Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT040. Marcadores sociais em diálogo: gênero, sexualidade, idade/geração e o curso da vida

A pesquisa em gênero e sexualidade vem se consolidando na Antropologia brasileira motivada pela visibilidade que discussões envolvendo temas como aborto, reprodução, práticas contraceptivas, violência sexual e direitos LGBT ganharam nos últimos anos. Soma-se a isso a interlocução intensa entre antropólogos e ativistas advindos dos movimentos de defesa de direitos sexuais e reprodutivos. As relações de gênero e sexualidade são perpassadas pelos chamados marcadores sociais da diferença, que produzem cenários marcados por desigualdades, hierarquizações e normatividades. Dentre eles, podemos citar aqueles ligados à idade e/ou geração, à cor/ “raça”/ etnicidade e à classe social, tornando urgente uma discussão que insira esses estudos no debate mais amplo sobre interseccionalidades.Dessa forma, este GT tem por objetivo discutir pesquisas que versem sobre tais entrelaçamentos, em especial aqueles que abordem as associações entre gênero, sexualidade, idade/geração e curso da vida. O grupo pretende ser um espaço para o reconhecimento da multiplicidade de modos de vida que compõem o contemporâneo e que fazem a densidade de nosso tempo, buscando compreender de que maneira momentos da vida como “infância”, “juventude”, “meia-idade”, “envelhecimento”, etc. se entrecruzam com os debates sobre gênero e sexualidade, percebendo tais interseccionalidades como uma dimensão privilegiada na qual se visibilizam as mais recentes transformações subjetivas, sociais e culturais.

Gustavo Santa Roza Saggese (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo)
(Coordenador/a)
Raphael Bispo dos Santos (UFJF)
(Coordenador/a)

Sessão 1

Carlos Eduardo Henning (UFG - Universidade Federal de Goiás)
(Debatedor/a)


O que os homens trazem para, e levam do, feminismo? Uma análise situada sobre gênero e geração no feminismo brasileiro

Autor/es: Fátima Regina Almeida de Freitas, Eliane Gonçalves (doutora em Ciências Sociais, professora da Universidade Federal de Goiás)
O feminismo - movimento social, teoria do conhecimento, práxis, modo de vida – qualquer que seja a centralidade concedida aos seus sentidos e significados, está diretamente associado às mulheres enquanto sujeito histórico e agente de suas lutas, sujeito este não unificado, mas pluralizado. No entanto, o debate sobre se o feminismo deveria se abrir à participação dos homens e qual seria o seu papel na ação feminista é antigo e não isento de muitas fricções e tensões. Rever este debate à luz de pesquisa empírica realizada com homens autodeclarados feministas no feminismo brasileiro é a proposta deste artigo que analisa a intersecção entre gênero e geração do ponto de vista da ação de homens feministas mais do que dos estudos sobre masculinidades. Atenta ao entrelaçamento entre gênero, raça, classe, geração, sexualidade e região, esta proposta pretende articular, tanto quanto possível, esses marcadores. Temos por objetivo refletir sobre como o feminismo afeta/ensina os homens, a partir de três lugares/atuações ou experiências – o trabalho direto em ONGs feministas; a participação em Núcleos/grupos de estudos e pesquisas sobre gênero e sexualidade de Universidades, cadastrados no CNPq com linhas de pesquisa autodenominadas feministas; a participação em cursos de formação feministas oferecidos por grupos e instituições a partir de processos seletivos. Algumas perguntas norteiam o estudo: O que as experiências de exposição ao feminismo, de mais curta ou longa duração produzem em termos de subjetivação nos homens? O eles levam do feminismo para suas respectivas áreas de atuação? Quais as mudanças possíveis a partir deste contato? O que vem pautando a ação de homens feministas no cenário brasileiro? O que estes homens podem ensinar a outros homens? Como pensar sobre as mudanças no feminismo a partir da presença de homens nesses debates? Quais as principais tensões enunciadas por homens e mulheres acerca de suas posições de sujeitos no feminismo?
Apresentação Oral em GT

Casamentos Instáveis para Mulheres estáveis

Autor/es: Gerliani de Oliveira Mendes
Este trabalho é um trecho da etnografia da comunidade da Grota dos Puris que explora e sugere algumas possibilidades de analisar o parentesco pela agência feminina, valorizando sua margem de autonomia dentro das relações de gênero e poder. Para ressignificar a ideia de instabilidade conjugal, comumente atribuída às classes populares, proponho uma reflexão que considera que mulheres que já chefiaram família, com ausência de figura masculina na unidade doméstica, priorizam sua estabilidade (financeira, emocional, sexual e de autonomia), antes da solidez conjugal. Apresento como estas mulheres subvertem o valor da consanguinidade nas relações com a prole e os recasamentos, como a igualdade entre as crianças é prezada pela comunidade e outros enfrentamentos de autonomia feminina dentro de um quadro em que sua participação na manutenção doméstica é intensa. Os dados apresentam uma organização feminina, entre cumadres, vizinhas e parentes, que busca dar conta dos cuidados com as crianças e do apoio material pela dádiva, principal tema de pesquisa da etnografia.
Apresentação Oral em GT

