Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT055. Processos identitários étnicos, território e tradições de conhecimento

Este GT pretende reunir pesquisas etnográficas que focam a organização social do conhecimento em processos identitários étnicos e territoriais. Procura-se promover um espaço de diálogo e análise sobre o gerenciamento, distribuição e hierarquização do conhecimento em diferentes contextos experienciais (históricos e políticos) que definem específicas relações de poder. Nesses termos, a proposta tem como base uma abordagem gerativa e comparativa, fundamentada na proposta de Barth de uma sociologia do conhecimento que visa esclarecer a forma pela qual os fluxos culturais são moldados pelo contexto social. Serão valiosas as contribuições provenientes de investimentos empíricos que abordam os processos de transformação (mudanças sociais, políticas e econômicas, incluindo-se os efeitos de políticas públicas) e que analisam a elaboração de tradições de conhecimento, a transformação de cosmologias, bem como dos quadros morais que orientam as experiências individuais e coletivas no estabelecimento e gerenciamento das relações intra e interétnicas. Serão também profícuas contribuições que abordam, com uma escala de análise menor, as unidades sociais e políticas, como por exemplo, famílias e/ou linhagens e que analisam processualmente tanto a forma em que se dão as alianças entre elas no tempo e espaço -extravasando ou não o nível étnico-, quanto as variações que apresentam na elaboração e sistematização dos fluxos culturais.

Claudia Mura (Universidade Federal de Alagoas)
(Coordenador/a)
Jouberth Max Maranhão Piorsky Aires (Universidade Estadual do Ceará)
(Coordenador/a)

Sessão 1

José Gabriel Silveira Corrêa (Universidade Federal de Campina Grande)
(Debatedor/a)


Raposa Serra do Sol: Processos de territorialização indígena na faixa de segurança nacional

Autor/es: Bruno Pacheco de Oliveira
O objetivo geral é analisar as novas dinâmicas e os processos de gestão, produção e significação que surgem com o estabelecimento dessa grande área contínua (destacando a especificidade de ter uma organização indígena à frente do processo de gestão territorial) sempre em oposição à ação do exército que conta com um grande contingente militar circulando constantemente na terra indígena Raposa Serra do Sol, que é quase toda localizada na faixa de fronteira (faixa de 150 km de largura ao longo da fronteira brasileira). Segundo Catherine Lutz (2006), regiões militarizadas produzem novos padrões de identidade, relações econômicas e imaginários. A militarização produz efeitos em todas as áreas (política, economia, sociedade, mercado de trabalho), enquanto o militarismo afeta a produção de imaginário (cultura e valor), reforçando o discurso sobre Estado e Nação (LUTZ, 2006). Com uma metodologia de estudo situacional pretendo apresentar desvios nas regularidades estruturais com os conflitos e as alterações no equilíbrio temporário das relações entre grupos diferentes em diversos tempos e espaços. Assim, integrando conflitos, variações e pontos fora da curva, a análise situacional mostra-se extremamente apropriada para o estudo de sociedades instáveis e não homogêneas, onde sistemas de classificação diferentes ou conflitantes podem coexistir, sendo ativados nos mais diversos contextos sociais ou conforme uma opção particular dos atores envolvidos.
Apresentação Oral em GT

Engajamento etnico-cultural e identidade feminina na pratica congadeira

Autor/es: Claudelir Correa Clemente
Com mais de 100 anos de tradição, a Congada, na cidade de Uberlândia em Minas Gerais, constituí-se como um espaço religioso significativo para a população afrodescendente, observando-se, um crescente protagonismo feminino que fomenta por meio de seu engajamento político e cultural, novos e democráticos territórios sociais em um espaço urbano marcado por formas de segregação socioespacial e étnica. Por meio de descrições etnográficas deste fazer feminino congadeiro, demonstraremos de que forma o engajamento cultural transforma o espaço urbano propiciando formas de sociabilidade que viabilizam relações etnicorraciais igualitárias. Em Uberlândia existe 26 ternos (grupos de congado) e seus locais de ensaio e convivência denominados quartéis estão distribuídos por toda cidade, mas com uma significativa presença nos bairros periféricos, locais marcados pela segregação socioespacial e racial. É nos quartéis dos ternos que observamos o papel significativo que as mulheres assumem no Congado. São elas que zelam pela cultura negra congadeira, cultivando seus valores étnicos e religiosos. Esse trabalho de afirmação étnica feito pelas mulheres é erguido por meio de ações e relações sociais que não tem aparentemente cunho político, mas por vezes, têm o poder de arregimentar pessoas, reuni-las, organizá-las e transformá-las em agentes sociais em prol de causas sociais. Digamos que são práticas sociais expressões de um ‘modelo comunitário de organização’ que valoriza os laços interpessoais, a solidariedade, a ajuda mútua, a participação entre iguais, as decisões tomadas coletivamente etc. Características que se contrapõem a competitividade, individualismo, atomização da existência e a tradição política brasileira (centralização de poder, populismo, paternalismo etc.)
Apresentação Oral em GT

