Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT047. Ofícios e profissões: memória social, identidades e construção de espaços de sociabilidade

Nesta terceira edição do Grupo de Trabalho (GT) “Ofícios e profissões: memória social, identidades e construção de espaços de sociabilidade”, a primeira foi realizada na 28ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA), em São Paulo, no ano de 2012, e a segunda na 29ª RBA, em Natal, no ano de 2014, segue-se com o pressuposto de que o trabalho é a expressão clara de intersecção entre cultura e processo produtivo. As constantes transmutações do sistema capitalista prospectam novas configurações de antigos campos profissionais e alterações nas regras que organizam as relações de trabalho. Estudos sócio antropológicos, sobre ofícios e profissões em sua multiplicidade de enfoques e de recortes de grupos profissionais, trazem um cenário fértil e criativo em que a dimensão identitária, associada ao trabalho dos sujeitos, cria dinamicidade aos seus projetos de vida e, consequentemente, suas ações no mundo social. A proposta principal é discutir pesquisas em que os ofícios e as profissões são analisados não apenas como funções sociais especializadas que as pessoas desempenham de acordo com as necessidades de outras, mas sim como uma das múltiplas dimensões das identidades dos sujeitos, sendo capazes de gerar esquemas de percepção e ação no mundo social. Pretende-se ampliar os debates.

Fernanda Valli Nummer (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ)
(Coordenador/a)
Maria Cristina Caminha de Castilhos França (IFRS - Câmpus Porto Alegre)
(Coordenador/a)


O Exército como família: espaços militares e redes de sociabilidade numa vila na fronteira amazônica

Autor/es: Cristina Rodrigues da Silva
A comunicação explora a relação entre Exército e família, mais especificamente, investiga as formas de organização e cotidiano dos militares através de suas experiências familiares. O Exército brasileiro apreende "Família Militar" enquanto categoria nativa, que representa um universo de relações dentro da instituição onde o termo pode indicar o todo (a corporação militar) e/ou suas partes (seções, Armas, as famílias, etc.). Apoia-se na ideia de unidade tradicional da família (autoridade paterna, relações de afeto e solidariedade tanto entre relações tidas como hierárquicas – pai e filhos – como relações horizontais entre irmãos), que se estende para as características encontradas e estimuladas no quartel (a predominância da coletividade, o espirito de união e a camaradagem). Para a pessoa que se torna um militar de carreira, uma das principais entradas nessa "Família" concretiza-se no processo de construção da identidade adquirido durante o período de formação na academia militar, onde os alunos (cadetes) são incentivados e preparados para compor um “espírito de corpo”. A apreensão de valores e comportamentos adequados à vida militar como respeito à ordem, à disciplina, à hierarquia, condicionamento físico, maneiras de se portar em ambientes diversos são prescritos na forma de regulamentos que as pessoas não somente devem seguir, mas incorporar, sendo constantemente avaliadas pelo cumprimento ou não dessas regras. Esse conjunto de valores e princípios condicionam a vida do militar de tal modo que essas formas de socialização são estendidas nos mais diversos âmbitos de sua vida: condicionam as formas de moradia e rede de relações, e quando os militares se casam, por exemplo, seus cônjuges também são socializados pela instituição, isto é, também passam a participar (mesmo que involuntariamente) das prescrições e estilo de vida que são estimulados nesse ambiente. Para ambos, militares e esposas, o Exército oferece um novo conjunto de relações que seria algo como um “substituto” de suas respectivas famílias de origem: a "Família Militar". Nesse sentido, o Exército parece ordenar uma lógica muito específica das relações familiares nesse meio: vizinhos como parentes (pessoas que não são só próximas fisicamente, mas também estão vivendo e compartilhando experiências semelhantes); espaços e relações entre as pessoas configurados por hierarquias sociais (vilas e clubes de lazer pertencentes à organização e dispostos segundo a prerrogativa militar); enfim, uma série de elementos e mecanismos que produzem uma sociabilidade diferenciada nesse contexto. Assim, procuro refletir sobre as relações do Exército e práticas dos familiares através de etnografia sobre a dinâmica social das vilas militares em uma região de fronteira amazônica no Brasil.
Apresentação Oral em GT

Da mão que queima à mão que acaricia: notas etnográficas sobre os encontros corporais entre humanos e animais não humanos no trabalho artesanal da doma de cavalos

