Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT048. Onde estava escrito? Criatividade, inovação e a teoria etnográfica.

Um dos traços marcantes da Antropologia é a convivência indissociável entre sua epistemologia e a teoria etnográfica a partir de sua prática. Essa relação está condicionada à necessidade da reatualização teórica em tempo real mediante as demandas e idiossincrasias provenientes das pesquisas de campo. Não raramente o material etnográfico desafia os limites dos referenciais teóricos mais consolidados e exige a elaboração de abordagens que, por um lado, não imponham limitações ao próprio material e, por outro, levem adiante as discussões que já estão em circulação.
Este Grupo de Trabalho pretende estimular o debate e promover a articulação entre pesquisas que vêm lidando com desafios teórico-metodológicos colocados por seus materiais etnográficos, que vêm se deparando com a inadequação ou insuficiência dos referenciais teóricos disponíveis.
Acolheremos reflexões sobre pesquisas autorais que desafiem formulações teóricas instituídas e/ou que exijam o empreendimento de certa criatividade no traçado de suas estratégias metodológicas. Privilegiaremos os trabalhos que dialoguem transversalmente entre si em função de suas abordagens inovadoras para a pesquisa e a escrita etnográfica, não só superando delimitações temáticas como também promovendo o diálogo entre as diferentes subáreas da antropologia. Dessa forma, serão bem vindas contribuições dos diversos campos temáticos que compõem o conhecimento antropológico, desde que oriundas de pesquisas empíricas próprias.

Guilherme José da Silva e Sá (Universidade de Brasília)
(Coordenador/a)
Karina Biondi (UNICAMP)
(Coordenador/a)


Não estava escrito, mas foi desenhado - Contribuições do desenhar à antropologia

Autor/es: Aina Guimarães Azevedo
A questão posta nesta comunicação parte da experiência de pesquisa na África do Sul com falantes de zulu, quando o desenho ou o desenhar emergiu como uma metodologia de pesquisa e, ao mesmo tempo, uma forma de expressão do conhecimento. Por não sustentar-se em qualquer abordagem teórico-metodológica, o emergir significou um não planejamento e uma abertura conflituosa ao desenhar. Naquele momento (2010-2011), a antropologia gráfica de Ingold estava em sua recente formulação (2011a, 2011b) e encontraria ainda mais espaço teórico posteriormente (2013), além de diversos outros investimentos, senão mais recentes (Kuschnir 2012 e 2014; Ballard 2013; Geismar 2014 e Ramos 2015), mais acessíveis e em ampla circulação no presente (Newman 1998; Colloredo-Mansfeld 1999 e 2011; Ramos 2004, 2009 e 2010; Hendrikson 2008 e 2010, Taussig 2009 e 2011). Tendo como pano de fundo um cenário teórico-metodológico favorável à inscrição do desenhar na antropologia atual, o presente trabalho busca apontar as possibilidades, os dilemas, conflitos e limites dessa abordagem, tanto em sua apreensão metodológica, quanto em sua expressão e assimilação teórica. O desafio etnográfico de lidar com a temporalidade dos rituais, com a presença dos ancestrais, com o lastro comunicativo das técnicas corporais e com a localização singular de eventos ordinários é o que impulsiona a reflexão sobre o desenho e o desenhar em minha própria pesquisa. Entretanto, a partir de uma experiência colaborativa - um ensaio gráfico - realizada com Sara Asu Schroer e sua pesquisa com falcões e falcoeiros, também discuto as possibilidades comunicativas ampliadas pelas linguagem antropológica desenhada.
Apresentação Oral em GT

“Todas as cartas de amor são ridículas”? O romance epistolar entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, dificuldades e potencialidades etnográficas – uma antropologia de documentos pessoais