Organização Social em Terra Dura : "Uma parentagem doida".

Autor/es: Francy Eide Nunes Leal
Este trabalho é fruto de uma pesquisa etnográfica sobre a política comunitária de/com a Comunidade Quilombola Terra Dura, situada no sertão norte-mineiro. O objetivo central é compreender o fazer politico desse grupo étnico, a partir de uma mobilização contemporânea pela retomada do território tido como tradicional. Para tanto, o foco recairá nas formas de conectividade, a partir de uma lógica de associação que busca interligar pessoa de dentro, de fora, entidades espirituais, quilombolas, não quilombolas de modo a formar a parentagem doida. Desta forma, analiso a organização social do grupo, observando como a "parentagem doida" opera na construção da política interna por meio das trajetórias individuais que em suas especificidades compõe uma trajetória coletiva na construção de uma rede “interquilombos”. Em um primeiro momento, apresento as narrativas biografias/trajetórias que vão sendo emaranhadas a partir de intercruzamentos, na construção de um campo político, ou seja, o protagonismo desses sujeitos na vida em comunidade, seus posicionamentos na esfera social, locais de poder agenciados para entender como ocorre o deslizamento dessas relações para as instâncias de tomada de decisões coletivas como a associação quilombola e os diálogos com o INCRA. Em um segundo momento parto da premissa que fazer política é consolidar e estender a rede de relações, que tem como um dos seus fios condutores o tocar parentagem. O foco é entender como são produzidos parentes pela "parentagem doida", ou seja, quais são as estratégias de casamento, de compadrio na construção de alianças políticas, além de esboçar, um tipo de relação com o de fora, com as entidades religiosas, o inserindo na rede de reciprocidade e obrigaçõO objetivo aqui é aproximar o parentesco da política, tal qual sugere Vieira (2010) no caso Potiguara, ao fazer um paralelo entre a esfera do parentesco, que cria movimentos de aproximação entre parentes, bem como tendências de casamento e de residência que atuam na composição e organização das famílias. E entre a política que ensina um jogo de forças por meio dos processos que envolvem tanto a composição de círculos de cooperação e de aliança que são estabelecidas por critérios de proximidades de parentesco (ou genealogia) ou de residência, quanto à estratégia de aproximação de incorporação da alteridade via os ideais de fechamento e abertura ao exterior. A estratégia de utilizar a rede de parentesco como marcador da etnicidade quilombola possibilitou aos membros de Terra Dura a permanência em parte do seu território. È a partir da transmissão da história desse povo, que os mais velhos ao contarem a historia de si, do grupo, da "nação de gente preta" que permanece em luta pelo reconhecimento de sua identidade étnica e retomada do território.
Apresentação Oral em GT

