Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT003. Agricultura familiar, campesinidade e feiras-livre: um lugar de intersecção rural/urbano.


O objetivo deste GT é refletir sobre os processos produtivos e as unidades familiares de produção da agricultura rural e urbana, bem como os seus locais de mercado. Compreendemos que os procedimentos de produção e consumo de alimentos transversalizam com os aspectos da vida cotidiana voltados para os hábitos alimentares, para o saber/fazer na transformação do alimento in natura, como também, para as diversas formas de trabalho humano na relação com a terra, com o bioma e com os bens da natureza. Neste sentido, entendemos que as estruturas conceituais que separavam as sociabilidades urbanas e rurais não conseguem mais estabelecer um constructo analítico sólido para “o lugar” e as novas formas de agriculturas familiares no mundo contemporâneo, que abrangem desde quintais produtivos, sistemas agroecológicos, atividades agrícolas pluriativas e hortas urbanas, entre outros arranjos agrícolas. Em suma, esperamos estabelecer um diálogo objetivo e subjetivo que permeie os vários processos produtivos, de circulação e de consumo de bens gerados pelo modo de produção familiar. Pretendemos, igualmente, agregar estudos que pensem novas opções e ferramentas teórico-metodológicas para pensar as feiras e suas dinâmicas.
 

Lídia Maria Pires Soares Cardel (Universidade Federal da Bahia)
(Coordenador/a)
Maria Catarina Chitolina Zanini (UFSM)
(Coordenador/a)


Um projeto “alternativo” para a natureza: uma etnografia da circulação de produtos agroecológicos

Autor/es: Camila Midori Moreira
O artigo apresentará uma etnografia da trajetória de produtos agroecológicos em um circuito local de comercialização: o Circuito Sul de Comercialização da Rede Ecovida de Agroecologia. Mais especificamente, ela se detém em uma de suas rotas comerciais constituída entre os municípios de Erechim-RS e Curitiba-PR, neste, notadamente, na feira orgânica do Passeio Público, onde grande parte destes produtos são comercializados. Este trabalho é resultado de parte da minha dissertação de mestrado , cuja pesquisa de campo foi empreendida entre os meses de Março e Junho de 2012, em diferentes agrupamentos regionais da Rede Ecovida de Agroecologia, uma das maiores instituições no fomento da agricultura familiar e da agroecologia na região sul do Brasil. Inspirada na metodologia proposta por Arjun Appadurai (2008), tomando os produtos agroecológicos como índices que circulam, procurei segui-los em suas trajetórias da produção ao consumo, o que nos permitiu depreender práticas sociais e projetos ideológicos articulados a eles. Na rede por eles configurada, encontra-se uma pluralidade de atores: pequenos produtores militantes de movimentos da agricultura familiar, agricultores ecológicos que acreditam em outras possibilidades de interação entre homem e natureza, técnicos agrícolas, organizações não governamentais, instituições públicas, cooperativas de consumidores engajados em formas de comercialização mais “justas e ambientalmente sustentáveis”, e, é claro, uma imensa variedade de plantas e animais. Além disso, como estes produtos são normalmente nomeados como “produtos naturais”, cultivados com técnicas agrícolas que preservam o meio ambiente, o estudo de sua trajetória se configura como um espaço semântico estratégico para depreender diferentes percepções e representações da natureza. Trata-se, em suma, de delinear redes sociais, que são também redes de sentidos, por meio da trajetória destas mercadorias.
Apresentação Oral em GT

Entre a "rua" e a "roça": economia familiar e espaços sociais em um contexto de crise