Autor/es: Clark Mangabeira Macedo
Segundo Philippe Artières (1998), arquivos pessoais são uma forma de arrumar, desarrumar e classificar a vida pessoal. O potencial analítico desses documentos derivaria, consequentemente, do registro textual da construção de si em relação a e contra um plano de fundo social, a partir do qual a autoidentidade e relações são avalizadas ativamente. Antropologicamente, o registro escrito parece possibilitar a percepção das marcações diacríticas que modulam processos de sujeição e subjetivação de si, construindo um mosaico de representações que se articulam a partir da escrita. No caso em tela, o (primeiro) romance entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, registrado e vivenciado a partir de correspondências trocadas em ritmo diário de março a novembro de 1920, constitui uma díade interacional na qual dois sujeitos fundamentam sua relação amorosa e identidades como sujeitos amorosos na e pela escrita, delimitando semanticamente a textualidade como parte intrínseca da relação. Escrever “sobre” e “o” relacionamento amoroso é, consequentemente, não apenas torná-lo público nos limites da interação – e além dela –, mas, principalmente, dá-lhe existência e efetividade através do registro e construção da escrita em si. A análise etnográfica do arquivo pessoal dos amantes representa desafios a uma antropologia dos documentos. Se os arquivos classificam e constroem a vida pessoal, detalhar etnograficamente este processo não deve ser reduzido à mera análise do conteúdo do texto, tomado como dado etnográfico “clássico”, mas depende da percepção de que o arquivo é, em si, uma ficcionalização, uma forma de experimentação e um plano de existência das identidades envolvidas e do relacionamento amoroso. Nesse sentido, a potencialidade etnográfica das cartas de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz traz problematizações antropológicas sobre a escrita etnográfica na medida em que necessariamente dialoga com outros aportes teóricos. Este trabalho, assim, tenta dar forma à análise etnográfica das cartas trazendo à baila, primeiro, a ideia de ficção como o vetor analítico-semântico de efetivação do romance, aquilo que o torna “realidade” no e pelo contexto pragmático da textualidade; segundo, as relações da etnografia com a teoria literária como uma forma de ampliação da potencialidade de ambas as esferas; e, terceiro, a interpretação das categorias “amor”, “romance” e “identidade” como vértices de um triângulo analítico em constante interação, sendo o par Pessoa/Ofélia a unidade de interpretação vinculante. Por fim, o objetivo do trabalho é dialogar com as práticas da escrita a partir de diversos eixos – literários e etnográficos –, buscando-se abordagens que possibilitem a verificação analítica dos documentos sem limitar suas qualidades etnográficas.
Apresentação Oral em GT

Sobre emoções e imagens: estratégias para experimentar, documentar e expressar o invisível em mobilizações políticas

Autor/es: Fabiene de Moraes Vasconcelos Gama
Este paper trata das estratégias metodológicas, mas também narrativas, para obtenção e apresentação de dados antropológicos em um campo sensível de manifestações políticas em Bangladesh. Em janeiro de 2014 participei de uma "road march" organizada por um grupo de ativistas que visava protestar contra o ataque a comunidades hindus por islamistas. A viagem foi parte de uma pesquisa de campo realizada para um programa de pesquisa internacional interdisciplinar e partiu de uma discussão com pesquisadores, assim como de leituras teóricas, de áreas como Psicologia, História, Literatura, Ciência Política, Sociologia, Filosofia, Cinema e Fotografia. Minha função, enquanto antropóloga e fotógrafa, era documentar fotograficamente performances públicas de ativistas a fim de refletir sobre o papel das emoções em suas mobilizações políticas. Eu pretendia analisar formas de experimentar e expressar emoções capazes de incitar terceiros para a ação. Em campo, percebi que ativistas sentiam determinadas emoções ao mesmo tempo em que induziam emoções em sua audiência. Tais emoções eram espontâneas, mas também provocadas (em si e em outros), além de serem corporificadas, ou seja, visíveis. Compreendendo que aconteciam simultaneamente, espontaneamente e provocativamente, em si e nos outros, fui obrigada a levar mais a sério a ineficácia de pensarmos questões antropológicas a partir de determinados binarismos (natureza/cultura), e pensar corpo/mente, razão/emoção, realidade/ficção como complementares, e não opostos. As imagens, e mesmo o ato de fotografar, em campo, teveram diferentes efeitos: abriram caminhos e diálogos, apresentaram pontos de vista, foram incorporadas ao ativismo do grupo, serviram para, de alguma maneira, me incorporar ao grupo. O Facebook também teve um papel central no desenrolar das negociações em campo. Receosos com a presença de uma pesquisadora fotógrafa branca ocidental, os ativistas utilizaram a rede social para investigar minhas intenções e referências, assim como para checar minhas relações. Ao voltar para casa, ambos, fotos e Facebook, continuaram servindo tanto como forma de obtenção de dados, quanto de apresentação de resultados. Na elaboração dos textos acadêmicos, eles foram combinados em narrativas capazes de ultrapassar os limites das palavras. Este paper, portanto, tratará das tensões, inovações e estratégias em campo e fora dele.
Apresentação Oral em GT

Que faço eu? Reflexões indisciplinares (supostamente antropológicas) sobre a vida