Os coletivos madija e a construção da etnia Kulina

Autor/es: Genoveva Santos Amorim
A pesquisa tem como objetivo analisar os coletivos madija como modelos Kulina de territorialidade que propiciam jogos identitários. E se desenvolve a partir da análise de narrativas e imagens que permeiam todo este processo. A aproximação com os coletivos madija nos permite perceber a arbitrariedade dos agentes do contato ao “criar”, de modo aleatório, a categoria étnica única e estranha: o povo Kulina. Procuro analisar como essa categoria étnica foi construída e é atualizada pelos Kulina. Registros históricos e atuais nos levam a perceber como os coletivos nominados (ou subgrupos, para alguns autores) perpassam (e se confundem) as várias configurações étnicas arawa. Assim, a pesquisa é realizada a partir de duas fontes básicas: a investigação bibliográfica e a pesquisa etnográfica; tendo como foco os Kulina que habitam a região do baixo rio Juruá (Amazonas). A forma pela qual o Brasil-Colônia foi constituído, bem como o modelo de Estado-nação, teve incidência direta nos processos de territorialização que passaram os povos indígenas (PACHECO DE OLIVEIRA 1978). Contudo, as classificações do Estado não comportam a realidade do baixo Juruá. As questões de identificações com a etnia Kulina, ou com determinado coletivo madija, pode sugerir que tais entendimentos têm sido delineados a partir de conflitos amplos ou a partir das relações locais. É importante observamos e analisarmos os momentos em que é estratégico para os Kulina utilizarem a “etiqueta” da etnia. Ou quando os Kulina usam e reconhecem os vários coletivos madija como elemento de diferenciação interna, base para uma política interna de alianças e repulsas. É necessário analisarmos os “traços culturais” que ultrapassam fronteiras, estarmos atentos para a manipulação ativa dos fluxos culturais e para as zonas fronteiriças como o local para a ação (agência) no manejo da cultura (HANNERZ 1997).
Apresentação Oral em GT

Ciência moderna e ciência do índio: acesso a diferentes tradições de conhecimento entre povos indígenas do Nordeste

Autor/es: Leandro Marques Durazzo, José Glebson Vieira (orientador)
Esta comunicação buscará, através de uma reflexão ao mesmo tempo epistemológica e etnográfica, discutir a polissemia presente nas noções de “ciência” empregadas tanto na tradição moderna e ocidental da comunidade científica internacional (TAMBIAH, 1990) quanto nas práticas e dinâmicas de conhecimento (BARTH, 1975) de diferentes povos indígenas do Nordeste brasileiro. A investigação de tal multivocidade permitirá traçar indicativos referentes aos modos de conhecimento dos povos indígenas, ancorados quer no segredo de seus rituais e práticas ocultos (um pouco nos moldes de Barth), quer na produção, transmissão e legitimação desses mesmos sistemas de conhecimento étnico; para tanto, refletiremos sobre o valor diacrítico do toré e de outras manifestações étnico-políticas relacionadas às reivindicações de reconhecimento externo, e, assim, buscaremos compreender a “ciência do índio” relacionada à ideia de “regime de índio”, que remete ao contexto histórico e político de engajamento no projeto étnico e de adesão aos valores e conhecimentos presentes no ritual do toré. Através da análise de dados etnográficos publicados sobre os povos Tuxá e Truká, da região do Médio São Francisco (BATISTA, 2005), em contraste com nossa experiência recente na Terra Indígena Xukuru (Pesqueira-PE), tencionamos matizar as acepções de “ciência” nos contextos indígenas – sobretudo relacionadas aos modos de conhecimento vinculados à “mata sagrada”, aos encantados – com a definição moderna e ocidental de ciência, seja em suas práticas metodológicas ou em suas bases paradigmáticas. Aqui, recorrendo a Stanley Tambiah, aproximaremos de forma dialógica as diferentes noções, buscando balizar as especificidades metodológicas da ciência moderna com as categorias antropológicas e nativas de “ciência do índio”, “regime de índio” e “cienciazinha” (esta última referente ao povo Truká). Com esta proposta pretendemos, além das elaborações teóricas e epistemológicas envolvendo tradições de conhecimento indígenas, indicar pontos de contato e convivência entre diferentes modos de conhecimento e ação prática, elucidando algumas dinâmicas culturais no que diz respeito ao acionamento de diferentes regimes científicos, como demonstrado nos casos indígenas, em que a vivência da “ciência do índio” não implica na rejeição da ciência moderna, nem de seus desdobramentos e aplicações no plano cotidiano da vida.
Apresentação Oral em GT

“O quilombola tem as raízes sofridas”: Memória e performance em territórios étnicos no Maranhão

