Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT042. Migrações Internacionais contemporâneas: análises, debates e conjunturas

Dando continuidade aos debates desenvolvidos nesse GT desde 2006, pretendemos discutir como as migrações e deslocamentos internacionais ganharam nos últimos tempos uma relevância e urgência significativas que refletem a complexidade dos conflitos de várias naturezas presentes na crescente mobilidade humana no contexto na ordem político-econômica hegemônica vigente e, em especial, os deslocamentos das pessoas que cada vez mais buscam na migração (com maior ou menor grau de escolha e/ou de protagonismo) um caminho para seus projetos de trabalho e de vida em melhores condições do que têm na sua região ou país de origem. A proposta deste GT é acolher trabalhos que busquem analisar os processos e políticas migratórias; compreender os parâmetros para a integração social dos migrantes, entender as interações cotidianas e as lógicas classificatórias que são acionadas em função dos processos migratórios internacionais e das novas configurações societárias contemporâneas. Acreditamos que esse GT tem condições de acentuar a troca de metodologias e experiências de pesquisa nos estudos migratórios, promovendo um aprofundamento em relação às abordagens habituais e acrescentando novas possibilidades para o enfoque antropológico da questão.

Igor José de Renó Machado (UFSCar)
(Coordenador/a)
Miriam de Oliveira Santos (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)
(Coordenador/a)


Cooperação Solidária: A presença de estudantes da África Lusófona no Brasil

Autor/es: Carlos Subuhana, Iadira Antonio Impanta - Bacharel em Humanidades e estudante de Sociologia (Terminalidade) - UNILAB.
O objeto de estudo do trabalho aqui apresentado é a presença de estudantes oriundos de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa – PALOP, no Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo e Redenção/CE), com o objetivo de estudar uma experiência de imigração temporária. A proposta tem sido fazer um mapeamento das trajetórias dessa população que está a fazer seus estudos universitários, em nível de graduação ou pós-graduação. Adicionalmente, temos investigado a experiência social e cultural desses estudantes. Hoje os estudantes africanos, tanto os Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G) quanto os Estudantes-Convênio de Pós-graduação (PEC-PG) e do Projeto UNILAB, entram no Brasil para realizarem seus estudos através de acordos de cooperação, assinados entre o Brasil e os governos africanos, nas áreas de educação e cultura. As pesquisas têm nos indicado que os projetos destes interlocutores estão mais atrelados à família, embora alguns cheguem a afirmar que suas trajetórias e seus projetos de vida sejam individuais. Para muitos desses estudantes, a família constitui o núcleo central e fonte de equilíbrio. É importante frisar que nas tradições culturais africanas, de origem bantu, a idéia de coletividade é muito presente. Ao escolher um país para prosseguir os estudos, o Brasil acaba apresentando vantagens por causa dos laços de amizade que unem o Brasil com os PALOP com ênfase em suas especificidades históricas, sociais, econômicas, educacionais e culturais. O “preconceito de cor” e/ou “preconceito racial” é apontado como a principal causa do mal-estar de um número considerável desses estrangeiros, nossos interlocutores, em terras brasileiras. Há que reconhecer que os brancos, alguns mestiços e poucos negros afirmam que não se sentem discriminados por causa do “tom de pele. São vários os ambientes sociais - como em prédios residenciais, ônibus, supermercados, restaurantes, em festas, dentro da universidade, entre outros – que obrigam esses estudantes a refletirem sobre a sua condição de “preto”. Para além do compromisso diplomático assumido, que é de “retornar a seu país de origem em período não superior a três meses” (Protocolo, seção X, Cláusula 23) após o término dos estudos, quase todos manifestam o interesse de regressar para contribuir para o progresso de seus países, trabalhando ou dando aulas, e formar família. Os nossos interlocutores imaginam poder dar o máximo de si e esperam ter um “enquadramento” que lhes facilite “transmitir” os conhecimentos adquiridos no Brasil.
Apresentação Oral em GT

De Beijing à California: rotas universitárias na circulação de estudantes chineses

Autor/es: Cristina Patriota de Moura
A comunicação é uma análise preliminar de material obtido em estágio sênior pós-doutoral na Universidade da Califórnia e Davis, com período de pesquisa de campo em Beijing. Trata de pensar a transnacionalização do ensino superior e a participação de estudantes chineses nesse processo. Há uma profusão de estudos que focam em diferentes gerações de migrantes chineses. Não obstante, os estudos têm se concentrado em trabalhadores pouco qualificados ou comerciantes e suas redes de relações. A China é, atualmente, o país que mais envia estudantes estrangeiros às universidades dos Estados Unidos e de outros países como Japão, Austrália, Inglaterra e Irlanda (cf. Fong, 2011; Kipniss, 2011). Concomitante ao enorme fluxo de chineses pelo mundo, discursos oficiais do Partido Comunista Chinês veiculam chamados para a realização do “grande sonho” de renovação da China, mobilizando sujeitos que se configuram ao formularem projetos em nível biográfico e que nem sempre se conformam aos limites da cidadania chinesa. As reflexões a serem apresentadas foram formuladas a partir do contato com estudantes universitários provenientes da República Popular da China na Universidade da Califórnia em Davis , em pesquisa que incluiu entrevistas realizadas com 41 estudantes em nível de graduação e pós-graduação.
Apresentação Oral em GT