Autor/es: Daniel Vaz Lima, Flávia Maria Silva Rieth
Neste texto discutimos, a partir da descrição etnográfica da técnica da amanunciação, a noção de artesanato de Richard Sennett (2013) para quem o pensamento e o sentimento estão contidos no processo do fazer artesanal. Os movimentos aliados ao tato e as diferentes maneiras de segurar e tocar com as mãos afetam a maneira de pensar e constituem, no caso deste texto, a habilidade artesanal para a lida com os cavalos. No contexto do pampa, desenvolveram-se formas de sociabilidade a partir das estreitas relações estabelecidas entre humanos com os não humanos e cujas possibilidades se pode apreender, etnograficamente, por meio do estudo das diferentes técnicas de manejo dos animais. No caso do ofício da doma de cavalos, que é um saber e modo de fazer que busca ensinar equinos para as práticas relacionadas aos trabalhos que envolvem a pecuária extensiva, desde as etapas iniciais do processo técnico, humanos e animais não humanos estabelecem formas de comunicação pelo envolvimento em forma de práticas corporais. O artigo consiste em pensar a relação entre o domador e o cavalo nos estágios iniciais da doma considerando os seus encontros corporais, especificamente no que se refere ao encontro da mão do domador com o corpo equino. A técnica da amanunciação consiste na primeira etapa do trabalho de ensinar cavalos em que o domador busca uma aproximação com o animal visando acostumá-lo com a mão que vai tocando as diferentes partes do seu corpo, processo que chamam “ir tirando as cóscas”. O estabelecimento de uma comunicação a partir da linguagem verbal e principalmente corporal, junto da mediação dos artefatos, consiste nos principais atributos desta técnica. A percepção dos domadores referente a uma sensação corpórea do cavalo, que vai de um toque de mão que parece que queima e desconforta à um toque que acaricia e que gera sensação de conforto, nos convida a um conjunto de reflexões acerca do encontro entre o animal humano e o animal não humano no processo técnico. O toque da mão do domador que desenvolveu a habilidade de tocar por meio da sensibilização da ponta dos dedos engendra pensar o aprendizado e a construção do artífice domador pela relacionalidade com os animais não humanos, os artefatos e os ambientes.
Palavras chave: Trabalho artesanal, corporeidade.
Apresentação Oral em GT

Narrativas dos mestres de ofício do Vale do Jequitinhonha: Saberes Plurais

Autor/es: Daniela Guimarães Vieira, Maria Aparecida Moura, Maria das Dores Pimentel Nogueira, Terezinha Maria Furiati
Pretende-se apresentar a experiência de pesquisa desenvolvida no âmbito do Programa Saberes Plurais, programa de extensão em curso desde 2012 na UFMG. O programa realizou o registro audiovisual das memórias de 16 mestres de ofício/ artesãos do Vale do Jequitinhonha (MG), entre ceramistas, paneleiras, trançadeiras, tamborzeiros, fiandeiras, tecelãs, bordadeiras e escultores em madeira. As entrevistas foram publicadas em dvd com livreto encartado (16 volumes), e são parcialmente disponibilizadas no site www.ufmg.br/saberesplurais. Em comum, além da área geográfica e cultural na qual se inserem, os sujeitos pesquisados se reúnem sob a alcunha de “artesãos”, e tem uma trajetória histórica e social que guarda semelhanças nas formas de produção e transmissão dos seus saberes. As entrevistas realizadas revelam diferentes aspectos de seus enraizamentos identitários, da forma como veem a si mesmos e das formas como são vistos em seus contextos locais. Os mestres de ofício/ artesãos são conhecidos em suas comunidades como detentores de um saber especializado em sua áreas técnicas, mas também como detentores de outros tipos de saber, não raro de forma institucionalizada: são rezadeiros e benzedeiras, parteiras e mediadores, conselheiros e contadores de histórias. É recorrente, em suas narrativas, o reconhecimento de si mesmos a partir da inserção social que o ofício e os saberes a ele associados lhes proporcionaram. A proposta do artigo é mostrar, através das narrativas enunciadas por estes sujeitos, em que medida o ofício que desempenham determina seus esquemas de percepção e ação no mundo social. Acredita-se que os mestres de ofício do artesanato produzido no Vale do Jequitinhonha atuam como cronistas guardiões dos saberes enraizados na cultura popular compartilhada. Ao criar e repertoriar as sínteses do cotidiano, cerzem o imaterial ao material e, na consolidação desses gestos, plasmam, registram e repercutem os saberes do lugar.
Apresentação Oral em GT

