Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT002. Agenciamentos sociais e políticas públicas de saúde: cruzando e confrontando perspectivas

Esta proposta visa reunir pesquisas que confrontem experiências, agenciamentos sociais e resistências face a práticas estatais ou governamentais de gestão da vida, traduzidas em políticas públicas de saúde. Serão discutidos três eixos articulados: 1) Abordagem das diferentes dimensões que envolvem as ações do Estado, como os processos de institucionalização e/ou desinstitucionalização, as redes de atendimento, as políticas de acesso a serviços, etc. Pensar esse “Estado em ação”, que cria mecanismos disciplinadores, em sua perspectiva universalista, e discricionários, em seus modos desiguais de distribuição de direitos, é também tentar perceber as dialéticas entre cuidado e controle, dependência e autonomia; 2) Abordagem dos agenciamentos sociais, das práticas de auto-cuidado, dos saberes locais e tradicionais, experiências religiosas, espirituais e de cura ritual, para problematizar a relação entre a produção da verdade e estratégias de sujeitos e coletividades para vivenciar e agenciar processos de saúde-adoecimento; 3) Abordagem do fazer etnográfico como ferramenta para refletir sobre experiências sociais e políticas públicas no contexto da saúde mental, da saúde sexual e reprodutiva, de práticas corporais de higiene, da alimentação, entre outras temáticas. A articulação desses três eixos visa a pensar os desafios e os diálogos possíveis entre a antropologia e o Estado, no que concerne às políticas públicas e agenciamentos sociais no campo da saúde.

Érica Quináglia Silva (Universidade de Brasília)
(Coordenador/a)
Sônia Weidner Maluf (Universidade Federal de Santa Catarina)
(Coordenador/a)
 


Saúde, Higienismo e Eugenia – agenciamentos, acolhimento e cuidado destinados à População em Situação de Rua

Autor/es: Aline Ramos Barbosa
Esta comunicação tem como base a minha pesquisa de doutoramento, que busca acompanhar – com pesquisa de campo de inspiração etnográfica – o acolhimento da população em situação de rua visando à intersetorialidade do cuidado entre Assistência Social e Saúde num município de pequeno porte (Jaboticabal-SP). Diante da pesquisa de campo e de reflexões teóricas, busco aqui apresentar algumas considerações a respeito da intersecção entre Saúde, Eugenia e Higienismo, seja em sua matriz histórica, seja em sua representatividade ainda cotidiana. Busco discutir quais as nuances do “fazer viver” estabelecido pela biopolítica e seus diversos agenciamentos. Neste caso, os agenciamentos envolvem a articulação da Saúde, da Assistência Social e, também, da Segurança Pública, haja vista programas nacionais como o Crack – é preciso vencer. Minha pesquisa concentra-se no acompanhamento à articulação entre Assistência Social e Saúde Coletiva. Penso, então, estas questões a partir do corpo populacional (População em Situação de Rua), do corpo individual (o sujeito atendido) e, também, o corpo biológico (o limite corpóreo inscrito no atendimento).
Apresentação Oral em GT

Saúde, adoecimento e itinerários terapêuticos de pessoas atingidas pela hanseníase em Teresina, Piauí