Morar em um lugar, viver em outro: a mobilidade haitiana vista a partir de suas casas.

Autor/es: Flávia Freire Dalmaso
O presente artigo procura refletir sobre a construção da familiaridade e a circulação de pessoas e objetos entre haitianos com os quais convivi principalmente entre os anos de 2011 e 2012 na cidade de Jacmel, capital do departamento Sudeste do Haiti, onde realizo pesquisa de campo desde 2008. Ele está baseado em questões discutidas ao longo do primeiro capítulo da minha tese de doutorado , assim como em observações mais recentes possibilitadas pela chegada, em São Paulo, de pessoas que pertencem às famílias com as quais eu morei enquanto estava no Haiti no período referido acima e também em fevereiro deste ano. O objetivo do trabalho é analisar dois aspectos centrais para a compreensão da conjuntura atual de mobilidade dessa população, isto é: as dinâmicas da produção da familiaridade e sua relação com as concepções de casa e moradia. Tendo em vista que se trata de famílias que historicamente se engajam em constantes deslocamentos interessam as seguintes perguntas: Como se inserem estes deslocamentos na perspectiva mais ampla das mobilidades haitianas, inclusive para o Brasil? Quais relações emergem quando se fala em família? Se as pessoas circulam, o que mais circula para além das tão citadas remessas em dinheiro? Quais as lógicas em jogo quando são feitas as escolhas de quem deve partir (do Haiti ou de outro país) e quem deve ficar? O que é uma casa para os agentes em questão? Quais sentimentos e ideias são mobilizados a partir deste conceito? Como se utiliza o espaço da casa? E, por fim, como se constrói a relação entre as casas localizadas em Jacmel (de onde parte o meu ponto de vista) e aquelas habitadas por famílias haitianas em outros lugares? Considerando essas questões o artigo pretende percorrer três eixos centrais de investigação empírica que organizam as discussões aqui propostas: 1 – a mobilidade das pessoas; 2 – a construção da proximidade e da intimidade em um universo tradicionalmente marcado por uma acentuada circulação de pessoas, dinheiro, objetos e alimentos; e 3 – as relações entre as casas e as dinâmicas da economia popular.
Apresentação Oral em GT

Gênero, afetos e trânsitos contemporâneos de mulheres brasileiras emigrantes no século XXI

Autor/es: Gláucia de Oliveira Assis
Nesse início de século XXI a ampliação do fluxo de brasileiros/as rumo ao estrangeiro tem colocado novas questões para aqueles que vivenciam a experiência de viver entre o Brasil e os vários locais de destino no exterior. Desde o início dos anos 2000, tem se observado uma intensificação do fluxo de brasileiros/as rumo a Europa notadamente Portugal, Italia e Inglaterra. Muitos desses emigrantes são descendentes dos imigrantes que chegaram ao Brasil no final do século XIX e que “retornam” a Europa em busca da cidadania, outros “com a cara e a coragem” migram em busca de uma vida melhor. Este artigo busca reconstruir as trajetórias de homens e mulheres rumo a Europa, centrando-se nas trajetórias das mulheres, uma vez que há um crescimento significativo da inserção de mulheres nesses movimentos. No caso das mulheres brasileiras, estudos tem procurado compreender como raça e nacionalidade operam com os marcadores de gênero e sexualidade construindo representações sobre “a mulher brasileira”. Tais marcadores exotizam e ressaltam a sexualidade e, ao mesmo tempo que produzem discriminação e preconceito, também geram modos de inserção tanto no mercado de trabalho quanto no universo dos afetos. A partir de pesquisa de campo realizada de maneira multisituada em Lisboa, Londres e algumas cidades na Itália, nos anos de 2014-2015, a partir de observação participante e de relatos orais desses/as emigrantes, busca-se evidenciar como as mulheres, através migração internacional, tecem estratégias de escapar da pobreza e da exclusão social, mas não apenas isso, têm demonstrado também que a migração se configura como uma estratégia de expandir horizontes de “melhorar de vida” de ter outras experiências de consumo, de inserção na vida das grandes cidades, viver amores e relacionamentos transnacionais. Desta forma, ao reconstruir essas trajetórias pretendemos contribuir para uma análise dos fluxos contemporâneos num diálogo com os referenciais teóricos do transnaciolismo, articulado a uma discussão dos afetos e dos estudos das relações de gênero.
Apresentação Oral em GT

