Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT052. Políticas Etnográficas no Campo da Cibercultura

Há duas décadas, a antropologia tem sido desafiada em termos de teoria, método e práticas, com o campo da cibercultura. Aqui ele é pensado como uma situação contemporânea, de cotidianização das tecnologias digitais, em particular, a internet e os seus dispositivos. Práticas e metodologias de pesquisa antropológica nesse campo são crescentes e buscam elementos que dialogam com áreas como a Comunicação e a Sociologia ou mimetizam experiências consolidadas de campos de nossa disciplina que sugeriam a mesma complexida, como é o caso da Antropologia Urbana. Mais recentemente, nota-se que é alimentado um estreito diálogo a Teoria Ator-Rede, o seu rastreamento de associações entre humanos e não humanos e o seu mapeamento de controvérsias. Partindo dessas articulações, o objetivo do GT é o de pensar políticas etnográficas para a pesquisa antropológica no e a partir do campo da cibercultura, conduzindo-as por meio de três eixos ou agendas de trabalho: (i) a agenda teórica, disposta pensar uma teoria antropológica da cibercultura; (ii) a agenda metodológica, preocupada em (a) como pesquisar antropologicamente a cibercultura e em (b) como fazer das novas tecnologias digitais estratégias de pesquisa antropológica/etnográfica; (iii) a agenda prática ou aplicada, disposta a definir ações práticas e/ou engajadas.

Jean Segata (UFRN)
(Coordenador/a)
Theophilos Rifiotis (DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA)
(Coordenador/a)


Junho de 2013: hiperetnografia de uma insurreição "invisível"

Autor/es: Andrey Cordeiro Ferreira
O objetivo do presente trabalho é, a partir da descrição de uma situação que qualificamos como insurrecional, Junho de 2013, apresentar uma experiência metodológica e teórica que denominamos de hiperetnografia. A proposta é incorporar na escrita etnográfica produtos e vozes expressos pela cibercultura, possibilitando assim um produto que não seja apenas textual, mas hipertextual. Ao mesmo tempo, uma situação insurrecional coloca em ação formas de poder simbólico e repressivo, bem como estratégias de resistência que são frequentemente invisibilizadas, especialmente aquelas que se articulam por meios da chamada cibercultura e por modos informais de organização, que escapam ao registro teórico-político dos grandes paradigmas das ciências sociais. Por isso, a mobilização de toda uma produção difusa de discursos e representações por meio da cibercultura, especialmente a autorepresentação por meio de videodocumentação realizada por meio do Youtube. Desse modo, a hiperetnografia é também uma estratégia de crítica: enquanto os discursos dominantes se pautam pela autoridade dos dados produzidos pel o Estado, pelos meios de comunicação de massa e organizações formais da sociedade civil, a hipertnografia recupera os discursos contestatórios que circulam no universo da cibercultura como discurso oculto. Ao mesmo tempo, conjugamos a descrição etnográfica, a partir do método de análise situacional, para compor o complexo quadro de relações entre cultura, sociedade e cibercultura, descrevendo os antagonismos e dinâmicas de relações sociais. Iremos apresentar então uma hiperetnografia dos protestos de Junho de 2013 na cidade do Rio de Janeiro, por ocasião da Copa das Confederações da FIFA, tentando apontar como uma metodologia etnográfica pode auxiliar na crítica dos discursos dominantes e sua forma de reprimir a pluralidade de vozes existentes numa situação insurrecional.
Apresentação Oral em GT