Autor/es: Gustavo Ruiz Chiesa
O título dessa apresentação é inspirado em dois “personagens” de minha tese em Antropologia recentemente defendida. O primeiro personagem é o médico e magnetizador francês Jules Du Potet. O segundo é o antropólogo inglês Tim Ingold. Du Potet, quando fora acusado de transgredir as “leis da medicina” ao praticar e ensinar em um hospital público as técnicas ensinadas por seu mestre (o médico alemão Franz Mesmer) proferiu, a certa altura de seu discurso de defesa, as seguintes palavras: “Ensino os homens a fazerem de suas reservas vitais o emprego mais nobre: aliviar os sofrimentos dos seus semelhantes. Transgredi a lei do ensino ou da Medicina? Que faço eu? Será Física, Química, Medicina ou alguma coisa que exceda em grandeza a todas essas ciências? Há nisto uma ciência, ou uma arte? Eu mesmo não sei...”. Ingold, ao criticar as subdivisões, especializações e fragmentações excessivas que invadiram a Antropologia nas últimas décadas, sugeriu, em Being Alive (2011), que façamos uma ciência indisciplinar: sem divisões, sem adjetivações, interessada apenas em entender e seguir a vida, pelos movimentos criativos que ela constantemente improvisa. Meu interesse em conhecer as práticas e discursos de certos médicos e cientistas de diferentes gerações, nacionalidades e contextos históricos, todos, de variadas maneiras, interessados em construir caminhos alternativos ou rotas de fuga no interior das ciências “hegemônicas”, me fez pensar sobre a própria Antropologia e a maneira como definimos ou delimitamos nossos objetos, construímos nossos textos, apresentamos nossos resultados. Foi assim que, ao acompanhar magnetizadores, metapsiquistas e conscienciólogos, tive necessariamente que abrir mão das subdivisões disciplinares, deixando de fazer uma Antropologia “da ciência”, “da religião” ou “da saúde” e praticando simplesmente uma Antropologia que procura de algum modo tencionar as fronteiras entre “sujeitos” e “objetos”, “forma” e “conteúdo”, “nativos” e “acadêmicos”, “ciência” e “não-ciência”, “humanos” e “não-humanos”... Uma antropologia interessada nas diferentes maneiras de viver, perceber e experimentar o mundo e que, ao lançar seu olhar sobre as relações, processos e transformações, chama a atenção para aquilo que parece ser inerente à própria vida: o seu dinamismo e a sua criatividade. Nesse sentido, a imersão histórico-etnográfica realizada ao longo da pesquisa me ajudou a produzir uma “teoria etnográfica” em consonância ou, se quisermos, em “simetria” com um certo olhar antropológico atento às relações, aos movimentos, aos fluxos e às continuidades. Um olhar que nos permite perceber, descobrir e experimentar o mundo, os seres, as coisas e a própria vida de outra maneira; uma maneira mais “aberta”, “fluida”, “encantada” e, porque não dizer, mais “sagrada”.
Apresentação Oral em GT

A etnocartografia como experimento antropológico ou da arte de mapear territórios subjetivos.

Autor/es: João Batista Bittencourt
A presente proposta tem como objetivo apresentar e discutir as possibilidades da etnocartografia como “estratégia metodológica” para o estudo dos processos de subjetivação na pesquisa antropológica. A referida perspectiva foi desenvolvida pelo autor durante a sua pesquisa de doutorado (2007-2010), onde se propôs a investigar as práticas adotadas por jovens adeptos do estilo de vida straightedge na cidade de São Paulo; trabalho que recentemente foi publicado em livro com o título “Sóbrios, firmes e convictos: uma etnocartografia dos straightedges em São Paulo (Annablume, 2015). Insatisfeito com os direcionamentos de algumas pesquisas antropológicas sobre culturas juvenis que percebem o conceito de identidade como elemento fundamental do associativismo grupal, me propus a desenvolver uma estratégia de pesquisa onde fosse possível apreender a matéria intensiva que atravessa os corpos, sem perder de vista o exercício da “descrição densa”. Foi assim que reuni duas tradições metodológicas que comumente não são convidadas a dialogar, são elas: a etnografia e a cartografia. Se a etnografia permite uma maior aproximação do grupo estudado e uma melhor compreensão de suas práticas, a cartografia ajuda o pesquisador a acompanhar os movimentos do desejo, a apontar as linhas de força, as intensidades e os afetos que compõem as distintas formações subjetivas. Ao invés de me perguntar sobre os símbolos responsáveis pela produção dessas “identidades juvenis”, a minha questão era saber quais agenciamentos permitiram a emergência de cartografias straightedges menos ou mais territorializadas, ou seja, porque alguns jovens apresentavam uma relação de pertencimento mais intensa do que outros? Como diferenciar o straightedge pride do straightedge que não possui uma relação de intensa subserviência às regras do grupo? Conforme a pesquisa de campo foi sendo desenvolvida pude perceber que a chamada “identidade straightedge” era uma cristalização subjetiva que variava em distintos graus a partir dos múltiplos pertencimentos, contatos e inserções dos jovens. Inspirada por propostas metodológicas como a “etnografia dos agenciamentos concretos” (Caiafa, 1985), a “etnografia do desejo (Perlongher, 1987) e a “análise micropolítica” (Guattari & Rolnik, 1986), a etnocartografia procura contribuir com pesquisas antropológicas que buscam alternativas ao modelo identitário da representação, sem deslizar para análises subjetivistas.
Apresentação Oral em GT

