Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT049. Partos e/ou maternidades e políticas do corpo: perspectivas antropológicas

Este GT pretende dar continuidade às discussões inauguradas na RBA em 2014 e em outros fóruns nos últimos anos. Nesta edição visamos agregar trabalhos que explorem as temáticas do parto e/ou da maternidade/paternidade na contemporaneidade, partindo do pressuposto de que múltiplas têm sido as suas expressões simbólicas, bem como suas transformações enquanto experiência social. Nas décadas de 70 e 80, a maternidade e o parto foram tematizados pelo viés do direito à saúde integral e dos direitos sexuais e reprodutivos, o momento atual, no entanto, parece ser outro, em que o campo se vê interpelado também por questões como: o ideário da humanização do parto; as múltiplas experiências de gravidez, parto e pós-parto; o crescimento de tecnologias reprodutivas (NTRs); as políticas públicas; as experiências de maternidades lésbicas; a existência de outras figurações de paternidade; as paternidades gays e as práticas e moralidades relativas ao cuidado das crianças. Nesse sentido, esperamos adensar a discussão antropológica e criar uma agenda de pesquisa que explore outras noções de sexualidade, corporalidade, pessoa e práticas de cuidado nas cenas de parto, pós-parto, maternidades/paternidades e parentalidades. Por essa razão, trabalhos que discutam o assunto a partir do viés teórico e epistemológico, político e identitários serão mais do que bem-vindos no sentido de despertar diálogos antropológicos sobre outras políticas do corpo e do cuidado na atualidade.

Fernanda Bittencourt Ribeiro (Pontifícia universidade Católica do Rio Grande do Sul)
(Coordenador/a)
Rosamaria Giatti Carneiro (Universidade de Brasilia/ABA/APA)
(Coordenador/a)


A produção do aleitamento materno: recursos biomédicos, corpos e gêneros

Autor/es: Amanda Bartolomeu Santos
Este trabalho é parte de uma pesquisa para dissertação de mestrado que tem como foco as práticas que promovem e possibilitam o aleitamento materno, diante do problema de pesquisa colocado pela produção do aleitamento como “natural” (a determinados corpos), ao mesmo tempo em que é produzido entre conhecimentos e técnicas biomédicas, além de recursos farmacológicos. O Equilid®, marca mais conhecida da sulpirida, por exemplo, trata-se de um antipsicótico, que é prescrito para mulheres no puerpério por possuir, entre seus efeitos adversos, a hiperprolactinemia, ou o aumento da concentração da prolactina, hormônio que estimula a secreção de leite. E embora a bula do medicamento afirme não ser recomendada a amamentação durante seu uso, o Manual do Ministério da Saúde, "Amamentação e Uso de Medicamento e Outras Substâncias" (BRASIL, 2010) caracteriza a substância como de uso compatível com a amamentação. Para este estudo, são analisadas as perspectivas de profissionais de saúde de Porto Alegre-RS sobre a utilização desses recursos na produção do aleitamento materno, em um contexto de certo consenso médico e das políticas de saúde em relação à importância da promoção do aleitamento, com campanhas de saúde que vinculam um ideal de maternidade e sustentam determinados modos de intervenção biomédica. Busco um entendimento sobre quais as possibilidades de intervenção são pensadas e praticadas nesse contexto, se envolvem algum tipo de diagnóstico, e como atuam em relação à produção de corpos e relações de gênero. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria da Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Amamentação e Uso de Medicamento e Outras Substâncias. 2ª ed, Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2010. SANOFI-ADVENTIS FARMACÊUTICA LTDA. Equilid®. Bula, s/d. Disponível em: , acesso em 22/03/2016.
Apresentação Oral em GT

#MaternidadeReal: conteúdo impróprio.

Autor/es: Clara Cazarini Trotta
No início do ano de 2016 uma hashtag (palavras-chave em que pessoas compartilham conteúdos em redes sociais e sites) começou a ser muito divulgada na rede social Facebook, o #DesafioDaMaternidade. Nesse desafio as mães devem publicar 3 ou 4 fotos com suas/seus filhas(os) demonstrando a felicidade e satisfação em ser mãe, e marcar outras mães que também deveriam fazer o mesmo. Tudo ocorria na perfeita ordem até que uma dona de casa de 25 anos se recusou a cumprir o desafio, usando-o na contramão do que estava sendo feito para fazer um desabafo sobre como se sentia em relação a maternidade. Essa publicação causou uma grande reação dentro das redes sociais, seu perfil e publicação passaram a ser alvo de muitos comentários e discussões. Além dos muitos compartilhamentos, foi muito grande o número de pessoas que passaram a se posicionar de maneira hostil ou de apoio a ela. Essa comunicação tem o intuito de pensar como uma publicação em relação a maternidade, e a maternagem repercutiram com tanto efeito nas redes sociais, suscitando muitos debates, matérias de jornais, posicionamentos e discussões. O que se torna de suma importância para pensar sobre os muitos discursos sobre a maternidade, uma das consequências de uma mãe em uma publicação tentar discutir de forma aberta e não hegemônica é seu perfil foi denunciado tantas vezes, devido a essa publicação, que ela teve seu uso bloqueado por um determinado tempo. A poeta americana Adrienne Rich, em seu livro Of Woman Born (1986), se propôs a estudar a maternidade socialmente, como instituição política, a partir de um viés feminista. Em uma introdução escrita 10 anos depois do lançamento desse livro, a autora conta que recebeu várias críticas, pois, em seu trabalho, ela traz sua experiência pessoal junto com a pesquisa. Ela diz estranhar essas críticas por pensar que não há como um/uma autor/autora escrever sem colocar em seu texto experiências pessoais de sua vida (RICH, p. X, 1986). Assim é possível perceber como as mulheres que discutem suas experiências de maternidade, não tem espaço legítimo para o fazerem, nem em sua rede social pessoal, e nem em um texto crítico acadêmico. Por essas razões, essa comunicação se propõe a analisar as repercussões e reações suscitadas a partir desse discurso que, apesar de parecer muito destoante, também influenciou muitas mulheres a falarem mais abertamente, criando outra hashtag chamada #MaternidadeReal. Pretende-se fazer uma reflexão à luz das teorias antropológicas e de gênero pensando a maternidade como um construto histórico-cultural permeado tanto de relações de poder, quanto de discursos e experiências das mulheres mães.
Apresentação Oral em GT

