Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT044. Música e Dança nos Processos de Mobilização Coletiva e Afirmação de Identidades

Nossa proposta é ampliar debates sobre pesquisas concluídas ou em andamento, enfocando a música e a dança como elementos de expressão corporal e mobilização coletiva nos processos identitários da diáspora, enfocando performances e linguagens corporais produzidas nas diversas regiões brasileiras ou em outros países, em suas expressões tradicionais ou das tendências rítmicas veiculadas pelos sistemas midiáticos. O estágio atual da modernidade nos revela fenômenos interessantes para reflexão do ponto de vista da diversidade, pois, cada vez mais, repertórios culturais, antes reconhecidos como simples formas de lazer, constituem-se, tanto como alternativas de mobilização coletiva para ocupação de espaços, reivindicação de direitos ou afirmação de identidades Arte e cultura, especialmente em sua classificação popular, se por um lado vista como algo perigoso, principalmente pelos governos autoritários, por outro lado, são entendidas como extensão da vida social de determinados grupos, protagonizando histórias diversas. Entendendo que existem já, vários trabalhos acadêmicos que procuram demonstrar a importância das performances rítmicas, musicais e corporais como saberes diversificados, expressões de autonomia política e afirmação de identidades, visamos consolidar um grupo de debates com enfoques diferenciados sobre esses repertórios.

Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO)
(Coordenador/a)
João Batista de Jesus Felix (Universidade Federal do Tocantins)
(Coordenador/a)


Itinerários femininos e dos bens nos circuitos do rock Metal

Autor/es: Abda de Souza Medeiros
Este trabalho tem como objetivo refletir sobre as experiências das mulheres no universo do rock Metal nas cidades de Fortaleza e Rio de Janeiro, ambas campos de investigação de minha Tese de Doutorado. Verifico de que forma elas se apropriam dos bens materiais e imateriais que caracterizam o rock com menor (ou nenhuma) visibilidade nos meios de comunicação (conhecido como underground) e aquele que dispõe de todo um aparato de produção e divulgação ordenado segundo as regras do sistema mundial capitalista. Estas mulheres estão organizadas em formato de banda ou plateia. Desta forma, estabeleço diálogos entre as formas como elas se inserem nos contextos culturais das cidades citadas, as variáveis simbólicas e materiais que as caracterizam, como se dão as afinidades e diferenciações com os homens que compõem a maioria nesse estilo musical, tornando significativas as dimensões das masculinidades e feminilidades plásticas que caracterizam esses atores sociais. A ideia é de que quando estes, em conjunto com esses homens, mobilizam coisas e pessoas como representativas do mundo dos bens que as configuram, agenciam-nos sob as perspectivas transcultural, afetiva, política e de identificação. Sendo assim, no caso das mulheres, constatou-se que o acesso a determinados bens materiais e imateriais no que diz respeito ao rock Metal, constituem o próprio sistema que elas operacionalizam, ora discriminando, ora reforçando certos padrões de produções e territórios onde aqueles estão alocados; reforçando-os às demais esferas sociais de acordo com as possibilidades nas quais estão imersas, proporcionando por esses mecanismos diferenciações nas formas como os bens são mobilizados e apropriados por esses indivíduos. Os dados que me possibilitaram os argumentos apresentados na pesquisa, foram colhidos por meio de observação em ambas as cidades, entrevistas, material fonográfico produzido pelas bandas compostas por mulheres e os meios virtuais, pelos quais esses sujeitos compartilham as biografias e os trajetos realizados pelos bens materiais e imateriais, gerando assim, um mercado próprio. Referências bibliográficas APPADURAI, Arjun. A vida social das coisas: as mercadorias sob uma perspectiva cultural/ Arjun Appadurai; Tradução de Agatha Bacelar – Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense, 2008. COSTA, Cláudia de Lima. O leito de Procusto: gênero, linguagem e as teorias feministas. In: Cadernos Pagu, 1994, pp. 141-174. MAUSS, M. Ensaio sobre a dádiva. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Edusp,1974. STRATHERN, Marilyn. O gênero da dádiva: problemas com as mulheres e problemas com a sociedade melanésia. André Villalobos (trad.). Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2006.
Apresentação Oral em GT

A Bomba, expressão cultural afrochoteña de dança e música: Entre o tradicional e as mudanças. Iniciativas para o fortalecimento da(s) identidade(s) dos habitantes do Vale do Chota.

Autor/es: Ana Barrientos
O presente trabalho procura aprofundar no entendimento da manifestação cultural denominada Bomba, expressão cultural de matriz africana mais significativa para o povo afrodescendente do Vale do Chota nos Andes equatorianos. Esta manifestação envolve música, poesia, dança e o tambor do mesmo nome. A Bomba surge numa ação insurgente e hoje é visibilizada no país através de iniciativas de revitalização cultural. A literatura especializada discute as convergências e divergências entre as perspectivas românticas e tradicionais baseadas numa ideia de autenticidade da manifestação cultural, e os processos de inovação que estas manifestações tem incorporado nas últimas décadas. Pela importância social e histórica que esta manifestação cultural tem para o povo afrochoteño, o objetivo desta pesquisa foca-se em compreender as relações entre as divergências e convergências da manifestação cultural da Bomba e seu papel no processo de fortalecimento da(s) identidad(es) dos(as) afrochoteños(as) no contexto das iniciativas endógenas e as políticas de revitalização cultural. Para a compreensão deste fenômeno cultural, a pesquisa dialoga com as propostas teóricas sobre cultura popular e identidades em Hall, Cavalcanti, Chartier, Canclini, Gilberto Giménez e alguns autores afrochoteños. O trabalho de campo foi feito desde a perspectiva etnográfica que incorporou observação participante e entrevistas em profundidade a homens e mulheres afrochoteñas, músicos, poetas, bailarinas, artesãos, gestores locais e migrantes nas cidades de Ibarra e Quito. Os resultados mostram disputas de sentidos entre atores locais e com a institucionalidade pública. Disputas que se dão entre o tradicional e autêntico, que se liga à nova configuração do estado plurinacional equatoriano, e o moderno e inovador, como uma ameaça, por uma parte, e por outra, como uma alternativa de fortalecimento identitário. A relação esta mediatizada pelos projetos financiados pelo Estado, o que gera sentimentos de afirmação quando existem recursos econômicos e de abandono e desgaste organizativo quando não existem. Isso vai mudando as relações de dependência-autonomia com o “outro” e evidenciando os sentidos em disputa, já que a instrumentalização e imposição da agenda estatal por sobre os interesses dos gestores e agrupações culturais afrochoteñas, geram conflitos que afetam o processo de fortalecimento de identidade(s). Como a Bomba tem um sentido histórico de luta e coesão do povo afrochoteño, as comunidades continuam mobilizando espaços coletivos através da organização anual do “Carnaval Coangue”, comemorando o dia do afroequatoriano pela Fundação afrochoteña “Piel Negra”; e com a coordenação de alguns festivais e apresentações em conjunto com as instituições públicas.
Apresentação Oral em GT