Autor/es: Marivania Leonor Souza Furtado, Sérgio César Corrêa Soares Muniz Cássia Ferreira de Oliveira
A partir da insurgência dos “remanescentes das comunidades de quilombos” como novos sujeitos de direitos, um conjunto de comunidades negras rurais no Brasil e no Maranhão vêm se articulando a partir de estratégias políticas para o reconhecimento de suas etnicidades, bem como para a titulação de seus territórios, o que tem sido conceituado como “processo de territorialização” ou “aquilombamento”, variando segundo situações empíricas específicas. Nessa conjuntura, os processos de territorialização e aquilombamento são marcados sobretudo, pela forma como essas comunidades acionam suas memórias na intenção de fortalecer laços de solidariedade e processos de identificação intragrupais, atualizar suas fronteias étnicas e se posicionar politicamente frente a situações contraditórias protagonizadas pelos mais diversos agentes sociais (sindicatos, órgãos governamentais, ONG’s, movimentos sociais, profissionais da academia, latifundiários e lideranças locais). Essas múltiplas agências resultam em conflitos e disputas políticas, simbólicos e territoriais, sobretudo em decorrência da intensa mercadorização desses territórios étnicos. Dessa forma, esse trabalho pretende analisar a relação entre o acionamento das memórias coletivas e biográficas, como sendo aquilo que estrutura o modo de vida desses grupos e suas relações de parentesco e de poder estabelecendo regras de existência intragrupais e relacionais, com as estruturas performativas de seus processos históricos de territorialização, considerando ainda o modo como esses grupos e as categorias pelas quais estes constroem seus mundos estão constantemente assimilando “circunstâncias contingentes”, a saber o estabelecimento de normativas jurídicas, agências de mediação e conflitos territoriais. Dentro dessas “circunstâncias” é preciso enfatizar a história de formação dos territórios dessas coletividades, a dinâmica de redefinição funcional das categorias existentes na memória destas e a construção de seus mapas mentais e afetivos coletivamente territorializados. Nesse sentido, tomou-se como campo empírico os quilombos de Santa Maria e Santo Inácio, localizados na microrregião da Baixada Maranhense e Rio Grande localizado na Microrregião do Litoral Ocidental Maranhense. Para a construção desse olhar realizou-se a etnografia desses quilombos, a partir da observação multisituada, pensando o processo de forma relacional e privilegiando a história dos vencidos, cujas memórias foram coletadas através de entrevistas gravadas.
Apresentação Oral em GT

Identidade étnica e transposições cosmológicas entre os Yanomami: uma etnografia das relações interétnicas na criação de uma associação de mulheres

Autor/es: Maryelle Inacia Morais Ferreira
Este trabalho é fruto de uma reflexão do projeto etnográfico de mestrado que objetiva pesquisar a associação de mulheres Yanomami Kumirayoma. Criada recentemente na aldeia Maturacá em 19 de junho de 2015, a Kumirayoma tem como objetivo apoiar as mulheres na comercialização de seu artesanato. A proposta deste trabalho consiste em compreender como as mulheres Yanomami ao criarem a associação Kamirayoma se orientam pela cosmologia durante o processo de lidarem com as relações interétnicas. Sendo uma recente criação, pretende-se etnografar como essas mulheres entendem a criação da associação e quais motivações as levaram a tal iniciativa. Os autores principais empregados nesta pesquisa foram: Terence Turner (1991), Barth (2000) e Peres (2003). Existem muitos estudos etnográficos dedicados à cultura Yanomami, porém, pouco se tem dado atenção à problemática que contextualiza o universo da política indígena yanomami e sua atuação no campo dos movimentos indígenas do Amazonas. Os Yanamami são um dos povos indígenas cujo contato com não-indígenas ocorreu bem mais tarde, em torno da década de 1960. É um dos maiores grupos indígenas do Brasil, divido em quatro subgrupos linguísticos. Assim, vale destacar a existência de uma diversidade dentro do próprio grupo. Em conversas de campo, fui informada que a principal motivação que levou à associação fora preocupação por parte das mulheres com á perca da “tradição” cultural de feitura dos trançados, e uma associação poderia manter os costumes e estimular mulheres mais jovens. É interessante pensar como tal iniciativa diz respeito a um processo de consciência social, como apontado por Terence Turner. Percebe-se que a iniciativa de se associarem é utilizada para reforçar as identidades das mulheres Yanomami. Ao se associarem criam uma autoconsciência perante os não indígenas e outros grupos étnicos. Ao mesmo tempo, dentro do próprio povo elas se estabelecem enquanto mulheres associadas, mulheres artesãs, como parte da cultura e cosmologia Yanomami. Elas assumem importância política dentro do grupo Yanomami e constroem para si a noção de “culturas tradicionais” através da confecção dos trançados. A teoria de Barth (2000) sobre as identidades entre os grupos éticos será o suporte teórico principal que auxilia na análise sobre as relações inetrétnicas pelas quais as mulheres se envolvem na construção da associação Kumirayoma, e como tais relações são recursos de reforço da auto-conciência enquanto grupo étnico, enquanto cultura Yanomami. Ao mesmo tempo em que falamos de “tradições” na confecção dos artesanatos, não devemos pensá-la de forma rígida. A cosmologia que orienta a cultura dos trançados entre as mulheres também se construiu a partir das relações interétnicas de contato entre Yanomami e não-indígenas.
Apresentação Oral em GT