Autor/es: Isabel Silva Prado Lessa
O principal município produtor de café do Noroeste do Rio de Janeiro passou por uma grave crise, segundo os produtores locais. A partir do discurso dos atores locais acerca da crise que alegam viver, evidencia-se a forma como esse campesinato, que se consolidou historicamente enquanto produtor de café, enxerga uma série de transformações na organização de sua vida social e das suas relações sociais de produção que os levam a buscar alternativas à lavoura de café. Procuramos entender como a lavoura de eucalipto pôde se apresentar em determinado momento como alternativa a esses pequenos produtores. As diferentes formas pelas quais se caracteriza a crise nos ajudam a entender as diferenças existentes entre os produtores locais, marcadas principalmente por aqueles que se veem como administradores e aqueles que se veem como pequenos produtores. Procuramos demonstrar como os diferentes discursos se materializam em termos de estratégias distintas para sair da crise, mas também de diferentes arranjos produtivos nos quais as relações de trabalho familiar e não-familiar, a composição da renda e a composição do grupo doméstico determinarão a escolha de produtos a serem cultivados. A esses diferentes arranjos corresponderão também diferentes funções para a lavoura de eucalipto, não apenas em termos da utilidade da renda advinda de seu cultivo, mas também de seu uso comercial ou para o consumo no interior das unidades produtivas. Nesse contexto, a identificação da configuração de espaços sociais demarcados, como a "rua", a "roça" e seus interstícios, a "beira da rua", materializam a diversidade e as diferenças desses "arranjos" produtivos familiares. Nesse sentido, nos interessou compreender como esses arranjos ‘produtivos’ são também arranjos de família, trabalho e renda, onde fatores como as relações de parentesco, a localização do sítio, a composição do núcleo familiar influem diretamente na escolha dos produtos cultivados e na alocação do trabalho familiar na "roça" ou na "rua" para a composição da renda familiar, acarretando em diferenciações sociais no interior da comunidade.
Apresentação Oral em GT

Agricultura familiar em rede: a experiência de um empreendimento solidário no Ceará

Autor/es: Janainna Edwiges de Oliveira Pereira, Alícia Ferreira Gonçalves
A proposta deste trabalho é apresentar a experiência de um empreendimento produtivo solidário gerido por pequenos agricultores e artesãos no município de Aracati – CE, a Bodega Nordeste Vivo e Solidário. Tal empreendimento faz parte da Rede Bodega, que agrega outros empreendimentos solidários no estado do Ceará e foi contemplado com investimentos públicos advindos do Programa de Apoio a Projetos Produtivos Solidários (PAPPS), implementado pelo Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Sob uma perspectiva etnográfica, pretendo apreender, por meio das narrativas biográficas dos associados, as representações destes a cerca do trabalho que realizam – classificado como alternativo ao modo de produção capitalista –; se e como eles veem sua forma de produção e comercialização como de fato uma outra economia. Sendo o empreendimento orientando por princípios e valores da Economia Solidária, como autogestão, cooperação, solidariedade, respeito ao meio ambiente, pretendo analisar se essa forma de trabalho, que coexiste com o modelo vigente de hierarquização e competição entre os trabalhadores, e que pretende se opor a ele, fortalece a agricultura familiar, a sua produção e, para além, contribui com a formação de um consumidor mais consciente, por meio da comercialização em feiras de economia solidária e criativa e feiras agroecológicas. Tomo como metodologia para a realização deste trabalho uma abordagem antropológica em que me pauto por uma pesquisa com procedimentos qualitativos de coleta dos dados, com entrevistas abertas, focando prioritariamente na compreensão das narrativas de vida dos associados, buscando apreender se o trabalho baseado em práticas reciprocitárias fortalece o empreendimento auxiliando em sua manutenção.
Apresentação Oral em GT

Mercadores de obrigações: troca de valores, crédito e reciprocidade na feira da 25 de Setembro em Belém/Pa.

