Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT041. Medicinas Tradicionais: Ritual, Manejo de Infortúnio e Identidade

A Medicina Tradicional está diretamente ligada às questões de identidade étnica de povos indígenas, afro-descendentes e de diversas comunidades ditas tradicionais. Assim, não haveria apenas uma “medicina tradicional”, mas sim “medicinas tradicionais”. Tais medicinas rompem com várias divisões um tanto rígidas na sociedade “ocidental”, tais como: ciência, religião e espiritualidade; placebo, fé e eficácia simbólica; ritual e terapia; política, identidade, ritual e posse de terras. Isto torna o estudo das medicinas tradicionais um excelente campo para se pensar e problematizar estes temas. Surgem ainda diversas outras questões, tais como: como processos terapêuticos foram desenvolvidos dentro de comunidades tradicionais para lidar com questões exóticas como o abuso de substâncias? Como as medicinas tradicionais têm sido apropriadas pela medicina científica para atuarem complementarmente aos tratamos ofertados em hospitais, unidades básicas de saúde? Que relações estão se estabelecendo entre uso, adoção e desenvolvimento de medicinas tradicionais e fortalecimento étnico? Quais os efeitos das medicinas tradicionais na problematização de conceitos como os de ritual, terapia, identidade, ciência, espiritualidade, eficácia simbólica, etc.? Este grupo de trabalho tem por objetivo então promover uma discussão ampla sobre estes temas, buscado revelar o panorama atual da pesquisa antropológica neste campo, mas tendo como ponto de partida exatamente a questão das medicinas tradicionais.

Laércio Fidelis Dias (UNESP - Universidade Est. Paulista "Júlio de Mesquita Filho")
(Coordenador/a)
Marcelo Simão Mercante (Unisinos)
(Coordenador/a)


Práticas tradicionais de cura: políticas públicas e intermedicalidade entre os Pitaguary no Ceará

Autor/es: João Tadeu de Andrade, Carlos Kleber Saraiva de Sousa
Em muitos países, agências de saúde e governos têm proposto uma integração entre diferentes sistemas médicos dentro de serviços públicos nacionais. No Brasil, a inclusão das terapias complementares e tradicionais no Sistema único de saúde (SUS) constitui importante marco para a expansão das opções terapêuticas da população. Quais as implicações deste empreendimento? Este trabalho constitui uma reflexão sobre práticas indígenas de cura no Nordeste brasileiro, particularmente no Ceará, como recurso terapêutico aos serviços convencionais de saúde e contribuição ao debate sobre a diversidade dos sistemas médicos na contemporaneidade. Trata-se de exame das políticas públicas e diretrizes de saúde que propõem a integração da biomedicina com as práticas terapêuticas indígenas. O assunto é discutido considerando-se o pluralismo médico e a intermedicalidade, esta entendida como espaço contextualizado de medicinas híbridas. A discussão está baseada em revisão de literatura especializada, pesquisa documental e etnografia do povo Pitaguary na região metropolitana de Fortaleza, Ceará. A intermedicalidade ilustra uma forma particular de cuidados de saúde, tendo em conta crenças culturais e práticas terapêuticas articuladas a interesses e costumes das comunidades indígenas, pondo em interface vários elementos culturais.
Palavras chave: Cura, medicina tradicional.
Apresentação Oral em GT

Verdes Mapas. Etnografías con plantas sagradas en los márgenes Latinoamericanos

Autor/es: María Eugenia Flores, Ana Gretel Echazú Böschemeier
En este texto presentamos una reflexión sobre la localización espacial de dos grupos de curanderos, de las tierras altas y bajas latinoamericanas. El primer grupo se encuentra en la localidad de Tamshiyacu, baja Amazonía peruana. Éste trabaja con ayahuasca y otras plantas. El segundo grupo se concentra en la ciudad de Salta, noroeste argentino. Éste trabaja con coca y otras plantas. La finalidad de este estudio, de ánimo comparativo y crítico, es la de presentar una discusión sobre las dinámicas que adquiere la relación entre el centro y los márgenes en lo que hace a las formas de apropiación de lo “tradicional” como versión autorizada del pasado. Estas dos plantas son icónicas de dos regiones latinoamericanas (la ayahuasca corporizando la Amazonía, la coca siendo emblema de los Andes). A través del diseño de mapas donde se localizan los espacios centrales y marginales de la práctica de estos curanderos, buscamos percibir rupturas en las propias prácticas y epistemologías de los curanderos locales en lo que respecta a ideas cristalizadas de lo “tradicional” y lo “terapéutico”, observando trayectorias oficiales y marginales en mutua relación. Con ello, proponemos la adición de herramientas para una discusión sobre “plantas sagradas” y usos estratégicos de la ancestralidad en contextos regionales con acentuadas desigualdades sociales.
Apresentação Oral em GT