Tradição de conhecimento, aspectos ecológicos e território da comunidade do Porto do Capim

Autor/es: Patrícia Assad, Professor Doutor Fábio Mura
O presente trabalho busca investigar a relação que os habitantes da comunidade do Porto do Capim desenvolvem com seu espaço de vida, considerando o contexto social, ecológico e territorial em que a comunidade está inserida. Esta comunidade habita a área mais antiga da cidade de João Pessoa, sítio do nascedouro da capital, o chamado centro histórico, no bairro do Varadouro. Situa-se na margem direita do rio Sanhauá, um dos afluentes do Paraíba. Esta é a região onde antigamente se aglutinavam o comércio e a administração da cidade até o início do século XX. Com o advindo de mudanças urbanísticas da época, bem como a construção do Porto de Cabedelo, a área entrou em decadência econômica e passou a ser ocupada por famílias vindas do interior do estado, e até mesmo de outros estados próximos, e por trabalhadores do Porto e do comércio no Varadouro. Essas famílias optaram por morar no local, tendo em vista a proximidade com o rio, com a estação ferroviária, com o ponto comercial da cidade e demais benefícios que a área podia oferecer. A abordagem centra-se numa análise da tradição de conhecimento, nos termos propostos por Fredrik Barth, que é produzida e reproduzida pelos habitantes do Porto do Capim. Nela encontram-se fundamentos de diversas ordens, materiais e imateriais, onde figuram também elementos mítico-cosmológicos. Concentramos atenção sobre a relação desses habitantes com as entidades Comadre Fulozinha e Pai do Mangue, e a influência destes sobre seus quadros ético-morais, políticos, e sobre as maneiras de se comportar. Relação esta que tem no território da área do Porto do Capim, em toda sua complexidade e seus elementos ecológicos, como o rio e o mangue, o seu espaço por excelência. A dimensão moral que conduz essa relação é aprimorada pelos castigos e punições físicas aplicados por tais entidades, a que estão sujeitos àqueles que não cumprem com exigências demandadas por elas, sejam exigências que vão desde “não chamar nome na maré”, ao respeito à pesca, à caça e à natureza como um todo, até o feitio de oferendas para as entidades. Entende-se, portanto, que essa experiência ultrapassa sua dimensão simbólica, assumindo uma corporificação da experiência que possuem as pessoas junto à esses fenômenos. Esta tradição de conhecimento que gira em torno das entidades é construída a partir de uma gama de recursos experiencias advindos de atividades desenvolvidas por esses habitantes em suas relações com o meio. Desta forma, considera-se como fundamental para tal análise as atividade, diretas e indiretas, que algumas famílias cultivam junto ao rio e ao o mangue, seja por meio da pesca, da coleta de mariscos e caranguejos, práticas auxiliares da economia doméstica, ou seja por meio de rituais ou diversas outras atividades ligadas à esses ambientes.
Apresentação Oral em GT