A "mãe da noiva" de aluguel: Trabalho relacional e confiança no cotidiano de uma cerimonialista

Autor/es: Érika Bezerra de Meneses Pinho
A reinvenção da tradição do casamento, traduzida nas atuais "bodas espetáculo", veio acompanhada do crescimento de um mercado dedicado a esses eventos. Nesse contexto, destaca-se a reformulação da atividade profissional de organização de casamentos, também conhecida como "cerimonial". Em torno desses agentes, se formam extensas redes de contatos. Por um lado, eles se relacionam com profissionais pertencentes a todos os demais segmentos do mercado de cerimônias e festas. Na outra ramificação, os cerimonialistas se relacionam com uma rede formada pelos clientes, sobretudo as noivas, que passam a indicar o serviço às amigas que planejam casar em seguida. Esse artigo trata de uma incursão etnográfica realizada ao longo do segundo semestre do ano 2015, quando pude acompanhar a rotina de trabalho de uma cerimonialista da cidade de Fortaleza, participando de sua equipe. Após dois anos entrevistando noivas e profissionais e participando de feiras do mercado de casamentos, como parte de minha pesquisa de doutorado sobre ritos de casamentos contemporâneos, a oportunidade de integrar uma equipe de cerimonial me possibilitou acompanhar a organização de festas e as relações entre noivas e profissionais "de perto e de dentro". Ao longo desse período participei, como assistente de cerimonial, da realização de cerimônias e eventos, de reuniões entre noivas e fornecedores, bem como de eventos pré-nupciais. Pretendo desenvolver, nesse artigo, a partir da observação e da participação feitas junto à equipe de cerimonial pesquisada, uma reflexão sobre o trabalho relacional e a gestão emocional que figuram como cerne do trabalho desempenhado pela cerimonialista. Organizar casamentos demanda a realização de uma série de atividades voltadas para questões logísticas e operacionais. Espero demonstrar o quanto aquilo que é considerado como um bom desempenho está relacionado, nessa função, com a demonstração de uma série de crenças e sentimentos. "Positividade", "entusiasmo" e "serenidade" são estados emocionais que a pesquisada procura transparecer e incutir nos casais de noivos e nos familiares. É justo falar, assim, em um trabalho de "gerenciamento das emoções" (HOCHSCHILD, 2012) que assume um caráter permanente e se torna, para a pesquisada, como uma segunda natureza. As crenças da pesquisada se coadunam com um imaginário já existente no mercado de casamentos, e oferecem um ponto de observação interessante sobre a permanência de significados tradicionalmente relacionados ao casamento, mesmo em um momento de reinvenção da tradição das bodas.
Apresentação Oral em GT

Pensando as múltiplas leituras das categorias competência, desempenho, igualdade e justiça em um contexto de funcionalismo público

Autor/es: Gabriela de Lima Cuervo
A reflexão proposta neste trabalho baseia-se em dados colhidos para minha dissertação de mestrado e parte de uma perspectiva através da qual se enxerga o Estado como um conjunto de disputas e microprocessos envoltos de múltiplas moralidades que informam os modos pelos quais os agentes estatais, em suas variadas instâncias, funções e hierarquias, regem e pensam suas práticas. Ao tomar como objeto de análise as carreiras profissionais de professores da prefeitura de Magé/RJ e as mudanças e contratempos por eles enfrentados por conta das dinâmicas de cada governo, concluí que o contexto daquele setor do funcionalismo público era marcado por um jogo de construção de reputações e processos de classificação, onde era colocada em questão a “competência” daquelas pessoas no exercício de seus cargos. Ali, discutia-se tanto o estatuto da própria “competência” e a dos colegas, assim como as prerrogativas para alguém ser considerado “competente”. Esse quadro de produção da crítica (Boltanski, 2000:54), no qual são lançados sentidos de justiça (Boltanski, 2000:63) acerca das possibilidades de compensação social em torno da “competência” e do mérito profissional de cada um, era reforçada, sobretudo, pela proximidade com a política eleitoral, quando há tanto funcionários que chegam ao serviço público através do envolvimento com pessoas que transitam naquele universo político (alguns atuando anteriormente como cabos eleitorais), como funcionários que passam a se envolver com a “política” através e após o acesso ao emprego público. Parto da ideia de que estas avaliações acerca do desempenho dos colegas e do próprio ganha uma dimensão particular em instituições estatais pois, ao mesmo tempo que são pensadas através de um viés normativo que as classifica como sendo de ordem do “público”, do “impessoal”, do “burocrático”, do “universal” - cujos quadros administrativos deveriam funcionar sob uma lógica técnico-meritocrática -, existem práticas que destoam deste modelo normativo (em especial, as redes de compromissos e relações pessoais permeando a dinâmica de acesso e manutenção de cargos e funções - em especial, as de “confiança”). Este trabalho se propõe a analisar as maneiras pelas quais categorias como competência, desempenho, igualdade e justiça são operacionalizadas situacionalmente pelos atores em questão a partir da mobilização e articulação de quadros de referência distintos e, também, como estes discursos indicam a mobilização da ideia de um ethos profissional de professor/funcionário público que, conforme veremos, não é homogêneo e está em disputa.
Palavras chave: Funcionalismo público, moralidades
Apresentação Oral em GT