Memória e práticas tradicionais de saúde entre povos Indígenas

Autor/es: Paulidayane Cavalcanti de Lima
Os conhecimentos tradicionais sobre saúde são um conjunto de praticas que vão desde a fabricação de remédios até os cantos , rezas e ritos que tem como objetivo melhorar a saúde do individuo e afastar os males que possam estar afetando a ele. Sobre a situação das práticas de saúde tradicional em Pernambuco, em pesquisa observou-se que o contato interetnico dos povos indígenas de Pernambuco com os não-indígenas ocasionou um grande impacto sobre sua cultura, porém durante os anos de contato os diversos povos buscaram elaborar diferentes estratégias que possibilitaram a sobrevivência de sua cultura, desta forma as práticas de medicina tradicional chegaram aos dias atuais, embora muitas vezes confundidas com fitoterapia, a medicina tradicional indígena vai além da fabricação de remédios caseiros, abrange também um conjunto de ritos, cantos, dietas e resguardos. A valorização e documentação da memoria individual e do grupo, assim como a da narrativa oral e das praticas tradicionais de saúde indígena se configura como um instrumento de empoderamento para a comunidade, tanto em questões culturais quanto politicas. Através dessa ferramenta de distinção étnica que se assegura a atenção diferenciada a saúde indígena, onde se explicita varias diretrizes e ações sobre o respeito e a medicina tradicional. A proposta tem como objetivo mapear e documentar as práticas de saúde tradicionais e suas formas de transmissão, dentro do contexto da medicina tradicional do povo kapinawá. A partir de uma reflexão sobre como o povo concebe a ideia de saúde e doença e contrapondo-as com as praticas de atenção a saúde indígena dada por órgãos governamentais, pretende-se contextualizar os usos das praticas tradicionais atualmente, para em seguida fomentar o resgate dos conhecimentos dispersos entre os anciões, visando a elaboração de um panorama das praticas tradicionais e reapropriações feitas por agentes de saúde, relacionando-as as formas de resistência das práticas e rituais durante os anos de contato interetnico. A pesquisa e documentação destas ações são primordiais para este projeto, logo o registro destas práticas são essenciais para preservação da memoria pela narrativa oral e transmissão dos conhecimentos da medicina tradicional.
Apresentação Oral em GT

Inventando as PICs. Quando terapias alternativas tornam-se Práticas Integrativas e Complementares

Autor/es: Rodrigo Toniol
A oferta mais recente de terapias alternativas no âmbito da saúde pública brasileira está relacionada com o lançamento da Portaria Interministerial 971 que, em 2006, instituiu a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC). Tal Política tem por finalidade assegurar e promover o acesso, no Sistema Único de Saúde (SUS), à medicina tradicional chinesa, à homeopatia, à fitoterapia, ao termalismo e à medicina antroposófica. A publicação da PNPIC ensejou estados e municípios a produzirem suas próprias políticas e diretrizes relativas à oferta e ao uso das Práticas Integrativas e Complementares (PICs) no SUS. Neste trabalho, cujo objeto pode ser descrito como sendo as próprias Políticas de PICs, ocupo-me dos processos de legitimação e de regulação dessas práticas. Precisamente, analisarei os próprios termos que a PNPIC aciona e recorre para legitimar e, ao mesmo tempo, para regular, determinadas terapeuticas. Assim, tomando como referência sobretudo a PNPIC, mas também algumas legislações estaduais e documentos da OMS, problematizarei os termos da Política, isto é, as categorias mobilizadas para justificar e enquadrar a oferta dessas práticas no SUS. Trata-se, portanto, de refletir sobre o processo de invenção das PICS. "Inventar", nesse caso, refere-se tanto a produção de registros burocráticos estatais específicos para essas práticas, como também indica o trabalho cotidiano de terapeutas, médicos e gestores empenhados em fazer com que terapias alternativas/complementares possam ser convertidas em PICs.
Apresentação Oral em GT