Território e patrimônio em serras dos encantados

Autor/es: Priscila Faulhaber
O contraste entre os contextos do dos Ticuna Alto Solimões e os remanescentes da cabanagem no Baixo Amazonas que vivem na comunidade da Água Fria de Cima, no lago Grande do Curuai, Santarém (PA) leva a evidenciar as recorrências em processos de ocupação territorial da oposição e/ou complementaridade entre áreas da "beira" do rio, do lago ou da estrada e do "centro" da floresta, do "morro" , da "serra" ou da “montanha”. Considero, na trilha de Fredrik Barth, a teoria antropológica como um meio de articular diferentes formas de conhecimento. Parto aqui as narrativas Ticuna em termos de assertivos sobre a cosmovisão, prescritivos sobre a maneira de seguir os ensinamentos dos heróis culturais além de performativo em seus efeitos no ritual de puberdade feminina e na organização social Quanto à comunidade da Água Fria de Cima, a própria construção das narrativas sobre a Sera do Aracuri é elaborada em termos assertivos sobre a visão de mundo que tem efeitos performativos para a construção da auto-imagem dos remanescentes de cabanos unidos a índios Mundurucus que justifica a incorporação territorial por um grupo comunitariamente organizado. O exame dos relatos registrados em interações durante pesquisa de campo permite correlacionar como o conhecimento sobre o território é elaborado em termos de uma topografia sobre sítios rituais incorporados à cosmovisão de grupos etnicamente diferenciados. Tais relatos referem-se a lugares de memória cuja significação é transmitida pelos anciãos aos mais jovens. Remete a lugares de refúgio que implicam um controle sobre o território. . Envolve a elaboração de conhecimentos que integram a estruturação de práticas cerimoniais que dizem respeito tanto às atividades de subsistência quanto à etnicidade e ao patrimônio. As narrativas sobre serras encantadas compreendem formas de conceber acidentes topográficos que se diferenciam da planície dominada pelas águas e pela vegetação de floresta. Nos relatos sobre as serras a atmosfera aparece como uma conjunção entre o céu e a terra. Enquanto o primeiro é exterior às atividades do dia a dia, a segunda é constitutiva das práticas sociais, pois é sobre ela que os humanos interferem sobre as coisas que dizem respeito à sua ocupação territorial e sua patrimonialização dos recursos ambientais, incorporando-os como parte de sua visão de mundo.
Apresentação Oral em GT

Práticas, espaços e emergência étnica dos povos indígenas no Rio Grande do Norte.

Autor/es: Rita de Cássia Maria Neves
O presente trabalho apresenta os resultados de uma pesquisa que buscou compreender o processo de emergência étnica no Rio Grande do Norte. Esse Estado foi um dos últimos do Nordeste a ter suas populações indígenas oficialmente registradas na contemporaneidade. O que percebemos foi que nesse Estado, a luta e a emergência étnica dos povos indígenas são emblemáticas e pouco registradas. Por muito tempo acreditou-se não existir mais índios no Rio Grande do Norte, em virtude dos escritos do folclorista Câmara Cascudo, nos quais afirmou que a população indígena do Rio Grande foi assimilada ao modo de vida do Brasil não índio e que, portanto, não se poderia mais falar em índios nesse Estado. No entanto, apesar dessa ideologia de “apagamento” dessa população, atualmente temos no Rio Grande do Norte, seis comunidades indígenas assistidas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e mais recentemente pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), sendo elas: Potiguara Sagi-Trabanda (Município de Baía Formosa); Potiguara Eleotérios do Catu (Municípios de Canguaretama e Goianinha); Potiguara Mendonça do Amarelão (Município de João Câmara); Tapuias da Lagoa do Tapará (Municípios de Macaíba e João Câmara) Caboclos do Açu (Município de Açu) e Caboclos de Apodi (Município de Apodi). Uma população que sofre diversos problemas devido à ausência de assistência estatal em suas localidades. Tratou-se de uma pesquisa multidisciplinar que se apropria da categoria de “espaço” para identificar os processos de constituição de identidade étnica e o seu potencial de mobilização política e identitária, objetivando subsidiar intervenções e políticas públicas pautadas na sua realidade. A pesquisa que originou esse trabalho partiu do pressuposto de que os espaços físicos constituem lócus de socialização e que o olhar cuidadoso sobre ele, a partir de um instrumental teórico e metodológico diversificado, pode dar visibilidade a aspectos ainda não percebidos das relações sociais. Assim, esse trabalho buscou, a partir de um referencial sociológico e antropológico e da concepção da realização de “cartografias sociais”, contribuir para a compreensão das questões e problemas que são vivenciadas por essas comunidades indígenas no Estado do Rio Grande do Norte. Para tanto, além de uma compreensão geral da questão no Estado, esse texto se deterá mais profundamente sobre a população indígena “Tapuias da Lagoa de Tapará”, onde realizamos entrevistas, filmamos e etnografamos o processo de emergência étnica desse povo desde o ano de 2013 até o momento atual, articulando para tanto atividades de ensino, pesquisa e extensão universitária.
Apresentação Oral em GT