Autor/es: André Igor Oliveira Prado, Eliana E. Diehl
A hanseníase é uma das doenças marcadas para eliminação no mundo. Em 2006, foi considerada erradicada em 116 dos 122 países que a tinham como problema de saúde em 1991. No entanto, sua transmissão permanece ativa no Brasil, ainda afetando milhares de pessoas, em especial nas regiões Norte e Nordeste. Para compreender essa problemática, buscamos descrever os processos de saúde-doença-atenção (s-d-a) sob a perspectiva dos sujeitos afetados pela doença que vivem em Teresina, Piauí, onde a endemia é considerada muito alta. A pesquisa teve caráter observacional descritivo, de cunho etnográfico. Participaram da pesquisa pessoas com hanseníase, profissionais de saúde, voluntários do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) e gestores dos níveis municipal e estadual envolvidos no controle da doença. Os dados foram coletados entre outubro de 2014 e setembro de 2015, por meio de observação participante, entrevistas semi-estruturadas e entrevistas etnográficas. A descrição dos itinerários terapêuticos e dos processos de adoecimento e cura destacou dois principais aspectos: a influência, no processo s-d-a, do estigma social e historicamente construído em torno da doença, ou sickness; e a estratégia de autoajuda organizada por meio do Morhan para enfrentar a sickness. Os sujeitos articulam diferentes formas de atenção à saúde, utilizando a rede oficial de serviços de forma diferente da planejada pela gestão, considerando suas concepções e experiências de adoecimento, compartilhadas através do Morhan. Os principais fatores que influenciaram essa reorganização foram a busca por um atendimento acolhedor mais eficaz e a maior facilidade de acesso aos serviços e aos medicamentos. Algumas contradições com o discurso dos gestores foram observadas, como a afirmação de que a rede funciona de forma hierarquizada, com foco no nível da Atenção Básica de Saúde (ABS) e com serviços de referência no nível municipal e estadual, em contraponto à má qualidade das ações na ABS relatada pelos sujeitos e a procura direta por serviços de referência. As variadas formas de atenção e autoatenção à saúde articuladas pelas pessoas com hanseníase, juntamente com os aspectos mais amplos do adoecimento, têm sido desconsiderados pela biomedicina no processo do cuidado. A importância da autoatenção, especialmente na forma de autoajuda articulada pelo Morhan, aponta para a necessidade de visibilizar e legitimar nas políticas de saúde esta e outras estratégias construídas por estes sujeitos para superar o sofrimento.
Apresentação Oral em GT

Tecendo a rede comunitária de cuidado em saúde mental: a experiência de um Centro de Atenção Psicossocial

Autor/es: Antônia Iara Adeodato, João Tadeu de Andrade
Neste trabalho objetivamos abordar a mudança no modelo de tratamento destinado aos portadores de transtornos mentais, através da análise da formação e estruturação de uma rede comunitária de cuidados, organizada em torno do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do bairro Jardim América, localizado no município de Fortaleza, Ceará. Tal rede é constituída pelos profissionais do CAPS do Jardim América, por sujeitos classificados como portadores de transtornos mentais e seus familiares, além de associações civis e comunitárias. Na construção deste objeto, fomos instigados pela premissa de que o CAPS, definido como porta de entrada dos serviços de saúde mental, pressupõe incluir no con¬junto de suas ações tanto intervenções junto a outros dispositivos institucionais (no âmbito da saúde e das outras políticas setoriais), como práticas em associação com redes sociais não clínicas, as quais fazem parte do cotidiano das pessoas portadoras de transtornos mentais: escola, igreja, movimentos sociais, dispositivos socioassistenciais e jurídicos, instituições de esporte, lazer, cultura, dentre outros. Partindo desse pressuposto, compreendemos que analisar este novo modelo de tratamento destinado aos portadores de transtorno mental denota considerar os fatores externos ao indivíduo e que estão presentes em seu cotidiano, em hábitos de vida e em práticas de sociabilidade. Com efeito, buscamos de modo particular: 1) identificar as práticas institucionais do CAPS do Jardim América; 2) mapear a rede comunitária de cuidados vinculada a esse CAPS; 3) analisar as relações que os usuários do serviço estabelecem com os profissionais de saúde, seus familiares e demais envolvidos no processo de cuidado (membros de associações e cooperativas de bairro, integrantes de igrejas, amigos, vizinhos). Para a concretização desta pesquisa, realizamos uma abordagem etnográfica do CAPS, através de uma “descrição densa” da dinâmica e da lógica cotidiana, das práticas e relações de poder entre profissionais, usuários, familiares e demais cuidadores dentro do espaço institucional, desenvolvidas no processo de triagem, nos grupos terapêuticos, nas oficinas e reuniões interdisciplinares, sendo analisadas as tensões e ambiguidades próprias deste sistema de relações. Como resultados observamos que: 1) a rede comunitária de cuidados vinculada ao CAPS se estrutura a partir das tensões existentes entre as sociabilidades cotidianas dos usuários e as práticas institucionais de tratamento; 2) apesar da mudança do modelo de tratamento, as redes sociais dos portadores de transtorno mental continuam fragilizadas, seja por motivo de internação, exclusão social ou proteção familiar; 3) as práticas representativas do hospital psiquiátrico ainda estão presentes no cotidiano dos usuários do CAPS.
Apresentação Oral em GT