Mixando sons, mesclando narrativas: crônicas sônicas no contexto etnográfico de um bairro popular do sul do Brasil

Autor/es: Luana Zambiazzi dos Santos
Em consonância com este GT, busco apresentar e refletir sobre os recursos etnográficos lançados mão no contexto de um estudo etnomusicológico sobre as narrativas sônicas de uma Cohab, conjunto habitacional popular da Região Metropolitana de Porto Alegre/RS. Tais narrativas emergiram das intersubjetividades de uma pesquisa etnográfica de rua e da escuta com o objetivo de compreender como seus habitantes interpretam a dimensão sônica, tão múltipla e intensa, e como ela dinamiza suas experiências urbanas. No intento de narrar o cotidiano dos moradores e moradoras desse espaço popular a partir de percursos sônicos, retomo os registros textuais e sonoros do trabalho de campo, formulando crônicas sônicas, mixagens das sonoridades cotidianas cohabeiras, tentando recuperar as multiplicidades espaciais e temporais do lugar. Ao tentar mostrar os afetos imbricados à dimensão sônica cohabeira, demonstrando ser uma via interpretativa importante para meus interlocutores na construção de discursividades a respeito de seus habitantes e como dão sentido às suas formas de viver, mostrarei como o recurso das crônicas sônicas tornou-se ferramenta interpretativa e narrativa que permitiu-me apontar um ethos sônico cohabeiro, ao mesmo tempo em que se tornou um desafio na escrita etnográfica. Embora amparada no referencial teórico da não tão recente antropologia do som, em sintonia com alguns dos avanços metodológicos da antropologia urbana brasileira, evidenciei que o material etnográfico conduzia não apenas à (talvez já estabelecida) etnografia sonora, mas a uma elaboração que levasse em conta as rítmicas do cotidiano cohabeiro a partir de suas próprias narrativas. Dessa forma, as crônicas sônicas se propõem a imbricarem-se à escrita etnográfica, ao apresentar as sonoridades locais, mescladas às suas interpretações, conflitos, elaborações, desde os percursos da própria pesquisadora. Dentre tais percursos, narrarei brevemente meu convívio com rappers e como sua produção musical testemunha o cotidiano da cidade, descortinando conflagrações urbanas entre as escalas micro e macrossocial. Por fim, ao apontar a possibilidade de narrar a dimensão sônica cohabeira através de crônicas, busco transcender propostas teóricas anteriores com relação à esfera sonora e dialogar com aquelas mais contemporâneas da antropologia da música/etnomusicologia.
Palavras chave: etnomusicologia;antropologia urbana;teoria etnográfica
Apresentação Oral em GT

Produção cultural alternativa, atores-redes juvenis e seus mútuos afetos: notas para a composição de uma etnocartografia das práticas e intensidades do rock

