Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT058. Religiões e percursos de saúde no Brasil hoje: as “curas espirituais”

O GT busca compreender e discutir amplamente o itinerário terapêutico da pessoa em situação de sofrimento que recorre às instâncias de solução dos problemas que a atingem, sejam oficiais, "complementares" ou "não convencionais": ioga, técnicas de relax, de meditação, sistemas de fitoterapia, xamânicos, sociedades ou grupos, religiosos e não, que promovem curas pela oração, por exorcismos, assim como por rituais de libertação de diversos tipos de aflições psicossomáticas. Embora a matriz disciplinar antropológica encare saúde e doença como fatos sociais, estudos recentes neste campo e exigências da interdisciplinaridade induzem a levar em conta a base biológica e psicossomática dos fenômenos a serem estudados, não apenas sócio-antropológicos, mas psicológicos e médicos da cura. Daí considerar-se desejável a presença de profissionais da saúde no GT, como participantes ou consultores. Os trabalhos podem, igualmente, discutir ainda formas de engajamento corporal fomentadas nos espaços religiosos, procurando relacionar o conjunto de ritos, práticas, exercícios e disciplinas corporais, tenham estes ou não finalidade curativa, a uma ou mais das seguintes questões: a) relações de poder e divisões de gênero, classe e (ou) geração no interior do grupo religioso; b) processos terapêuticos desenrolados nestes grupos; e c) o processo mais amplo de construção da pessoa na religião, antes e/ou concomitantemente às práticas de cura.

Bartolomeu Figueirôa de Medeiros (UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO/ UFPE)
(Coordenador/a)
Raymundo Heraldo Maués (Universidade Federal do Pará)
(Coordenador/a)


Práticas de prevenção e cura de doenças através do Odaimoku

Autor/es: Alexsânder Nakaóka Elias
O presente trabalho pretende mostrar as diversas práticas de cura e prevenção de doenças – sejam elas de origem física, mental ou espiritual - da primeira corrente budista do Brasil, denominada Honmon Butsuryu-shu (HBS) ou Budismo Primordial, que aportou em terras brasileiras através do "odoshi" (significa “monge” ou “sacerdote”, em uma tradução realizada pelos próprios religiosos, no Brasil) Ibaragi Nissui Shounin, em 1908. Acompanho esta escola budista, composta por sacerdotes e uma comunidade de fiéis, desde o mestrado, iniciado no ano de 2011, tendo realizado pesquisas de campo tanto em templos no Brasil quanto em santuários no Japão, país de origem do segmento em questão. Tais etapas de pesquisa e convívio com a comunidade HBS me permitiu constatar a existência de um poder curativo associado à prática do "Odaimoku", que consiste na entoação do mantra sagrado e principal oração desta corrente, chamada "Namumyouhourenguekyou". Tal mantra, que também corresponde a uma prática meditativa - com entonação da voz, posturas e gestual característico - é capaz, para os adeptos (que são chamados de “fiéis”, no Brasil), de curar e prevenir doenças consideradas pela medicina ocidental como gravíssimas, como diversos tipos de câncer; além de males psicológicos e psicossomáticos associados ao cotidiano, como o estresse, a fadiga e o sofrimento. É interessante pensar, ainda, no poder curativo deste mantra e oração, que pode, segunda a tradição da Honmon Butsuryu-shu, eliminar as consequências do "karma", um conceito hinduísta herdado e adaptado pelo Budismo, que defende que qualquer ato ou pensamento, por mais insignificante e inofensivo que pareça, voltará ao indivíduo com igual impacto. Assim, se uma pessoa tem um pensamento ou ação ruim em relação a ela ou a outro ser vivo, estes serão devolvidos com uma potência que abalará a sua integridade física, emocional e/ou espiritual. A fé no mantra sagrado "Namumyouhourenguekyou" seria capaz, assim, de eliminar o "karma" negativo, através da sua recitação incessante. Além da prática do "Odaimoku" em si, é fundamental mostrar que existem no cotidiano religioso e ritual da Honmon Butsuryu-shu um conjunto de objetos que se tornam (con)sagrados e com faculdades curativas através da recitação do mantra "Namumyouhourenguekyou". Aqui é importante destacar o "Omamori", chamado no Brasil de “protetor pessoal”; o "Okoussui", ou “água benzida” e o "Odyuzu" ou “terço sagrado”. Indo além destes objetos, existentes em todos os templos e casas dos fiéis brasileiros e japoneses, pretendo discorrer sobre uma prática considerada milagrosa pela Honmon Butsuryu-shu, chamada "Reapokegan" ou “cerimônia dos 100 incensos”, capaz, segundos os meus interlocutores, de curar doentes em estado terminal, através da fé no "Odaimoku".
Apresentação Oral em GT