“Em África a mulher faz tudo, mas aqui é o Brasil”: gênero e outras categorias de diferenciação nos deslocamentos de pessoas refugiadas para a cidade de São Paulo

Autor/es: Jullyane Carvalho Ribeiro
A linguagem da “crise”, “problema” ou “emergência” vem sendo utilizada em diversas escalas para descrever as mobilidades de refugiados e imigrantes, caracterizando-os, por vezes, como uma ameaça aos países receptores ou ainda como populações a serem geridas pelo aparato humanitário. São deslocamentos que motivam atores e agências, com interesses e atuações distintas, além de ensejarem o enquadramento dessas mobilidades em determinadas categorias de gerenciamento. A partir de etnografia realizada em eventos e reuniões organizados pelas instituições humanitárias e outros atores envolvidos com a temática do refúgio na cidade de São Paulo, entre 2015 e 2016, discutirei neste trabalho como gênero, em articulação com outras categorias de diferenciação, está sendo acionado e significado pelos sujeitos envolvidos com o gerenciamento do refúgio e pelas pessoas refugiadas. Tais eventos são locais privilegiados de discussão, em que são negociados os processos de articulação da diferença por “nacionais” e “estrangeiros”, assim como entre os próprios migrantes. Nesses espaços, as distinções são resignificadas pelos indivíduos em trânsito e utilizadas em suas negociações em termos de direitos e cidadania, em um processo em que também as fronteiras, entendidas como margens dinâmicas, que se multiplicam e deslocam, são constantemente renegociadas. Considero aqui que tais fronteiras são estabelecidas em relação às modalidades de mobilidade, nacionalidade, raça e gênero, acionando também oposições como refugiado/migrante econômico; documentado/indocumentado; mulher africana/mulher brasileira; tradicional/moderna. Desta forma, considero que a fronteira ocupa um lugar importante em suas experiências, por acionar classificações e oposições que ultrapassam as relações geográficas e informam também as relações sociais, reinterpretadas pelas pessoas refugiadas a partir das novas interações no local de destino. Para fins de análise, utilizarei o auxílio da perspectiva teórica dos estudos transnacionais, em diálogo com os estudos de gênero e interseccionais, os quais fornecem um aporte teórico interessante por considerar a articulação entre categorias de diferenciação no contexto dos deslocamentos contemporâneos.
Apresentação Oral em GT

Imigrantes haitianos(as) no Rio Grande do Sul: considerações sobre suas experiências migratórias

Autor/es: Larissa Cykman de Paula
Neste trabalho abordo os processos migratórios de haitianos(as) que chegam à cidade de Porto Alegre, RS, Brasil, desde 2012 e que moram nas proximidades da Vila Esperança Cordeiro, localizada na Zona Norte da cidade e os motivos para migrar. Para além dos motivos econômicos que impulsionam os processos migratórios, questiono sobre a possibilidade de pensar no fluxo migratório como uma forma de resistência, questionando como esta resistência pode estar relacionada à luta por direitos humanos tanto na sua inserção no Brasil como na relação mantida com o Haiti. A partir do olhar voltado para a experiência destes migrantes o objetivo é compreender como ocorre a inserção destes na comunidade local, destacando aspectos referentes à moradia, ao aprendizado da língua portuguesa, ao acesso a trabalho e saúde, além do enfrentamento da xenofobia e racismo. Como parte do campo empírico, acompanho e participo desde 2014 das oficinas desenvolvidas pelo Grupo de Assessoria a Imigrantes e a Refugiados – GAIRE/SAJU – UFRGS, que objetiva empoderar os imigrantes para sua inserção na sociedade brasileira e garantia de direitos. Com base neste contato inicial com o campo e da etnografia em andamento na Vila Esperança Cordeiro, busco compreender a inserção destes imigrantes no Bairro e a relação destes com as redes nas quais estão inseridos (relação entre migrantes, brasileiros, instituições públicas e filantrópicas). Estas redes são destacadas a partir da compreensão de que o fortalecimento destas pode ser pensado como um apoio para a inserção local e para o questionamento de formas de reivindicação e manutenção de direitos e da dignidade humana (JARDIM, 2013). Neste trabalho, abordo como a etnografia que está sendo desenvolvida entre os anos de 2014 a 2016 se relaciona com a antropologia da experiência (DAS E KLEINMAN, 2001), na medida em que destaco a importância das narrativas e vivências dos(as) imigrantes haitianos(as) bem como questões referentes ao sofrimento social e experiências silenciadas no contexto haitiano pós-terremoto, problematizado como um evento crítico (DAS, 1999); além da problematização da agência como uma forma de resistência e do questionamento do meu papel e consecutivo engajamento enquanto antropóloga. De forma mais específica busco também compreender a experiência das mulheres haitianas e, a partir de suas vozes, compreender as especificidades e dificuldades enfrentadas por estas mulheres na inserção local e na relação mantida com o Haiti.
Apresentação Oral em GT