Autor/es: Márcio Fonseca Benevides
Os atores e redes afinados com a polifonia da música rock e de seus modos de existência, artefatos, práticas culturais, territórios sociais e subjetivos configuram tramas (LATOUR, 2012) que proliferam na economia contemporânea da cultura. Rastrear e recompor o diagrama das ontologias nômades, interações cotidianas e conexões no ciberespaço de jovens urbanos a partir da sua estreita relação (afetiva, lúdica, profissional) com o rock traz questões à baila: o que pode a criatividade na pesquisa para sanar problemáticas sui generis? O antropólogo também pode ser artista e vice-versa? Pode-se ir além da exegese e inovar em termos estratégicos e narrativos? Para adentrar a interface volátil entre representação e experimentação, socialidades artísticas e fluxos de intensidades subjetivas, propõe-se aqui um diálogo interdisciplinar entre antropologia, música e filosofia - uma “virada ontológica” (CASTRO, 2015) com guitarras. A noção spinozana da afecção mútua dos corpos, por exemplo, incide na partilha de sensibilidades musicais vivenciadas nos encontros entre o pesquisador e seus interlocutores; permite captar uma dimensão axial da empiria: a de ser afetado (FAVRET-SAADA, 2005) pela intensificação reflexiva da proximidade com o objeto. Assim, a pesquisa demanda um método dialógico (CANEVACCI, 2013), que plasme tonalidades e interstícios sutis; o novo prisma da etnocartografia, iniciada por João Bittencourt (2015), norteará esta empreitada. Como a denominação amalgamada sugere, trata-se da composição simétrica de 2 metodologias: etnografia e cartografia (DELEUZE; GUATTARI: 1995). Por este dispositivo híbrido investiga-se: as lógicas do engendramento de uma rede sociotécnica de produção cultural alternativa, resistente ao establishment fonográfico; agências, afetos, discursos e intercâmbios de atores individuais e coletivos; as vicissitudes socioeconômicas, simbólicas e materiais, que dão corpo à cena rock de Fortaleza-CE. Os “rockoletivos” são grupamentos micropolíticos: ONGs ou associações formais e informais que agregam vários roqueiros originais (que criam e tocam as próprias canções) e produtores de eventos. Estes buscam não somente reconhecimento ou subsistência pelo rock, mas também a legitimação de modos de ser singulares a partir de intervenções (shows, oficinas, protestos) na sociedade telemática que os cerca e nos interpela enquanto cientistas sociais. Por uma “escala musical”, em 7 notas comporemos:1-breve genealogia de um objeto de tese; 2-rock, antropologia e filosofia; 3-etnografias entre a urbe e o ciberespaço; 4-cartografando latitudes e longitudes subjetivas; 5-a virada ontológica da mesa antropológica; 6-a etnocartografia como método reflexivo; 7-por uma antropologia musical.
Apresentação Oral em GT

Etnografia Multiespécie da Mandioca junto aos Pataxó no entorno do Monte Pascoal.

Autor/es: Marilena Altenfelder de Arruda Campos
Este trabalho é sobre mandioca em suas assembleias. Sobre as trilhas de interações nas quais o modo de vida da mandioca emerge, se mantém no mundo e, eventualmente, morre. Com o objetivo de estudar e descrever as conexões envolvidas nas relações ecológicas que contribuem para que se perpetue a existência da mandioca junto aos Pataxó no entorno do Monte Pascoal, no Sul da Bahia, num contexto de transformação e “modernização” da agricultura local procurei investigar como essa planta se torna “junto com o outro” (Haraway, 2008) para ‘melhor’ ou ‘pior’, através da proposta da etnografia muntiespécie. Esta proposta teorico-metodológica escreve o ser humano como um tipo de corporalidade que vem a ser em relação a assembléia multiespécies, e não como um dado biocultural. Dentro dessa proposta proponho pensar a mandioca como organismo simbiopoiético, como um emaranhado relacional ao invés de identidade ou indivíduo, onde ela mesma é agente, atora e objeto no seu ‘mandiocar’, na dança das relações multiespécies. Para isso optou-se por estudar a mandioca enfocando-a, não como um organismo fechado, se adaptando há um ambiente externo, mas como um modo de vida, construído na interação com seu meio e participante na construção de seu ambiente (ou nicho), em relações que são de co-evolução e dependência ecológica. Levando em conta também que há muito mais do que a ‘biologia’ no sentido estrito pois consido que é dentro dos envolvimentos multiespécies que o aprendizado e o desenvolvimento ocorrem, e que as práticas sociais e a cultura são formadas. 