A Experiência de Viver com Doença Falciforme na Amazônia: Discussões sobre Assistência, Racismo Institucional e Identidade Social no Estado do Pará

Autor/es: Ariana Kelly Leandra Silva da Silva, Hilton Pereira da Silva
A Doença Falciforme (DF ou Hb S) é a doença genética que mais ocorre no mundo. No Brasil, cerca de 3.000 crianças nascem por ano com DF. No Estado do Pará, a prevalência é de 1% da forma sintomática, a Anemia Falciforme (Hb SS). São pessoas que vivenciam fatores clínicos, familiares e institucionais no convívio com a doença, englobando questões biossociais e políticas, analisadas pelo viés da Bioantropologia. Na Fundação Hemopa/Belém, 45 pessoas com DF foram investigadas a respeito do seu cotidiano, envolvendo sintomas, acesso a serviços, preconceitos, tratamentos, cuidado e autoidentificação no quesito raça/cor, elementos da experiência de viver com uma doença crônica "racializada" no Pará. A pesquisa etnográfica durou 8 meses de diálogos com as pessoas, profissionais e serviços de saúde. Após aprovação na Plataforma Brasil, munidos do TCLE, aplicamos formulário semiestruturado e entrevistas no Hemopa, com observação participante. A Antropologia da Doença, que analisa as agências de ter uma enfermidade (Laplantine 2004), a abordagem biocultural sobre Illness/Disease, entendendo a DF como de caráter genético, com complicações biológicas e clínicas ao longo da vida que, por sua natureza biocultural, interferem na sociabilidade da pessoa com o agravo (Silva 2012; Jackson 2000; Silva 2009) e as perspectivas sobre raça e racismo no Brasil (Munanga 2003, 2004) embasaram o estudo. Descrevem o seu dia-a-dia como difícil devido as complicações da doença, tanto nos processos clínicos de transfusões, crises de dor, internações frequentes, deslocamentos do interior para a capital para atendimento e apoio familiar, quanto na dificuldade de diagnóstico, ausência de cuidados e insensibilidade dos profissionais de saúde, que os classificam como “doentes”, “viciados” e criam barreiras, afetando suas condições de vida/saúde. O racismo/racismo institucional foram identificados nas falas: esta “é uma doença que vem de pessoas negras da África”, “fui aconselhada a não ter mais filhos porque pode nascer doente” e o constrangimento dos profissionais em inquirir sobre a raça/cor. Os dados indicam que 82% das pessoas se autodeclaram negras ou pardas, processos identitários que devem ser considerados nas análises de saúde, que tem sido negligenciados. A DF é um fenômeno humano complexo e as pessoas necessitam de maior apoio do Estado, devendo elaborar Políticas Públicas eficazes para o tratamento dos sujeitos, que vivenciam limitações financeiras, racismo e dificuldade de acesso aos serviços/profissionais de saúde. O SUS deve proporcionar maior atenção a essas pessoas, ofertando Educação Continuada aos profissionais, a fim de melhorar a qualidade de vida dos sujeitos fragilizados pela DF, cuja inadequação do atendimento é causa de suscetibilidade à Saúde da População Negra.
Apresentação Oral em GT

Políticas Públicas Sobre Drogas no Brasil: “A Rede de Acolhimento para Dependentes Químicos do Rio de Janeiro”