"Olhando aqui de perto, tudo é tão normal" - Imersão etnográfica em show da banda Apanhador Só

Autor/es: Belisa Zoehler Giorgis, Luiz Antonio Gloger Maroneze (Universidade Feevale) Sandra Portella Montardo (Universidade Feevale)
Este estudo apresenta apontamentos de uma imersão etnográfica no show “Acústico-Sucateiro” da banda Apanhador Só, realizado em 28 de junho de 2015, no Parque Farroupilha, em Porto Alegre, que ocorreu como parte das ações de financiamento coletivo da turnê nacional “Na sala de estar” e do próximo álbum da banda. O estudo teve como problema de pesquisa a questão “como se articulam questões de cultura e identidade em no show Acústico-Sucateiro da Apanhador Só?”. O objetivo principal foi compreender como se articulam as questões de cultura e de identidade, a partir de um olhar etnográfico; os objetivos específicos foram construir o referencial teórico de etnografia, descrever o show “Acústico-Sucateiro” em detalhes e produzir uma reflexão sobre o show com base em conceitos de cultura e identidade. No trabalho, foram utilizados os autores Clifford Geertz, Roy Wagner e Stuart Hall, trazendo conceitos de etnografia, cultura e identidade a partir de um olhar contemporâneo, buscando uma abordagem assertiva ao objeto. A partir desse referencial teórico, foi realizada reflexão sobre os aspectos apresentados na descrição do show, a partir de imersão etnográfica – termo este utilizado por tratar-se de prática etnográfica não realizada por antropólogo. Concluiu-se que foi alcançado o objetivo de verificação das articulações entre os conceitos apresentados e as informações coletadas, verificando-se, também, que o estudo poderia ser desdobrado a partir da consideração de outros detalhes, informações e nuances do objeto. Ainda na conclusão, foram problematizadas as dificuldades do fazer etnográfico em show, o necessário distanciamento e as escolhas a serem realizadas, assim como a influência dos afetos no processo e no resultado final.
Apresentação Oral em GT

Narrativas musicais contemporâneas entre o local e o global: os casos do funk brasileiro e do kuduro angolano

Autor/es: Debora Costa de Faria
A valorização de uma estética cultural entendida como “periférica” tem sido revelada e intensificada ao longo dos últimos anos. Na música, o funk brasileiro e o kuduro angolano são bons exemplos desse fenômeno. Frutos de articulações referidas às sonoridades locais e globais, esses dois gêneros de música e dança têm se consolidado como duas importantes manifestações culturais contemporâneas em seus respectivos países e, em certa medida, também fora deles. Até que se pudesse chamá-lo de carioca, paulista ou brasileiro, o funk norte-americano passou por diversas transformações. No Rio de Janeiro dos anos de 1980 chega como parte da programação dos “Bailes da Pesada” que tomavam os subúrbios da cidade, onde logo começa a receber as primeiras intervenções por parte de seus apreciadores. Desde então, o gênero vem ganhando, no Brasil, inúmeras peculiaridades que o tornam multifacetado e permitem que suas batidas sejam ouvidas, dançadas e produzidas ao longo de todo país. Além disso, o funk e algumas das práticas associadas a ele têm sido cada vez mais apropriados pelos meios de comunicação, em programas populares de televisão, novelas e peças publicitárias. Sobre o kuduro pode-se argumentar que as histórias e narrativas em torno de sua criação, não raro confundem-se com as histórias e narrativas de uma Angola que após séculos de domínio estrangeiro, conhece os sofrimentos de uma guerra civil. Nesse contexto, jovens com possibilidades de emigrar para a Europa entram em contato com a música eletrônica e implementam as primeiras tentativas de mescla com as sonoridades apreendidas em casa, constituindo parte da formação do kuduro. Na Luanda dos anos de 1990, os clubes do centro da cidade, e, especialmente, os musseques (bairros populares), se tornariam espaços férteis para o desenvolvimento do gênero, tanto em sua vertente musical como de dança. Considerado um dos modos de contar o cotidiano, o kuduro, vem, além disso, sendo apresentado, como um dos símbolos de uma nova Angola. Funk e kuduro são tomados sobretudo por jovens moradores de zonas desassistidas de grandes cidades, mas, que apesar dos preconceitos e dificuldades, estão conectados com o mundo, beneficiando-se dos fluxos globais de sons e imagens. Esses jovens, são, nesse sentido, empoderados pelo barateamento e a maior acessibilidade a artefatos tecnológicos; são, impelidos, a desafiar lógicas e dinâmicas da indústria da cultura e do entretenimento ao criar suas próprias narrativas e identidades por meio da produção de canções, expressões corporais e imagens. Deste modo, acabam por contestar o papel conferido a eles de simples receptores para se tornarem protagonistas e agentes nas e das localidades onde vivem, estabelecendo, assim, novas geografias de produção, edição e consumo de música.
Apresentação Oral em GT