Renascimento cultural amazônico: relações interétnicas e dinâmicas culturais entre os Yawanawa

Autor/es: Virgilio de Almeida Bomfim Neto
Os Yawanawa vivem nas cabeceiras do rio Gregório no Estado do Acre, município de Tarauacá. Os primeiros contatos com os 'brancos' aconteceram com a chegada dos caucheiros e seringueiros vindos do Peru e do Brasil, por volta de 1900. Na década seguinte estabeleceram relações pacíficas com os patrões seringalistas realizando abertura de ramais, roçados, caçando e pescando em troca das cobiçadas mercadorias do barracão. Em meados de 1970, com o declínio final do valor econômico da borracha suas terras foram vendidas pelos patrões para a empresa Paranacre. Esta explorou os indígenas que antes trabalhavam mediados pela chefia tradicional, sem interferência dos patrões, passaram a trabalhar como seringueiros para ter acesso aos recursos do barracão sendo proibidos de utilizar a terra sem autorização. Na mesma década o CPI-AC iniciava sua luta a favor dos direitos indígenas. Terri Aquino presidia a instituição enquanto mapeava terras indígenas entrou em contato com os Yawanawa.Lideranças denunciaram a empresa e, associados ao CPI e o CIMI garantiram a demarcação do território, a expulsão dos patrões e a criação de uma cooperativa. Biraci, sobrinho do cacique, foi para a cidade estudar e iniciou sua trajetória como liderança indígena junto ao CPI. A articulação com o governo, antropólogos e ONGs possibilitou a inserção no movimento indígena redirecionando as lideranças para novas possibilidades de sustento e suporte da aldeia nas necessidades que se estabeleceram após o contato. Através de Biraci foi selado na Eco-92 um acordo econômico com a AVEDA, empresa norte-americana que deu subsídio para os Yawanawa iniciarem uma plantação de urucum dentro dos princípios ecológicos. Com o apoio governamental e os lucros da parceria iniciaram a revitalização cultural, através de escolas indígenas, documentários, livros e o etno-turismo. Desde 2001 que a aldeia Nova Esperança promove o festival Yawa, como parte integrante de um projeto denominado resgate de práticas culturais, iniciado sob a liderança do atual cacique.Na festividade os Yawanawa recebem turistas de vários países interessados em conhecer e partilhar de seus costumes tradicionais. São realizadas danças, brincadeiras e rituais representativos da cultura Yawanawa. Reconhecida essas circunstâncias estabeleço um diálogo com autores consagrados da antropologia indígena e das relações interétnicas como Manuela Carneiro da Cunha, Frederik Barth, Roberto Cardoso de Oliveira,Marshall Shalins, Beth Conklin e João Pacheco de Oliveira.Assim descrevo o renascimento cultural Yawanawa considerando as dinâmicas interétnicas e sua relação com as tradições de conhecimento, com o que se entende e significa como cultura entre nós, brasileiros cosmopolitas, e os nativos oriundos de Nova Esperança.
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Emergência étnica indígena e territorialização na comunidade Nazaré no município de Lagoa de São Francisco- Piauí