Autor/es: José Maria Ferreira Costa Júnior
As feiras livres urbanas na Amazônia são espaços-experiências de múltiplas relações econômicas, políticas, culturais e sociais (Rodrigues, Silva, Martins, 2014). Partindo desse pressuposto meu trabalho discute as práticas econômicas na feira da 25 de Setembro em Belém/Pa, a partir da problematização de algumas formas de crédito não oficial estabelecidas entre feirantes e fornecedores e feirantes e consumidores nos setores de venda de farinha de mandioca e pirarucu seco. Procuro, através da observação participante, compreender em que medida as trocas de valores (APPADURAI, 2008), operadas com pagamentos futuros, compõem uma ação econômica (BOURDIEU, 2002) produtora de obrigações recíprocas (MAUSS, 2005) entre atores interessados na circulação urbana de produtos tradicionais do universo rural amazônico. Dessa forma, discuto as razões práticas a partir das quais os feirantes classificam mercadorias e pessoas na operação comercial cotidiana com pequenos agricultores, produtores de farinha, comerciantes de pirarucu, e os consumidores dessa feira. Procuro, ainda, evidenciar o processo de aquisição de corpos especificamente efectuados (LATOUR, 2008) como condição para a produção, pelos feirantes, de hierarquias entre mercadorias a partir de seus gostos, cheiros, texturas e cores. Meu trabalho é parte das pesquisas desenvolvidas no âmbito do Grupo de Estudo dos Mercados Populares, GEMP/CNPQ, coordenado pela professora Drª Carmem Izabel Rodrigues (PPGSA/UFPA).
Palavras chave: Feira, crédito, reciprocidade
Apresentação Oral em GT

Quando a cidade é o campo:um estudo antropológico sobre os significados atribuídos às hortas urbanas comunitárias da cidade de São Paulo

Autor/es: Mariana Luiza Fiocco Machini
Este trabalho é uma aproximação da emergente atribuição dada a espaços de cidades do Brasil e do mundo: as hortas urbanas comunitárias. Com foco de estudo na cidade de São Paulo, as incursões a campo expõem a riqueza e complexidade das motivações e formas de ação desses grupos que se reúnem periodicamente para criar e manter espaços verdes de plantio de hortaliças, PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) flores e frutas em meio ao concreto urbano. Baseadas nos princípios da agroecologia e situadas em locais públicos - uma praça, um terreno abandonado da prefeitura, um canteiro em meio a grandes avenidas, abaixo de pontos de transmissão de energia elétrica que não permitem construções – as hortas de São Paulo são um movimento pela natureza que está longe de ser apenas por ela. Há forte interligação entre natureza, política, socialidade, preocupações relativas à alimentação nas grandes cidades, economia, lazer, contestação de uma agricultura dita convencional e baseada em monoculturas e no agronegócio, discussões sobre direito à cidade, relação público/privado... As hortas urbanas comunitárias são experimentos que contemplam formas diversas de agir na e para a cidade, e que desestruturam a ideia de que ela seria lugar de consumo, e não de produção, de alimentos. A temática urbano/rural permeia todo o movimento. A materialidade e a imaterialidade da cidade incide, mesmo dita, as estruturas de hortas que são passíveis de serem inseridas em espaços públicos da cidade. Canteiros mais ou menos profundos, amplitudes de terra maiores ou menores, existência de pontos de água ou nascentes, incidência excessiva de poluição de veículos, sombreamento vindo de prédios ao redor, autorizações de subprefeituras, ações de vigilância sanitária, entre outras, são questões determinantes para a criação e sobrevivência das hortas. Ao mesmo tempo, está presente dentro das conversas entre os grupos mantenedores das hortas e suas relações com os demais atores urbanos uma nostalgia em relação ao imaginário da vida no campo, permeada por um contato mais próximo com a terra e a natureza como um todo, relações e alimentação mais orgânicas, valores vistos como simples e legítimos, um sentimento comunitário supostamente apartado pelo consumismo, individualismo e urgências da vida em grandes metrópoles. Dessa forma, esse trabalho tem por objetivo apresentar os apontamentos etnográficos deste movimento de ativismo urbano que se afirma a partir de valores ditos rurais, chacoalhando ambas as estruturas. Por detrás de uma multiplicidade de propósitos das hortas encontramos regularidades que nos permitem tornar este um objeto único (o que não quer dizer uniforme, ou mesmo coeso, como veremos) da investigação antropológica.
Apresentação Oral em GT