Estratégias e Percursos de Mobilidade da Empregada Doméstica Brasileira como Trabalhadora Estrangeira em Portugal

Autor/es: Marcelo José Oliveira
Estima-se que dos 200 milhões de migrantes estrangeiros no mundo as mulheres compõem praticamente a metade deste dado, engrossando as estatísticas relacionadas à mão-de-obra estrangeira. Neste contexto pesquisas apontam que a empregada doméstica brasileira vem há poucas décadas surgindo nas estatísticas sobre emigrantes brasileiros em direção a Europa, protagonizando peculiaridades que implicam em perspectivas profissionais concretas. Em 2009, integrando projeto de pesquisa de parceria binacional (com fomento CAPES), realizamos (in loco) levantamento bibliográfico e documental em língua espanhola (open acces), e constatamos a presença brasileira ocupando postos de trabalho nos setores da construção civil, hotelaria, restaurantes e serviços domésticos. Neste último segmento a empregada doméstica brasileira também disputava espaços de trabalho. Em 2014, com apoio CNPq, desenvolvemos estudo etnográfico em Portugal centrados na presença da trabalhadora brasileira no setor de serviços domésticos, tendo como foco os seguintes aspectos: o impacto das recentes mudanças econômicas e políticas em Portugal sobre o projeto de permanência desta trabalhadoras neste país; as perspectivas da mesma com relação à temporalidade da permanência no país estrangeiro e os riscos que se submetem no tocante a clandestinidade; as lógicas de conexões de sua mobilidade no roteiro Brasil-Portugal; os arranjos e estratégias acionados em torno dos recursos materiais e simbólicos que colocam estas trabalhadoras como protagonistas de um estilo de vida sustentável, conferindo-lhe status privilegiado, realocando-a noutra relação de empoderamento em seu círculo social no Brasil. Percebemos que estas trabalhadoras apostam em um projeto profissional possível, mesmo que muitas delas corram os riscos da vulnerabilidade social e, sobretudo, de sujeição ao trabalho precário pela própria condição de clandestinidade “temporária”. Para além da condição de discriminação por ser trabalhadora estrangeira no país de destino, o empreendimento toma outras dimensões de agência: a de protagonismo no papel de principal provedora de família no país de origem e no país de destino; de reconfiguração dos papéis que consubstanciam a noção de “lar” em trânsito internacional; e de estratégias necessárias para permanência clandestina temporária no país estrangeiro. A presente comunicação aborda aspectos deste projeto internacional de carreira profissional, o problematizando em função do atual contexto de política de imigração de mão-de-obra estrangeira em Portugal.
Apresentação Oral em GT

O impacto de politicas agrarias em processos migratório: O caso do deslocamento de brasileiros ao Paraguai e retorno ao Brasil

Autor/es: Marcos Estrada
Meu trabalho analisa processos de deslocamento internacional resultantes de políticas agrárias e desenvolvimento não apresentadas como políticas migratórias. Em específico, faço uma abordagem em três dimensões: teórica, metodológica e empírica dos processos migratórios de brasileiros que emigraram para o Paraguai, especialmente entre as décadas de 60 e 80, e, mais recentemente, o retorno de parte desse grupo ao Brasil. Por meio da minha pesquisa multi-situada, apresento a experiência de acampados no ‘acampamento dos Brasiguaios’ em Itaquiraí-MS, que após não conseguirem estabelecer-se como agricultores em ambos países, agora fazer parte do Movimento Brasileiro dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Muitos desses acampados estabeleceram raízes no Paraguai sem considerar um possível retorno ao Brasil. No entanto, esse grupo retornou ao Brasil onde, ao menos teoricamente, têm seus direitos atendidos e respeitados, os quais são supostamente garantidos pela Constituição Brasileira. Devido sua relevância e urgência, pesquisei esse grupo utilizando uma ‘metodologia do cotidiano’ enfocada nas práticas cotidianas e exercício da cidadania. Demonstro que o estudo de processos migratórios vai além do nacionalismo metodológico, muitas vezes apresentados como limitativos. Por meio desse processo migratório ‘sul-sul’ entre Brasil-Paraguai-Brasil, faço uma contribuição aos estudos migratórios e, ao mesmo tempo, para o debate sobre as múltiplas oportunidades.
Apresentação Oral em GT