“Crianças especiais para famílias especiais”: Uma etnografia sobre as representações das mães de bebês com microcefalia em João Pessoa-PB

Autor/es: Diego Alano de Jesus Pereira Pinheiro
A atual pesquisa iniciou no final de janeiro, após o grande índice de bebês nascidos com microcefalia, tendo sua maior concentração na região do nordeste do país. A mídia tanto nacional quanto regional tem noticiado o balanço diário do “surto”, até o momento passam de 500 casos de bebês com malformações cerebrais somente na Paraíba, segundo dados do Ministério da Saúde. Pesquisadores interessados no tema buscam compreender a principal causa da doença; e a hipótese mais provável evidencia o vírus da Zika transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. Movimentos feministas, ONGs e até a ONU tem se posicionado em favor da legalização do aborto para mulheres que tem a confirmação ainda na gestação. Contudo, o meu objetivo volta-se a entender as representações e trajetórias de vidas das mães de bebês diagnosticados com microcefalia em João Pessoa (PB), a fim de apreender as produções de sentidos e significados oriundos das concepções da maternidade. Uma vez que essas mulheres tem se organizado em grupos de ajuda mútua e cooperação nas redes sociais, compartilhando experiências sobre o cuidado com os “anjos” (como denominam os seus filhos) e reivindicando direitos para garantir auxílio junto ao INSS. Neste sentido, esse trabalho contribui para reflexões antropológicas no campo do corpo e da saúde para entender as noções construídas em torno dessa experiência maternal.
Apresentação Oral em GT

"O desafio da maternidade": protagonismo feminino para além do parto

Autor/es: Elaine Müller
Este trabalho procura refletir sobre as narrativas de mulheres sobre seus partos e maternidades. Percebo que os relatos escritos, os vídeos ou as fotografias de parto publicados na internet se colocam como um projeto político-pedagógico, ao se proporem "ensinar" algo a outras mulheres e ao desestabilizarem relações hegemônicas, notadamente na recusa a intervenções invasivas e procura da restituição da autonomia sobre seus corpos no momento do parto. Um termo bastante recorrente nestas narrativas e no movimento de humanização do parto é "protagonismo". No que concerne as narrativas mais amplas sobre a maternidade, alguns eventos pontuais nas redes sociais, como o "desafio da maternidade", o "desafio da maternidade real", e o "desafio da paternidade" dão visibilidade e ampliam o leque do que poderia ser chamado de "protagonismo" de mulheres mães. Diante da constatação de que muitas mulheres mães "engajadas" são defensoras da legalização do aborto e questionam os papeis do Estado e dos pais no exercício da "maternagem", alguns questionamentos parecem bastante pertinentes: estamos diante de uma politização da maternidade? De que forma as demandas destas mulheres mães "engajadas" tem sido recebida nos espaços por elas ocupados? De que forma o "protagonismo feminino" defendido por profissionais da atenção ao parto e ao nascimento tem sido discutido, perseguido, almejado e garantido para além da cena do parto?
Apresentação Oral em GT

As parteiras e a arte de fazer partos em perspectivas cosmológicas no arquipélago do Marajó