Ebós e Boris como Processos de Cura na Construção da Identidade religiosa dos cultos Afro-americanos e suas relações com o Mercado Religioso

Autor/es: Carlos Eduardo Martins Costa Medawar, MELLO, Marco Antonio da Silva
Os cultos de matriz africana desenvolvidos no Brasil e em Cuba têm uma refinada e complexa prática ritual voltada para os cuidados com a saúde e cura de doenças. Os ebós, trabalhos destinados ao livramento de problemas espirituais e físicos, evidenciados nas práticas rituais cotidianas do candomblé brasileiro e da santeria cubana, marcam a vocação de promoção da saúde dessas formas da piedade afro-americana. Destaca-se nesse processo a importância do mercado religioso, local onde se adquirem os requisitos necessários à consecução dessas distintas liturgias. As praças de mercados são locais onde se imbricam agências que atualizam a oposição complementar expressada no deslizamento (switch) entre dimensões de um complexo sistema classificatório a propósito do campo semântico do par de categorias doença/saúde, contrastando a medicina universitária (savoir expert) às medicinas dos cultos afro-americanos (savoir profane). No Rio de Janeiro, a expressão máxima desse mercado se evidencia no Mercadão de Madureira, campo etnográfico no qual se desenvolve este estudo, articulado comparativamente com o comércio artesanal das ruas, lojas e residências de Havana. São inúmeros os objetos disponíveis nesses mercados: ervas, animais e cereais utilizados nos ebós, destinados aos rituais de recuperação e cura de doenças, que marcam a entrada do indivíduo nesses sistemas religiosos, já que são os males do corpo e do espírito que freqüentemente motivam a busca do indivíduo pelos chamados cultos de aflição e neles as chamadas curas espirituais. Dentre as formas de ebós destaca-se, notadamente, o ritual do bori (dar comida a cabeça). Esse ritual tem por finalidade equilibrar corpo e espírito, conciliar o humano e o divino, já que o ori (cabeça) é a porta de entrada das forças espirituais, local onde se estabelece a consciência humana. A comunhão entre o indivíduo e as divindades que passam a zelar por ele, torna este ritual fundamental no processo de iniciação das religiões afro-americanas. A relevância do estudo do bori é tão grande que mereceu a atenção de diversos antropólogos, tais como: Bastide, R. em O Candomblé da Bahia (1958); VERGER, Pierre em Bori, A primeira cerimônia de iniciação ao Culto dos Òrìşà Nàgó na Bahia (1981); BARROS, J. F. P., TEIXEIRA, M. L., VOGEL A. e MELLO, M. A. em Bori: Construction de la Personne dans le Candomblé (1993.); e na minuciosa etnografia de BARROS, J. F. P., MELLO, M. A. e VOGEL A.: Galinha D’Angola: Iniciação e Identidade na Cultura Afro-Brasileira (1993), onde tanto se evidenciam o papel do mercado nos cultos afro-brasileiros, quanto a complexidade da cosmologia e o refinamento das estruturas simbólico-rituais mobilizadas para o incremento da plenitude da vida através de uma sensível conexão com o divino: "a divina proporção".
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O processo de Cura: Um estudo com Intercessoras da Renovação Carismática Católica de Dourados