Entre "Tucos" e "Bochas": A relevância dos apelidos no ethos ferroviário

Autor/es: Guillermo Stefano Rosa Gómez, Claudia Turra Magni
Este trabalho apresenta um recorte temático de uma etnografia realizada com ferroviários aposentados e moradores do Bairro Simões Lopes, na cidade de Pelotas/RS. Neste bairro encontra-se a Estação Férrea, recentemente recuperada pelo poder público, o sindicato ferroviário (ainda ativo), além dos remanescentes chalés, moradias organizadas próximas ao espaço de trabalho, de acordo com a lógica da vila operária. Interessou-nos as maneiras pelas quais os atores apresentaram suas narrativas (diversas, sobrepostas, controversas ou contraditórias) sobre os aspectos de um mesmo “fenômeno urbano”: a figura do trem, do trabalho e do ethos ferroviário; a privatização da Rede Ferroviária Federal(que resultou na perda do emprego para muitos); a degradação da Estação Férrea, assim como da recente revitalização deste prédio, atualmente destinado a outros fins. Como procedimentos metodológicos, a observação flutuante guiou a fase exploratória do campo e seleção dos interlocutores-personagens, técnica esta seguida da observação participante e de entrevistas em espaços-chave, como o sindicato e as casas dos trabalhadores. Na etnografia do cotidiano destes aposentados, em seus trânsitos pelo bairro ou encontros no sindicato, percebemos a recorrência de um “gênero” de narrativa que envolvia uma dimensão “lúdica”: as piadas, os causos e os apelidos. É este último aspecto – a criação, circulação e o uso de apelidos – recortado da etnografia mais ampla, que queremos aqui enfocar. Dentre a gama de apelidos e de contextos narrativos identificados em trabalho de campo, propomos três possibilidades analíticas: apelidos pessoais, apelidos profissionais e apelidos irônicos (de flexibilização de posição social hierárquica). Além disso, observa-se que esse processo de nomeação estende-se para as máquinas/locomotivas e ferramentas de trabalho. Buscou-se compreender como este aspecto “lúdico” e cotidiano era revelador da complexidade do ofício ferroviário, marcado pela hierarquização e setorização. O apelido, neste contexto, aparece como parte de uma linguagem profissional, envolvendo uma narrativa de gênese (cada apelido tem um “causo” ou piada que o fundamenta, contado diferentemente pelos atores) e ainda uma “pista” etnográfica da forma como os sujeitos se reconhecem, identificam os outros e lidam com relações hierarquizadas ou processos do mundo do trabalho. Os apelidos, assim como os causos e as piadas, fabulam o trabalho, recontando-o. Este tipo de narrativa permite ao sujeito, não sem a censura coletiva, escrever sua própria biografia e repensar, no curso da passagem do tempo, sua inserção no universo simbólico da profissão.
Apresentação Oral em GT

Memórias da escravidão no sertão: etnografia e arquivos de Acari (RN).