Práticas tradicionais de cura, benzimentos e indianidade: uma perspectiva etnológica sobre a “cura na (da) América”

Autor/es: Rojane Brum Nunes
A partir de uma pesquisa etnográfica que vem sendo realizada junto a benzedeiras na(da) região missioneira do RS, no sul do Brasil e no nordeste da Argentina, este texto irá refletir sobre práticas de cura, benzimentos e indianidade. Os benzimentos, ao adentrarem nas veredas dos processos de saúde-doença, revelam-se enquanto um sistema aberto, relacional e dinâmico com alteridades humanas e não-humanas, para além do dualismo redutor e humanista do paradigma biomédico ocidental. Nesse sentido, os benzimentos enquanto práticas de cura pautadas na oralidade, na gestualidade e na espiritualidade, através dos “dizeres e objetos que curam”, desvelam relações e (re)atualizações de sócio-mito-cosmo-ontologias ameríndias, através de um processo de reinvenção da cultura, que se caracteriza pela relação de abertura e predação para com o outro (afro, indígena, branco). Sob uma perspectiva etnológica relacional, o trabalho de campo vem apontando a importância em apreender a relações entre as práticas de cura das benzedeiras missioneiras e o xamanismo Mbyá-Guarani, no que se refere às concepções de saúde, doença, corporalidade e território, bem como ao estatuto atribuído a potência agentiva de alteridades humanas e extra-humanas. Por outro lado, as trajetórias sociais e as narrativas biográficas revelam o entre-lugar étnico das benzedeiras e benzedores, na medida em que não se definem nem como brancos, nem como índios, mas que, assim como estes, estão a curar a América, através de práticas e narrativas que “curam” e se “entrecruzam” na América Latina.
Apresentação Oral em GT

As “Marias”: um estudo sobre identidade, memória e representações no ofício das rezadeiras em Delmiro Gouveia- AL

Autor/es: Sergiana Vieira dos Santos
Este projeto ao passo que inventaria a prática presente no ritual das rezadeiras em Delmiro Gouveia contribui para a discussão de uma ressignificação e reinterpretação desse ofício, discutindo o que são as rezadeiras e quais são os elementos simbólicos presentes nos rituais de cura, sorte ou presságios. O objetivo geral deste projeto está em analisar o lugar social das rezadeiras de Delmiro Gouveia, suas práticas, influências e contribuição nos ritos de cura, sorte e laços afetivos, compreendendo a natureza específica e complexa desse ofício. Quanto às noções e os conceitos que serão trabalhados para fundamentar tal pesquisa encontram-se os que procuram definir memória, cultura popular, identidade, e no que tange as representações sociais, nas categorias tidas como fenômenos religiosos, as noções de crenças, ritos e símbolos. Para tanto as discussões terão como base a contribuição de Halbwachs (1990), Bosi (1994), Geertz (1989), Le Goff (2012), Habermas (1983), Durkheim (1971) e Mauss (1974), Lévi-Strauss (2008), Evans-Pritchard (2005). Contudo, compreendendo a dinâmica que perpassa a transformação de um projeto em pesquisa efetiva, faz-se necessário externar que os autores, assim como as noções podem sofrer alterações. A metodologia utilizada será a observação participante que contará com a utilização dos seguintes recursos: gravações em áudio e vídeo e questionários. Algumas interrogações que tornam relevante a contribuição desta pesquisa para a discussão da memória, do estudo da identidade, do patrimônio imaterial ou do simbolismo serão trabalhadas, questões essas presentes nos saberes populares de maneira a demarcar o lugar da cultura na formação do povo sertanejo.
Palavras chave: Ritual;Representações; Lugar Social;Identidade.
Apresentação Oral em GT