Transformação da mandioca na Amazônia Ocidental

Autor/es: Marina Sousa Lima
O artigo tem como objetivo pensar a organização familiar de produção e consumo numa casa de farinha do estado de Roraima para além de mecanismos adaptativos, ou seja, pensando os trabalhadores da farinha como agentes de uma vivência específica na casa de farinha, que atualizam saberes e práticas de plantio e de transformação da mandioca para obter farinha. A pesquisa se deu numa casa de farinha no município de Iracema, no estado de Roraima. Nesta casa de farinha, a família de seu Pedro e os trabalhadores prestadores de diárias produzem farinha destinada ao próprio consumo e, sobretudo, venda. Pedro, seus filhos e os prestadores de diárias trabalham na casa de farinha e plantam mandioca nos lotes de terra mais próximos à casa. Ele veio do estado do Maranhão, onde também trabalhava com farinha, mas a vinda para o estado de Roraima exigiu uma nova forma de plantar: terra e espécies de mandioca diferenciavam-se do seu estado de origem. Plantio, colheita e processamento da mandioca para obter a farinha são tarefas contínuas devido à alta demanda da farinha nesta casa. Considerando a transformação da mandioca em seu processamento linear, penso a casa de farinha de seu Pedro enquanto um espaço familiar (Almeida, 1986), onde a lógica do trabalho legitima o acesso à terra, do consumo da farinha e da autonomia e controle da produção. O processamento linear envolve as atividades de plantio, colheita, descascar a mandioca, pubar, cevar, prensar, torrar, escaldar e peneirar. Em cada uma destas etapas, a mandioca vai se transformando, assumindo novas formas e substâncias, exigindo processos específicos para obtenção da farinha. A transformação da mandioca envolve objetos que ocupam um espaço social na vida das pessoas e são dotados de agência, como afirma Velthem (2007). Os objetos são pensados como elementos hábeis a organizarem socialmente e reproduzem relações com as pessoas e entre si. As relações de trabalho, produção e venda da farinha favorecem a formação de grupos de trabalhadores que compartilham vivências. O processo de transformação da mandioca faz parte dessas relações e analisá-lo em sua dimensão cultural é significativo na pesquisa.
Palavras chave: Roraima, transformação, farinha
Apresentação Oral em GT

Produção familiar, comércio e consumo: circulação de pessoas e objetos em um mercado de abastecimento

Autor/es: Nina Pinheiro Bitar
Os mercados de abastecimento são locais que realizam mediações, por excelência, desempenhando trocas sociais e simbólicas. Tratam-se de espaços que articulam os ambientes rurais e urbanos, conectando diferentes contextos através da circulação de objetos e pessoas. A minha proposta é apresentar parte da pesquisa desenvolvida em um mercado de abastecimento na cidade do Rio de Janeiro. A partir dele descreverei outros espaços ao oferecer diferentes perspectivas: as relações entre produção familiar, cooperativas, comércio e consumo, abrangendo a rede de conexões entre os agentes envolvidos. Buscarei demonstrar que as fronteiras entre espaços rurais e urbanos são fluidas, não se limitando apenas à categorizações. Apresentarei o caso da produção familiar localizada na Região Serrana do Rio de Janeiro que recentemente substituiu parte de sua lavoura de gêneros alimentícios para o cultivo de flores. As flores passaram então a ser comercializadas pelos seus próprios produtores nesse mercado de abastecimento carioca. Tais produtores tornaram-se também comerciantes, atuando de forma diferenciada no ambiente do mercado. Abordarei os impactos dessa mudança de regime trabalho na forma de sociabilidade dessas famílias. Ao substituírem sua produção de hortifrutigranjeiros pelo cultivo de flores, tais produtores mobilizaram o seu cotidiano para atuar no espaço da cidade de forma ativa. Os produtores passaram a circular intensamente entre o local de plantio e o ambiente urbano para o desenvolvimento de seu trabalho, promovendo um rearranjo de sua produção e comércio. Entretanto, a atividade de comércio no espaço do mercado articula sociabilidades forjadas também no ambiente rural. As relações locais de parentesco, amizade e vizinhança são rearranjadas e transpostas para o espaço do mercado. Pretendo analisar as atividades desenvolvidas no espaço familiar de plantação e sua relação com o comércio na cidade. Além de terem suas vidas impactadas pela mudança de sua produção, os produtores também alteraram a configuração desse mercado, atraindo para ele um novo público e impulsionando a diversificação do seu comércio. Tais transformações fizeram desse mercado o maior distribuidor de flores do estado do Rio de Janeiro atualmente. O sucesso do comércio de flores intensificou a apropriação desse mercado por parcela da população, impulsionando o turismo e contribuindo para um processo de revitalização desse local. Por fim, explorarei a ideia de que há uma conjuntura formada através de redes de trocas e circulação de pessoas e objetos que articula de maneira criativa os espaços rurais e citadinos.
Apresentação Oral em GT