Autor/es: Jardelly Lhuana da Costa Santos, Julie Antoinette Cavignac
No Rio Grande do Norte, os estudos sobre a escravidão foram produzidos inicialmente por uma elite “branca” que tentou apagar a presença de africanos, crioulos e seus descendentes no sertão. Porém, sabe-se que a partir do século XVIII, a colonização da Ribeira do Seridó se intensificou num espaço livre de populações indígenas, e com os donos das sesmarias, foram trazidos escravos de Pernambuco e da Paraíba para auxiliarem os senhores das fazendas na criação de gado. Com a Lei Áurea, muitas famílias não tiveram outra opção senão ficar no local e, no decorrer da história, sofreram um processo de invisibilização e estigmatização. Esse trabalho tem como objetivo reconstruir a trajetória genealógica da família Belém, grupo doméstico afrodescendente que tem sua origem numa fazenda de criar, do mesmo nome, e que tem em seus registros o maior numero de escravos, nos meados do século XVIII. Iremos comparar as memórias com os documentos históricos disponíveis para recompor a trajetória da família Belém durante mais de dois séculos e questionar como o grupo se constituiu em torno de um estigma, a marca deixada pela escravidão. Busca-se, assim, através da perspectiva histórica questionar os dados etnográficos, e a partir dos dados etnográficos preencher as lacunas deixadas pelos documentos históricos (Wachtel, 1990). A pesquisa, que encontra-se em andamento, já traz alguns elementos: apesar de dos poucos registros de uma memória genealógica, verificamos a existência de práticas cotidianas e de ofícios que remetem a um passado colonial. Encontramos vaqueiros, tropeiros e cozinheiras que testemunham, pelos seus saberes e práticas cotidianas, a resistência de uma história silenciada.
Palavras chave: Memória, Escravidão, saberes.
Apresentação Oral em GT

Inspiração como Vocação: vida-obra, carisma e carreira

Autor/es: Luisa Günther Rosa
As considerações aqui apresentadas procedem de uma análise compilada das cartas de Vincent Van Gogh (1853-1890) destinadas a seu irmão Theo (1857-1891) e prefaciadas por sua cunhada Jo Van Gogh-Bonger. Estas cartas permitem uma singular perspectiva quanto à forma como a vida-obra de Van Gogh se interpenetram. Não apenas por tornarem explícitas algumas particularidades do cotidiano de diferentes momentos da vida do artista mas, por apresentarem, em uma narrativa dispersa, um testemunho sobre seus ideais relativos à vida, à sociedade e à arte; à vocação e ao trabalho; suas influências e heteroreferências; seus gostos e opiniões. O que motiva esta compreensão são reflexões quanto às condições sociais de possibilidade de uma vida dedicada à criação de um legado artístico. Para isto, o enfoque será direcionado a partir das categorias carisma e vocação de modo a promover uma integração retrospectiva da trajetória social de uma história pessoal de inserção em um estilo de vida e de produção. Por mais que possa existir uma compreensão do artista como uma identidade social que resulta da percepção de si mesmo como capital simbólico, sendo simultaneamente força de trabalho, meio e modo de produção, de fato, a carreira de artista é um investimento arriscado. Nestes termos, é interessante notar que para considerar a produção artística enquanto algo além de um trabalho simbólico é preciso transcender e expandir a intencionalidade de atores individuais de modo a explicitar como seu imaginário reverbera normas e valores de contextos estruturais mais amplos. Agora, será que reconhecer a existência destes mecanismos sociais de produção de identidades artísticas significa necessariamente no descrédito de incumbências cósmicas, qualidades extra-sociais, dimensões metafísicas ou dons divinos enquanto características de determinados artistas? Como compreender a vida-obra de Van Gogh para além das dimensões de uma suposta loucura-genialidade? Recorro a estas cartas, justamente porque elas possibilitam um desenvolvimento retrospectivo da biografia deste artista a partir de indicações sobre processos de socialização mais amplos; processos estes que moldam sistemas de prestígio e participação em um estilo de vida marcado por um limites estabelecidos em função das oportunidades sociais e do status simbólico de que gozam uma determinada pessoa.
Apresentação Oral em GT

AS DOMÉSTICAS VÃO ACABAR? Estudo antropológico dos jogos de memória, narrativas biográficas, trajetórias sociais e formas de sociabilidade de mulheres em Belém/PA, Porto Alegre/RS e Salvador/BA