Saberes silenciosos: saúde e cultura do Vale do Jequitinhonha

Autor/es: Silvia Regina Paes, Docentes: Rosana Passos Cambraia Marivaldo Aparecido de Carvalho
A presente comunicação faz parte do projeto de extensão desenvolvido pela equipe da UFVJM junto a Comunidade Quilombola do Baú em Serro/MG. E tem como objetivo ampliar e fomentar a discussão acerca das práticas e saberes populares a respeito da doença e da saúde das comunidades tradicionais do Vale do Jequitnhonha/MG. São vastos os conhecimentos e as técnicas de cura das culturas tradicionais (indígenas, quilombolas, caiçaras, ribeirinhos e outros) que podem contribuir à expansão do conhecimento na área da saúde. No processo de cura há que levar em consideração a dimensão sagrada nas culturas tradicionais: a fé cura. Os conhecimentos das comunidades tradicionais sobre saúde/doença, sobre a natureza, compõem o patrimônio imaterial e correm silenciosamente apesar da discriminação do conhecimento acadêmico. É preciso que esses conhecimentos sejam resguardados, valorizados e levados em consideração pelos acadêmicos e profissionais da área da saúde. A teoria das representações sociais foram utilizadas com a finalidade de entender as práticas e conhecimentos dos sujeitos da pesquisa no processo saúde, doença e ambiente. Tendo em vista que elas (RS) refletem as relações sociais, as tradições e os saberes da população. Metodologia foi a participativa e como tal dialógica e de sensibilização dos sujeitos implicados na dinâmica do projeto. Foi constituída das seguintes técnicas, instrumentos e recursos: pesquisa de campo, entrevistas, oficinas temáticas, fotografias, filmagens, construção de um mapa do ambiente (social, cultural e natural). Considerações finais: Os conhecimentos produzidos pelas culturas tradicionais brasileiras estão ainda cuidadosamente preservados por seus “especialistas” e podem manter um diálogo com outros conhecimentos produzidos na academia. Porém, estes mesmos conhecimentos continuam sendo violados e retirados do domínio da cultura que o produziu para servir de valor econômico para a indústria farmacêutica. Enquanto a mídia e a própria ciência desmerece esses conhecimentos por não passarem pelo filtro dos laboratórios das universidades e das indústrias. As leis não protegem as culturas tradicionais em geral e muito menos protegem os conhecimentos produzidos por elas. Mas, estes conhecimentos seguem sendo importantes e respeitados por aqueles que não obtêm uma resposta satisfatória pelas ciências convencionais, principalmente no que diz respeito aos tratamentos de doenças. O conhecimento das culturas tradicionais corre silenciosamente apesar da constante ameaça de silenciamento imposto pela sociedade dominante. Revalorização das epistemologias “alternativas”, isto é, as que foram silenciadas ao longo da história, para estabelecer um “diálogo de saberes”.
Apresentação Oral em GT

Tradição e Intermedicalidade: uma etnografia do II Encontro de Pajés de Pernambuco

Autor/es: Vânia Rocha Fialho de Paiva e Souza, Hosana Celi Oliveira e Santos Maria Jaidene Pires
No ano de 2015, iniciamos o projeto de pesquisa “Complexo da Jurema: práticas de cura e intermedicalidade no Nordeste brasileiro”, com o objetivo de analisar e compreender as concepções de saúde, doença e cura através das práticas e saberes tradicionais indígenas, no Nordeste do Brasil, bem como compreender as práticas de auto-atenção através do uso de plantas medicinais para o cuidado com a saúde. A partir dessa iniciativa, entramos em contato com profissionais de saúde do Distrito Sanitário Indígena de Pernambuco, lideranças, pajés e especialistas indígenas. Foi nesse contexto que fomos convidados a participar do II Encontro de Pajés do Estado de Pernambuco, ocorrido na aldeia Pedra d´água, Terra Indígena Xukuru. Foram dois dias do mês de novembro de 2015, em que foi possível observar as dinâmicas que estão sendo vivenciadas por esses atores, na busca pela garantia do princípio da intermedicalidade no campo da atenção básica à saúde indígena. Assim, este trabalho tem como proposta a apresentação do exercício etnográfico realizado durante o evento, procurando discutir a tensão em torno da noção de tradição acionada nos discursos dos atores envolvidos e na organização e uso dos espaços rituais.
Apresentação Oral em GT

