Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT045. O Pantanal e seu entorno: diversidade, relações sociais e conflitos

O Pantanal é a maior planície de inundação do globo e está constituído por ecossistemas que abrangem vastas extensões dos territórios nacionais do Brasil, Bolívia e Paraguai, os quais fazem fronteira na região. Abriga uma significativa diversidade sociocultural, composta de populações dispersas em áreas urbanas e rurais, incluindo povos indígenas e comunidades tradicionais, as quais formam redes de contato e circulação. No caso brasileiro, a região tem chamado à atenção pelos conflitos sociais e socioambientais, violação dos direitos de povos indígenas, fluxo de imigrantes, turismo, comércio de bens lícitos e ilícitos etc. Neste contexto, antropólogos e pesquisadores de áreas afins têm desenvolvido estudos a respeito de temas pertinentes ao universo histórico e sociocultural pantaneiro e às relações com as paisagens e a biodiversidade locais. Diante desta realidade, a presente proposta de GT tem o propósito de se constituir em um espaço aberto e plural para a socialização de conhecimentos e o debate sobre várias temáticas sobre o Pantanal e seu entorno: diversidade sociocultural, turismo, redes de transporte (rodovias, hidrovia etc.), projetos desenvolvimentistas, expansão do agronegócio, relações das populações locais com a biodiversidade, conflitos pela posse de terras indígenas e territórios de comunidades tradicionais etc.

Álvaro Banducci Júnior (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)
(Coordenador/a)
Jorge Eremites de Oliveira (Universidade Federal de Pelotas)
(Coordenador/a)


"Diz que em Corumbá tem muita fofoca": poder, política e moralidade em uma cidade do Pantanal

Autor/es: Gustavo Villela Lima da Costa
A cidade de Corumbá-MS, que possui em torno de 100 mil habitantes, está situada na fronteira com a Bolívia, a partir da cidade de Puerto Quijarro, em uma região de grande fluxo de pessoas e mercadorias. O relativo isolamento dessas cidades (em conjunto com Ladário e Puerto Suarez) contribui para que uma grande quantidade de informação sobre as pessoas que ali vivem circule nas conversas, por meio de boatos e fofocas. A partir da leitura de Bailey (1971) podemos pensar as relações que se estabelecem entre a fofoca e a micropolítica em torno das reputações pessoais, baseadas em relações de troca, que têm sua contrapartida de "veneno". A fofoca pode ser pensada também como o pertencimento a uma ou mais "comunidades morais", que chamaremos de circuitos sociais da fofoca. Assim, em Corumbá, a fofoca circula pela cidade pois há uma comunicação entre esses circuitos - sobretudo pelas pessoas que estão em suas interseções - e que podem fazer a fofoca alcançar a "opinião pública geral". A fofoca tem grande importância na ação política, nas disputas por poder, na construção e destruição de reputações, na manipulação de verdades, assim como na formação de alianças e conflitos entre pessoas e posições sociais. Observamos que os principais circuitos sociais de fofoca na cidade são os seguintes: o Exército e a Marinha, a UFMS, a Vale, a Embrapa, além das tradicionais vinculações em torno do bairro, da família, das igrejas etc. Ao longo das pesquisas realizadas chegamos a dois assuntos principais sobre os quais se fofoca em Corumbá: sobre a vida conjugal, principalmente as questões de adultério e traição, e sobre a renda e o consumo das pessoas, desde os salários aos ganhos nas "dobras" do legal e do ilegal, sobretudo no que diz respeito ao tráfico de drogas, prostituição ou contrabando. A proximidade entre as pessoas, seus nomes, rostos, e os cargos que ocupam geram formas de sociabilidade e práticas muito específicas, em que as relações de trocas de caráter pessoal predominam sobre as operações de cunho impessoal e anônimas, propiciando práticas de gestão das ilegalidades de modo localmente peculiar. Por esse motivo procuraremos relacionar os pequenos e íntimos eventos do cotidiano com processos de larga escala, especialmente aqueles que se referem à violência doméstica e ao tráfico de drogas na região, em que a moralidade também é negociada a partir das fofocas.
Apresentação Oral em GT

OS DIAS MARRECAS: Marginalização social e invisibilidade histórica no sudeste piauiense.

Autor/es: Leonardo Tomé de Souza
Paralelo ao crescente reconhecimento e ampliação do Patrimônio Cultural e arqueológico no sudeste piauiense, e do aumento no número de pessoas reconhecendo-se como indígenas e quilombolas, no estado do Piauí encontramos na mesma região o caso dos Dias Marrecas. O Piauí, segundo o Censo 2010, é o único estado que não possui nenhum território indígena, apesar do Censo registrar mais de 2000 pessoas se reconhecendo como indígenas. Estas pessoas, como representantes e remanescentes de grupos indígenas e negros, historicamente tem passado por um processo de marginalização e exclusão social na região. Acreditando que políticas públicas de educação e gestão patrimonial, voltadas para problemas sociais específicos locais, possam contribuir significativamente na desconstrução destes estigmas sociais.
Apresentação Oral em GT

A diáspora Guaná(Terena) no pós-guerra da Tríplice Aliança e os reflexos em seus territórios no Mato Grosso do Sul

Autor/es: Lindomar Lili Sebastião
Sebastião. Lindomar Lili Lin.terena@hotmail.com Almeida. Edielso Manoel Mende de (coautoria). Edielsoalmeida@bol.com.br O presente trabalho propõe apresentar um estudo realizado entre o povo indígena Terena de tronco linguístico Aruak e subgrupo Guaná. O mesmo habita em sua grande maioria a região do estado de Mato Grosso do Sul, distribuídos em torno de vinte e três mil habitantes. Falantes em sua maioria da língua de origem, atualmente lutam pela demarcação e homologação de seus territórios tradicionais das quais foram expulsos e confinados em pequenas reservas criadas pelo governo em atuação conjunta ao SPI- Serviço de Proteção ao Índio, em tempos do pós-guerra da Tríplice Aliança. Para tanto, buscamos a memória de nossos velhos, os anciões, para um estudo usando a história oral somado aos registros escritos por pesquisadores na área de antropologia, história e arqueologia para compreensão do processo de expropriação de seus territórios até os dias atuais. Desta forma, pontuaremos as suas reais consequências, os reflexos aos seus ethos, à sua reprodução física e cultural bem como a violência vivenciada em tempos presente.
Apresentação Oral em GT