"Música de Festa", Expressão de Identidades, de Estética e de Poder na Diáspora Africana

Autor/es: Frank Nilton Marcon
A partir de etnografias realizadas em discotecas de Lisboa (Portugal) e de Salvador (Brasil), reconhecidas por serem "discotecas africanas" ou por promoverem festas denominadas "africanas", analiso os processos de estetização, os significados e as dinâmicas de identificação e diferença nos contextos de sociabilidades mediados pela música na diáspora. Nos casos analisados, a questão da etnicidade e do corte geracional são privilegiadas a partir da pesquisa participante pela observação de suas expressividades, de suas práticas e de suas narrativas. Analiso especialmente às narrativas sobre suas trajetórias de vida, sobre música, sobre dança, sobre corpo, sobre imigração e sobre identidades elaboradas pelos produtores musicais e pelos participantes destas festas. Em ambas etnografias, a música tocada, ouvida e dançada é a música urbana e contemporânea produzida em diferentes países africanos e caribenhos, com predomínio das músicas eletrônicas em suportes digitais, muitas vezes mixadas de forma autoral pelos DJs durante sua execução. Estou interessado em analisar e em entender as dinâmicas mobilizadoras destes eventos para os envolvidos e o que representam enquanto expressão das agências de jovens implicados pela experiência da diápora.
Apresentação Oral em GT

RITMISTAS E BATUQUEIROS: performances culturais, memória e afirmação no batuque.

Autor/es: Geovana Tabachi Silva
A proposta dessa pesquisa incide sobre a análise das relações entre patrimônio, manifestações festivas e construção da memória coletiva, considerando as performances culturais associadas aos jovens pertencentes a uma Escola de Samba, em Vitória, no Espírito Santo, Brasil. Á medida que esta agremiação exerce sua função patrimonial é possível observar que insurgem multiplicidades de emoções, ambiguidades e disputas fundamentais para a vida cotidiana. Desse modo, o objetivo central da investigação, que está em andamento, é compreender os processos envolvidos na performance da bateria, considerando-se que através de sua manifestação ritualística estão implicados discursos e práticas simbólicos da estrutura social brasileira no contexto urbano, como os relacionados a hierarquia social e aos aspectos intergeracionais. A configuração juvenil apresenta relevante participação ao reivindicar sua concepção de pertença e apropriar-se do passado, da memória e da tradição, de onde partiremos para a identificação dos saberes construídos através do samba.
Apresentação Oral em GT

A vida está Punk: os “Quebra Crânios” no cenário underground de Goiânia

Autor/es: Hytalo Kanedo de Lima Fernandes
O estudo presente é resultado de uma análise de campo etnográfico realizado através de observação participante, com uso de conversas informais, principalmente nos festivais Thrash Core Fast 666 e Grito Rock, bem como em eventos menores voltados para o público underground na cidade de Goiânia/GO. Ele tentou estabelecer através dos “Quebra Crânios”, o ápice da ação das subjetividades dos indivíduos na sua relação com a música, as interseccionalidades entre corpo, identidade e violência. Os Quebra Crânios ou Rodas de Pogo/Punk entre outros nomes são círculos que são formados durante os shows geralmente de punk ou hardcore em que os participantes levantam os braços, abaixam as cabeças, suspendem os pés e se chocam com outros indivíduos que também fazem o mesmo. Em um primeiro momento, para quem nunca presenciou tal ação parece uma pancadaria generalizada, contudo, esses atos são encarados pelos seus participantes como uma forma de dança que extravasa a energia que a música proporciona. Contudo a expressão corporal utilizada nessa ação, assim como seus movimentos, possuem características que nos revelam mais do que o sentido de apenas uma dança. O significado das rodas e também do movimento punk/hardcore passa inteiramente pelo posicionamento do corpo enquanto ferramenta de violência de transcendência e libertação. Não somente, tem como função iniciar aqueles nas rodas através de marcas, feridas e das dores deixadas no corpo. Seja na estética Punk/Hardcore, nas músicas ou nas rodas, todos os marcadores sociais e identitários do grupo passa pelo corpo. “O corpo é um mapa cultural” (CANEVACCI, 1990). E nele, a violência expressa e reverbera a luta, a fuga dos padrões e a constituição da identidade individual e coletiva.
Apresentação Oral em GT