O comércio nas feiras livres em Santa Cruz do Capibaribe: da agricultura à comercialização de roupas

Autor/es: Renata Bezerra Milanês
O presente trabalho pretende apresentar a realidade do Agreste pernambucano através das experiências comerciais nas feiras populares da cidade de Santa Cruz do Capibaribe, referida pelos moradores locais como um “berço do comércio” pela sua “vocação” nas feiras livres. Foi nesta cidade que se desenvolveu o Polo de Confecções do Agreste de Pernambuco em meados dos anos 50, através da Feira da Sulanca e atualmente consiste em um dos mais importantes aglomerados econômicos existentes na Região Nordeste, particularmente no setor de confecções de roupas. Por ser localizada em uma região de transição, Santa Cruz foi historicamente marcada pelas feiras livres e seu desenvolvimento comercial também foi impulsionado pelo estabelecimento de grandes centros comerciais de cidades vizinhas, como Campina Grande (PB) e Caruaru (PE). Conhecida como a “Capital da Sulanca”, “Capital da Moda” ou “Capital das Confecções”, Santa Cruz atualmente é a maior produtora de confecções de Pernambuco, abrigando o segundo maior polo têxtil do Brasil e possuindo o maior parque atacadista de confecções da América Latina, o “Moda Center Santa Cruz”. Antes de o segmento têxtil despontar como atividade principal, as atividades agrícolas eram a principal fonte da economia do município, tendo sua produção voltada principalmente para o carvão e o algodão, além das lavouras de auto-consumo, mas essa economia sempre encontrou dificuldades de se sustentar, por enfrentar situações adversas, tais como a localização do município na área mais seca do país, onde as chuvas são irregulares e escassas. Diante da insuficiência de recursos e da limitação que os agricultores encontravam para a reprodução familiar, tornou-se necessária a busca de novas estratégias de reprodução familiar. Uma das “saídas” encontradas foi, a produção e comercialização de roupas em feiras locais. Nesse sentido, o objetivo principal deste trabalho é ressaltar como ocorre um possível redirecionamento da atividade agrícola para a atividade industrial de produção e comercialização de produtos têxteis. Fato este que tem gerado também, uma diversidade no que diz respeito às próprias mercadorias que vão sendo comercializadas nas feiras locais ao longo do tempo. Acredita-se que a feira livre do Agreste representa um espaço que não deve ser visto apenas pelos seus aspectos produtivos e comerciais, mas também como um local de sociabilidade, cultural, religioso, gastronômico e criativo, capaz de reproduzir e expressar os costumes do povo dessa região. Portanto, é através da feira, que se pode entender muito acerca de sua organização social produtiva e de suas transformações ao longo dos anos. A pesquisa de campo que orienta as reflexões deste trabalho foi fruto da minha dissertação de Mestrado, realizada em 2015 no CPDA-UFRRJ.
Apresentação Oral em GT

Compras governamentais da agricultura familiar para a merenda escolar no Território da Borborema - PB.