Apresentação Oral em GT

Design Anthropology e a materialidade dos jogos na pesquisa etnográfica

Autor/es: Raquel Gomes Noronha
O estudo trata da prática e teoria do Design Anthropology e as correspondências entre os campos que o constituem. Muito já se pesquisou sobre a aplicação da etnografia em projetos de design, e como isso afeta de forma positiva os resultados dos projetos desenvolvidos. A antropologia, por sua vez, tradicionalmente “prática” pela no campo e mais teórica na sistematização e na contrução da “escrita” etnográfica, é desafiada a tornar-se mais engajada, no sentido de ser mais propositiva, trazendo resultados práticos. Na obra Designs for an antrhopology of the contemporary, Rabinow and Marcus (2008) nos desafiam a isso, e projetam o futuro da prática etnográfica, trabalhando com a metáfora de um estúdio de design. Refletindo sobre esta proposta de trazer a pratica projetual - especulativa e propositiva - para dentro do campo antropológico, trato de experiências realizadas no NIDA - Núcleo de pesquisas em Imagem, Design e Antropologia (UFMA), nas quais construímos jogos, que materializam as questões etnográficas pesquisadas e proporcionam o diálogo entre os atores sociais envolvidos nas questões. O caso que apresentarei envolve uma comunidade de artesãs de São José de Ribamar (MA), consultores do SEBRAE-MA e pesquisadores da UFMA que pretendem propor um projeto de inovação ao grupo. Os jogos (design games) vem sendo uma ferramenta importante na tangibilização de problemas de pesquisa, e possibilitam, por meio de sua materialidade, a visualização e projeção de perspectivas de futuros, como afirmam os pesquisadores dinamarqueses do Royal Danish Academy of Fine Arts. Halse (2013); Brand (2008) propõem o jogo como uma forma de imersão e de, por meio da materialidade e da tangibilização de problemas e propostas de solução, colocar em discussão os pontos de vista de cada ator, ressaltando que a proposta não é criar um consenso, mas projetar possibilidades de futuros como solução. A ludicidade e a absorção provocada pelo jogo, como afirma Geertz (2008), promovem o desvelar de máscaras sociais e revelam práticas para além de discursos. A metáfora teatral que nos apresenta Goffman (2009), ajuda a pensar sobre a encenação, sobre os jogos tipo RPG, e a possibilidade de insights, soluções e novas perspectivas a partir de cenários, personas e representações de si e do outro. Tim Ingold ressalta que a capacidade projetual é uma habilidade humana, e que muitas habilidades do designer (profissional) podem contribuir para a imaginação deste futuro (INGOLD, 2012). A característica da antevisão do ato de projetar (lançar a frente) é uma das chaves do trabalho do designer e pode contribuir para esse engajamento da Antropologia, que Rabinow and Marcus (2008) e Ingold (2014) nos incitam a pensar.
Apresentação Oral em GT

Sertão sem limites: masculinidades, consumo e a cultura popular massiva no Nordeste

Autor/es: Roberto Marques
A migração de pessoas das áreas secas do sertão no Norte Oriental brasileiro para outras regiões teve início ainda no século XIX, com a exploração da borracha na Amazônia. Entre as décadas de 1950 e 1980, era do desenvolvimentismo no país, estabeleceu-se um imaginário em que a região Nordeste aparece atrelada as noções de seca, deslocamento, subemprego e carência. Nessa mesma época, ocorre a divulgação do forró pelos recentes veículos de comunicação em massa: rádios e revistas de circulação nacional. Através destes, Luiz Gonzaga, o rei do baião, cantará valores tomados como tradicionais: a vida comunitária e relações de pessoalidade deixadas para trás; o apego à terra tomada pela seca e abandonada por “homens trabalhadores” e “mulheres honestas”. É a circulação desse conjunto de imagens de tradição que inscrevem o Nordeste como espaço e o nordestino como sujeito. Surpreendentemente, na década de 1990, o ritmo difundido há 50 anos com imagens síntese do Nordeste brasileiro passa a abrigar festas massivas, citações do pop internacional e grande apelo ao consumo. O forró passa a ser difundido como espetáculo visual, bastante distinto dos temas do apego a terra e valores vinculados à tradição. A partir do chamado “forró eletrônico”, músicas e performances no palco tematizam os objetos consumidos, a possibilidade de agregar bens e pessoas. A habilidade de circulação e conexão com o Outro a partir da posse de bens materiais e criatividade definem capacidades esperadas do homem bem sucedido nas festas de forró, o “estourado”, em uma patente inflexão das imagens de Nordeste em circulação até então. A partir das noções de agência, masculinidade e consumo tal inflexão se constituirá como uma imagem à contrapelo ou um reforço a situações de dominação particularmente marcantes na região? Qual a agência do mercado e das imagens do mundo pop que habitam essa versão massiva de um ritmo tomado como tradicional? Como descrever espacialidades a partir de conteúdos definidores de práticas e hábitos culturais, quando sujeitos agenciam a partir de seus corpos possibilidades de trânsito e identificação com um mundo urbano aparentemente sem fronteiras?
Apresentação Oral em GT

A etnografia no contexto da arte contemporânea: uma investigação a partir dos estudos STS