Autor/es: Fernanda Ferrari, Graziele Acçolini
Este trabalho é um recorte de minha pesquisa de mestrado que busca descrever e analisar as práticas de cura realizadas por mulheres “intercessoras” da Renovação Carismática Católica na cidade de Dourados/MS. A RCC tem suas raízes no pentecostalismo, movimento que estimula a fortes moções, cujo princípio fundamental é a crença na intervenção do “Espírito Santo”, utilizando a prática de rituais que buscam favorecer o processo de reorganização da saúde física, emocional e espiritual da pessoa que sofre. Conforme estudos realizados, a busca pelo sagrado e a fé religiosa são recursos importantes nos momentos de desordem, seja de ordem física ou psíquica. A forma como as mensagens corporais e emocionais são significadas e expressas, estão subordinadas a uma linguagem que está inserida num contexto social e cosmológico, portanto, entende-se que a desordem está intimamente relacionada aos mitos que a sustentam, confirmam e conferem legitimidade. Na perspectiva religiosa da RCC, o sofrimento é visto como um instrumento e uma possibilidade de transformação pessoal que conduz a pessoa a uma nova orientação, uma nova identidade, definida por Thomas Csordas como “self sagrado”. Este processo contínuo de cura envolve a participação do corpo, uma vez que acredita-se que os processos de cura e o crescimento espiritual estão ligados, já que a doença é vista como obstáculo a este crescimento. Olhando para o papel das intercessoras neste processo pretende-se investigar sua trajetória e a forma terapêutica empregada nos atendimentos individuais e coletivos que prestam a esta comunidade estando ou não inseridas em um dos ministérios de serviços da RCC, possibilitando assim, abordar também as relações de poder e autonomia no interior do grupo. Dentro desta perspectiva, pretendo investigar os caminhos psíquicos percorridos através da narrativa, durante a oração para a obtenção da "cura interior”, considerando a crença na cura e os mitos que a sustentam como partes constituintes deste processo; bem como, o ritual, a performance e a eficácia na comunicação como reintegradores da saúde. Portanto, este estudo objetiva conhecer esta forma, embora religiosa, terapêutica de atendimento/tratamento que busca promover a ressignificação e consequentemente o desenlace num nível emocional e até mesmo fisiológico, de conteúdos antes desordenados internamente. Percebe-se assim, que a escolha pela intervenção espiritual como forma de tratamento ou alívio do sofrimento, representa um coletivo que traz uma possibilidade que não exclui, mas se soma aos diversos recursos promotores da saúde humana.
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Rituais de matriz kardecista na Mina Nagô paraense: energia, cura e mediunidade

Autor/es: Hermes de Sousa Veras
Esse artigo é resultado de pesquisa de mestrado realizado em um terreiro de Mina Nagô, localizado na Grande Belém, Pará. A partir da interação com o pessoal de santo da casa, observou-se que juntamente a "gira", ritual central de incorporação dos orixás, caboclos e caboclas que sustenta o terreiro, é realizado o rito da "mesa branca", no qual percebe-se forte influência do espiritismo kardecista. O espiritismo no terreiro, e talvez na Mina Nagô em geral, é apreendido a partir de uma ontologia incorporativa, formulando um espiritismo que ainda é espiritismo, mas de outra forma, sendo atravessado pelas religiões dos orixás, voduns, caboclos e encantados. Com essa constatação delineada, será descrito o ritual da "mesa branca", mostrando-se como por meio da categoria "cura espiritual" o ritual se efetua, trazendo diversos efeitos, a depender do agenciamento estabelecido entre fiel, seus objetivos específicos e a entidade espiritual.
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Antropologia, saúde e doença: o corpo em contextos sociais na dimensão do cuidar curar