Autor/es: Emanuel Luz e Silva
O objetivo desse artigo será o de apresentar algumas reflexões iniciais a respeito de uma investigação empírica, oriunda da tese de doutorado em andamento, sobre a “Rede de Acolhimento para Dependentes Químicos do Estado do Rio de Janeiro”. Essa rede é composta, segundo o secretário de prevenção à dependência química, Filipe Pereira, por quatro Centros de Acolhimento Regionalizado Álcool e Drogas (CARE-AD), bem como por dez Comunidades Terapêuticas contratadas pelo governo do Estado. Ambos esses programas totalizam quinhentas e quatorze vagas para tratamento da drogadicção (Subsecretaria de Comunicação Social-RJ, 09/06/2015). Em um plano mais geral, essa proposta é relevante à medida que lida com um problema de dimensões globais, como demonstram os relatórios sobre drogas da UNODC (2014) e da FIOCRUZ (2014). A dependência química tem suscitado uma série de intervenções políticas, de ONGs e diversos grupos religiosos, o que nem sempre tem sido administrado da melhor maneira, como demonstra o relatório nacional do Conselho Federal de Psicologia (2011) após uma inspeção em diversas clínicas de recuperação no Brasil. Dentre as vagas para tratamento da addiction, as comunidades terapêuticas, geridas por instituições religiosas, são as que ofertam o maior número. Os principais problemas suscitados nessas instituições são os maus tratos, os abusos de poder, as condições impróprias de estadia, a ausência de médicos, psicólogos e assistentes sociais para lidarem com as vulnerabilidades e dores humanas que atravessam a porosidade dessa problemática. Articulam-se assim, através dessa paisagem descritiva, as ações religiosas e políticas para lidar com esse problema de saúde pública. Algumas das questões teóricas que pretendemos mobilizar para estabelecermos algumas pistas explicativas para esse fenômeno são: 1) as contribuições socioantropológicas a respeito dos aspectos socioculturais dos usos das “drogas”, bem como a relação entre a drogadicção e os distintos tratamentos em clínicas de recuperação (Mcdonald, 1994; Giddens, 1995; Davies, 1997; Velho, 1998; MacRae e Simões, 2000; Schaler, 2000; Vasconcelos, 2003; Loek, 2006; Becker, 2008); 2) a produção na área de ciências sociais a respeito das categorias de análise do ‘sofrimento’ e da ‘dor’, do ‘corpo’ e da ‘corporeidade’ de modo a relacioná-las aos usos das “drogas” e a dependência química (Kleinman, Das & Lock, 1997; Duarte, 1986; 1993; 1998; Throop, 2010; Mauss, 2004; Strathern, 1996; Latour, 2004; Csordas, 2008).
Apresentação Oral em GT

Saúde mental, holismo terapêutico e políticas de saúde: pensando sobre saúde/doença e etnografia em uma clínica-dia

Autor/es: Fernando José Ciello
A presente reflexão emerge de pesquisa de caráter etnográfico realizada entre 2011 e 2013 em uma clínica-dia do sul do Brasil. A problemática central é o encontro entre categorias locais envolvendo "holismo terapêutico" e as políticas de saúde do campo da saúde mental, especialmente a proposta central da reforma psiquiátrica. Por se tratar de uma unidade que se vincula a uma proposta local tida como mais complexa, holística, multiprofissional, a clínica-dia faz uma leitura específica sobre as propostas da reforma psiquiátrica e de como esta, por sua natureza, demandaria do serviço de saúde a adoção de modalidades de tratamento abrangendo conjuntamente várias esferas do humano (espirituais, biológicas, sociais, etc). A proposta deste trabalho é construir uma reflexão antropológica deste ambiente de cruzamento de experiências terapêuticas, tendo em vista a problematização local da reforma psiquiátrica e a emergência, nesse contexto,de uma concepção de pessoa alinhada com questões atuais envolvendo a relação entre saúde e religiosidade. Como reflexão paralela pretende-se esboçar uma contribuição para a etnografia de serviços de saúde mental a partir da experiência de pesquisa em questão.
Apresentação Oral em GT

“Um corpo mar gerado, mar formado é um corpo doente, sim senhora”: os resguardos de corpo e de boca e a construção de corpos saudáveis no Baixo Amazonas