Jovens senegaleses em cidades de porte médio do Rio Grande do Sul: projeto migratório e obrigações familiares

Autor/es: Maria Clara Mocellin
O início do século XXI é marcado pelo retorno dos fluxos migratórios internacionais para o Brasil. A partir de 2012 observa-se uma nova nacionalidade nesses fluxos, os senegaleses. O Rio Grande do Sul está entre os principais estados da Federação que, nos últimos anos, mais receberam imigrantes internacionais. Em relação aos senegaleses, entre as cidades gaúchas que mais atraíram tal fluxo estão Caxias do Sul, Passo Fundo, Porto Alegre e Rio Grande. Esse dado pode ser constatado pelas associações de senegaleses que foram criadas nessas cidades. Algumas pesquisas recentes com senegaleses no Rio Grande do Sul demonstram tratar-se de uma migração laboral, em sua maioria masculina e de jovens entre 25 a 35 anos. Partindo de uma pesquisa qualitativa com jovens senegaleses em cidades de porte médio do Rio Grande do Sul, investigamos os deslocamentos desses jovens entre diferentes cidades e sua mobilidade ocupacional como estratégias de um projeto migratório familiar. Tal projeto não tem a intenção de permanência por muito tempo no Brasil, mas sim o tempo necessário para cumprir com as obrigações familiares de sustento e manutenção da família no Senegal, bem como para acumular algum recurso para melhorar de vida no país de origem.
Apresentação Oral em GT

O direito de voto dos estrangeiros no Brasil: um olhar antropológico sobre os debates relativos ao PEC 25/2012

Autor/es: Marine Lila Corde
Essa contribuição às discussões do GT 42 “Migrações Internacionais contemporâneas: análise, debates e conjunturas” oferece debruçar-se sobrevisa apresentar e problematizar os debates que envolvem a Proposta de Emenda à Constituição nº 25 de 2012 (PEC 25/2012), em discussão no Senado Federal brasileiro desde o dia 15 de fevereiro de 2012, e que propõe conceder o direito de voto nas eleições municipais e candidatura a vereador para estrangeiros com residência permanente no país, legalmente domiciliados no Brasil há mais de cinco anos. A minha proposta é analisar as implicações da elaboração de um projeto legislativo que concede aos estrangeiros direitos cívicos até então exclusivos dos cidadãos nacionais brasileiros (e dos cidadãos portugueses por acordos internacionais bem específicos). Mais precisamente, me detenho fato de que a PEC 25/2012 levanta questionamentos fundamentais (de uma escala inédita no Brasil) sobre a nacionalidade (jurídica) como pressuposto da cidadania política e a exclusão dos estrangeiros da esfera política nacional. Para tal, problematizo a aparição da noção de “cidadão estrangeiro” ao lado da de “cidadão nacional” a partir de um olhar antropológico (Antropologia do Direito, Antropologia do Estado, Antropologia da Nação e Antropologia da Imigração.) Numa primeira parte, apresentarei os termos da PEC 25/2012, as retóricas que justificam a sua legalidade e legitimidade e as discussões (entre os pros e os contra) que acompanham seu trâmite no Congresso Nacional. Na segunda parte, analisarei os debates acerca da PEC 25/2012 do ponto de vista da Antropologia do Estado e da Antropologia da Imigração. Partindo das reflexões de Sayad (1984, 1999, 2006, 2014) segundo as quais os imigrantes são obrigados a se manter fora da vida política do país de recepção como sinal de civilidade, de cortesia e de respeito que os imigrantes devem demonstrar a respeito da sociedade nacional que "lhes acolheu", refletirei sobre os avanços e os limites de uma proposta legislativa que reconceituaria a presença e a participação dos estrangeiros (presença e participação “heréticas” da ordem nacional, segundo os termos de Sayad) dentro do espaço público cívico nacional brasileiro. Na terceira e última parte, partindo da perspectiva da Antropologia da Nação, defenderei que por trás dos debates sobre a PEC 25/2012, podemos ver que é toda uma imagem da nação brasileira (um povo brasileiro multicultural acolhedor e aberto a todos) e do seu lugar na geopolítica mundial (um país pacífico e exemplar, na frente dos movimentos de reformas democráticas mundiais) que está sendo negociada.
Apresentação Oral em GT