Autor/es: Irene de Jesus Silva, Kátia Marly Leite Mendonça (UFPA)
Pensar nas práticas assistenciais nos remete a existência humana concretizada em um corpo material, pois sem um corpo que lhe dá o rosto o homem não existiria. Deste entendimento objetivamos compreender certas práticas, discursos, representações e imaginários que o corpo desperta e manifestam também o processo saúde doença e suas práticas corporais observadas em Marcel Mauss, onde o cuidado com o corpo em suas complexas e variáveis dimensões socioculturais, espirituais e porque não dizer estética, cuja a arte do cuidado da obra se expressa na contemplação e na realização pelas virtudes que a ele imprime. O interesse pelo tema emergiu diante de observações cotidianas do cuidar em saúde, particularmente, o cuidado em certas práticas com o corpo humano e a interface refletida na linha tênue entre a vida e a morte; a doença e a cura, a alegria do restabelecimento, ou a tristeza do não restabelecimento, sentimentos traduzidos após longos dias ou meses de internação, do infortúnio, da perturbação, que se reflete não só no doente, mas nos familiares, manifestada no social pelas diferentes concepções culturais - doente, família e profissionais da saúde - face ao restabelecimento ou não, contagiando a todos, na estrutura da saúde.
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“Promessa é dívida” - Uma Etnografia dos Devotos de Nossa Senhora da Guia na Cidade de Lucena – PB.

Autor/es: José Adailton Vieira Aragão Melo
O presente trabalho tem por objetivo apresentar um estudo etnográfico realizado no Santuário de Nossa Senhora da Guia, no munícipio de Lucena, litoral norte da Paraíba. Especificamente, trata-se de um estudo sobre os pedidos dos devotos da santa, o recebimento dos pedidos e os pagamentos das promessas. Antes de adentrar no objeto de estudo, fizemos um breve levantamento histórico sobre o Santuário, diante da carência de informações históricas e antropológicas que encontramos sobre o campo de estudo. O fato de alguém fazer um pedido ao santo católico e ser “valido”, sendo este último termo uma expressão típica dos devotos de Nossa Senhora da Guia, foi o que inicialmente me motivou a pesquisar as dinâmicas da relação entre os homens e os santos católicos, em especial, a relação com a santa mencionada, e a partir dela, as relações que se estabelecem entre os devotos, os moradores da comunidade, os oficiantes, os não devotos e outras pessoas cujas trajetórias se entrecruzam no santuário. Deste modo, o estudo tenta apreender essa relação na conjuntura atual e os tipos de pedidos que são feitos, suas representações e importância no imaginário dos devotos. Outro ponto abordado é sobre o habito de fazer o pedido por outra pessoa, mesmo que ela não seja católica ou não saiba que terá que pagar uma “dívida” que contraiu por terceiros e que cria redes de obrigações mútuas. Outra questão interessante para pensarmos é sobre as formas de pagamento dos pedidos validos. Podemos ver que muitos pagam a promessa e continua o círculo de devoção e que a fé é passada de geração para geração.
Palavras chave: Fé, devoção, promessas
Apresentação Oral em GT