Autor/es: Eliane Miranda Costa, Ana Maria Smith Santos Flávio Bezerra Barros
O texto apresenta resultados de uma pesquisa realizada na comunidade Santa Luzia, localizada no rio Tauaú região, rural do município de Breves, no Arquipélago do Marajó-PA. Trata-se de uma etnografia sobre o ofício de fazer partos e sua relação com o modo de vida local na perspectiva de duas parteiras dessa comunidade. A finalidade desse estudo é de apreendermos por meio das memórias narradas pelas depoentes a relação estabelecida entre cultura e natureza a partir das práticas e saberes construídos com a arte de fazer partos. Nesta pesquisa utilizamos como métodos a entrevista semiestruturada e conversas informais anotadas no caderno de campo. O tratamento dos dados, com base na teoria antropológica, por meio do diálogo com autores como, Viveiros de Castro (1996), Diegues (2001); Latour (2009), Fleischer (2011), entre outros, nos possibilitou inferir que a tradicional divisão entre cultura e natureza, nos moldes da ciência ocidental de racionalidade instrumental é insuficiente para abarcar a diversidade de saberes que circundam a vida e a prática dessas mães, mulheres e parteiras. Isso porque tais práticas envolvem conhecimentos transmitidos de forma tradicional no qual há a relação de entrelaçamento entre cultura e natureza, pois a arte de partejar na comunidade em tese está envolta de cosmologias, saberes vistos pela ciência positivista e cartesiana como algo inaceitável. Porém, ao analisarmos por meio do perspectivismo a forma como as interlocutoras encaram sua fé nas ervas, nos chás, nos encantados e em seus santos, tudo de forma entrelaçada, podemos ver que há aí um processo de simetria entre os elementos humanos e sobre-humanos, se aproximando do pensamento desenvolvido por Viveiros de Castro (1996). Um exemplo dessa questão é o fato de mulheres engravidarem de bichos quando tratam a caça estando em período menstrual, ou, quando neste estado, vão ao rio realizar tarefas domésticas, e aí engravidam de peixes, como o poraquê. Por meio dos relatos conseguimos identificar também que tais práticas, antes, durante e após o parto, estão diretamente relacionadas com: a corporalidade - envolve os cuidados com o corpo da grávida e da criança, a exemplo das massagens, conhecidas como “puxação”, feitas com óleos preparados pelas próprias parteiras -; a maternidade – especificamente, em casos de gravidezes consideradas não convencionais aos olhos da racionalidade científica moderna e que pela experiência dos envolvidos constroem uma lógica aceitável no contexto local, a exemplo da realização de um parto cuja explicação dada pela grávida foi à concepção originada do contato com uma preguiça, o que a fez gerar, portanto, uma criança zoomórfica-; e até mesmo com a parentalidade – pois o ofício do parto foi repassado de mãe para filha e de sogra para nora.
Apresentação Oral em GT

Nascer Xakriabá: cuidado e técnicas do corpo, antes e após o nascimento

Autor/es: Érica Dumont Pena, Rogério Correia da Silva
O presente texto tem como objeto os saberes e as práticas relacionados à gestação, parto e nascimento dos povos indígenas Xakriabá, de Minas Gerais. Focaliza observações de campo e relatos orais que tratam dos processos de “ganhar menino”, compreendidos como parte das “técnicas corporais” deste povo. As técnicas corporais, como descreve Mauss (1872-1950/2003), são maneiras pelas quais as pessoas, de sociedade em sociedade, sabem servir-se do seu corpo. Assim, o que Mauss (1872-1950/2003) chama de técnica do corpo é um ato eficaz, que, então, não se distingue de ato mágico, religioso, simbólico. Neste caso, o corpo é o objeto técnico do ser humano, semelhante a um instrumento, um meio técnico. As técnicas se organizam no sistema de montagens que constituem a vida simbólica do indivíduo, ou a sua consciência, de modo que este possa se adaptar constantemente a um objetivo físico, químico, mecânico – por exemplo, beber água –, não simplesmente pela sua individualidade, mas por toda a sociedade da qual faz parte, de acordo com o lugar que ocupa. Na primeira parte do texto realizamos um pequeno inventário de técnicas do corpo que o povo Xakriabá dispõe e que lhe ensinam durante a vida, das quais destacamos as técnicas de cuidado com a gestante relacionadas à constituição física do feto e ao momento de nascimento da criança e as técnicas de cuidado com a criança após o nascimento. Na segunda parte do texto discutimos as técnicas de “ganhar menino” e as relações de cuidado com o outro, com destaque para seus aspectos éticos e políticos. Neste momento destaca-se a discussão da sociabilidade cotidiana, da intimidade e da confiança (OVERING, 2000; McCALLUM, 2010;2013) como eventos corporais, que também são epistemológicos.
Apresentação Oral em GT

Nascer Kalunga, da casa ao hospital: Como as mulheres Kalunga avaliam as diferentes experiências de parto no cenário obstétrico atual?

Autor/es: Gisele Oliveira Muniz, Não se aplica.
Há mais de uma década, a maior parte dos nascimentos de kalungas acontece nos hospitais dos munícipios próximos ao território, e as parteiras locais, antes responsáveis pela assistência das mulheres no território, estão não só cada vez menos atuantes, mas também resistentes a falar sobre o assunto. A pesquisa, que inicialmente buscava investigar as práticas das parteiras em partos domiciliares, busca outros caminhos, agora, apontados pelas próprias mulheres no decorrer de seus relatos e objetiva investigar como as mulheres kalunga, moradoras da comunidade do Vão de Almas, avaliam a experiência do parto hospitalar, desde o processo de migração para as cidades, realizado semanas antes do parto, até a experiência do parto em si, incluindo a percepção do atendimento por diferentes profissionais e instituições. Será considerada também a avaliação da transição do atendimento ao parto domiciliar, com parteiras, para o atendimento médico-hospitalar, no caso de mulheres que vivenciaram seus partos nos diferentes contextos.
Apresentação Oral em GT

“Não me obriguem a um parto normal”: concepções de corpo, autonomia e direito de escolha de mulheres gestantes que optam pela cesárea eletiva.