Autor/es: Maria Audirene de Souza Cordeiro, Maria Audirene de Souza Cordeiro (autora) (PPGAS/UFAM/FAPEAM/INCT Brasil Plural) audirenecordeiro@gmail.com Deise Lucy Oliveira Montardo (co-autora) (PPGAS/UFAM/FAPEAM/INCT Brasil Plura
Este artigo apresenta resultados parciais de uma pesquisa de campo sobre os quarenta dias de resguardo de sete mulheres da cidade de Parintins (AM). O estudo faz parte de uma pesquisa de doutoramento, realizada desde 2014, sobre as práticas não institucionalizadas de cura na zona urbana do município. As interlocutoras dessa fase do estudo são migrantes ribeirinhas e filhas de migrantes ribeirinhos(as). Neste texto, desvelamos como os “resguardos de corpo e de boca” – conjunto de interdições às quais a mãe e o pai estão sujeitos - podem ser entendidos como ritos liminares. Para tanto, explicitamos os cuidados e os procedimentos adotados pelos membros da família nuclear para assegurar a construção de corpos saudáveis aptos a exercer a função social para qual foram gerados. De acordo com a exegese local, é nessa fase que o corpo da cunhantãe-mulher é preparado para tornar-se mulher-mãe; o do(a) recém-nascido(a) para ser criança; e do curumim-grande para ser homem-pai. O trabalho registra ainda as estratégias adotadas pelas famílias para driblar os cuidados impostos pelas agentes de saúde do SUS em relação aos(as) recém-nascidos(as) e, consequentemente, manter os cuidados intrínsecos ao modo de vida local.
Apresentação Oral em GT

Políticas de Formação/Qualificação do Agente de Saúde Indígena: confronto de perspectivas entre o direito à atenção diferenciada e a homogeneização dos processos de trabalho

Autor/es: Maria Luiza Garnelo Pereira, Luiza Garnelo Sully Sampaio Ana Lúcia Pontes
O texto analisa situações de confronto de perspectivas entre líderes do movimento indígena e agentes indígenas de saúde, frente às políticas e estratégias da Secretaria Especial de Saúde Indígena, através do DSEI Rio Negro, voltadas para os processos de qualificação de agentes indígenas de saúde engajados nas ações de atenção primária em saúde desenvolvidas na região do Alto Rio Negro, Noroeste da Amazônia Brasileira. O objeto da discussão gravita em torno das premissas, estratégias de desenvolvimento e de organização do trabalho que orientaram um processo formador voltado para conjunto dos agentes indígenas de saúde que atuam no Alto Rio Negro e as orientações emanadas do gestor federal da Política Nacional de Saúde Indígena, que prioriza estratégias de gestão da força de trabalho voltadas para a padronização da organização do trabalho e da atuação do trabalhador indígena, ignorando as especificidades locais, culturais e etnopolíticas do mundo indígena. O curso visava formar os agentes de saúde como técnicos de nível médio, promovendo a escolarização dos participantes desde o ensino fundamental até o pós médio em saúde, construindo simultaneamente uma matriz curricular voltada para o fortalecimento da agência política dos participantes indígenas e para um perfil de atuação de vigilância e promoção da saúde mediante estratégias culturalmente sensíveis, e intimamente articuladas às prioridades da organização política das etnias envolvidas na proposta. Tal perfil, congruente com os singularismos e localismos que demarcam o pensamento indígena, mostra-se desafiador a uma ação de Estado marcada por uma perspectiva universalista e uma atuação disciplinadora, que subsume o local ao geral, favorecendo a tecnociência em detrimento da ação política dos atores do trabalho em saúde nos distritos sanitários. A análise aqui conduzida enfoca justamente o confronto de perspectivas na arena política instituída em torno do processo formador.
Apresentação Oral em GT

Negociações do corpo: Reflexões sobre o acesso ao aborto legal em uma maternidade Potiguar

Autor/es: Maynara Costa de Oliveira Silva, Rozeli Maria Porto
Entre os ramos da saúde reprodutiva o aborto ainda é um dos temas que está sempre em evidência, no Brasil, hoje, existem permissibilidades para a realização de alguns procedimentos de abortamento, o chamado aborto legal previsto no Código Penal Brasileiro – em casos de violência sexual será assegurado o direito da mulher optar por interromper a gestação - todavia mesmo que essa chamada permissão esteja garantida por lei, ainda encontra-se morosidade na garantia do seu procedimento, haja vista que o profissional da saúde pode se escusar de praticar tal ato em virtude das suas crenças morais ou religiosas, isso seria o que os códigos de ética trazem como “objeção de consciência”. A mulher que procura realizar o abortamento tem seus projetos pessoais, assim como o profissional tem a agência de poder, o que pode ocasionar situações em que a objeção de consciência é acionada em decorrência das representações que os sujeitos laborais têm sobre o aborto legal de acordo com suas vivências pessoais. Então, deste modo, tanto a mulher que procura o procedimento, quanto os profissionais que acolhem estão entrelaçados as relações de poder e de agência individual (ORTNER, 2011). Ou seja, mesmo o procedimento sendo garantido por uma lei e assegurado em portarias ministeriais, ainda encontra-se embargos de impedimento quando diz respeito a sua prática dentro das instituições hospitalares de referências, com programas de apoio a estas mulheres, em razão da subjetividade dos agentes públicos. O presente artigo versará acerca de uma pesquisa de campo em andamento dentro de uma maternidade referência em procedimentos de abortamento legal na capital do Rio Grande do Norte, em que busca-se observar a representação dos profissionais de saúde sobre as práticas de aborto legal, como também verificar como se dar os usos e desusos da objeção de consciência a luz dessa prática. Para tanto estará ancorado em referências bibliográficas que abordam temáticas como: antropologia do corpo e da saúde, direitos reprodutivos e sexuais, e maternidade.
Apresentação Oral em GT