Autor/es: Luísa Maria Silva Dantas
Este trabalho se propõe a descrever e interpretar as mudanças, mas também continuidades e conflitos, ocorridos na regulamentação e nas práticas do trabalho doméstico remunerado em metrópoles brasileiras. Esta etnografia prioriza a enunciação de trabalhadoras domésticas, que na dinâmica de seus jogos de memória compõem identidades narrativas que abarcam suas trajetórias de vida e trabalho, bem como, refletem sobre suas biografias a partir das diversas formas de sociabilidade que participam. A pergunta que dá título a esta proposta visa provocar os leitores em relação ao que é alardeado por discursos midiáticos, sugerindo que a ampliação de direitos resultará em desempregos e ainda mais problemas sociais; mas também para incitar maiores reflexões a respeito das diferentes dimensões que envolvem este trabalho caracterizado pela interseccionalidade de raça, gênero e classe; bem como, construir possíveis alternativas de conformação do emprego doméstico na contemporaneidade.
Apresentação Oral em GT

Música e cidade: memória social e experiência urbana de artistas da música popular em Belém do Pará nos anos 1980 (PA).

Autor/es: Nélio Ribeiro Moreira
O artigo pretende expor alguns pontos discutidos em dissertação de Mestrado sobre o processo de construção e o desenvolvimento de práticas de sociabilidade numa rede de compromissos tecida entre artistas da cena da canção popular em Belém do Pará na década de 1980. A partida para o estudo se dá do ponto que foi tomado como fato primordial: a realização da Feira Pixinguinha de Belém do Pará em janeiro de 1980. Trata-se de considerar esse evento como o primeiro momento de reunião artistas da música popular da cidade e que acabou por ser tomado com ponto emblemático para a constituição de um sentido de coesão entre aqueles atores sociais. Assim, a comunicação aborda o desenvolvimento de práticas de sociabilidade entre os atores sociais integrantes do mundo artístico (BECKER, 1982) de Belém ensejadas que foram por meio da canção popular. Cabe destacar ainda que se trata de considerar o circuito comunicacional que possibilitou as formas de produção e circulação dessa mercadoria cultural na cidade na época, entendendo-a como uma fronteira (HANNERZ, 1997). A categoria cena musical (STRAW, 1991) é o subsídio para análise dessas ocorrências socioculturais. Portanto, trata-se de um estudo antropológico com temática histórica (FREHSE, 2005; SAHLINS, 1999), cujo objetivo foi verificar como os festivais da canção e as gravações, entendo-as como mercadoria cultural, se formaram como lugar de projeto naquele dado campo de possibilidades (VELHO, 2008). Assim, é com o intuito de apresentar um sentido de como deu a constituição de uma memória social no meio musical local que pretende ir a exposição. Deve-se considerar a pertinência disso porque se trata de notar as atuações dos artistas da música popular num tempo pretérito como meio de afirmar uma canção identitária como prática discursiva que buscou relacionar o lugar com o seu processo de feitura.
Apresentação Oral em GT

O Vigilante na unidade de saúde: entre a norma e o "jeitinho"

Autor/es: Rachel Aisengart Menezes, Priscila de Oliveira Galvão Cassemiro (Fundação Saúde do Estado do Rio de Janeiro)
No cotidiano dos serviços de saúde, são diversos os desafios a serem enfrentados. A relação entre as normas instituídas e a realidade dos serviços de saúde é encarada muitas vezes com o famoso “jeitinho brasileiro”. Dentre os profissionais encontrados nesse cenário, destaca-se a atuação do vigilante patrimonial. Com frequência, seu trabalho se estende para além do esperado, em termos das normas referentes à sua função. Uma análise do “jeitinho brasileiro” permite compreender a maneira como são empreendidas algumas das atribuições “extra-oficiais” dos vigilantes em instituições de saúde. A vigilância patrimonial, exercida primeiramente nas instituições bancárias, assume posteriormente diversos locais de atuação e é hoje parte das instituições de saúde. Para além do que seria esperado de um “vigilante patrimonial”, cujo trabalho seria “garantir a incolumidade física das pessoas e a integridade do patrimônio” (BRASIL, 2012), os vigilantes em unidades de saúde atuam de forma ampla, além das atividades normatizadas e definidas na legislação da categoria. Em algumas instituições eles são responsáveis, por exemplo, por uma triagem informal de quem busca atendimento de emergência, por auxiliar no transporte de enfermos ou recepcionar os pacientes e indicar a localização dos ambientes de consulta. Em certas unidades realizam, também, contenção ou acolhimento de familiares que receberam notícia de falecimento de parente assistido na instituição. Em um país formado por um sistema legal distanciado da realidade cotidiana, o jeitinho surge como possibilidade de ligação. No hospital, é constante o jogo entre regras impessoais, que pouco ou nada têm com o cotidiano do serviço, das práticas, dos profissionais e dos pacientes, e as regras criadas “com jeitinho”, para dar conta das peculiaridades de contextos particulares. As instituições de saúde se tornam palco de tensões, em que se encontram e disputam distintas lógicas: a da lei universal e a lógica da relacionalidade. A apreensão das práticas e dos discursos referentes ao trabalho do profissional de vigilância permite, sobretudo, apreender os valores vigentes no contexto da assistência em saúde, associados a poder, hierarquia, autoridade, morte, vida, sofrimento. As relações estabelecidas em unidades de saúde expressam códigos, representações e valores vigentes, tanto na instituição quanto na sociedade, de forma ampla. A oscilação das normas no ambiente hospitalar e do trabalho do vigilante patrimonial hospitalar entre a norma e o jeitinho parece apontar para o movimento mais amplo da própria sociedade entre formal e o informal, o universal e o relacional, o indivíduo e a pessoa.
Apresentação Oral em GT