Abençoada cura: poéticas da voz e saberes de benzedeiras

Autor/es: Lidiane Alves da Cunha, Prof. Dr. Luiz Assunção
Esta pesquisa se propõe a adentrar neste duplo universo: o aspecto mágico/religioso dos                       saberes das benzedeiras e o papel da palavra enquanto elemento de cura.Esse conhecimento,                       das quais somente estas são conhecedoras, se faz presente e se performatiza no instante, em                 que visível e invisível irão compor a força e o poder das palavras das benzedeiras, que não                           podem ser ensinadas à esmo sob pena de perder sua “força”. Assim, questiono: por que as                           benzedeiras não ensinarem o significado de suas preces,a não ser em determinados contextos                     de transmissão do saber?Que implicações esse preceito traz para o ofício nos dias de hoje?A                         partir das orações pronunciadas nos rituais de cura, elas performatizam a palavra, a voz, as                         narrações e memórias. O objetivo é alcançarmos essa fonte de saber existente na oralidade,a                       benzeção, desvendando a essência existente por trás da palavra, pois mais do que o                             significado literal,as palavras têm o poder de curar,sem a necessidade de possuir uma função                       definida, bem como de ser um saber transmitido em contextos em que a poética da voz se faz           presente. É através da análise teórica dos textos, da etnobiografia e observação participante                         que buscamos nos aproximar do campo de atuação das benzedeiras nas cidades de Natal,                             Parnamirim ­​RN. Como referencial teórico, a obra de Paul Zumthor será a base para a                                 construção das categorias voz, poesia oral, performance eoralidade.Também partiremos das                         obras de Richard Sennett, Walter Benjamim e Maurice Halbwachs e Walter Ong como eixo                           norteador dos estudos sobre oralidade, memória e narração. 
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DE SIMPLES “MULHER” A PAJÉ: A constituição da “pessoa” a luz do ritual de “preparo” da pajé de Cura em Abaetetuba-PA

Autor/es: Lucielma Lobato Silva
Este trabalho tem por objetivo analisar o processo de formação sofrido por “uma simples mulher em Pajé”, ou seja, o "preparo" para se tornar pajé nas Ilhas de Abaetetuba-PA. As etapas místicas que lhe constituiu prestigio e confiança por parte dos moradores da Ilha Urubuéua Fátima, bem como de pessoas residentes em outras localidades. Tal processo de formação fez com que Dona Neca deixasse de ser vista como “individuo” (SIIMMEL, 1983; 2006) e passasse a ser considerada uma “pessoa” (DUMONT, 1987) com reconhecimento e prestigio social, pelo fato de deter conhecimentos xamanícos adquiridos por meio dos encantados. Esse conhecimento lhe atribuiu à possibilidade de Curar doenças de ordem espiritual e física, que é validado especialmente, devido esta ter sido levada, em uma das etapas de formação ritualísticas, pelos encantados para o fundo dos rios e por lá ter passado alguns dias, sendo “preparada” por entidades espirituais. Como base metodológica utilizo a pesquisa bibliográfica e de campo (MALINOWSKI, 1978; GLUCKMAN, 1987). Os dados resultam de pesquisa realizada na ilha Urubuéua Fátima, localizada no município de Abaetetuba-PA, mesorregião do nordeste paraense, na “Casa de Cura” de Dona Neca, local em que muitas pessoas se deslocam de vários lugares em busca de curas diversas, tratadas com remédios caseiros (ervas, cascas de paus, banhas de animais, etc), bem como com sessões de curas xamanincas. Sendo assim, este artigo pretende compreender o processo de tornar-se pajé, cuja formação lhe garante prestigio social, e é através do ritual, acionando forças da natureza que ela obtém o conhecimento necessário para realizar seus trabalhos ritualísticos de Cura. Diante disso, o caso de Abaetetuba, reforça uma informação de Charles Wagley (1957) sobre a importância dos pajés “sacaca”, pois estes são “reconhecidos pelo grupo como capaz de realizar incursões ao fundo dos rios, local de morada dos encantados”, por essa razão na “Casa de Cura” de Dona Neca é grande o fluxo de pessoas em situação de sofrimentos espirituais e moléstias físicas crentes de sua cura após os trabalhos.
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Os Millagres de Maria: curas, aparições marianas e a trajetória de uma vidente na cidade de Belém