"Se eu dou o que é meu, por que eu não vou dar o que é do governo?" - Entre o programático e o pragmático no cuidado à saúde.

Autor/es: Natalia Alves Cardoso Orlandi Silveira
Este trabalho se propõe a analisar ao menos duas das facetas do tratamento à saúde, aqui denominadas de programática e pragmática. O contexto será o trabalho etnográfico realizado na zona rural de um município do agreste pernambucano. Um ambiente sui generis que reúne em um mesmo espaço uma residência, uma casa de parto e um Posto de Saúde da Família. A proprietária: uma líder comunitária que há muito exerce papel de referência no cuidado à saúde e manejo de outras esferas da vida social, esta mesma mulher se firmou e capitalizou sua fama de parteira tradicional da região, além de trabalhar há mais de 20 anos como agente comunitária de saúde. É a esta figura que atribuo a faceta pragmática do cuidado à saúde. A outra, a programática, ficando a cargo dos e das distintas profissionais que atuam neste posto de saúde, quais sejam uma médica cubana do Programa Mais Médicos, uma enfermeira, uma auxiliar em enfermagem e quatro agentes comunitárias de saúde. Entendo como programáticos os processos de cuidado pelos quais não só perpassam, mas se firmam nas normas padronizadas de determinação estatal (legislações, procedimentos, cursos de formação, formulários, fichas, encaminhamentos, agendamentos, receituários, dentre outros); as pragmáticas sendo aquelas que visam e levam em conta prioritariamente o bem estar daqueles que se apresentam em busca de auxilio no cuidado a sua saúde, e se utilizam de variadas estratégias a fim de atendê-los. A explanação em dois grupos constituindo apenas método de exegese acerca das relações e conflitos, não pretendendo, portanto, pensá-los enquanto polos autônomos e independentes que não se influenciem mutuamente. Neste contexto o Estado, por meio de sua agência na qualidade de regulador das práticas de saúde do espaço institucionalizado (Posto de Saúde), serve ao mesmo tempo como censurador e condição de possibilidade para que as práticas oficiosas de saúde sejam também manejadas (como a distribuição de medicamento). A lógica inerente aos programas sociais com base na estratégia da Saúde da Família é de aproximação do cuidado via intermediação dos agentes comunitários da saúde acabando por ocasionar tal complexidade em que relações de informalidade são submetidas a regras formais. É nesse hiato que surgem as inventividades e, por conseguinte, questões quanto à efetividade de políticas e seus múltiplos entendimentos, que problematizam noções de público, privado, estatal, coletivo, oficial, e tradicional, questões essas que agora são atravessadas por outras dimensões de entendimento e controle, advindas com o início do Programa Mais Médicos e, posteriormente, com a presença de uma etnógrafa.
Apresentação Oral em GT

Controvérsias e assertivas entre a população de rua que faz uso de drogas e políticas públicas de saúde: um estudo etnográfico em Belo Horizonte.