República: Uma centralidade africana em Sao Paulo

Autor/es: Régis Minvielle
As novas migrações africanas na América Latina fazem parte de um proceso de reconfiguração global do fenómeno migratório. Os procedimentos de controle de migrantes cada mais complexo nos países do norte global e o proceso de globalização no países do sulestão gerandocada vez mais a diversificação nos destinos. o Brasil também se tornou um novo polo de atração não apenas para os investidores de todos os tipos, mas também para migrantes Depois de evocar de forma sucinta o contexto geopolítico do fenômeno migratório, essencial para a compreensão da nova migração transatlântica Sul-Sul, o objetivo desta apresentação é observar na maneira em como a minoria africana se apropria do espaço urbano e, especialmente, do bairro central da República, na cidade de São Paulo. A descrição etnográfica do “teatro urbano” produzida pela observação dos africanos na República nos permite ainda abrir linhas de pensamento sobre suas reais contribuições para a cidade e sobre a sua experiência no tecido urbano, tanto em termos de culturas e representações subjetivas quanto em termos de mercado. Estas instalações em territórios que são ao mesmo tempo lugares de passagem, trabalho e habitação impulsionam o surgimento de verdadeiras "centralidades menores" (Raulin, 2000), através de um notória « fixação comercial ». Esta noção de centralidade abrange não apenas uma função para os imigrantes, mais revelam também uma coabitação densa e cosmopolita. Isto é, muitas vezes o conceito abrange um segmento de negócio com forte atração, um espaço de habitação para os estrangeiros, e também um bairro que cumpre outras funções econômicas.
Apresentação Oral em GT

Quem é da família? Refletindo sobre relações familiares transnacionais em contextos de mobilidade.

Autor/es: Sandro Martins de Almeida Santos, Iana dos Santos Vasconcelos
A presente proposta traz como referencial etnográfico e teórico o cruzamento de duas experiências de pesquisa envolvendo distintos fenômenos migratórios em contexto transnacional. As famílias, nestes cenários, tornam-se projetos constantemente construídos e reavaliados, atualizando práticas diferentes de proximidade e distância entre “pessoas consideradas da família”. Assim, o primeiro referencial etnográfico apresenta a concepção de “família” e as relações de parentesco desenvolvidas entre viajantes de trinta e seis nacionalidades radicados(as) em Alto Paraíso de Goiás, Brasil. O segundo, as relações familiares transnacionais estabelecidas por brasileiros(as) na fronteira entre Brasil e Venezuela, no fluxo entre Pacaraima - RR e a vizinha Santa Elena de Uairén. Pode-se dizer que pessoas se colocam em movimento atendendo alguma transformação ou necessidade de transformação. Alguns buscam ouro, trabalho, sobrevivência nos garimpos da Venezuela; enquanto que outros procuram bem-estar espiritual, afirmação de um estilo de vida “alternativo” e afetividade em cidades do interior do Brasil. Foi preciso encontrar um princípio de simetria para comparar e compreender as diferentes condições de vida migrante. Temos uma busca de melhoria das condições de vida material (no caso do garimpo/ trabalho transfronteiriço) e também uma busca de melhoria das condições de vida espiritual (no caso dos místicos). Um caso clássico de “migrante econômico” e um caso contracultural de migração de “desviantes”. A chave para encontrar uma equivocação entre os dois contextos e que norteia o artigo é a experiência de “família” que, apesar das discrepâncias, se mostra esclarecedora de determinadas recorrências no tocante ao estudo das migrações humanas. Neste sentido, a “família” é tratada enquanto um sentimento compartilhado, presente entre os migrantes em ambos os ambientes, levando em consideração as continuidades e mudanças nas relações de parentesco em contexto de mobilidade. À luz das ferramentas analíticas dos novos estudos de parentesco no campo da Antropologia discutimos a relação entre as experiências de “família” e a mobilidade, entendida como fator que influencia na fabricação dos novos vínculos afetivos mediados por convenções dos lugares de origem e reorganizadas nos lugares de trânsito/residência. Apresentamos, por fim, como as transformações que caracterizam os processos migratórios analisados – de um lado, as oportunidades de trabalho, e de outro, a mudança de estilo de vida – concorrem na diferenciação entre quem faz e quem não faz parte da “família”.
Apresentação Oral em GT

“Como tá o alemão?” Experiências conjugais de migrantes brasileiras casadas com alemães