Terapêuticas Tembé-Tenetehar nos ritos de puberdade feminina

Autor/es: Weleda de Fátima Freitas
O resumo submetido apresenta algumas ideias presentes na terceira sessão de minha dissertação de mestrado, defendida em dezembro de 2015, no programa de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia/PPGSA da Universidade Federal do Pará/UFPA, sob título Decoração corporal e educação nos rituais de puberdade Tembé. Os Tembé auto identificam-se Tenetehar pertencentes à família Tupi e distribuídos em pelo menos cinco Terras Indígenas na porção nordeste do Estado do Pará. A iniciação das meninas Tembé à vida adulta é marcada por diversos eventos importantes, dentre os quais se destacam o a Festa do Mingau da Menina e a Festa do Moqueado. Devido suas características enquanto fenômenos recorrentes no tempo e no espaço do grupo, tendo como finalidade apresentar mudanças no status social feminino, portanto tomando as bases lançadas por Gennep sobre ritual, ambos eventos são tratados aqui como partes de um processo mais amplo de (trans) formação das meninas em mulheres Tembé. A Festa do Mingau da Menina é um evento de curta duração e menos elaborado que a Festa do Moqueado, não significando com isso a sua pouca importância. Pelo contrário, na ocasião do evento, são realizadas terapêuticas de prevenção à saúde e bem estar da futura moça. Além disso, o Mingau, enquanto uma ocasião festiva, reúne os parentes de outras aldeias que compartilham do que se pode identificar como a primeira apresentação pública da menina, que iniciou seu processo de transição para um novo papel social no grupo. Por outro lado, a Festa do Moqueado tem duração prolongada em semanas, com isso apresentando maior número de elementos e terapêuticas corporais outras.
Apresentação Oral em GT

Ritual da menina moça Uma ação política de afirmação da cultura e da identidade Tenetehar-Tembé

Autor/es: Cristiane Modesto do Nascimento, Roberta Pereira Costa Denise Machado Cardoso
Os Tenetehar-Tembé, ou apenas Tembé, são indígenas que se autodesignam como membros do povo Tenetehar ou Tenetehara, que foram diferenciados e se diferenciam em dois subgrupos: os Guajajara do ramo Tenetehar - oriental (aldeados no estado do Maranhão) e os Tembé do ramo Tenetehar - ocidental (aldeados no estado do Pará). Wagley e Galvão (1961) afirmaram em seus estudos que o povo Tenetehar não resistiria ao forte “processo de aculturação”, deixando a condição de “povo tribal”, para torna-se “caboclos”, como aconteceu com muitos outros povos, no entanto diferentemente do que esses dois autores promulgaram outrora, podemos observar hoje, que o povo Tembé permanece vivo com muitos de seus elementos culturais preservados, dentre os quais podemos destacar a medicina tradicional, aspecto indissóciável da cultura do Povo Tembé, que possui uma medicina indígena composta por um sistema xamânico imerso em um contexto cosmológico particular, dessa forma esse povo interpreta a saúde e a doença como algo não somente físico mas também espiritual, que também estão associados à religião, à política, à economia, à arte, ao território, ao meio ambiente, etc. (FERREIRA, 2007) ao longo da interação cultural envolvendo “brancos e índios” as prárticas terapêuticas tradicionais, que envolvem prevenção e cura, tiveram um enfraquecimento em relação ao práticas medicinais tradicionais do não indígena e hoje dentro das comunidades há uma grande mobilização para que esse saber mitológico não se perca em meio ao saber racional e tecnicista do “homem branco”, o propósito deste trabalho é de estudar o movimento, e desejo, dos indígenas em manter suas práticas tradicionais vivas dentro das comunidades, tomando por base o ritual da “menina-moça”, um rito de passagem constituído de três fases: a fase da tocaia, a fase do mingau e a festa do moqueado, esse rito vem sendo retomado pelo povo Tembé como forma de reafirmação identitária da cultura desse povo, em um contexto no qual as políticas públicas de saúde mobilizam estratégias, aprendizados e organização da reivindicação de direito, em especial à permanência em seu território (PONTE 2014), a festa da moça possui importância substancial para a organização social, econômica e política do povo Tembé, contribuindo para a afirmação da cultura e da identidade desse deles.
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Medicina Tradicional Guarani-Kaiowá: o Ñanderu e a Prática de Cuidado com o Corpo e Alma Rompem com Divisões Ocidentais entre Ciência, Religião e Espiritualidade?