Cortes nas Redes: convivendo com automutiladores em seus ciberbastidores

Autor/es: Everton de Lima Silva
A automutilação, também chamada de cutting, que consiste no ato de se cortar praticado por alguns indivíduos em sua maioria adolescentes e jovens, é uma prática que ocorre secretamente. As pessoas que se cortam desenvolvem diversas táticas no intuito de que não sejam descobertas por pessoas que, no entender delas, não seriam as mais indicadas para terem acesso a este tipo de informação. Mas, o fato de a automutilação ser uma prática realizada em segredo não implica dizer que ela não seja compartilhada, debatida, desejada ou até mesmo rechaçada pelos seus adeptos. Restrita com frequência aos bastidores da vida social (Goffman, 1985), a automutilação se revela nas redes sociais, que podem ser vistas como ciberbastidores. Deste modo, o pesquisador que persegue um tema pautado pelo segredo, pelo ocultamento e pela privacidade encontra, nas redes sociais, o único ambiente possível para praticar etnografia. Meu objetivo nesta apresentação é o de relatar minha experiência de aprendizado sobre automutilação nas redes sociais, o que gera um debate sobre a viabilidade de se fazer pesquisa nestes espaços, ou mais especificamente remete aquilo que Rifiotis chama de “disputas entre políticas etnográficas” (RIFIOTIS, 2014). O foco de minha discussão se dará acerca de minha participação em grupos do Whatsapp e Facebook voltados para praticantes de automutilação. Estes grupos possuem uma dinâmica e maneira de se relacionar própria desses espaços, mas além disso também funcionam como refúgio e espaço de expressão para aqueles que têm como marca comum a prática de se cortar. Para tanto, parece-me que o uso do termo socialidade (WAGNER, 2010) tem sido teoricamente mais rentável para me referir ao tipo de contato que existe entre os sujeitos com os quais estudos a partir das redes sociais do que os conceitos de sociedade ou sociabilidade.
Apresentação Oral em GT

Propriedade intelectual e licenças de uso: desafios sobre direitos autorais no campo da cibercultura.

Autor/es: Flora Rodrigues Gonçalves
O desenvolvimento e a popularização das tecnologias digitais mudaram a forma na qual se configura a questão dos direitos de autor dentro dos debates sobre a democratização da tecnologia, principalmente nos estudos antropológicos de ciência e tecnologia. As informações e redes digitais possibilitaram apropriações sobre obras e produções que forçaram a abertura de um tipo de discussão que levasse em consideração não somente o direito de autor, mas também suas mais recentes configurações de compartilhamento e troca. Porém, a discussão sobre autoria e seus pressupostos não apresenta um ponto de vista unificado. A categoria de propriedade intelectual, por exemplo, recentemente entrou em colapso diante de novas formas de apropriação intelectual feitas por movimentos tecnológicos, artísticos e culturais, sobretudo sob o mote da colaboratividade. A noção de autor - como ser individualizado e possuidor de direitos - agora assume o papel da autoria múltipla, ou do coletivo enquanto autor, ou ainda da ausência autoral: tanto o trabalho intelectual artístico quanto as formas de criação passam por um processo que não possui um autor. O autor são muitos e são vários. É nesse sentido que, a partir dos diversos agenciamentos mobilizados dentro dessa “nova” noção de autoria, propomos discutir um tipo específico de licença de uso – o copyleft, e algumas de suas recentes apropriações, que problematizam licenças como o copyright, e propõem um outro modo de se pensar o direito autoral na modernidade. As controvérsias sócio técnicas levantadas e as discussões entre os porta-vozes se consolidam, sobretudo, em ambientes de rede, onde as licenças que diferem do padrão hegemônico são discutidas e modificadas.
Apresentação Oral em GT

Mobilização étnica polonesa em redes sociotécnicas: processos de etnização em comunidades virtuais no ciberesço.

Autor/es: Joab Monteiro de Sousa
A proposta desse trabalho é de apresentar parte de uma pesquisa em desenvolvimento no Programa de Doutorado em Ciências Sociais/UFRN e tem por objetivo geral fazer aparecer mobilizações e expressões de etnicidade compartilhadas nas interações associativas entre descendentes de poloneses e demais dispositivos no âmbito ciberespaço. Em meio à observância da pesquisa etnográfica e da prática da observação participante em locais resultantes do fluxo migratório polonês no Brasil meridional e ambiências virtuais do ciberespaço desde 2009 tem sido possível efetivar um estudo acerca deste crescente e singular processo de etnização que perpassa ambiências locais e virtuais de forma coadunada. A partir do mapeamento e rastreamento de comunidades virtuais constituídas por tais descendentes no âmbito de redes sociais (facebook), entre outros actantes, à luz da Teoria do Ator-Rede, tem-se constatado, em conformidade com hipóteses já levantadas, que as atuações de cunho étnico polonês, sobretudo no âmbito do ciberespaço mediante o uso de redes sociais, porém respaldadas em respectivas localidades de origem e/ou de participação, têm propiciado a emancipação e valorização de processos de etnização em redes sociotécnicas no âmbito local/global.
Apresentação Oral em GT

O “paciente-informado”: uma etnografia das interações entre pessoas e conteúdos de saúde na web.