SULANQUEIROS E EMPREENDEDORES: conflitos e deslizamentos identitários entre produtores/comerciantes de vestuário e outros objetos, no agreste de Pernambuco-BR.

Autor/es: Wecisley Ribeiro do Espírito Santo
A comunicação apresenta um fragmento do mundo da sulanca – que compreende formas de vida que se constituem a partir da produção familiar e vicinal de vestuário, junto com múltiplos outros ofícios a ela associados, bem como sua comercialização nos circuitos de feiras livres da região –, tomando os processos de elaboração de identidades coletivas como tema êmico articulador do relato. Os trabalhadores deste universo social procedem frequentemente a uma bricolagem simbólica que costura, em diferentes proporções, retalhos da tradição e das narrativas de modernização, confeccionando com isso variados “ideais do nós”, para retomar a expressão formulada por Norbert Elias e John Scotson, sob inspiração da psicanálise. Helanca do sul ou sucata de helanca, duas expressões alternativas que se referem à matéria prima que está na gênese dos fabricos (pequenas unidades produtivas) agrestinos, deram origem ao termo nativo sulanca e, por derivação, sulanqueiros (os trabalhadores da sulanca). Referindo-se à memória coletiva dos trabalhadores da região, estas categorias expressam valores subsumidos nas tradições locais. Por outro lado, a partir da recepção de campanhas corporativas pela modernização da produção e da comercialização de seus produtos, estes trabalhadores vêm incorporando em seu léxico identitário palavras oriundas das teorias do empreendedorismo. E, no entanto, por tentador que seja à primeira vista, tratar o par sulanqueiro/empreendedor como uma oposição binária constitui uma operação que mais dificulta do que auxilia a produção de uma teoria etnográfica sobre o trabalho, na região. A descrição dos dados empíricos que se quer levar a curso pretende tomar estas categorias como dois pólos de um contínuo, no interior do qual se situam identidades forjadas em conflitos e deslizamentos simbólicos (que repercutem de modo radical nas condições materiais de vida) que jogam com composições variadas dos valores nativos associados à tradição e à modernidade.
Apresentação Oral em GT