Autor/es: Elisângela Pereira Henrique, Islândia Mª C. de Sousa** Paulo C. Basta*** *Estudante de Graduação do Bacharelado em Ciências Sociais- Universidade Federal de Pernambuco – UFPE-Recife-PE-Brasil ** Professora e Pesquisador
Este pôster apresenta resultados parciais de pesquisa realizada com Ñanderu1 e rezadores Guarani-Kaiowá, residentes nas aldeias Amambaí, Limão verde, Taquapery, Guassuty e Jaguary, situadas no Estado do Mato Grosso do Sul, região Centro-Oeste do Brasil. Nosso objetivo foi estabelecer laços com representantes de conhecimento tradicional nas aldeias com a finalidade de colher relatos sobre as experiências vivenciadas no adoecimento e no cuidado aos doentes. A equipe realizou dois encontros por meio da técnica de grupo focal com homens e mulheres indicados pela comunidade como rezadores, além de 18 entrevistas individuais, entre 01/05/14 e 26/10/15, com os Guaraní-Kaiowá. Alguns resultados dizem respeito ao ser humano, segundo a percepção Kaiowá representar um todo indivisível; e tanto as categorias da biomedicina “saúde” quanto “doença”, não podem ser explicadas apenas pelos seus componentes físicos e psicológicos vistos separadamente. Concluímos que uma abordagem com interesse legítimo na comunidade e em sua cultura, destituída de preconceitos, deve fazer parte das atribuições dos profissionais em saúde que atuam em territórios indígenas. _______________ 1 Ñanderu é o nome Guarani-Kaiowá a pessoa denominada pela cultura branca de pajé/rezador; eles cuidam das pessoas com cantos, danças, rituais e plantas medicinais além de entoar o canto e fazer a dança para os seres cultuados por etnia.
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Xamanismo & Urbanização num território indígena – O papel dos rezadores em São Gabriel da Cachoeira( Alto Rio Negro- Amazonas)

Autor/es: Ellana Fiama Souza da Silva
Os estudos sobre saúde-doença, cura, corpo, morte e sobrenatural nas sociedades indígenas têm no xamanismo uma referência fundamental, pois a atuação dos pajés (xamãs) é crucial nos processos de cura ligados à medicina tradicional. Este estudo refere-se à região do Alto Rio Negro, Amazonas, que representa uma grande província etnográfica, composta por vários grupos indígenas: Tukano, Baré, Baniwa, Piratapuia, Tariano, Dessano, Karapanã, Arapasso, Unana, Barassano, Kubeua, Kamã e Maku. Todavia, nossa observação direciona-se ao contexto urbano da sede municipal de São Gabriel da Cachoeira, com uma população estimada em 30.000 habitantes, sendo 85%(segundo Bernal, Roberto. No seu trabalho Índios urbanos: processo de reconformação das identidades étnicas indígenas em Manaus. EDUA,2009.) composta por indígenas ligados às várias etnias aqui referidas, ao lado do segmento branco e regional. O sistema local de saúde é representado pelo pluralismo médico: de um lado, a medicina ocidental; de outro, os saberes, os fazeres e os conhecimentos tradicionais acerca da saúde, com o xamanismo, o herbalismo, o culto aos santos e, sobretudo, os rezadores, versão urbana dos xamãs ou pajés das aldeias. A pesquisa abrange tanto levantamentos bibliográficos e documentais referentes ao tema, bem como consultas a profissionais que detêm conhecimentos sobre esta temática na região do Alto Rio Negro. Salientamos, ainda, a importância das observações de campo na cidade de São Gabriel da Cachoeira, bem como contatos com segmentos indígenas do meio urbano na capital do Amazonas, Manaus. Os rezadores que atuam no meio urbano de São Gabriel da Cachoeira tanto podem ser homens como mulheres. Entre os moradores da região, além das doenças comuns de brancos, podem-se manifestar algumas situações atribuídas a causas não naturais que merecem cuidados tradicionais específicos, principalmente com a atuação dos rezadores.
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