Autor/es: Patricia Norat Guilhon
Este trabalho tem como objetivo construir uma etnografia sobre o percurso místico de Vanda Reis que alega receber a Virgem Maria há 25 anos na cidade de Belém. Em razão desse aparecimento milagroso, dezenas de pessoas foram atraídas para este local, e muitos outros milagres, curas e fatos prodigiosos aconteceram e ainda ocorrem em torno dela e de sua casa, lugar considerado sagrado, onde foi erguido um templo, no qual funciona uma comunidade religiosa denominada: Rainha dos Corações. Sua trajetória mística semelhante à de outros videntes perpassa por momentos de muito sofrimento físico e espiritual. Os primeiros contatos com a divindade, não são compreendidos por seu interlocutor e costumam serem vistos como doença, e a cura dos mesmos, depende de um longo processo de construção, , reconhecimento e legitimação da sua vidência. No caso de Vanda, este caminho foi trilhado com o apoio essencial de um grupo de leigos, e apesar de não ter oficialmente o aval da Igreja, desde o início , e até hoje, a presença atuante de vários sacerdotes tem sido fundamental na consolidação da figura da vidente e dessa manifestação religiosa. Minha proposta é analisar no âmbito da antropologia da religião, o processo da fabricação dessa personagem, como paulatinamente ela vai se tornando uma mensageira do sagrado, uma escolhida de Nossa Senhora para atuar em seu nome em benefício da humanidade realizando curas e feitos miraculosos. Com este propósito, além de fazer uma descrição densa das aparições e outros rituais que ocorrem nessa comunidade darei relevo as narrativas e discursos, tanto da vidente como das lideranças leigas e eclesiásticas que lhe apoiam , assim como, dos relatos e depoimentos de fiéis que frequentam este local. Outra questão , que será debatida é a importância de Maria como símbolo cristão católico e seu caráter permanente e duradouro em termos históricos. Nesse sentido, também pretendo interpretar as aparições como um fenômeno de "longa duração" e a constante atualização desse mito evidenciando tanto os padrões culturais recorrentes no decorrer dos séculos, quanto os aspectos novos que surgem a cada período. Segundo alguns autores como Carlos Steil, Cecília Mariz, entre outros, atualmente tem ocorrido um surto de aparições marianas no mundo e no Brasil. Seus trabalhos tem contribuído para a minha pesquisa e me feito refletir sobre vários pontos em comum entre as aparições investigadas por esses pesquisadores e o caso de Vanda. Aqui cito apenas dois, o primeiro reside no envolvimento do movimento carismático com as aparições atuais e o segundo é a maneira como Maria se manifesta através da boca da vidente falando na primeira pessoa, denominado pelo termo nativo de "locução interior". Esses aspectos e outros serão melhor abordados nesse artigo.
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Corpo, Cura e Emoções: Modos de cuidado e a Experiência da doença num terreiro de Candomblé/Jurema

Autor/es: Raoni Neri da Silva
O presente trabalho consiste num esforço analítico e descritivo acerca dos modos de cuidado em um terreiro onde são cultuadas as entidades do universo cosmológico do candomblé e da Jurema, enquanto religiões e espaços distintos. Partindo de pressupostos de uma antropologia cultural fenomenológica viso analisar a forma como os membros do Ilé Axé Vodum Oya Alabá e sua clientela lidam com os processos de saúde e doença. Terreiro este, de linha Jejê-Nago, situado na periferia da cidade de Moreno – PE, no qual fui iniciado e hoje faço parte como Yawô, partindo desta vivência, do trabalho de campo no referido terreiro e da literatura antropológica, destaco a influência da hipercognitivização das emoções, em particular da inveja, no referido grupo, para a construção e significação do processo de saúde/doença. Além disso destaco o grande fluxo ou transito nos diferentes sistemas provedores de significado entre os membros e clientes do referido terreiro. Por fim destaco que os estados de saúde e doença são uma construção social, formuladas a partir da experiência corporificada, em um contínuo processo negociação entre as diferentes esferas da vida cotidiana.
Palavras chave: Saúde/doença, Emoções, Inveja.
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Terapias holísticas no tratamento da depressão