Autor/es: Rosana Fernandes de Oliveira Frutuoso, Márcio de Matos Caniello Rosana Fernandes de Oliveira Frutuoso
Uma das principais dificuldades para a reprodução da unidade familiar camponesa é a comercialização de sua produção. Sem acesso a padrões tecnológicos correntes no chamado “agronegócio”, a produtividade da agricultura familiar é baixa em relação a ele e, portanto, pouco competitiva comercialmente. Daí, a condição histórica de penúria que a caracteriza, sobretudo nos países em desenvolvimento. Para além da solução Chayanoviana – o cooperativismo – e sem negligenciar os mercados locais e feiras onde tradicionalmente a produção camponesa é comercializada, recentemente uma série de políticas públicas têm sido adotadas para mitigar esse problema, notadamente as compras governamentais. Neste sentido, e visando sustentar uma estratégia de desenvolvimento nacional baseada no combate à fome e à miséria, o governo brasileiro inova o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) por meio da Lei 11.947/2009, determinando que pelo menos 30% do valor repassado pela União para a aquisição de alimentos para a merenda escolar deva ser utilizado na compra de gêneros provenientes da agricultura familiar. Entretanto, a grande maioria das prefeituras do Estado da Paraíba não têm cumprido essa legislação, pois entre 2011 e 2014 apenas 7 municípios (3%) atenderam ao mandado da Lei em todos os exercícios fiscais, enquanto 103 (46%) nunca efetuaram o percentual mínimo de compras. Assim, em quatro anos de implementação dessa política pública, dos cerca de R$ 288 milhões repassados pelo Governo Federal para a aquisição de produtos da agricultura familiar para a merenda escolar na Paraíba, foram executados apenas R$ 30 milhões (10,65%). Este trabalho visa analisar o desempenho das compras governamentais para a merenda escolar analisando o caso do território da Borborema, Paraíba, que é composto por 21 municípios. A metodologia adotada foi a da “pesquisa-ação”, por meio da realização de “mesas de diálogo” nesses municípios, articuladas pelo Núcleo de Extensão Territorial do Agreste Paraibano (NEXTAP/UFCG) no âmbito do Fórum de Desenvolvimento Territorial Sustentável da Borborema (Programa Territórios da Cidadania), as quais contaram com a presença de secretários municipais de Agricultura e Educação, nutricionistas, membros dos Conselhos de Alimentação Escolar, agricultores familiares através de seus sindicatos ou organizações, representantes dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRS), técnicos da EMATER local, representantes das escolas públicas e membros do Fórum. O diagnóstico participativo, que será discutido neste trabalho, apontou como causas do baixo desempenho das compras governamentais no território constrangimentos ambientais, culturais, institucionais e organizacionais.
Apresentação Oral em GT