Autor/es: Maria Elisa Máximo
O presente artigo apresenta os resultados de uma pesquisa etnográfica que se debruçou sobre os processos de constituição de um fenômeno que tem sido chamado na literatura nacional e internacional de “paciente informado” ou “paciente expert”. O estudo foi realizado na cidade de Joinville, localizada ao sul do Brasil, entre os anos de 2013 e 2016. O acesso crescente aos conteúdos de saúde disponíveis na web vem ganhando destaque nas mídias e uma evidência disso é a consagração da expressão “Dr. Google”. A pesquisa teve como principal propósito identificar como as pessoas buscam conteúdos de saúde na web, visando compreender possíveis reconfigurações nas relações entre “pacientes”, profissionais de saúde e serviços. Perseguindo as condições para uma antropologia simétrica, a pesquisa se desenvolveu através do mapeamento de sites e portais em língua portuguesa que disponibilizam conteúdos específicos de saúde e de entrevistas com pessoas selecionadas através de redes pessoais de contatos. O enfoque foram as interações entre pessoas, sites, conteúdos disponíveis, ferramentas de busca, navegadores, softwares e aplicativos de acesso e navegação na web, computadores, dispositivos portáteis e uma infinidade de agentes que participam, cada vez mais, do nosso cotidiano. A pesquisa vem mostrando que, se por um lado, muitos atores do campo biomédico questionam sobre a confiabilidade dos conteúdos disponíveis, implicando em riscos de autodiagnósticos equivocados e preocupações infundadas, por outro lado, há quem reconheça as possibilidades oferecidas pela web para potencializar e horizontalizar a participação nas tomadas de decisões entre médicos e pacientes. A proposta foi a de seguir as redes e identificar as ações sem pressupor que sejam humanas ou não humanas para, no limite, perceber nas ações quem está fazendo fazer o quê. Nessa rede de relações e múltiplas agências encadeada entre pessoas, web, conteúdos, serviços de saúde dentre outros, percebem-se redefinições nos papéis usualmente desempenhados pelos diferentes agentes envolvidos no atendimento à saúde, bem como um processo de simetrização destas relações. Até o momento, o indicador mais significativo da configuração do "paciente-informado" é a possibilidade de "tomar para si" o poder da mediação. Mediar é, neste caso, ter ação sobre os critérios de seleção da informação, de escolha das condutas e, principalmente, ter ação sobre o próprio discurso médico que, até então, era lócus por excelência de produção de “verdades”. Assim, um "paciente-informado" constitui-se como um ator-rede no sentido proposto por B. Latour: é um lugar do qual se atua e para onde converge uma multiplicidade de ações.
Apresentação Oral em GT

#meucirioeassim: questões da pesquisa sobre o Círio de Nazaré de Belém-PA e as mídias e redes sociais