Autor/es: Rosana Horio Monteiro
A partir de uma perspectiva dos Science and Technology Studies e de um diálogo entre os estudos de Cultura Visual e a Antropologia, o presente trabalho problematiza o uso da etnografia entre artistas contemporâneos em contextos científicos. Para tanto, parto do estudo de dois projetos colaborativos desenvolvidos no interior de laboratórios científicos portugueses pelo artista austríaco Herwig Turk. Esse trabalho é derivado de uma pesquisa que investiga as aproximações e hibridações entre os saberes produzidos colaborativamente por artistas e cientistas. Os dois projetos estudados são Blindspot, desenvolvido em parceria com o biólogo molecular português Paulo Pereira, cujas obras foram reunidas a exposição “Laboratório invisível”, no Museu de Ciências da Universidade de Coimbra (2009), e Scientist: Rat: Instrument (S:R:I), resultado de uma residência artística realizada no Instituto de Medicina Molecular (IMM), da Universidade de Lisboa, de 2009 a 2010. Nesses dois projetos são abordadas questões relacionadas à percepção pública da ciência e à produção do conhecimento. Dialogando com Bruno Latour (1979; 1998) (A Vida de laboratório e Ciência em Ação), o artista preocupa-se mais com a vida no e do laboratório onde ele está inserido; é a prática científica que lhe interessa. Em Blindspot, os equipamentos de laboratório mais do que simplesmente objetos são apresentados como personagens. Em Scientist: Rat: Instrument (S:R:I), o artista, através de vídeoinstalações, incorpora os próprios cientistas como personagens de sua obra.
Apresentação Oral em GT

Contribuições teórico-metodológicas para a escrita etnográfica: interseccionando raça, gênero e classe na reconstrução de trajetórias biográficas.

Autor/es: Bruna Aparecida Thalita Maia
A proposta desse trabalho é apresentar as reflexões teórico-metodológicas preliminares produzidas no trabalho de conclusão de curso que desenvolvo no curso de Bacharelado em Humanidades, no qual busco escrever a biografia de uma mulher negra que subverteu muitos estigmas sociais e conseguiu se inserir em diversos espaços de poder destinados, majoritariamente aos homens e minoritariamente às mulheres brancas. Esta proposta surgiu e ganhou corpo a partir das leituras e debates proporcionados no projeto guarda chuva que estou vinculada como bolsista de iniciação científica, que tem como objetivo “contribuir para o debate epistemológico sobre visibilidade e invisibilidade dos diferentes sujeitos nas pesquisas das Ciências Sociais, em especial da Antropologia, produzidas em termos narrativos e sociais tendo como foco a trajetória biográfica de um sujeito”. As pesquisas realizadas para construção da monografia com trajetórias de vida e escrita de biografias me deram conhecimento empírico e teórico aprimorando minhas reflexões. Ressalto que ambas as pesquisas estão em fase preliminar e que a participação neste grupo de trabalho será importante para o meu amadurecimento e para conhecimento de outras pesquisas que utilizem de metodologias não-hegemônicas e tradicionais. A participação como bolsista de iniciação científica, tem modificado minhas reflexões acerca da construção de teorias e metodologias de pesquisa que além da valorização do colaborador/entrevistado/interlocutores tem apontado para os limites as críticas feitas quanto ao uso das biografias. Nos trabalhos etnográficos se fazem construtoras de metodologias humanas que tomem a trajetória de um personagem como centro norteador para compreensão de fenômenos sociais e culturais. Através do uso de histórias de vida, podemos entender e problematizar um contexto, seja o qual estamos inseridos ou um que pretendemos conhecer através da perspectiva ou da experiência biográfica de vida do sujeito. As trajetórias de vida possibilitam dar voz a personagens que foram historicamente invisibilizados dando lugar a memórias esquecidas. A capacidade de enxergar a importância e a eficácia do uso de trajetória de vida e de relatos orais, como metodologia de pesquisas científicas sérias e comprometidas, não só com a academia, mas também, com seus interlocutores, com quem se constrói junto o material. O poder da oralidade, da memória, nos traz excelentes conteúdos para análises e compreensões de processos sociais, políticos e culturais de momentos, lugares e histórias que não conhecemos, ou que não vivemos. Compreendemos que a memória individual de uma pessoa tem interferência de inúmeros aspectos externos que a forma e pode nos servir como excelentes instrumentos de pesquisa já que a história oral é dinâmica.
Pôster em GT

O Devir das Coisas: uma etnografia da trajetória social dos resíduos sólidos da Indústria Naval da cidade de Rio Grande