AGRICULTURA FAMILIAR: dinamicas do municipio de Bom Jesus - PI

Autor/es: Roseli Oliveira Silva, SAMUEL PIRES MELO - DOUTOR EM SOCIOLOGIA UFRPE PROFESSOR UFPI
Resumo: O presente artigo propõe apresentar alguns apontamentos teóricos que permita uma reflexão sobre acerca da agricultura familiar e a assistência técnica e extensão rural no Piauí. Ao que se observa de uma maneira geral, é que muito frequentemente se desconsidera a história camponesa da agricultura familiar. Por isso, tem-se como objetivo geral compreender as continuidades e rupturas dos modos de viver e trabalhar dos agricultores familiares, salientando como porta de diálogo a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural. A análise foi conduzida por uma revisão teórica da agricultura familiar e a assistência técnica e extensão rural no Brasil e como recursos metodológico, foram realizadas visitas aos(as) agricultores(as) familiares e feirantes do município de Bom Jesus-PI e realização de entrevistas semi-estruturadas com os(as) agricultores(as) e com os técnicos extensionistas da regional da EMATER-PI. Resumo: O presente artigo propõe apresentar alguns apontamentos teóricos que permita uma reflexão sobre acerca da agricultura familiar e a assistência técnica e extensão rural no Piauí. Ao que se observa de uma maneira geral, é que muito frequentemente se desconsidera a história camponesa da agricultura familiar. Por isso, tem-se como objetivo geral compreender as continuidades e rupturas dos modos de viver e trabalhar dos agricultores familiares, salientando como porta de diálogo a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural. A análise foi conduzida por uma revisão teórica da agricultura familiar e a assistência técnica e extensão rural no Brasil e como recursos metodológico, foram realizadas visitas aos(as) agricultores(as) familiares e feirantes do município de Bom Jesus-PI e realização de entrevistas semi-estruturadas com os(as) agricultores(as) e com os técnicos extensionistas da regional da EMATER-PI.
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Iguarias derivadas de mandioca: sabor rural demandado nas feiras livres de Aracaju

Autor/es: Sônia de Souza Mendonça Menezes
Na contemporaneidade, observamos nas pequenas, médias e grandes cidades um traço da solidariedade horizontal, que tem sua expressão inicial no comércio tradicional constituído pelas feiras livres; esse perfil está relacionado pelo modo como se processam as atividades comerciais permeadas por relações de proximidade entre os comerciantes e entre esses atores e os consumidores. Na feira o rural e o urbano se encontram e a diversidade de produtos atraí os consumidores que buscam alimentos cultivados pelos agricultores familiares e as comidas tradicionais elaborados pelos grupos familiares. Dentre as comidas tradicionais comercializadas destacamos neste artigo as iguarias derivadas da mandioca – beijus, saroios, pé-de-moleque, malcasadas- consideradas como comidas tradicionais demandadas pelos consumidores em todas as feiras dos bairros da cidade de Aracaju. Os pontos de comercialização dessas iguarias apresentam características próprias - cheiros, sabores, sensações táteis que remetem à memória e lembranças. Neste artigo temos por objetivo desvelar a dimensão cultural, social e econômica da produção das iguarias derivadas da mandioca como uma estratégia de reprodução dos agricultores familiares a partir da comercialização nas feiras livres no espaço urbano. Na concretização da pesquisa realizamos entrevistas com os feirantes e consumidores em trinta feiras livres existentes na capital do estado de Sergipe. De acordo com os produtores/feirantes a tradição do saber-fazer desses derivados foi transmitida de forma pelos seus familiares por diferentes gerações. Até meados do século passado as iguarias eram elaboradas pelas mulheres para o consumo familiar nas denominadas farinhadas, evento rural constituído por relações de sociabilidade, alegria e encontros familiares. Nas duas últimas décadas, o saber-fazer da produção das iguarias foi transformado em uma alternativa geradora de renda pelos agricultores que plantam a mandioca, beneficiam as raízes ou melhor retiram a tapioca e nas quintas e sextas-feiras homens e mulheres elaboram as iguarias para comercializar nas feiras semanais. A produção/comercialização desses alimentos tradicionais nas feiras proporciona renda essencial para a sustentabilidade dos grupos familiares. A demanda desses produtos é acentuada em todas as feiras livres e eleva-se no mês de junho em decorrência da tradição do consumo dessas comidas nas festas juninas. Para os consumidores as iguarias derivadas da mandioca constituem os produtos tradicionais que mantêm os sabores do meio rural, que remetem à memória das farinhadas, das festas rurais, dos encontros familiares. Esses alimentos são consumidos no café da manhã, no jantar e nos lanches nas residências, mas, também é consumido nas repartições públicas e privadas.
Apresentação Oral em GT