Autor/es: Jaqueline Cardoso Portela
Esta pesquisa tem como pergunta de partida: o que leva as mulheres a defender a cesariana eletiva como forma recorrente de parto? Através de uma etnografia de páginas da rede social facebook, voltadas para discussão dos modelos de assistência ao parto, analiso neste paper a perspectiva das mulheres que defendem e adotam a cesariana eletiva como uma escolha. Entendo, à luz das Ciência Sociais, que o processo de gestação e do parto não se reduz a fenômenos naturais e meramente fisiológicos; ao contrário, se configura como processos que abrangem dimensões históricas, culturais e sociais. O modelo tecnocrático de assistência ao parto é predominante no Brasil atualmente, refletindo nas altas taxas de cesarianas, tornando o país o campeão de cesáreas no mundo. Dentro deste índice elevado de cesarianas, as chamadas cesarianas eletivas (tipo de cesárea que ocorre quando a cirurgia é agendada antes da gestante entrar em trabalho de parto) são as mais criticadas, porque, geralmente, são as que mais representam riscos tanto para gestante quanto para o bebê. Nas últimas décadas, o advento da popularização do modelo de parto humanizado como alternativa de assistência ao parto no Brasil tem ganhado força, ressignificando e reacendendo o embate público em relação aos modelos de assistência ao parto. Nesta nova configuração, o ciberespaço, qual seja, blogs; sites e redes sociais é entendido como espaço de sociabilidade e construção simbólica, mais do que mero meio de comunicação. A internet é concebida, enquanto espaço onde se desenvolvem práticas culturalmente determinadas que abrigam um leque muito vasto de atividades de caráter societário, e que é palco de práticas e representações dos diferentes grupos que o habitam. Esse embate público estabelecido no âmbito do ciberespaço configura-se como parte do embate social e científico mais amplo sobre os modelos de assistência à gestação e parto no Brasil, assim como do direito à escolha do tipo de parto por parte da mulher, espelhando um espaço fundamental para as análises de como as mulheres defensoras de ambos modelos de assistência ao parto se relacionam, respondem e se posicionam com relação a discursos, informações e argumentos que permeiam esse embate, assim como a percepção de qual papel elas desempenham como reprodutoras, legitimadoras e construtoras desses argumentos.
Apresentação Oral em GT

“Ter um filho me fez desejar conhecer minha mãe”: (re)construção de laços parentais nos casos dos/as “netos/as restituídos/as” na Argentina

Autor/es: Jimena Maria Massa
Este trabalho analisa as noções de maternidade e filiação presentes nos imaginários dos “netos/as restituídos/as” na Argentina. Trata-se de homens e mulheres que, na infância, foram vítimas do “plano sistemático de apropriação de crianças” executado pela última ditadura militar daquele país (1976 – 1983) e que, anos mais tarde, conheceram suas histórias de origem e seus parentes biológicos, protagonizando o complexo processo de “restituição da identidade”. O foco deste trabalho é mostrar em que medida o fato das netas e netos se tornarem mães ou pais influiu naquele processo de reconfiguração das identidades, trazendo novas perguntas, colocando novas necessidades e provocando o desejo de conhecer a história dos genitores e as circunstâncias do próprio nascimento. A vivência da gravidez e o parto, junto com os aprendizados derivados de “ter filhos/as”, ocupam um lugar fundamental nas trajetórias dos/as envolvidos/as, produzindo novas subjetividades que mudam os cursos dos processos de “restituição”. Nesse contexto, a maternidade biológica – especialmente, a transmissão genética e o contato corporal - ganham novos significados. Os dados apresentados formam parte de uma pesquisa de doutorado, focada na (re)construção dos vínculos familiares dos/as “netos/as restituídos/as” e cujo trabalho de campo foi desenvolvido na Argentina junto a um grupo de netos e netas que estão conhecendo suas histórias e (re)criando novos laços parentais, inclusive com os pais biológicos desaparecidos. Essa (re)criação “em ausência” está permeada pelas vivências deles como mães e pais; é a partir dessa condição que os netos e netas repensam seus vínculos familiares. Nesse sentido, cabe lembrar que a “restituição da identidade” implica um processo em que a “certeza genética” que confirma uma nova relação de filiação - agora com pais desaparecidos - constitui apenas o ponto de partida. A (re)construção das relações familiares dos/as “netos/as restituídos/as”, tal como o exercício das respectivas parentalidades, revelam moralidades perpassadas por questões de gênero que também são fundamentais para compreender as emoções envolvidas nos processos de restituição.
Apresentação Oral em GT

"Parir com dignidade e humanização": Casa de Parto como um caso exemplar.