Autor/es: Carolina Hoffmann Fernandes Braga
Como qualquer atividade humana, a industrial, principalmente, gera resíduos. A cidade portuária de Rio Grande, vem passando por significativas transformações relacionadas à instalação de um polo naval, que além de criar emprego, renda e migrações que impactam na população local, temas amplamente pesquisados e debatidos, também gera resíduos industriais que são centro de interesse desta etnografia. A problematização dos usos destes materiais não é dada pelo crescimento da indústria naval, mas pelo que dela resulta em “resíduo”. A análise da cultura material aqui é proposta a partir de uma abordagem antropológica, considerando-se ainda suas vertentes arqueológica, visual e imagética, através das quais, pretendo provocar reflexões críticas sobre nossas práticas e visões de mundo, na medida em que os artefatos, neste caso, os resíduos sólidos aqui representados, codificam os princípios culturais do universo estudado e expressam suas categorias em contextos diversos. Este projeto busca desenvolver uma etnografia sobre os fluxos, desvios e reutilizações de resíduos sólidos da indústria naval na cidade de Rio Grande/RS, material frequentemente refugado e que, embora imperceptível aos olhos da maioria da população, aponta para novas relações entre a cultura material e o ser humano. O objetivo é desnaturalizar e iluminar um assunto insuficientemente explorado em diversas áreas do conhecimento: os dejetos, ou “lixo”, entendidos como herança de nossa sociedade de consumo para as próximas gerações. Quando não atribuímos potencial mercantil a materiais, os descartamos. Mas o potencial mercantil de todas as coisas é definido pela situação de trocabilidade ao longo do fluxo vital desses materiais. Esta fundamental percepção de valor acerca dos vestígios da indústria é na verdade parte das alterações nos julgamentos que os sujeitos fazem sobre os materiais. A etnografia desta pesquisa torna evidente que a cultura material descartada, retirada de circulação aparente, não tem seu fluxo interrompido, pelo contrário, sua circulação continua a acontecer por uma demanda de consumo diferente da conhecida habitualmente. O reaproveitamentos de materiais fogem a rotas predeterminadas sendo configurados como desvios, dentro do pensamento de Arjun Appadurai. Mas vale problematizar o que seria um desvio: sendo algo que sai da trajetória social daquele material e pode tornar-se uma nova rota quando vira um padrão. Temos na verdade um fluxo de vida, de “tornar-se”, que apenas escapa ao modelo dominante de pensamento. É, na verdade, apenas mais uma linha da trama social proposta por Tim Ingold, cada uma com sua trajetória própria.
Pôster em GT

Nos limites da fotografia, nos limites da Antropologia? Experiências com pessoas cegas que fotografam.

Autor/es: Sarah Victória Almeida Rodrigues
Este trabalho tem como proposta principal pensar processos e lugares de autorrepresentação de pessoas cegas por meio da fotografia e como isso nos levar a pensar e repensar os caminhos pelos quais se traçam as antropologias. Seu objetivo é também apresentar brevemente dados preliminares da pesquisa que venho desenvolvendo como conclusão do curso de bacharel em Antropologia. O primeiro contato concreto que tive com pessoas cegas que fotografam foi por meio do projeto Alfabetização Visual, em São Paulo, que faz parte de uma proposta maior, o Movimento de Inclusão Visual, cujos encontros acontecem no Rio de Janeiro desde 2004. Contudo, já na década 1990, os projetos com a iniciativa de democratização da imagem, principalmente quanto ao acesso à prática fotográfica, cresceram, se diversificaram e suas estratégias e propósitos se manifestaram sob um mesmo eixo: como instrumento para a cidadania, como busca da valorização da autoestima e como uma leitura crítica do mundo. Eles sugerem uma mudança do olhar de quem vê e como vê; de quem é visto e como é visto; de quem se vê e como se vê. É, portanto, por meio da visão, no sentido biológico, não estrito, que se transpassa por metáforas, que isso acontece na reinvenção e na criação de novas imagens. Nesse processo, a partir do contato com cursos e oficinas de fotografia para pessoas com deficiências visuais, fui levada a revisitar a ideia de visão (que sobrepõe, muitas vezes, outras dimensões da percepção) e me aventurar, de certa maneira, em "sentir as sensações para além dos sentidos". Dialogo com Tim Ingold, quando este traz a "virada sensória" como uma questão das formas de se perceber o mundo e, assim, propõe uma "compreensão da percepção como engajamento ativo e exploratório da pessoa inteira, corpo e mente indissolúveis, num ambiente ricamente estruturado" (INGOLD, 2000). É nesse sentido, também, que me volto a pensar uma Antropologia mais plural quanto às percepções em campo e fora dele - cujo o observar extrapola a etimologia do trazer algo para abaixo das vistas, cujo o observar não é, tão somente, ver.
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