Autor/es: Vanilda Maria de Oliveira
A comunicação trará dados e análises de pesquisa de doutorado em sociologia, cuja tese foi defendida em 2015, na UnB. Seu objeto foi os itinerários terapêuticos de sujeitos deprimidos. A pesquisa mostrou o trânsito dos enfermos entre medicina oficial e terapêuticas holísticas e espirituais na busca pelo reestabelecimento do bem-estar psíquico. Em um diálogo interdisciplinar com a antropologia e a psicanálise, adotou-se uma noção da depressão como um sintoma do social, em que desigualdades, violências, rejeição e privações são desencadeadoras de grande sofrimento. O adoecimento psíquico é compreendido aqui como a forma culturalmente legítima de se reconhecer esse sofrimento. As terapias holísticas são compreendidas como práticas terapêuticas formuladas dentro de um campo de possibilidades, fornecido histórica e culturalmente e que, atualmente, envolvem processos de hibridação, orientalização e sacralização das mais diversas técnicas de saúde. Concepções variadas de corpo e de cura são aceitas nesse processo. Entre as terapêuticas utilizadas pelos sujeitos da pesquisa estavam o Reiki, Yoga, Acupuntura, Florais De Bach, Cromoterapia, Cromopuntura, Reflexologia, Apometria e Santo Daime. Nelas, o corpo é visto um todo indivisível, explicado com seus componentes físico, mental, energético e espiritual. Nas terapias energéticas e espirituais há ainda um resgate de atributos do universo sagrado em que noções como harmonia, energia, equilíbrio e cura estão intimamente relacionados. Mas, nesse contexto, três categorias adquiriam destacada importância: autonomia, autoconhecimento e autotransformação. A cura dependia de um empenho pessoal com o cuidado de si e a transformação de si. Melhorar a saúde envolvia fazer de si mesmo um sujeito melhor, afastar pensamentos, comportamentos, pessoas e práticas diversas que poderiam contaminar seu espirito ou energia com aspectos negativos. Espírito e energia aparecem como componentes invisíveis, mágicos, colocados à disposição do sujeito como uma força transformadora e curativa, disponível para qualquer pessoa no universo. Permitem ao sujeito reconectar-se com o sagrado, circular bens de cura com os outros e desenvolver o autocuidado necessário para o bem-estar psíquico. O terapeuta holístico, por sua vez, fornecia uma nova gama de conhecimentos sobre atitudes mentais, corporais e sociais que contribuíam para a manutenção do equilíbrio energético e da saúde.
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Reza, fé e cura: o papel das rezadeiras na cidade de Antônio Martins - RN

Autor/es: Élida Joyce de Oliveira
REZA, FÉ E CURA: O PAPEL DAS REZADEIRA NA CIDADE DE ANTÔNIO MARTINS - RN Élida Joyce de Oliveira Orientador(a): Prof.ª Dr.ª Eliane Anselmo da Silva RESUMO: A reza é uma prática viva da religiosidade popular. O presente estudo é o resultado de nossa pesquisa, cujo objetivo foi realizar uma etnografia das práticas de cura de três rezadeiras da cidade de Antônio Martins/RN. Neste, descrevemos os momentos das rezas, identificamos as principais doenças curadas por elas e como se dá o diagnóstico e o tratamento de tais doenças. Além disso, apresentamos a trajetória de vida dessas rezadeiras, enfatizando seu papel nas comunidades em que vivem. A metodologia de caráter qualitativo, se dá a partir da observação participante, e de um “enfoque biográfico” (BERTEAUX, S. A., p. 11) através de entrevistas com ajuda de um roteiro e gravador de voz, da fotografia para registro visual e de um caderno de campo para dar conta das impressões do mesmo. Autores como Quintana (1999), Lévi-Strauss (1996), Loyola (1984), Mauss (2003) e Eliade (1992), embasaram nossa discussão teórica. Vimos que com seus ramos nas mãos, oração na ponta da língua e muita fé, as rezadeiras desenvolvem um trabalho importante nas suas respectivas comunidades, no que se refere aos problemas de saúde resultantes das chamadas “doenças de rezadeira”, ou, “doenças que médico não cura”, como quebrante ou mal olhado, peito aberto, cobreiro, vento caído, espinhela caída, engasgo de gente e de bicho, mas também males comuns, como dor de cabeça, dor de dente, sol na cabeça, ferida de boca. Para todos esses males, há sempre uma reza para curar e para benzer.
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A PAJELANÇA NO TERREIRO DE SANTA BÁRBARA: tratamento, cura e socialização