Autor/es: Juliana Souza, Alessandra Rinaldi
Durante o período final da graduação, por estar grávida, acabei me aproximando de mulheres que realizaram o parto no serviço público de saúde, e a partir da narrativa de suas experiências, me debrucei em uma análise antropológica acerca desta temática.O presente projeto é parte do desdobramento da etnografia que realizei para o meu trabalho de conclusão de curso, onde fiz uma análise dos discursos das usuárias e profissionais – enfermeiras, recepcionistas, técnicos de enfermagem - acerca da ideia do “acolhimento” durante o período como parturiente e puerpério na Casa de PartoDavid Capistrano Filho, no bairro de Realengo no Rio de Janeiro Muitas mulheres que conversei relataram um “sofrimento” (REYNOLDS; DAS; KLEINMAN; RAMPHELE & REYNOLDS, 2000) decorrente de “mau atendimento”. Foi-me relatado em conversas informais, que chegaram a ficar mais de 20 horas em trabalho de parto, sem direito a ingestão de alimentos, de acompanhante e junto com várias pessoas na mesma situação, a cena descrita por uma entrevistada foi a de como ela estivesse esperando ser “abatida em um matadouro”. Outra informante falou que amarraram sua mão e fizeram a “manobra de kristeller” - que é uma pressão fúndica, quando o médico ou a enfermeira faz pressão com o antebraço sobre o abdômen para acelerar o parto. Essa e outras situações demonstram cenas traumáticas, denominadas por essas pessoas como um ato de “violência” em relação ao atendimento de pré-natal e da assistência ao parto. Nota-se ser essa prática uma forma de violência resultado de uma gestão da vida (FOUCAULT 1979) pautada em uma violência institucional promovida pelo campo médico e denominada de “violência obstétrica”. É interessante notar não só como categorias de “dor” e “sofrimento” são (re)significadas neste contexto, mas também como estas se revelam como um idioma usados por essas mulheres entre si, assim como os demais profissionais de saúde que atuam e também na forma de reivindicar direitos. Frente a essas questões optei por realizar uma pesquisa que consiste em compreender a produção de discursos dos profissionais- enfermeiras e usuárias do Centro de Parto Normal (CPN) ou Casa de Parto David Capistrano Filho, no bairro de Realengo no Rio de Janeiro. A partir de 12 entrevistas realizadas com usuários da Casa, sendo 7 mulheres e 3 homens (acompanhantes) além de 2 mulheres profissionais da casa de parto (enfermeira obstétrica e recepcionista) . Diante desse cenário almejo, além dos objetivos antes elencados, entender como são configurados esse ambiente dito “humanizado”, enfermeiras obstétricas da Casa de Parto David Capistrano Filho.
Apresentação Oral em GT

Mães em rede: experiências de gravidez, parto e puerpério em um grupo de gestantes no whatsapp

Autor/es: Juliara Borges Segata
Como as novas tecnologias digitais participam da formação de grupos de sociabilidade e apoio entre grávidas e puérperas? Neste trabalho, eu apresento resultados sobre a pesquisa de mestrado sobre as experiências da gravidez, parto e puerpério entre grupos de camadas médias urbanas na cidade de Natal/RN, que se relacionam a partir de cursos de gestação, encontros de confraternização e, mais especificamente, por meio do whatsapp. O que tenho acompanhando mostra que, "mães de primeira viagem" ou mesmo aquelas que já têm alguma experiência, veem-se diante de situações onde o diálogo e a troca de experiências tornam-se fundamentais para sentirem-se seguras sobre o cuidado de si, do bebê e da vida cotidiana no processo da maternagem. Nesse sentido, o grupo de whatsapp criado a partir de um grupo de gestantes da UFRN, assumiu um papel central para a troca de experiências e a prestação de apoio após o término do curso presencial. Saberes médicos e tradicionais, crenças e dúvidas, brincadeiras e registros do desenvolvimento dos bebês, entre outros, passaram a ser compartilhados cotidianamente. Assim, além das experiências partilhadas entre as mulheres, o trabalho aborda a negociação das regras de pertença, formas de conduta e o papel da mediação tecnológica para a formação do grupo no whatsapp.
Apresentação Oral em GT

Múltiplas faces de um conceito de parto: Uma abordagem etnográfica de grupos do movimento de humanização do parto e nascimento

Autor/es: Lidiane Mello de Castro, Edemilson Antunes de Campos
A Obstetrícia brasileira lida com um problema em que mais de 50% dos partos são cesarianas, uma taxa que vai crescendo a cada ano. Além das altas taxas de cesarianas, a grande maioria dos partos vaginais são permeados por uma série de intervenções desnecessárias. De acordo com os dados da pesquisa Nascer no Brasil, apenas 5% das mulheres tiveram um parto sem intervenções e as outras mulheres em sua maioria sofreram intervenções desnecessárias desrespeitando as evidências científicas. Contrário a esse modelo altamente medicalizado, surgiu o movimento de humanização do parto e nascimento, composto por grupos de ativistas que lutam por uma mudança nos conceitos e práticas obstétricas. Este estudo tem como objetivo compreender os significados e as práticas construídos a partir do conceito de parto, presentes no movimento da humanização do parto e nascimento. Para tanto, estamos realizando uma pesquisa qualitativa com abordagem etnográfica, feita em grupos que militam no movimento de humanização do parto e nascimento. Realizamos a etnografia em dois grupos, Grupo A localizado na cidade de São Paulo, composto por mães, pais, doulas e profissionais de saúde, Grupo B localizado na cidade de Campinas, composto por mães, pais, profissionais de saúde, professores universitários, doulas e advogadas. Nossas considerações parciais são de que os grupos dos movimentos de humanização do parto e nascimento estão conectados em uma rede e embora tenham um objetivo comum, possuem conceitos de partos distintos.
Apresentação Oral em GT