Autor/es: Ilana Magalhães Barroso, Carmen Lúcia da Silva Lima
O presente trabalho visa pensar a territorialização e emergência étnica da comunidade Nazaré como o contexto histórico que atribui significados para a afirmação da identidade do grupo estudado. O proposito dessa pesquisa foi fazer o resgate da organização do espaço e mostra a afirmação indígena dos habitantes de Nazaré. Esse estudo problematizou as temáticas de territorialização, emergência étnica de famílias que estão passando por um processo de reconhecimento enquanto indígenas. As atenções nesse trabalho serão voltadas para a compreensão de que forma essa comunidade está se considerando enquanto pertencentes de uma etnia em relação ao processo histórico desenvolvidas de maneira subjetiva e coletiva. A proposta foi constituída por bases teóricas que foram os conceitos base para a identificação do campo de estudo partindo da territorialização, segundo João Pacheco de Oliveira, definindo como um processo de reorganização social (OLIVEIRA, 1998) e grupo étnico, segundo Barth definia como “categorias de atribuições e identificação realizadas pelos próprios atores e, assim, tem a característica de organizar a interação entre as pessoas”. (BARTH, 2011, p.189). A pesquisa foi realizada através de observações participante, registros em diários de campo, realização de conversas no cotidiano, produção de imagens fotográficas, áudio e vídeo e pesquisa bibliográfica. As informações obtidas foram organizadas e analisadas com base no problema e objetivos. A pesquisa foi assim, incialmente definida: a questão da origem indígena surgiu na comunidade, a partir de um diagnóstico feito por um professor da Universidade Federal do Piauí- UFPI acompanhado de representantes da Fundação Mandacaru, fundação está que atua na região desde 1989 com influência Alemã. Esse resgate foi feito de maneira tímida devido os habitantes do local não quererem tocar no assunto. Essas informações resultaram nas seguintes perguntas que nortearam o objetivo geral dessa análise feita: Quem é esse grupo? Como eles estão afirmando a identidade indígena? Quais as relações que eles estão estabelecendo para legitimar está identidade? Sabemos que todo mundo vivia em algum lugar, qual a relação que eles estão desenvolvendo em relação ao local que vivem? O tema da pesquisa se reveste tanto em importância social como teórico. Essas relevâncias consistem em contribuir para o entendimento e explicação de um fenômeno cientificamente proeminente para a teoria social, a investigação social de resgatar a história desses povos que vivem naquela região e narram como seus descendentes ali habitavam e usavam aquela terra para sua sobrevivência, sabendo que ali também era corredor indígena e recebia povos vindos de inúmeras regiões em busca de melhorias.
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Tradição de conhecimento entre os rezadores Potiguara, suas redes de relações e dinâmicas territoriais

Autor/es: Marlon Nilton da Silva Galvão
Este trabalho é resultado de pesquisa de iniciação científica com os Potiguara, no estado da Paraíba. Procura-se aqui mostrar como a tradição de conhecimento é construída entre estes indígenas e como os rezadores, operadores das práticas xamanísticas, imprimem suas opiniões sobre moralidade, ecologia doméstica e a relação com o espaço territorial onde se desenvolvem as atividades quotidianas. Os índios Potiguara ocupam uma área, constituída pelas as antigas sesmarias de São Miguel e de Nossa Senhora dos Prazeres, hoje dividida em três T.I.s contiguas. A pesquisa foca principalmente a T.I de Monte-mór. Nesta localidade os grupos domésticos desenvolvem grande diversidade de atividades técnicas e econômicas como a pesca, o trabalho na lavoura, a coleta de crustáceos, entre tantas outras. Estas atividades contribuem a definir não apenas o ritmo da vida na aldeia, mas também as concepções cosmológicas sobre os locais de uso comunal, como o mangue e a mata. As manifestações cosmológicas apresentadas pelos Potiguara são o resultado de um entrecruzamento de fluxos culturais, favorecido pela colonização dos europeus no Brasil e o tráfico negreiro vindo do continente africano. Associando princípios religiosos e imagens procedente do catolicismo e do culto aos ancestrais praticado por afrodescendentes, com as práticas e visões cosmológicas de origem pré-coloniais, se criou uma tradição de conhecimento, aqui usando o conceito de Fredrik Barth, própria, sendo cultivada e refinada dentro das famílias extensas ao longo dos séculos. O resultado deste entrecruzamento de fluxos é evidente nos mitos sobre a criação da igreja de nossa senhora dos prazeres e no trabalho dos operadores de práticas xamanísticas, que utilizam o resultado deste entrecruzamento em suas rezas, lambedores, garrafadas e chás. Estes conhecimentos contribuem para a construção de um padrão moral que é promovido por estes operadores, e são repassados para as gerações seguintes de forma oral, seja em contextos rituais, seja durante as práticas técnicas e econômicas.
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