Mapiko: Identidade Maconde

Autor/es: Mariana Conde Rhormens Lopes
O presente trabalho propõe um estudo acerca dos saberes tradicionais do Mapiko, manifestação cultural de Moçambique. O Mapiko tem um espaço muito significativo na cultura dos Macondes na província de Cabo Delgado. Rodeada de mistérios e segredos a manifestação mistura música, dança e cena representando o imaginário do povo Maconde. O Mapiko consiste em um ritual que revela relações sociais com a dramaticidade que o mascarado expõe em suas coreografias e máscaras, e revela o sagrado com a sua ligação ao mundo espiritual. É um veículo da cultura onde se perpetuam experiências e situações cotidianas, expressando o universo filosófico e simbólico do povo Maconde. Revela fatos cotidianos, representifica o passado e acontecimentos históricos, retrata personagens conhecidos e importantes para tal comunidade, assim como figuras que transitam no dia-a-dia de tal povo. O Mapiko funciona como um espelho da sociedade, onde tal povo pode refletir sobre seu passado e observar a sua vida presente, trazendo reflexões, nostalgias, críticas e autoconhecimento. Moçambique passou por muitas transformações políticas que reestruturaram o país social e culturalmente. Tornou-se colônia de Portugal e depois de uma guerra de libertação, com a configuração de um Moçambique livre em 1975, passou por um regime socialista e chegou ao pluripartidarismo (situação atual). A província de Cabo Delgado, onde vive o povo Maconde, foi palco da guerra de libertação (1964-1974), convivendo com exércitos portugueses e guerrilheiros moçambicanos e participando efetivamente da guerra. Durante anos, os Macondes têm utilizado a linguagem do Mapiko para conceituar seu mundo e encontrar-se dentro dele. Vêm transformando sua linguagem, criando outros seres a representar, outras formas estéticas e ritmos. A manifestação cultiva a história e signos do povo Maconde ao mesmo tempo em que traz a possibilidade de diálogo com o momento atual, podendo ser representado e simbolizado algo presente que mantém viva a história desse povo, transmitindo valores, memórias e ensinamentos àqueles que assistem e participam. A festa onde acontece o Mapiko é permeada por um sentimento de identificação, um sentimento de pertencimento e a noção de identidade coletiva. Tal manifestação é identidade cultural e une a todos que pertencem a essa cultura, a esse povo. Por assumir essas funções e a importância que lhe é conferida, o Mapiko sofreu modificações e adaptações que o levou a existir até os dias de hoje. Adaptando-se a diferentes estruturas políticas e administrativas, sobrevivendo à guerras e modernizações, o Mapiko é realizado em sua terra de origem (Cabo Delgado) e também em outras terras habitadas por Macondes. É a beleza da tradição: sobrevivência, adaptação, transformação e transcrição.
Apresentação Oral em GT

Performances e em um movimento juvenil: uma etnografia sobre a mulher no hip hop de Campina Grande

Autor/es: Mércia Ferreira de Lima, Autora: Mércia Ferreira de Lima Co- autor: Vanderlan Francisco da Silva
Este trabalho é fruto de uma pesquisa do mestrado em Ciências Sociais com uma abordagem da antropologia urbana. Através da etnografia faço uma análise de como as mulheres estão inseridas e como é sua aceitação por parte dos homens no hip hop de Campina Grande, cidade localizada no interior da Paraíba. O principal objetivo da pesquisa é entender como as mulheres estão inseridas dentro desse movimento, não sendo em sua grande maioria protagonistas no hip hop. Mas têm uma significativa participação de mães, irmãs, companheiras. Sendo assim um suporte para os jovens que estão no hip hop da cidade Campina Grande. Partindo de um recorte de gênero, a pesquisa mostra como os jovens de Campina Grande se identificam com o hip hop, tanto como forma de lazer e sociabilidade como instrumento de contestação e de resistência de classe e raça. A ideia da pesquisa não é diferenciar o hip hop como um movimento cultural ou como um movimento político, mas sim identificar qual o papel da mulher no hip hop. Para entender qual o papel das mulheres o hip hop, foi necessário fazer uma análise. Para isso, buscamos identificar quais foram os primeiros grupos que ganharam destaque e os atuais grupos que compõem a cena do movimento hip hop na cidade. Levando em consideração como os eles se organizam, tendo em vista sua classe social, gênero e raça. Essas três categorias são de grande relevância para entender a cena local e como as mulheres do hip hop constroem suas identidades e ainda como elas são reveladas através dos elementos do hip hop, o break, o Mc, o grafite e o Dj. Entre os elementos que são os pilares do hip hop, o break e suas variações é o que mais podemos encontrar mulheres. Essas mulheres se mostram presente e apresentações em praça pública, teatro, parques. Mostrando que elas têm uma maior aceitação social na pratica da dança urbana e tendo uma visibilidade positiva nas competições que acontecem na cidade. Além de uma breve abordagem sobre juventude, gênero e raça, também é mostrado uma análise cronológica desde o surgimento do hip hop a nível global até sua chegada à cidade de Campina Grande, sendo de grande relevância pra que possamos compreender a dinâmica do hip hop na cidade.
Apresentação Oral em GT

Saraus de rua e protagonismo negro no Rio de Janeiro: Pesquisa etnomusicológica sob a ótica de uma invesitgação militante e dialógica

Autor/es: Pedro Macedo Mendonça, Jhenifer Raul Matheus Ferreira
Pesquisa construída sobre o caráter de uma investigação militante de cunho dialógico, onde pessoas que seriam reconhecidas como “nativas” dentro de uma pesquisa antropológica qualquer, assumem protagonismo em todas as etapas da mesma. Fruto da partilha de uma bolsa de doutorado de um dos cinco pesquisadores de nosso grupo com mais quatro protagonistas da “cena” pesquisada, formamos então nosso coletivo empenhados em compreender o papel da música nos movimentos estudados, e o impacto dos mesmos sobre a construção de uma linha política autônoma de maioria negra e periférica. Nosso interesse surge de uma percepção sobre um recente movimento carioca bastante plural de eventos para ocupação de espaços públicos. Um movimento dentro desse “movimento” despertou nossa atenção enquanto ativistas pesquisadores: Uma “cena” de saraus protagonizados por moradores e moradoras das periferias do Rio de Janeiro, pautado nos discursos de negritude e de combate ao genocídio do povo negro - pauta central de movimentos negros de caráter autonomista, com pouco ou nenhum diálogo institucional. Esta “cena” acredita que vivemos em um dos tempos de maior retrocesso em relação aos direitos das juventudes pobres, impulsionando jovens a se organizar em luta contra esta situação política. Combatendo o genocídio do povo negro em sua esfera política e cultural, jovens negras e negros têm buscado nestes saraus lutar contra a política de Estado genocida do Brasil, tendo como instrumento de luta a música e a poesia, em sua grande maioria criadas e performadas por negros de negras de origem periférica, construindo um espaço de aparente protagonismo destes indivíduos. Selecionamos então um destes saraus como objeto de estudo principal – O Sarau Divergente. Este acontece todas as segundas quintas-feiras de cada mês no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Em nossas visitas etnográficas pudemos observar algumas questões que despertaram nossa curiosidade: Qual seria a intenção de alguém que recita um poema negro, produzido por negros, em um sarau que reivindica sua negritude política? Também a horizontalidade de um lugar onde público e performer se misturam, tem merecido nossa reflexão. Mano Teko, (Mestre de Cerimonia do Sarau), algumas vezes cita a expressão “Além Arte”. Este “Além arte” desperta nossas indagações sobre os porquês da opção de construir um espaço artístico como ferramenta política, onde o protagonismo musical advém também das periferias, sendo o rap e o funk os principais estilos apresentados por lá. Assinam esta comunicação três dos membros de nosso grupo, um estudante de doutorado homem branco de origem classe média, e dois estudantes negros pré-universitários, um homem e uma mulher, moradores do bairro de Acari e organizadores de eventos artísticos e políticos locais.
Apresentação Oral em GT