Autor/es: Evileno Ferreira, Elizabeth Maria Beserra Coelho
O presente trabalho resulta de pesquisa sobre a trajetória do pajé José de Nazaré Frasão Rodrigues, conhecido como Zé Pretinho, liderança espiritual do Terreiro de Santa Bárbara, popular pelas curas realizadas desde a década de 1940. Na memória social do município de Pinheiro, Estado do Maranhão, é destacado como agente da Pajelança maranhense, atuando principalmente em comunidades rurais e regiões de mocambos. A Pajelança é uma manifestação religiosa na qual se entrecruzam elementos indígenas, do catolicismo popular, do espiritismo e de religiões afro-brasileiras, voltada ao tratamento de “doenças do corpo” e “doenças do espírito", com a presença ativa de entidades sobrenaturais, os encantados. Como observado na literatura (FERRETI, M. 2014, ARAÚJO 2015, MOTA 2009.) o agente mediador desse sistema, o pajé ou curador, tem papel importante no diagnóstico de males de natureza diversa. A pajelança no Maranhão, também conhecida como pajelança de negros, tem marcante presença, no que se refere às formas de organização e as ligações presentes entre os humanos e as entidades sobrenaturais. Religião, festas e tratamentos são dimensões intercambiantes nas ligações construídas por meio desse universo de crença e prática. Em Pinheiro a pajelança é estratégia rotineira para a solução de problemas físicos e espirituais. Nascido em 1931, na zona rural do município de Pinheiro, viveu sempre nessa região, diferentemente de outros pajés que migraram para a cidade em buscar de melhores condições de vida. Realizava frequentes viagens pela região da Baixada Maranhense para realizar pajelanças, estendendo sua área de influência. A abertura do terreiro de Santa Bárbara na década de 1940 é apontada como um grande feito seu. Possui vasto conhecimento do uso de plantas medicinais para tratamento de doenças tais como: insônia, paralisia facial, problemas pós-parto, doenças de pele, gastrite, esquistossomose e etc.. Face ao difícil acesso aos serviços públicos de saúde, o terreiro é percebido como espaço de recuperação, onde os pacientes do pajé ficavam dias hospedados até o final da recuperação, espaço que funcionava também como lugar de socialização. Após a morte de Zé Pretinho no ano de 2013, as atividades de cura realizadas nesse terreiro prosseguem com o comando dos filhos de santo.
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Mulheres e a medicina tradicional: as benzedeiras de Guamá - Belém/PA

Autor/es: Thainá Louane Aleixo Menezes
As práticas de diagnóstico e curas de enfermidades no âmbito popular apresentam dinâmicas diferentes e específicas em relação à medicina formal. No contexto amazônico, a medicina não-convencional e caseira tem como indivíduos centrais as mulheres benzedeiras, que estabelecem uma relação de pertencimento e manipulação de ervas curativas e utilizam a reza como ferramenta de contenção da enfermidade. A persistência de um modelo de cura baseado em conhecimento popular, que neste contexto e segundo Napoleão Figueiredo (1979) está tradicionalmente ligado a práticas umbandistas, é observada no cenário urbano. O bairro periférico Guamá foi escolhido como locus dessa pesquisa, cujo objetivo têm sido, a partir do mapeamento das mulheres benzedeiras que residem e atendem no bairro, analisar a dinâmica do gênero com o mundo natural e práticas curativas carregadas de simbolismo e resistência. A pesquisa em andamento, fruto dos estudos da disciplina de graduação Sociologia e Meio Ambiente, propõe-se a mesclar o campo sociológico ao antropológico ao identificar na fala das mulheres entrevistadas noções de espiritualidade, renovação do conhecimento tradicional no embate com a medicina formal e práticas de sincretismo religioso.
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