A Tríade da dieta alimentar no Município de Benajmin Constant, AM, Brasil

Autor/es: Lindon Jonhson Neves de Aquino, DÁCIO, A. I. C (Antonia Ivanilce Castro Dácio); DÁCIO, D. Silva (Dirceu da Silva Dácio);
O objetivo do estudo foi analisar a tríade da dieta alimentar no município de Benjamin Constant, Amazonas, Brasil. A modalidade empregada foi o estudo de caso, combinando as técnicas: diário de campo, observação in loco e entrevistas semiestruturadas que versavam sobre os moradores da zona urbana: perfil socioeconômico, dieta alimentar: o quadro de segurança e insegurança dos moradores da zona urbana e quintais urbanos: espécies cultivadas, uso e dieta. Foram aplicados, 180 questionários, sendo 90 utilizando Escala Brasileira de Insegurança Alimentar e 90 questionários para frequência, em nove bairros da zona urbana. Do total, 73.3% dos participantes são naturais de Benjamin Constant e a renda mensal oscila de acordo com os níveis de escolaridade e profissões desenvolvidas. A insegurança alimentar foi encontrada em 68.9% das 90 famílias estudadas, dentre, as quais, 34.4% dos entrevistados sofrem com Insegurança Alimentar Leve, 27.8% Insegurança Alimentar Moderada e 6.7% Insegurança Alimentar Grave. A frequência de consumo alimentar apresentou registros elevados de produtos industrializados. Nos quintais urbanos foram encontradas 53 espécies, pertencentes a 30 famílias botânicas. As famílias com maior número de representantes nos quintais foram: Solanaceae, Rutaceae, Arecaceae, Lamiaceae e Myrtaceae. A dieta alimentar caracteriza-se pelo uso e acesso a diferentes produtos oriundos de outros estados, produtos importados e da produção local.
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Produção agrícola: um estudo de caso no Assentamento Crajarí no município de Benjamin Constant, Amazonas

Autor/es: Patrício Freitas de Andrade, Osvaldino Brito Freitas Diones Lima de Souza
O objetivo da pesquisa foi analisar a produção agrícola dos agricultores familiares do Assentamento Crajarí no município de Benjamin Constant – AM. Na região Amazônica a agricultura familiar tem suas particularidades com relação à produção, pois é feita pela mão-de-obra familiar, com práticas de pluriatividade para a sobrevivência. A principal característica esta relacionada aos sistemas agroflorestais tradicionais ou técnicas agroecológicas. Esses sistemas são constituídos, na sua maioria, por cinco componentes: roça, capoeira (pousio), sítio (quintais), extrativismo e criação. A pesquisa foi desenvolvida no município de Benjamin Constant na região do Alto Solimões, Amazonas. Foi realizada por meio de visitas, visando o levantamento da produção local para inserção no banco de dados do Núcleo de Extensão e Desenvolvimento Territorial do Alto Solimões – NEDET. Foram aplicadas 22 entrevistas semiestruturadas, englobando aspectos: socioeconômicos, de produção, de comercialização e extrativismo. Os assentados possuem naturalidades diferentes, sendo a maioria do município de Atalaia do Norte. A mandioca (Manihot esculenta) é a espécie mais cultivada no assentamento, que tem como produto final a farinha. Mas há também uma diversidade de espécies produzidas como: Banana (Musa sp.), Milho (Zea mays L.), Cupuaçu (Theobroma grandiflorum (Willd. ex Spreng.) K. Schum.), Pimentão (Capsicum annuum L.) dentre outros, respectivamente nesta ordem. A produção agrícola tem dois destinos à comercialização e o consumo, 59% dos agricultores familiares do Assentamento Crajari produzem para o consumo e 41% para comercialização. Com análise dos dados permitiu-se identificar os recursos naturais utilizados pelos agricultores familiares para sua sobrevivência. Infere-se que as técnicas empregadas pelos agricultores são mais sustentáveis quando comparadas com uma agricultura que utiliza agrotóxico. A produção apresenta dupla finalidade (consumo e venda), sendo que parte da produção é voltada para a comercialização, para compra de produtos não produzidos no assentamento.
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