“Sou angolano também”: algumas notas acerca dos processos identitários contemporâneos

Autor/es: Ricardo Moreno de Melo
Este artigo pretende refletir acerca dos processos identitários em curso na contemporaneidade tomando como referência empírica algumas narrativas que passaram a circular no grupo quilombola que foi objeto de uma pesquisa feita por mim em 2006, após o grupo ter feito contato com um conjunto de novos atores com os quais passou a se relacionar. A pesquisa empírica, cujo título é Tambor de Machadinha: devir e descontinuidade de uma tradição musical em Quissamã, foi realizada em 2006 quando da elaboração de trabalho de mestrado em Etnomusicologia. O grupo pesquisado é denominado “Grupo de Jongo Tambores de Machadinha”, e é formado por jovens e por pessoas mais velhas consideradas antigas conhecedoras dessa prática: os mestres, como via de regra são chamados. A Fazenda Machadinha, locus principal da pesquisa, está situada na área rural do município de Quissamã, no norte-fluminense. Esta localidade é composta por 46 casas de uma antiga senzala; ruínas da antiga casa-grande da fazenda; e uma igreja do início do século XIX. O objetivo era o de pesquisar a manifestação do "Tambor" ou "Jongo", como eles também chamam, praticado pelos remanescentes dos antigos escravos ligados à cultura da cana-de-açúcar naquela localidade. O jongo é uma expressão lítero-musical-coreográfica dançada na forma de roda cuja incidência ocorre na região sudeste brasileira desde o período colonial. A pesquisa visava entender a relação dessa prática cultural com a vida social do grupo. Em fins de 2004, o "tambor" parecia uma manifestação em estado de declínio. Em abril de 2005, quando iniciei a pesquisa de campo, no entanto, o "tambor" estava sendo reconfigurado como um espetáculo a partir da iniciativa de uma ONG em associação com alguns moradores locais. É importante notar que essa retomada estava ocorrendo dentro de um contexto mais amplo no qual se incluía as então novas políticas de patrimônio imaterial, bem como a operacionalização do novo conceito de quilombo por parte do governo federal. O reconhecimento da comunidade como terra quilombola traria implicações bem concretas tais como à obtenção da posse legal das terras, conforme preconiza a Constituição Brasileira, no artigo 68 do ADCT, incluído no texto constitucional de 1988, e ainda outros dispositivos legais. O título desse trabalho faz menção a uma frase proferida por um dos músicos do grupo e integrante do subgrupo dos mais velhos, cujo nome era Valdecir dos Santos, mas conhecido na comunidade pelo apelido de Cici, falecido alguns anos após minha pesquisa. Como base teórica para minhas reflexões me vali de autores tais como Michel Agier, George Marcus e Stuart Hall para discutir acerca de identidades na contemporaneidade, etnografia multi-situada e mediações culturais.
Apresentação Oral em GT

Espaços públicos e processos de significação: questões sobre juventudes e hip hop nas cidades de Recife, Maceió e Aracaju.

Autor/es: Sérgio da Silva Santos
O Hip Hop é uma cultura que está inserida em um processo e um debate em torno da questão do uso do espaço. As inúmeras pesquisas sobre Hip Hop apresentam perspectivas que dinamizam as ações de jovens inseridos na cultura e a questão dos espaços públicos e do cotidiano, como também, buscam compreender a relação de identidade e significação com um lugar. Em certo sentido, é comum aos jovens praticantes do Hip Hop efetivarem ações em um território específico, como um bairro e em locais constituídos como periferia. É importante entender que os espaços em que o Hip Hop é praticado, seja o rap, o break, e o graffiti, não são dados, mas é parte de um processo de significação e de interações sociais.Nossa ideia em torno deste trabalho é baseada no fato de que na pesquisa de mestrado encontramos discursos e práticas que são orientadas pela dimensão do espaço e que são construídas a partir das experiências sociais dos jovens nas diversas inserções no cotidiano urbano. Ou seja, o lugar de fala é marcadamente importante nos acionamentos em torno dos processos de significação dos espaços considerados praticados do Hip Hop. Durante a pesquisa de mestrado, esse entendimento foi constatado pelos significados construídos em torno dos nomes das posses, que indicam o imaginário do que é “periférico”, “quilombola” e “coletivo”. Acreditamos que nossa pesquisa se aproximou de um debate muito íntimo deste imaginário, buscando compreender as construções de cada grupo em relação ao lugar que praticam suas ações. Nossa pesquisa atual pretende socializar aspectos das discussões em torno dos espaços públicos e dos processos de significação destes por jovens praticantes do hip hop nas cidades de Recife, Maceió e Aracaju.O hip hop tem sido um importante elemento de construção de identidades, e tem demarcado importantes posições na vida urbana, como também, produz inúmeros processos de disputa nas cidades e propõe elementos distintivos neste cenário. Sendo assim, estudar essa temática na atualidade é compreender as novas facetas que dinamizam os significados dos espaços públicos e seus arranjos em torno da produção de sentidos. As cidades de Recife, Maceió e Aracaju contam com circuitos importantes na cena hip hop e conformam seus significados a partir das dinâmicas espaciais. Os cenários que marcam o hip hop nestas cidades podem ser orientadas por lugares que demarcam certos sentidos, como por exemplo, os eventos realizados no viaduto que liga a cidade de Aracaju ao município de Barra dos Coqueiros; ou o evento “Polo Hip Hop” realizado no viaduto João Paulo II no bairro do Coque em recife; ou ainda os eventos realizados nas praças de Maceió pelos coletivos de hip hop. São eventos distintos que produzem arranjos que demarcam certas especificidades e que irão nortear esta pesquisa.
Apresentação Oral em GT