Autor/es: Thais Henriques Tiriba
“Como tá o alemão?” Perguntam umas às outras com frequência quando se encontram. Sorriem entendendo a brincadeira e respondem: “o marido vai bem, já o idioma...”. Neste artigo, apresento análises formuladas a partir dos dados de pesquisa de campo realizada em Berlim junto a um grupo de migrantes brasileiras vivendo na Alemanha com seus companheiros alemães. Este trabalho é parte de minha pesquisa de mestrado que explora os valores atribuídos a relacionamentos entre homens alemães e mulheres brasileiras, principalmente aqueles estabelecidos através de sites de relacionamento. Analiso as dinâmicas sociais e históricas e que viabilizam a tendência de homens do chamado primeiro mundo e mulheres do chamado terceiro mundo se utilizarem desse método de contrair matrimônio e entenderem tal arranjo conjugal como desejável. Considerando as interfaces entre processos globais e locais num contexto no qual normas homogâmicas e “homocromáticas” vêm sendo quebradas nos arranjos matrimoniais transnacionais, investigo também as motivações pessoais dos indivíduos que fazem uso dessa forma de se buscar um parceiro compatível, questionando como relações mais amplas relativas a desigualdades de poder, gênero, raça e nacionalidade seriam negociadas na intimidade dos casais, problematizando as representações vitimizadoras que não sem frequência recaem sobre mulheres do terceiro mundo que se relacionam ou buscam se relacionar com homens do norte global pela internet. Apesar de se tratar de um grupo heterogêneo, a mudança para Berlim cria entre essas migrantes brasileiras imediatas e circunstanciais semelhanças baseadas tanto a um pertencimento a uma nacionalidade quanto ao matrimônio com um homem alemão. Narrativas de solidão, frustações em relação à burocracia e ao idioma, ambos tidos como difíceis de acessar, dificuldades conjugais e familiares, rotinas de beleza e de trabalho são partilhadas em um ambiente que promove sobretudo solidariedade e reafirmação. Entretanto, os marcadores sociais da diferença – nesse caso, raça, classe, geração – que recaem sobre as agentes, também informam suas trajetórias e diferentes experiências no exterior.
Apresentação Oral em GT

Para além do conhecido. Visões e decepções de africanos recém-chegados no Rio de Janeiro

Autor/es: Tilmann Heil
“Eu não poderia ter imaginado tudo o que eu iria viver [durante a migração e no Rio de Janeiro]”, diz Seydi Ngome pensativamente, sentado num conjugado em Copacabana que ele compartilha com três outros camelôs do Senegal. Apesar da crise econômica no Brasil, a migração do Senegal ao Brasil está crescendo – resultando nos imigrantes viverem grandes decepções a respeito das esperanças pessoais e das promessas dos agentes que organizam essa migração cada vez mais difícil via Europa, Equador, Peru e Bolívia em grande parte. Ao mesmo tempo, os meus interlocutores africanos desenvolvem visões da sociedade brasileira, baseando elas nas experiências quotidianas na praia vendendo, na rua passando, e no condomínio ou na favela vivendo. Tanto as decepções quanto as novas visões vão para além dos conhecimentos que eles tiveram antes de chegar no Brasil. Além disso, essa perspectiva aporta novas conhecimentos das hierarquias sociais e a diversificação cultural no Brasil. Esse artigo analisa como as visões e decepções dos africanos recém-chegados no Rio de Janeiro interatuam nas vidas deles duma forma que crê uma realidade única nas redes transnacionais que agora cada vez mais incluem o território brasileiro. Ao mesmo tempo essa interação das visões e decepções permite questionar tanto os parâmetros supostamente conhecidos da integração social dos recém-chegados como as novas configurações sociais e culturais dos espaços urbanos brasileiros. Tendo em conta que os Africanos recém-chegados contextualizam suas experiências locais num transnacionalismo vivido, esse trabalho está focado no espaço brasileiro. Tanto nos comentários sobre a vida quotidiana no Rio de Janeiro, como nas práticas de exploração dos meus interlocutores a minha análise procura entender melhor as trajetórias desiguais e interseções diversificadas e hierarquizadas dos moradores do Rio de Janeiro. As áreas relevantes de discussão vão de gênero até religião, ou de educação básica até desenvolvimento econômico, entre outros. As perspectivas dos moradores africanos recém-chegados oferecem uma perspectiva pouco conhecida que vai enriquecer as análises da vida urbana social do Rio de Janeiro. O material dessa pesquisa foi adquirido durante 14 meses de campo etnográfico no Rio de Janeiro entre 2014 e 2016 com populações recém-chegados tanto da África ocidental quanto da Europa do Sul. O camelô senegalês na base desse artigo só constitui um perfil social dos africanos, entre vários outros mais privilegiados.
Apresentação Oral em GT