“Par-te de mim”: amamentação e maternidade em diferentes contextos

Autor/es: Marcella Beraldo de Oliveira, Amanda Faulhaber Luisa Ladeira
Esta pesquisa visa refletir sobre concepções e vivências da maternidade, com ênfase no pós-parto e na amamentação. Essas reflexões terão como base a etnografia em dois ambientes distintos, um rural e outro urbano: 1) uma comunidade quilombola na Zona da Mata mineira chamada Colônia do Paiol que é uma comunidade negra pertencente ao município de Bias Fortes, com uma população de aproximadamente 600 pessoas e está localizada próxima a cidade de Juiz de Fora; 2) e um grupo de mães chamado AMMA JF (Aliança de Mulheres por uma Maternidade Ativa de Juiz de Fora). Esse grupo é descrito no site como “espaço de troca de informações e experiências sobre a maternidade/paternidade ativa, que auxiliem no empoderamento feminino”. Para esse artigo, será utilizado, sobretudo, o material de entrevistas e conversas informais com mulheres que vivenciam a experiência da maternidade, especificamente, nesses dois ambientes. A pesquisa se insere em um contexto de paradoxos, nos anos 1960/70 surge uma crítica ao parto medicalizado inserida numa discussão mais ampla sobre dominação médica do corpo feminino, com o movimento a favor do chamado “parto humanizado”. Junto a esse movimento, aparece também a valorização da amamentação exclusiva em “livre demanda” até os seis meses, com desmame “natural”, parte de movimentos sociais auto-intitulados “maternidade mamífera” e “criação com apego”. Em oposição a esse contexto e, simultâneo a ele, há o aumento de partos cesarianos no Brasil e o surgimento de várias fórmulas de leite artificiais em farmácias e o aumento de seu consumo. O leite materno é carregado de um forte aspecto simbólico em diferentes culturas, a amamentação ultrapassa, sem dúvida, o quadro biológico e nutricional. O leite, entre outras substâncias corporais, tem um importante papel nas representações do corpo, dando origem a relações de parentesco e a interdições sexuais em diferentes sociedades. Após a segunda grande guerra mundial, quando as formas de conservação de leite artificial já existiam e com a crescente inserção da mulher no mercado de trabalho, tecia-se um cenário favorável ao desmame. Nesse contexto, a mamadeira se torna um dos novos símbolos de modernidade e urbanismo, e representa a “civilização”, entre os valores apreciados estão o da ciência e do progresso. Cabe ainda enfatizar que o saber sobre o aleitamento materno não é do domínio de um campo, está relacionado a diversos saberes, como concepções sobre família, criança, maternidade, parentesco, sexualidade, cuidado com os filhos, o processo saúde-doença e as práticas de regulação do corpo (dentre as quais se inclui a medicina ocidental). A discussão passa ainda pela tradicional polaridade entre natureza X cultura, bem como pela crítica a fragmentação das categorias mãe X mulher.
Apresentação Oral em GT

"Como as avós ou entre doutores: o parto como afirmação e reinvenção da identidade quilombola"

Autor/es: Naiara Maria Santana dos Santos Neves
O parto embora sejam um fenômeno fisiológico e, portanto, tomado como “natural” ou “universal”, são vivenciados e significados de maneira singular em diferentes sociedades. O corpo que materializa a dimensão fisiológica do parto também apresenta dimensões simbólicas e culturais que dão sentido a estas experiências. O objetivo deste artigo é verificar a existência de um movimento de retorno ao parto dito tradicional na comunidade quilombola Kaonge, situada no Vale do Iguape, Cachoeira-Bahia, de maneira a privilegiar um olhar sobre sua intersecção com o processo de resignificação do grupo, de afirmação e/ou reinvenção identitária, baseada na autoidentificação do grupo enquanto remanescentes de quilombolas; compreender a relação de mão dupla entre um provável retorno ao parto dito tradicional e uma possível revalorização das parteiras com parte da afirmação de uma identidade, calcada na noção de ancestralidade, enquanto estratégia política e de mobilização de recursos por essas comunidades. No caso específico das comunidades quilombolas do Vale do Iguape, o parto dito tradicional era, segundo a narrativa das próprias comunidades, uma prática recorrente há cerca de trinta anos, ocorrendo atualmente apenas quando “necessário” (sobretudo, em casos em que não é possível aceder à assistência médico-hospitalar). No entanto, há um conjunto de processos particulares a essas comunidades que convocam novos sentidos e revelam uma face social da experiência do parto. A partir dos anos 2000 elas viveram processos de auto identificação como quilombolas e posterior identificação e delimitação dos seus territórios, em pleitos territoriais que foram objeto de ações judiciais, contestação violenta e também questionamentos quanto à legitimidade da identidade quilombola da maioria dessas comunidades. A literatura sobre quilombos no Brasil (Almeida, 2010; O’Dwyer, 2002; Leite, 1999, Vogt & Fry, 1996) aponta constituição de uma identidade quilombola e de seus modelos organizacionais confere relevância à questão da territorialidade, preponderantemente baseadas em laços de vizinhança e de parentesco e, em geral, assentadas em relações de solidariedade e reciprocidade, fundadas pelo uso comum do território. Ocorre que essa relevância conferida à associação entre identidade, território e práticas, como efeito das disputas políticas e normativas em que emerge, participa ao mesmo tempo de um processo de transformação da identidade em um “valor”, ou como sugerem Comaroff & Comaroff (2009) de “comoditização” da identidade e da “cultura”, da sua conversão em um bem, utilizado estrategicamente pelos agentes sociais, tanto econômica, quanto politicamente. É nesse sentido que o parto e seus signos, performances, práticas particulares adquirem um sentido singular para tais comunidades.
Apresentação Oral em GT