Uma investigação sobre o fazer musical da Festa da Folia de Reis São Francisco de Assis da cidade de Carmo do Cajuru-MG

Autor/es: Sônia Cristina de Assis, José Alfredo Oliveira Debortoli
O presente estudo aborda uma etnografia sobre a festa da Irmandade Folia de Reis São Francisco de Assis da cidade de Carmo do Cajuru – MG/Brasil. Nessa prática, o que primeiramente chama atenção é a paisagem que dimensiona seus rituais no tempo/espaço com os cantos e os instrumentos, encadeando um entrelaçamento de vozes humanas e não-humanas que produzem efeito e afetam o mundo através do som. Os praticantes dessa prática social são conhecidos por foliões, sendo eles, os embaixadores que expressam os cantos sagrados em poesias, o coro que responde com vozes sobreposta e os palhaços que divertem a folia com danças e brincadeiras. Nesse local sagrado o sentido de pertencimento dos instrumentos sonoros (acordeons, violões, violas, cavaquinhos, reco-reco, caixas, pandeiro e dourados) é reforçado pelo seu engajamento com os cantos, a reza, a dança e a devoção aos santos. Assim é arranjada a sonoridade da Folia de Reis. Nessa paisagem as coisas pulsam e se relacionam quando as pessoas se afirmam, dando respostas pela música e pela dança, pelos versos e pelos cantos, pelos ritos e pelos sentidos. A antropologia e a etnomusicologia tornaram-se, metodologicamente, o caminho para análise dessa festa, buscando envolver a relação de elementos como a sonoridade (moldura sonora), os cantos e os instrumentos (música), as danças (corporalidade) e os sentimentos (religioso). O objetivo é compreender como foliões e objetos sonoros se comunicam no ato do fazer musical, uma vez que não tem nesse coletivo uma pessoa que faça o papel de regente. Focamos no acordeon de oito baixos e nas caixas, sendo esses instrumentos considerados pelos embaixadores como primeira guia e segunda guia, ambos tidos como referência mediadora forte no que se refere ao fazer musical. Outra metodologia significativa adotada foi o engajamento prático no aprendizado da técnica de confecção das caixas de folia. Uma aventura que nos permitiu sentir corporalmente o processo, os gestos e os movimentos de feitura da caixa ao mesmo tempo que descortinamos a construção da pessoa folião e artesão de caixas. Destacamos que para esse trabalho coletamos um amplo material em um gravador portátil Zoom H1 e uma câmara Canon de vídeo HD. A câmera e o gravador passaram a exercer a função de “caderno de anotações” com a vantagem de manter a característica fiel da performance. Todo o material em áudio visual, depois de ser revisitado por várias vezes, possibilitou compreendermos como acontece o processo relacional entre as coisas, as pessoas e o ambiente. Mesmo não estando nos objetivos da pesquisa, o registro em áudio visual permitiu a criação de dois mini documentários intitulados “Entre caixas e sanfonas” e “O artesão e folião”.
Apresentação Oral em GT

Hip Hop em Fortaleza: uma questão de identidade

Autor/es: Talita Brasil e Silva
Este trabalho aborda o processo de construção da identidade cultural do Movimento Hip Hop na cidade de Fortaleza, evidenciando quais são e como se constituem tais marcas identitárias. Para tal, adotei como referencial empírico três expressões do movimento local: o evento Planeta Hip Hop, o Movimento Hip Hop Organizado do Brasil - MH2O do Brasil, e o Movimento Hip Hop Nós por Nós. As incursões em campo, acompanhas de observação não participante e a realização de entrevistas semi-abertas, associadas às discussões no plano teórico, nos revelam que as expressões locais do Movimento Hip Hop em estudo resultam de uma dinâmica cultural compreendida pelo fenômeno de mundialização da cultura (ORTIZ, 2000), a aproximação entre diferentes manifestações culturais, das quais se formaram hibridismos (Hall, 2006); estes carregam marcas de seu espaço de origem e também de seus novos espaços de expressão. Por tanto, o Movimento Hip Hop em Fortaleza se constitui como híbrido, uma vez que carrega não só aspectos de seu espaço geográfico de origem – os Estados Unidos – como também marcas específicas das realidades sociais em que se inserem os sujeitos que em Fortaleza, são adeptos de tal expressão cultural. Conclui-se também que mesmo estando frequentemente associada à noção de cultura, a formação da identidade está diretamente ligada a um processo de vinculação que é necessariamente consciente; ao passo que a cultura pode existir sem que o indivíduo a incorpore conscientemente. Identidade cultural está estritamente ligada à ideia de identidade social; esta, por sua vez, remete à interação existente entre psicológico e social, resultante do contato do indivíduo com seu ambiente (CUCHE, 1987). Assim, os achados desta pesquisa revelaram que, a identidade cultural do Movimento Hip Hop em Fortaleza se constrói a partir da tentativa de fortalecimento das comunidades em que estão inseridos os jovens praticantes de tal expressão cultural; da valorização da cultura regional; nos combates às opressões, sejam elas relacionadas a classe, gênero ou etnia; pela resistências das juventudes, quando protagonizam a luta de seus tempos históricos; quando o Hip Hop, por meio de seus quatro elementos: rap, grafite, break e dj, se torna instrumento para proclamar a existência do “nós” historicamente invizibilizado frente ao “outro” que goza de privilégios, ou quando o Movimento que representa luta é o mesmo que lega aos jovens uma alternativa de lazer e ocupação dos espaços citadinos. Concluímos que a ideia de identidade cultural está antes ligada à identidade social, e que esta é resultante da interação entre indivíduo e espaços sociais em que se insere.
Apresentação Oral em GT

