no ser, a atividade profissional se insere na vida pessoal e social.
Pôster em GT