Autor/es: Regina de Paula Medeiros, Janaina Fernandes Drumond Cetlin; Carlos Eduardo da Silva
O autocuidado ou controle de si no campo da saúde tem sido um tema motivador de debates científicos, políticos e na sociedade em geral, especialmente por que implica um saber e poder popular construído e reproduzido nas relações cotidianas, nas experiências individuais e coletivas e na interpretação do sujeito sobre o mundo, o adoecimento e saúde. Os grupos sociais que se organizam ancorados na solidariedade e ajuda mútua e no auto cuidado confrontam com os modelos biomédicos e com as políticas públicas de saúde amparadas no saber técnico científico para a apropriação do corpo do outro e no desprezo da subjetividade, crenças, valores e direito cidadão. Nossa proposta é discutir o auto cuidado dos grupos que moram nas ruas da região central de Belo Horizonte e fazem uso de drogas. Trata-se de uma pesquisa etnográfica realizada com a população que vive em situação de vulnerabilidade social, exposta a variados riscos, com precárias condições de higiene, alimentação, saúde e parcos recursos para acessar os serviços públicos. Nessas condições, essas pessoas articulam uma serie de estratégias de práticas de autocuidado para agenciar as experiências de doença, emergências e proteção e para lidar com situações cotidianas. Em determinados espaços da rua organizam e criam normas seguindo uma lógica particular de solidariedade para: 1) suprir suas necessidades básicas de sobrevivência (dormir ao relento, elaborar a própria comida principalmente nos finais de semana quando os restaurantes municipais estão fechados, o banho nas fontes das praças que são vigiadas pela policia, o ataque de determinados seguimentos sociais, sobretudo à noite e roubo). 2) –o cuidado com a saúde e práticas corporais (divisão de alimentos, higiene, proteção das variações meteorológicas, medidas de redução de danos ao uso de drogas). 3) - auxilio aos infortúnios (socorro em momentos de crise ou da manifestação de sintomas, feitura de curativos, excesso de bebidas ou de outras drogas e controle da medicação). 4) - auxilio nos encaminhamentos (pedidos de ajuda à policia, pronto atendimento, corpo de bombeiro, ambulância), quando o próprio grupo não dá conta de prestar socorro no próprio local. Assim organizados, os referidos grupos só acessam os serviços públicos de saúde quando suas alternativas são insuficientes ou quando o quadro clínico se torna tão grave que necessita medidas interventivas institucionais. Nas narrativas dos entrevistados foi possível observar resistências à utilização dos serviços de saúde pública que se justifica pelo excesso de burocracia, descrença nas terapêuticas ofertadas, demora no atendimento e na ineficácia dos modelos biomédicos que desconsideram o sistema de significados construído em seu contexto social particular.
Apresentação Oral em GT

“Do meu jeito não funciona”: a ajuda mútua entre “adictos”

Autor/es: Rosa Virgínia A. de A. Melo, Rosa Virgínia Melo
O universo da pesquisa é um grupo de pessoas engajadas em processo de identificação com a categoria de “doente” característico da nomeada “doença da dependência química”. Tais definições vêm sendo apropriadas de modo variado, axiadas pelas noções de abstinência e sobriedade, a partir das quais desdobra-se um conjunto de preceitos morais a serem introjetados segundo o método de tratamento pesquisado em comunidade terapêutica e grupo suporte de ajuda mútua, inspirado em Alcoólicos Anônimos. Minha proposta problematiza dinâmicas envolvidas nas interações dos atores sociais do método inspirado nos 12 Passos de AA, que enfatiza uma agenda individualizada sob preceitos coletivos para ação no mundo. Tal agenda articula supostos disciplinares religiosamente imantados e afinidades eletivas entre família, religião e saúde, em terapêutica acionado ainda pouco estudada, o das comunidades terapêuticas, recentemente regulamentado pelo governo federal. A notória expansão dessa doutrina no mundo ocidental contemporâneo nos interroga acerca da eficácia das medidas de controle e cuidado, religião e ciência, bem como de autonomia e heteronomia.
Apresentação Oral em GT

Construção de saberes e cuidado de si: Narcóticos Anônimos como um lugar de agenciamento dos sujeitos frente ao uso de drogas e seus tratamentos