Refúgio e orientação sexual: uma intersecção invisibilizada

Autor/es: Vítor Lopes Andrade
O número de refugiados e solicitantes de refúgio no Brasil aumentou exponencialmente nos últimos anos. De 2010 a 2013 houve um incremento de 930% nas solicitações de refúgio (ACNUR, 2014). Atualmente são 8.400 refugiados reconhecidos e 12.688 solicitações aguardando julgamento (CONARE, 2015). Nesse contexto, aumentaram também as solicitações de refúgio por orientação sexual. Não há menção explícita na Lei 9474, de 1997, que pessoas não-heterossexuais possam requerer refúgio, entretanto, há a interpretação jurídica de que esses sujeitos devem ser entendidos como “grupo social”, um dos critérios para a concessão do status. Essa interpretação segue as recomendações das Nações Unidas e tem sido aplicada no Brasil desde o ano de 2002. Os estudos clássicos de migração internacional e refúgio não consideraram a orientação sexual como uma categoria analítica de destaque, sendo que somente nos anos 2000 começaram a surgir trabalhos ressaltando especificamente a relação entre sexualidade e mobilidade humana (LA FOUNTAIN-STOKES, 2004; ERIBON, 2008; MOGROVEJO, 2014; VITERI, 2014). No Brasil ainda são escassos os trabalhos sobre essa temática, bem como os dados estatísticos referentes a esses sujeitos. O Comitê Nacional para Refugiados – CONARE – não sabe informar quantos são os casos de solicitação de refúgio por orientação sexual no Brasil (CONARE, 2016). De acordo com dados de uma organização da sociedade civil da cidade de São Paulo, dos solicitantes e refugiados que se cadastraram nessa organização entre janeiro de 2013 e fevereiro de 2016, 2% pediram o refúgio devido às suas orientações sexuais, o que totaliza aproximadamente 200 casos. O objetivo deste trabalho foi analisar a situação de solicitantes de refúgio, refugiados e refugiadas por orientação sexual no Brasil, dando especial atenção às suas redes sociais. Para tanto, realizou-se pesquisa de campo na cidade de São Paulo, a cidade que mais recebe solicitantes de refúgio no Brasil. Foram entrevistadas pessoas que trabalham diretamente com refugiados e solicitantes de refúgio em uma organização da sociedade civil, funcionários públicos, bem como solicitantes, refugiados e refugiadas por orientação sexual. Os resultados mostram que a grande maioria dos solicitantes são homens provenientes do continente africano. Uma pequena minoria imigra junto com seus parceiros do país de origem. No que diz respeito às redes sociais, parece haver uma característica peculiar no processo migratório desses sujeitos, já que dificilmente podem se apoiar nas redes sociais convencionais, ou seja, baseadas em parentes – dos quais normalmente estão fugindo – ou pautadas em origem comum, pois podem ser estigmatizados por suas sexualidades por parte dos conterrâneos que são heterossexuais.
Apresentação Oral em GT

A diáspora haitiana e as condições de trabalho e acolhimento no Brasil: expectativas e realidade na cidade de São Paulo

Autor/es: Andreia Brito de Souza
O objetivo desse trabalho é discutir a atual diáspora haitiana para o Brasil levando em conta a subjetividade das expectativas e a realidade de haitianos em relação ao trabalho e ao acolhimento pelo Estado Brasileiro. Para a elaboração da pesquisa usamos informações e dados obtidos a partir de entrevistas feitas por nós a haitianos localizados na Paróquia Nossa Senhora da Paz, na cidade de São Paulo, lugar que se tornou referência quando se fala desse grupo, pois desde 2010, tem recebido centenas deles por dia e por ser o lugar por onde passam grande porcentagem daqueles que chegam ao país, auxiliando-os na obtenção dos principais documentos, na busca por trabalho, na alimentação e na adaptação social. Um dos países mais pobres da America Latina, o Haiti sofreu um desastre ambiental em 2010 que o deixou em uma situação ainda mais grave, com altos índices de violência e fome. Após essa ocorrência, os haitianos se viram obrigados a sair do país em busca de melhores condições de vida e, nesse momento se deparam com o fechamento das fronteiras dos países europeus e norte-americanos. Entendemos que as grandes migrações internacionais contemporâneas não apenas se limitam ao deslocamento entre um centro mais pobre e outro mais rico, como do rural para o urbano ou da periferia para o centro, mas que elas também se dão entre países periféricos ou até por causa de laços nacionais feitos anteriormente em relações entre militares e população local. O Brasil, devido aos laços militares com os haitianos formados pela presença das tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), concedeu, junto com o Conselho Nacional de Imigração (CONARE), a Resolução Normativa nº 97 em janeiro de 2012, destinada aos nacionais do Haiti, conhecido também como Visto Humanitário, que conferiu-lhes uma diferenciação em comparação aos outros migrantes presentes no país no que diz respeito à emissão de e facilitação de documentos e direitos trabalhistas, instigando assim, principalmente, a vinda deles para cá. Levamos em consideração para a escolha e análise do foco da pesquisa a Resolução Normativa nº 97, o acolhimento desses imigrantes feito pelo Estado e as leis nacionais e internacionais de imigração das quais o Brasil é signatário para assim poder compreender melhor as expectativas criadas pelos haitianos em relação ao Brasil.
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