Cantos Diaspóricos: artes performativas e políticas da memória

Autor/es: Victor Uehara Kanashiro
Minha proposta nesta comunicação é apresentar reflexões em torno das artes performativas como forma insurgente de enunciação artístico-político-cultural. Para isso, baseio-me nos resultados de minha pesquisa de doutorado, defendida em 2015, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unicamp, sobre representações, (des)identificações e performances do Japão e de Okinawa no Brasil. Esta dimensão da investigação surgiu a partir de análises de livros, filmes e imagens, mas também de uma pesquisa artística realizada como parte integral do processo de doutoramento que teve como resultado a performance I AM EXODUS, apresentada no dia da defesa da tese. Okinawa é hoje a província mais ao sul do Japão. No entanto, durante mais de quatro séculos foi um reino semi-independente chamado Ryukyu, com línguas, culturas, músicas e danças próprias. Em 1879, o reino foi invadido e anexado ao Império Japonês e sofreu um intenso processo de colonização, que japonizou definitivamente vários aspectos de sua vida sociocultural. Algumas décadas depois, milhares de okinawanos atravessaram os mares para tentar a vida em lugares como Havaí, Estados Unidos, Filipinas, Argentina, Peru, Bolívia e Brasil, no que tem sido recentemente chamado de diáspora okinawana. Em 1945, Okinawa é invadida pelos EUA, no contexto da II Guerra Mundial, e perde um terço da sua população. De 1945 a 1972, o fica sob administração do exército dos EUA que instala bases militares por toda a ilha principal. Em 1972, volta a ser parte do território japonês, mas até hoje, cerca de 20% de seu território continua ocupado por bases militares norte-americanas. Apesar da história de Okinawa ser normalmente silenciada pelos discursos oficiais da história do Japão, imagens e visões de Ryukyu surgem a partir de cantos e danças da memória que seguem vivos entre os praticantes das “artes tradicionais” de Ryukyu no Brasil. Nesse sentido, nesta comunicação argumento, inspirado nos saberes insurgentes (queer, descoloniais) que a música e a dança, como artes performativas, têm o potencial de problematizar representações hegemônicas, complexificando os processos de identificação e performatização de identidades na sociedade contemporânea.
Apresentação Oral em GT

O MEU PATRIMÔNIO É A MINHA CULTURA: práticas sociais, ações coletivas e expressões culturais através do samba de cacete do Grupo Recordação Umarizal – Pará

Autor/es: Francisco Diego Uchoa De Andrade, Monica Prates Conrado
“É uma herança cultural nossa (do quilombo) [...] Quem dá a cadência é o cacete. Cada um tem um jeito de dançar. São 76 componentes. Homens, mulheres e crianças”. (Dona Jacinete, componente do Grupo Recordação) O Grupo Recordação é um dos mais tradicionais do samba de cacete. Essa denominação remete ao privilegiamento de sua identidade política-cultural em nome de sua memória ancestral que é, de geração a geração, coletivizada como manifestação sócio-cultural. O samba de cacete é tradicional no sudeste do Pará, em poucas comunidades quilombolas. Um de nossos objetivos é abordar o samba de cacete em sua dimensão política, como prática de sociabilidade e afirmação de identidade cultural por intermédio de entrevistas com mulheres e homens que participam ativamente de suas atividades que vão além de dançar o samba, “uma dança de frente pro outro", como disse D. Jacinete. Para isso, foram entrevistados: 3 (três) homens e 5 (cinco) mulheres entre 40 e 60 anos de idade, em um primeiro momento, que são a maioria do Grupo e se autodeclaravam “filhas/os da comunidade”. O interesse é explorar, numa perspectiva antropológica, as possibilidades oferecidas pela utilização de tradições orais – mediante testemunhos verbais que se referem aos acontecimentos passados, baseados nas ligações histórico-sócio-culturais que têm com a comunidade representada pelo samba de cacete, pelo Grupo Recordação que é marca identitária do lugar. Inerente à base produtiva da comunidade de Umarizal está à produção artística, o que significa dizer que se há uma linha que separa o lúdico do trabalho no roçado, essa é muito tênue e se enredam em suas atividades e na lida pela sua sobrevivência diária. [...] Nossa tradição veio junto com os escravos [...] não é uma coisa que nós criamos, já veio com eles, aí então continuamos, depois nós montamos o grupo, né; nos organizar pra não deixar morrer nossa cultura, porque é nossa, nós não pegamo emprestado, é nossa, né! (Dona Jacinete, membro do Grupo Recordação). As músicas, muitas das vezes, são compostas no próprio roçado ou na lida diária das atividades da comunidade predominantemente realizadas por mulheres. Seu Doriedson singulariza o Grupo Recordação ao mencionar que é “A minha vida, a minha continuidade dos meus ancestrais, a continuação da nossa história”. Referência: GILROY, Paul. O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência. São Paulo: Editora 34, 2001.
Pôster em GT

Práticas artístico-culturais e os modos de fazer dos/as jovens da comunidade de Santiago do Iguape.