Autor/es: Tatiane Vieira Barros
Este trabalho se propõe a apresentar como os grupos de ajuda mútua se tornam alternativas às modalidades terapêuticas e de controle oferecidas para pessoas com problemas relacionados ao uso de drogas. A ideia é mostrar como estes grupos, locais de trocas de experiência e cuidados de si, articulam saberes constituídos a partir das experiências terapêuticas de seus membros (regidas também pelo Estado), que resignificam sua condição e agenciam sobre as ideias de adoecimento, cuidado e recuperação. O texto tem como contexto etnográfico o trabalho de campo em um grupo de ajuda mútua Narcóticos Anônimos/NA na cidade de Florianópolis/SC. Os grupos de ajuda mútua têm como proposta serem lugares onde pessoas com questões de uma esfera singular se reúnem para falar sobre seus problemas e encontrar modos de lidar com eles. NA é formado por pessoas que se autodenominam adictos a drogas em recuperação e funciona como lugar da troca de experiências acerca das formas de uso/abuso e controle, oferecendo aos seus membros ajuda para que consigam encarar a adicção - vista como doença - e manter-se em abstinência. Para ser membro basta o "desejo de parar de usar", as relações do grupo são estabelecidas em torno da abstinência, sendo central a autonomia na escolha por esta modalidade terapêutica. Deste modo, observado como as narrativas dos sujeitos levam a compreender o grupo de NA como uma alternativa de recuperação em relação às internações em clínicas, comunidades terapêuticas e outra instituições; vivenciadas por parte do membros. Considero que são nestes espaços que acontecem um primeiro contato com o Programa de 12 Passos. Aqui problematizo os agenciamentos na manutenção da abstinência em locais onde o controle não é garantido/imposto pela instituição, mas é negociado pelo sujeito. Atentando que NA é um lugar onde se elaboram os limites a partir das experiências vivenciadas nos riscos do uso ou nos cuidados da recuperação. Assim este trabalho se volta para o universo de recuperação a partir do lugar dos sujeitos, compreendendo que participar de um grupo de ajuda mútua é uma forma de cuidado de si construída pelo itinerário terapêutico, pela experiência com uso de substâncias psicoativas e da experiência com o grupo de ajuda mútua. A proposta é mostrar questões pertinentes na vida de pessoas que tem problemas relacionados ao uso de drogas e estão em situação de tratamento. Apontando que os sujeitos são agentes desse processo e suas escolhas são mediadas a partir de fatores de suas experiências, relações sociais, políticas e econômicas. Portanto, a ideia é mostrar como estes grupos são lugares que articulam saberes e experiências terapêuticas tornando-se lugares privilegiados para pensar autonomia dos sujeitos frente ao uso de drogas e seus tratamentos.
Apresentação Oral em GT

Práticas, processos e itinerários terapêuticos: experiências relatadas pela Doutora Raiz

Autor/es: Cristina Diógenes Souza Bezerra
O seguinte trabalho aborda as práticas terapêuticas populares associadas à saúde e alimentação por meio de pesquisa etnográfica dos saberes locais suscitados por Dona Francisca, conhecida como Doutora Raiz no bairro que habita, Pium, Parnamirim, estado do Rio Grande do Norte. Esse estudo se volta para os fatores de legitimidade do que produz e reconhecimento da eficácia terapêutica dos lambedores, garrafadas, chás etc. Interligando fatores como crença e conhecimento para a cura, demonstra estratégias de sobrevivência aprendidas no passar das gerações, num universo marcadamente feminino, que é o do cuidado. Nesse caso, voltado para as ervas da terra, termo utilizado por ela para explicitar esse conhecimento que muitas pessoas não têm sobre o poder curativo das plantas que nos rodeiam. Percebendo a trajetória de vida de Dona Francisca, vemos sua prática campesina desde a infância associada à utilização das plantas para terapias (fitoterapia), constituindo assim um habitus do modo de curar distinto do alopático, da medicina oficial. Essa experiência também demonstra a interação entre o saber local e o saber que se pretende global. Numa trama de conflitos, mas também de interdependência, tendo em vista a influência da OMS na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS, que deu a relevância devida à fitoterapia revelando desde a Declaração Alma-Ata em 1978 que 80% da população mundial usa esse recurso para cura. Ademais essa terapia que me refiro que acontece para além do ambiente hospitalar, e se baseia também na fé para ser eficaz. Assim foco nos itinerários terapêuticos percorridos nas experiências de doença que ela vivenciou. Nessa busca por compreender os agenciamentos sociais que compõem a rede terapêutica local em análise.
Pôster em GT