Perspectivas antropológicas: a construção do ofício do geneticista

Autor/es: Anatil Maux de Souza, Heytor Queiroz Ednalva Maciel Neves
Estudo traz uma abordagem antropológica acerca da experiência de profissionais envolvidos na genética médica na Paraíba e suas contribuições para o campo epistemológico da antropologia da saúde, no que tange indagações a respeito das racionalidades e socialidades que envolvem o trâmite entre fazer científico e práticas de saúde. Pretendemos identificar, portanto, como se configuram as práticas de profissionais envolvidos em genética médica no Estado, inseridos no âmbito acadêmico – pesquisa e ensino - e/ou clínico. A importância da reflexão antropológica sobre os ofícios na área da biomedicina a partir da perspectiva deste grupo está em enfatizar as relações entre natureza e cultura, assim como o valor do biológico e sua dinamicidade tanto no contexto biomédico quanto no contexto social e cultural, mais amplo. Nesta pesquisa utilizamos de abordagem qualitativa, em particular, quatro entrevistas semiestruturadas. Dentre elas duas foram com profissionais que atuavam tanto no âmbito clínico quanto no ensino superior –UFPB ou UFCG. Uma fora com um biólogo envolvido em pesquisa genética na UFPB e, na sequência, a última, com um professor de ensino superior também da UFPB – mas que já havia atuado como clínico no Hospital Universitário Lauro Wanderley-. O trabalho de campo tem sido marcado pelo desafio de encontrar profissionais atuando na genética, nos diferentes departamentos e clínicas da UFPB e pelo constante desconhecimento de profissionais de saúde sobre locais e docentes quem atuam na genética no Estado. Mas também, em termos de resultados, os interlocutores informam que a genética médica já possuiu um programa de pós-graduação na UFPB, mas que fora extinto devido a problemas institucionais. Bem como, recentemente, houve a abertura de um concurso para professor em genética médica que não obteve nenhum inscrito. No tocante a prática clínica, atualmente, o Hospital Universitário Lauro Wanderley, não dispõe de ambulatório em genética para atender aos pacientes. As informações que obtivemos é que permanece um professor, que não desempenha primordialmente a função de médico, mas que tem sido citado como referência neste campo e, quando solicitado pelos discentes, atua como tal. Analisando os discursos dos interlocutores, podemos confeccionar uma rede de profissionais que se dinamiza no que tange a formação e atuação destes, nos possibilitando a questionar como as demandas sociais configuram a prática do ator profissional e se isso se torna uma expressão determinante para a prática médica; bem como o arranjo da esfera médica como um espaço de sociabilidade ou em que medida isto não se configura como uma competição no campo das ciências duras.
Pôster em GT

Crescendo entre mundos, vivendo entre circulações: histórias de vida e de trabalho na trajetória de Ofélia

Autor/es: Andreza Carvalho Ferreira
Este trabalho aborda modos pelos quais a trajetória de vida de Ofélia impacta em sua atuação profissional contemporânea e por outro lado os modos como sua atuação reconstroe sua trajetória. Ofélia foi minha principal interlocutora no trabalho de campo que realizei em Díli, Timor-Leste em 2014. Ofélia era “manager” da Alola Esperança, organização não governamental importante por promover, entre outras coisas, empoderamento financeiro para mulheres locais. Ofélia pode ser retratada como uma mediadora em cenários pós-coloniais, pelas vivências e circulação entre os regimes de governo que conheceu. Tendo isso em conta, discuto os modos pelos quais em seu contexto de trabalho Ofélia mobiliza sua memoria do passado para dar sentido a sua atuação e identidade no momento presente. Ofélia exercia e acumulava algumas funções para garantir o funcionamento da Alola Esperança. As várias competências internalizadas por Ofélia foram adquiridas de diversas maneiras dentro sua sociabilidade e socialização. Quando criança no Timor Português Ofélia aprendeu detalhes da tecelagem do tais (tecido tradicional) com sua avó e aprendeu a costurar com sua mãe. Conhecimentos importantes para que Ofélia dialogasse com as tecedeiras sobre suas peças e para que Ofélia desenhasse e crisasse produtos, como bolsas, para serem vendidos pela própria Alola e também ensinasse moças a costurar. Antes da ocupação indonésia que ocorreu em 1975, Ofélia trabalhava em uma “repartição”, com trabalho administrativo. Após alguns anos de ocupação, Ofélia e o marido estabeleceram-se na Austrália. Em solo australiano Ofélia trabalhou com algumas atividades até montar seu ateliê de costura e viver do seu trabalho autônomo até desocupação da indonésia em Timor-Leste (1999). Com estas experiências, Ofélia administrava a dinâmica de trabalho, a gestão do dinheiro e ao mesmo tempo garantia as mulheres intervalos, férias, salário mínimo, enfim, uma realidade trabalhista que ainda é nova em Timor-Leste. Ofélia dizia que tinha adotado muitas características australianas sobre os diretos das trabalhadoras. Além de todas as habilidade é possível evidenciar a mediação como uma atividade. Ofélia voltou para Timor em 1999 e sua intenção era ajudar suas “conterrâneas”. Ofélia começou a trabalhar na Alola Esperança em 2006 e em pouco tempo tornou parte da Alola essa “cooperativa” autossuficiente financeiramente. Ofélia era uma mediadora sensível entre as demandas locais e globais que estavam e estão em ebulição em Timor-Leste; como profissionalização. Ofélia tinha e acionava cotidianamente de forma bastante espontânea muitas expertises como técnicas de costura, tecelagem, gestão de pessoas e de recursos.
Pôster em GT