Autor/es: Gabriel Almeida do Valle, Adriana Miranda Pimentel
O trabalho apresenta resultados da pesquisa intitulada Juventudes e Sustentabilidade na Reserva Extrativista do Iguape voltada aos/às jovens que realizam práticas artísticas associadas ao uso dos recursos naturais e culturais locais. Diferentes estratégias e técnicas de investigação, de distintos campos de conhecimento têm sido pensadas e articuladas na pesquisa. Este trabalho apresenta uma parte da pesquisa que se realiza especificamente na comunidade de Santiago do Iguape. A Reserva Extrativista Marinha da Baía do Iguape (Resex do Iguape) localiza-se nas proximidades de Salvador, no Recôncavo Baiano, entre os municípios de Maragogipe, Cachoeira, São Felix e Saubara; no seu entorno encontram-se cerca de 30 comunidades tradicionais – a maioria autointitulada como quilombola - que utilizam os recursos naturais desse espaço para sua subsistência, sendo as principais atividades econômicas da região a pesca, a coleta de mariscos e a pequena agricultura. A pesquisa, de cunho etnográfico, tem acompanhado sistematicamente uma série de práticas propostas por quatro grupos/coletivos culturais da comunidade: Os Bantos, Grupo de Samba de Roda Juventude do Iguape, Grupo Cultural Raízes do Iguape e o Grupo de Capoeira Quilombo do Iguape. A experiência na pesquisa, ainda em curso, tem possibilitado importantes resultados, através de: levantamento sobre recursos naturais locais existentes quanto aos aspectos econômicos, ambientais, políticos e culturais; a identificação de interlocutores/as-chave; mapeamento das principais práticas artístico-culturais; caracterização de grupos e coletivos de jovens atuantes na comunidade; registros fotográficos; elaboração de croquis das localidades e lugares, e intertextualização com outros trabalhos acadêmicos. Seja através do ijexá e do samba de roda, ensinados aos/às mais jovens através da sabedoria e da tradição oral dos “mestres” locais, a história da comunidade contada pelo viés da dança através das quadrilhas juninas, ou pelas rodas de capoeira que se espalham pelos quilombos da região, Santiago do Iguape revela através das práticas artístico-culturais juvenis, importantes processos de manutenção e renovação de seus aspectos simbólicos, numa relação intensa com o ambiente ao qual pertencem, ao mesmo tempo em que ressignificam e apropriam-se de bens culturais globais, numa relação de consumo-produção que ressalta e renova identidades, bem como reafirma o teor político dos modos de fazer da juventude local.
Pôster em GT

Conexão Amazônia-Jamaica: Hibridismo, autenticidade e memória no Breggae, em Belém do Pará

Autor/es: Victória Ester Tavares da Costa, Enderson Geraldo de Souza Oliveira
A música é uma das mais características linguagens artísticas de Belém do Pará. Bem além dos ritmos e estilos considerados massivos na região – como Brega e Tecnobrega, por exemplo –, há inúmeros outros gêneros, experimentações e diálogos na produção contemporânea. Atentos a este panorama, neste ensaio destacamos o álbum Breggae (2013), do músico Juca Culatra, um dos exemplos de apropriação e diálogos de gêneros musicais da região com outros internacionais. Fruto da observação do músico sobre o consumo do reggae nas casas de shows em Belém e no interior, principalmente aos fins de semana, o CD faz uma conexão entre os sons “de” Belém e “da” Jamaica, com regravações de bregas paraenses “clássicos” como "Ao pôr do sol", de Teddy Max e "Minha amiga", de Mauro Cotta com ritmos característicos da ilha caribenha. O projeto inicial visava ainda mais dois álbuns: um que fundia Dub e Carimbó e outro que reuniria Ska e Brega, com o nome de Skregga, reforçando então esta conexão apresentada através da música. A partir deste contexto musical paraense contemporâneo, observamos não somente mesclas (CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas y Estrategias Comunicacionales. Universidad de Colima: México, 1997) em relação aos seus ritmos e musicalidades, mas também observar processos mais amplos, como do hibridismo cultural e identitário (HANNERZ, Ulf. Fluxos, fronteiras, híbridos: palavras-chave da antropologia transnacional. Mana. Rio de Janeiro, 2009). Neste ensaio também discutimos e interseccionamos duas categorias; notadamente cenas, em especial as musicais (conforme Will Straw em Systems of articulation, logics of change: communities and scenes in popular music, 1991; Scenes and Sensibilities, 2006), e circuitos culturais (seguindo José Guilherme Magnani em Quando o campo é a cidade: fazendo antropologia na metrópole, 2000). A música, então, enquanto produção artística, comunicaria não somente alterações estéticas, mas também possibilitaria compreensões mais amplas, como maior diálogo de possibilidades culturais, relações identitárias e novas práticas de consumo. Neste panorama, não há a possibilidade de estagnação nos materiais culturais, porque eles estão sendo constantemente gerados à medida que são induzidos a partir das experiências das pessoas. Logo, não devemos pensar nestes comente como tradições fixas, mas sim como processos que estão relacionados aos fluxos dos sujeitos que os consomem e utilizam (BARTH, Fredrik. O Guru, o Iniciador e Outras Variações Antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2000). Característica esta que possibilita as trocas e produções de cada época e localidade, como o Breggae, que busca articular e mesmo ressignificar a produção musical paraense com a jamaicana.
Pôster em GT