Grupo Papo de Mãe: uma experiência de rede de apoio à maternagem em Belém do Pará

Autor/es: Natália Conceição Silva Barros Cavalcant
Numa perspectiva histórica e etnográfica, o artigo se propõe a apresentar os primeiros passos de uma pesquisa sobre a experiência de ser mãe na contemporaneidade, particularmente algumas dimensões, como as possíveis transformações e reconfigurações das concepções e representações sobre o saber médico, o parto normal, a amamentação exclusiva e a introdução alimentar. O lócus desse estudo é o grupo virtual Papo de Mãe, criado em 2014, composto por mulheres de classe média, ex-alunas de uma fisioterapeuta obstétrica, militante do parto humanizado, proprietária do espaço denominado Academia da Gestante e do Bebê, localizado na cidade de Belém do Pará. Diante da experiência do primeiro filho e de todas as mudanças trazidas em suas vidas a partir de então, relações de amizade e apoio foram se estabelecendo e/ou se fortalecendo entre essas mulheres. Os encontros presenciais na hidroginástica e no pilates não eram suficientes diante das muitas dúvidas, trocas de saberes e expectativas com relação ao tipo de parto, aos cuidados com os bebês e a volta ao mercado de trabalho, culminando com a expansão das relações na rede social WhatsApp. Mas, é preciso destacar que a convivência entre essas mulheres não se limita ao mundo virtual, uma série de encontros e ações presenciais foram e são articulados entre elas, inclusive com a presença e apoio dos maridos, configurando um grupo, em suas palavras, como “Família Papo de Mãe”. Metodologicamente, nosso campo de pesquisa se configura nas duas dimensões, virtual e presencial, conseguindo nos imiscuir em experiências que nos possibilitam problematizar dimensões importantes da maternidade, sobretudo desnaturalizando discursos e práticas sobre o ser mãe.
Palavras chave: Maternagem; Experiência; Rede
Apresentação Oral em GT

“Vida e materialidade: observações e propostas iniciais para uma pesquisa sobre o recém-nascido prematuro em sua passagem pela Unidade de Terapia Intensiva Neonatal.”

Autor/es: Rachel Salgueiro Rizério
A escolha de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal pública para a realização de uma pesquisa de campo antropológica torna evidente um aspecto peculiar do nascimento na contemporaneidade: o quanto é possível nascer prematuramente. Dados e referências estatísticas sobre mortalidade infantil no Brasil sugerem que o recém-nascido prematuro adquiriu prioridade no sistema de políticas públicas da saúde, destinadas ao acompanhamento da gestação e do parto, a partir da ênfase numa medicina que usa intensivamente a tecnologia. Sabemos que estas relações entre medicina e tecnologia possuem uma historicidade que se inicia com a medicalização do parto e a consequente hospitalização da mãe com seu bebê, que os tornaram pacientes de médicos e de instituições de saúde, até os desdobramentos contemporâneos por conta da tecnologia e dos conhecimentos médico-científicos em medicina fetal e neonatologia. Neste momento, tornou-se possível transformar o que há 20 anos atrás eram abortos de fetos com 25 semanas de gestação, em nascimentos de “prematuros extremos” com possibilidades cada vez maiores de sobrevida. A inegável imaturidade corporal, orgânica, faz do recém-nascido prematuro, especialmente os “prematuros extremos”, um ser que, fora do útero materno, depende do universo médico-técnico da UTI Neonatal. E neste universo, ser prematuro é estar diagnosticado pelo código internacional de doenças (CID-10) com “Prematuridade”. Seria o recém-nascido prematuro um doente? Que corporalidade apresenta o recém-nascido prematuro? Diante destas e outras questões, a pesquisa de campo está focada no recém-nascido prematuro. Fronteiras e barreiras tornam-se evidentes, entre úteros-incubadoras, mães-equipes médicas, famílias-instituição hospitalar. Assim, o nascimento e sua recepção na instituição hospitalar antes mesmo que na sua família, amplia-se para a necessidade da sua permanência na UTI neonatal, por vezes, mais prolongada que seu tempo de vida no útero materno. Neste contexto, é fundamental observarmos o ambiente material e imaterial que cerca este prematuro, de cuidados, e que demonstram ser essenciais para a manutenção de sua vida. Temos mini-corpos, quase-objetos, multi-objetos, cuidados manuais, artefatos, pequenos ciborgs. O que podemos dizer sobre o significado da gestação e do nascimento em nossa sociedade contemporânea? Podemos dimensionar os investimentos científicos e tecnológicos feitos sobre um mini-corpo de 460 gramas e de 21 semanas de embriogênese? Que corpo é este? O que pensam as famílias e os profissionais sobre esse “bebê prematuro”? O que é, exatamente, um bebê prematuro? E que novas fronteiras estão sendo estabelecidas com estas novas formas de corporalidade?
Apresentação Oral em GT