Autor/es: Mariana Pamplona Ximenes Ponte
Ao desenvolver a pesquisa sobre a Religiosidade Paraense a partir da Fresta-ritual do Círio de Nazaré de Belém-PA inesperadamente os rumos a partir da chuva evidente de dados impôs a inclusão de reflexões acerca das mídias e redes sociais como meios de práticas e modos de expressão cultural, devocional e identitária a partir dessa festa ora definida como Carnaval Devoto e que possui caráter Rizomático na cultura paraense. A proposta deste trabalho é compartilhar reflexões, elaborações e questionamentos acerca da etnografia no campo das relações sociais intercedidas por meios eletrônicos, inclusive levantando questões de discutam os termos da cibercultura, netnografia e etnografia virtual. No processo da pesquisa as possibilidades que se abrem nem sempre são o objeto principal, mas se apresentam como um foco significante e não podem ser desprezados. Dessa forma fui provocada a refletir sobre as questões teóricas e metodológicas da pesquisa que se realiza no meio virtual, envolvendo questões e/ou dados advindos principalmente das redes e mídias sociais. Durante o Tempo do Círio de Nazaré em Belém-PA são ativados pelo menos dois aplicativos para celular que foram criados por instituições diferentes e que tem como principal objetivo informar a localização da berlinda da Santa, o que é feito através de um localizador georreferenciado que em tempo real mantem informado os usuários sobre onde se encontra a Santa durante dez procissões que no total somam cerca de 129 quilômetros de percurso. O aplicativo mais famoso chama-se “Kd a Berlinda?” e é disponibilizado gratuitamente aos usuários. Nas redes sociais especialmente o Facebook os perfis dos paraenses ficam repletos de imagens e textos que fazem referência direta ao ritual pelo qual a cidade está imersa. Eles se referem aos “encontros” com a santinha ou a Nazinha durante suas andanças, a mudança no ritmo da cidade, a chegada de paraenses que moram longe, de amigos, parentes e turistas, a preparação das comidas são algumas das quase incontáveis formas com que o Círio se atrela a vida dos paraenses nesse período. A partir dessa intensa participação virtual dos devotos na internet e com a proliferação de imagens relacionadas ao Círio de Nazaré foi realizado um documentário colaborativo em que as imagens utilizadas vieram dos vídeos postados no Facebook com a hastag #meucirioeassim. Essas são as questões principais a serem tratadas neste trabalho buscando a partir do percurso da pesquisa propor e compartilhar reflexões sobre questões teóricas e metodológicas da busca do ethos da religiosidade paraense através do que há na cibercultura sobre o Círio de Nazaré de Belém-PA.
Apresentação Oral em GT

A vontade de saber sociotécnico no contexto da prática etnográfica on e off-line: metodologias, possibilidades e desafios

Autor/es: Amanda Karine Monteiro Lima, Francisco Alves Gomes, Edio Batista Barbosa.
Trata-se de um estudo sobre as estratégias etnográficas no campo do ciberespaço, tendo como ponto de partida as lan houses da cidade de Boa Vista-RR, localizada no extremo norte do país, na fronteira Brasil e República Cooperativista da Guiana. O objetivo principal é apresentar e discutir os desafios e possibilidades da prática etnográfica frente a virilização das tecnologias digitais e de uma forma contemporânea de interação pautada no trinômio indivíduo/computador/internet, no contexto da lan house e do ciberespaço, tendo em vista a dicotomia on-line e off-line e as controvérsias antropológicas face a utilização da etnografia e da Teoria Ator-Rede no âmbito da cibercultura. Para tanto, analisa-se as relações sociais estabelecidas nesses espaços da contemporaneidade, traçando-se o perfil dos frequentadores, tendo em vista caracterizar e comparar as relações sociais desenvolvidas nesses diferentes contextos, bem como compreender como os sujeitos relacionam-se entre si no palco da cibercultura, tendo por base a noção ator-rede (LATOUR, 2008), fazendo jus a vontade de saber sociotécnico (RIFIOTIS, 2012). No geral, enfatizamos, por meio de reflexões teóricas e metodológicas, as observações feitas acerca dos objetivos, interesses, linguagens e comportamentos nos espaços lan houses, enquanto porta de entrada para a cibercultura. Desse modo, o presente estudo aponta preliminarmente para a insurgência de uma prática etnográfica menos convencional e interpretativa face aos novos arranjos da vida social no ciberespaço, tendo em vista a necessidade de readequação da descrição densa de Geertz em uma atividade descritiva desenhada em uma cadeia de vinculações em que os agentes se inscrevem no fluxo de sua própria atuação.
Pôster em GT

Museu das Coisas Banais (MCB) ativa a oralidade na rede para a preservação e compartilhamento de memórias.

Autor/es: Rafael Teixeira Chaves, Rafael Teixeira Chaves Juliane Conceição Primon Serres Daniele Borges Bezerra
O Museu das Coisas Banais, é um cibermuseu que atua na salvaguarda e compartilhamento da memória social de cunho afetivo. Seu acervo, formado por fotografías e narrativas, explicitam as memórias atreladas aos objetos fotografados. Estes objetos comuns são ressignificados pela narrativa do seu doador, que lhe confere importância no tempo. Tornam-se objetos biográficos e evocadores de memórias, facilitadores da oralidade e da transmissão de memórias privadas, muitas vezes circunscritas ao ambiente familiar.
Pôster em GT