Primeiras reflexões do trabalho de campo em uma Maternidade pública humanizada na cidade do Rio de Janeiro

Autor/es: Sara Sousa Mendonça
Este trabalho enfocará as reflexões iniciais oriundas do trabalho de campo realizado em uma Maternidade pública da cidade do Rio de janeiro, norteado pelas questões que apresento a seguir. O termo humanização “se refere a uma multiplicidade de interpretações e a um conjunto amplo de propostas de mudança nas práticas” (DINIZ, 2005, p. 635), assim objetivo chegar ao entendimento dos múltiplos significados atribuídos ao termo “humanização” neste contexto, para cada grupo enfocado: os profissionais da Maternidade, subdivididos entre médicos e enfermeiras-obstetras; as mulheres usuárias desde serviço, consideradas em associadas ou não ao movimento pela humanização do parto; e as doulas que atuam na Maternidade. Na Antropologia da Saúde diversos trabalhos buscam esclarecer como se processa essa dinâmica de afirmação da racionalização biomédica em contraste com as dimensões holistas da representação ou vivencia dos eventos de saúde/doença. As políticas de humanização da assistência em saúde são particularmente interessantes para esta reflexão, pois elas trazem em si um pressuposto de holismo, ao advogarem a não separação entre o corpo que recebe os cuidados e a pessoa que é portadores deste corpo, bem como enfatizarem a importância das relações, tanto entre os profissionais da assistência, como destes para com os usuários, que são pensados como inseridos em relações sociais de parentesco, amizade, vizinhança, etc. Ou seja, em uma série de aspectos as propostas de humanização buscam realizar o contraponto a uma racionalidade biomédica que, por ser imersa na ideologia do individualismo, fragmenta corpos e isola sujeitos. Porém, a ideologia do individualismo possui diversas vertentes, que podem inclusive serem contraditórias entre si. Um argumento que vem pautando as reflexões a respeito da humanização do parto é o de que estas políticas são elaboradas também com base em formas específicas desta ideologia – no qual o ativismo pela humanização do parto, composto majoritariamente por mulheres das camadas médias urbanas, tem papel relevante. Dessa forma se recoloca a questão que Ropa e Duarte (1985) propuseram: indicar as descontinuidades entre “terapêuticas individualizantes” e “sujeitos não individualizados”. Desse modo, me interessa analisar como uma ideologia que parte das camadas médias urbanas se operacionaliza no sistema público de saúde. DINIZ, Carmen Simone Grilo. “Humanização da assistência ao parto no Brasil: os muitos sentidos de um movimento”. Ciência & Saúde Coletiva, v. 10, n. 3, p. 627-637, 2005. ROPA, Daniela; DUARTE, Luiz Fernando. Considerações teóricas sobre a questão do atendimento psicológico às classes trabalhadoras. In: FIGUEIRA, Sérvulo (Org.). Cultura da psicanálise. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Apresentação Oral em GT

“Exercícios para o trabalho de parto: roda de conversa para mulheres grávidas, doulas e acompanhantes – Um ensaio fotográfico.”

Autor/es: Camila Cristina Saraiva Castello
No Brasil, o Movimento de Humanização do Parto e Nascimento tem crescido e ganhado reconhecimento ao longo dos últimos anos, gerando novas formas de ressignificação do processo de gestar e parir, bem como o surgimento de novas concepções de parto, questionando o atual modelo obstétrico vigente. O planejamento, a busca por informação e conhecimento, são pontos defendidos pelo movimento, que reivindica a autonomia da parturiente no processo de escolha e decisão sobre assuntos que dizem respeito a seu corpo. As rodas de mulheres grávidas e acompanhantes são um exemplo prático dessa preparação, pois proporcionam um espaço de compartilhamento, troca de experiências, esclarecimento de dúvidas e maior compreensão acerca do universo da gestação, parto e pós-parto. As rodas são uma, dentre outras atividades, oferecidas pela ‘Nossa Casa’, um local situado em Brasília, que funciona através da colaboração de mulheres, em sua maioria Doulas. A figura da Doula também representa novos olhares para as cenas de parto, uma vez que ela é uma profissional que oferece apoio à mulher grávida, se dedicando exclusivamente a ela através do cuidado emotivo, afetivo, físico e informacional. Os registros dessas imagens demonstram a importância do partilhamento de práticas e saberes no processo de empoderamento do corpo, para as mulheres que optam por uma assistência menos intervencionista e desejam uma experiência positiva de parto. Os saberes transmitidos pelas Doulas, através da explicação e demonstração dos exercícios, representam essa busca por caminhos alternativos. O ensaio fotográfico foi produto final da disciplina Antropologia Visual, ofertada na Universidade de Brasília, no curso de graduação em Antropologia. A roda de conversa registrada foi facilitada por Doulas e teve como proposta discutir e demonstrar exercícios de preparação para o parto com as pessoas ali presentes.
Pôster em GT