Afeto e Proteção: cenas de um casamento nada usual

Autor/es: Gilson Goulart Carrijo, Flavia do Bonsucesso Teixeira
Esta apresentação propõe, entre imagens e palavras, discutir os deslocamentos possíveis entre gênero, sexualidade e conjugalidades a partir da cerimônia de casamento entre duas travestis no sul do Brasil. O embaralhamento das normas pode ser identificado nas expressões de espanto dos responsáveis pela cerimônia, nos flagrantes durante a festa, na notícia do jornal local e nos relatos das recém-casadas no dia posterior ao mesmo. Tomar essas cenas e (re)traduzi-las em imagens para a apresentação pode ser uma estratégia para afetar outras pessoas e produzir novas sensibilidades sobre o universo travesti.
Apresentação Oral em GT

As mudanças de geração no mercado do sexo de Belo Horizonte

Autor/es: Marina Veiga França, Lilian Tatiana de Barros Vieira
Com o objetivo de pesquisar mudanças de perfis nas novas gerações de prostitutas que trabalham na zona boêmia, em boates e pela Internet em Belo Horizonte, pretendemos aprofundar a análise de mudanças geracionais e os perfis das novas trabalhadoras na última década. Tal pesquisa se baseia em estudos já realizados, na convivência e participação em projetos na Associação de Prostitutas de Minas Gerais e em novas idas a campo. Interessa-nos explorar as distintas trajetórias, projetos e desejos de jovens mulheres cisgênero, e investigar continuidades e mudanças no aumento do número de prostitutas universitárias ou com nível superior. Entre as veteranas, grande maioria são mães e priorizam a criação de seus filhos e filhas. Entre as novas gerações, existem muitas mulheres que também são mães e há mulheres solteiras. Há particularidades no modo de estas jovens mulheres trabalharem e de organizarem sua vida, que passam muitas vezes pela busca na prostituição de sua sobrevivência e o investimento em suas carreiras. Os espaços estão em constante mudança (Lave, 1991; 2011), ao mesmo tempo em que guardam modos de fazer, saberes e práticas das gerações mais antigas. Deve-se considerar inclusive a importância da transmissão de conhecimentos de veteranas a novatas no trabalho do sexo. As diferenças no mercado do sexo em Belo Horizonte também devem ser consideradas, pois sua organização, clientela e profissionais se alteram de um local para outro, mesmo se há circulação entre alguns deles. A prostituição reproduz hierarquias sociais. Na zona boêmia, hotéis mais caros, com melhor infra-estrutura, são ocupados principalmente por mulheres jovens, de pele mais clara e dentro dos padrões estéticos socialmente valorizados, e têm maior frequência de estudantes universitárias. Mesmo assim, há neles diversidade de perfis sócio-econômicos, “raciais”, educacionais e geracionais. Nos hotéis mais baratos, essa diversidade se acentua, com maior quantidade de mulheres acima de quarenta anos, mulheres negras e mulheres com sobrepeso. Como aponta Wendy Chapkins (1997), diferenças de classe e status não apenas dividem os lugares ocupados pelas trabalhadoras no comércio do sexo, como criam distintas experiências, inclusive em relação ao valor e respeito com que são tratadas. Nas transformações das gerações de trabalhadoras e da própria prática da prostituição estão envolvidas mudanças econômicas, políticas, de gênero e sexualidade do mundo ao redor, assim como articulam-se classe, geração, gênero e “raça”.
Apresentação Oral em GT

Até o soslaio girar – Entre vulnerabilidade e cuidado: disposição de discursos em torno de população em situação de rua e envelhecimento

Autor/es: Natalia Negretti
Entre diversos crescimentos e expansão, os estudos de gênero têm se desenvolvido, cada vez mais, no que concerne a gestão de populações e interseccionalidades. O envelhecimento populacional e a “rueirização” populacional tiveram destaques em distintos momentos históricos e ambos foram abarcados pelo interesse público sob o ponto de vista da saúde incisivamente ao longo dos anos. É interessante que, quando entrecruzados, essa dupla pode continuar paralela ou virar uma especificidade que ainda assim se apresenta heterogênea. Quando juntos, esses “temas” ganham densidade, mesmo mantendo a singularidade de seus campos de reflexão. A partir de uma pesquisa de doutorado em início, que se debruça neste cruzamento aliado a questão-observação de trânsito de institucionalizações, tais como prisão e centros de acolhida, esta proposta de apresentação prevê dados preliminares de pesquisa bibliográfica no que tange ao cruzamento dos temas população “em situação de rua” e população “idosa” ou, ainda, “em situação de envelhecimento” a partir dos marcadores sociais da diferença. Assim como os estudos e abordagens do envelhecimento apresentam uma construção histórica e representam uma luta do campo saber-poder (FOUCAULT, 1982) a partir dos anos 1970 (DEBERT, 1999; PEIXOTO,1998), ganhando novos contornos, a origem do significante de terceira idade (BIRMAN, 2013) e de população em situação de rua, neste mesmo período, também foi transformada. Aliados ao levantamento bibliográfico, buscar-se-ia ter como campo deste trabalho, um conjunto de discursos. Em torno dos a perspectiva de gênero como base para as análises focadas em um conjunto de páginas, sites e notícias frente ao público, nominalmente divididos em homens e mulheres, em torno de instituições gerenciadoras de centros de acolhida para população idosa em situação de rua (conveniadas com a Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social do Município de São Paulo) em contraste com, através dos mesmos veículos de informação e construção, Institutos de Longa Permanência para idosos (ILPI), Centros-Dia e Casas de Repouso particulares. Tais comparações intencionam uma perspectiva de classe social, além de possibilidade de reflexão e problematização de limites entre as esferas público e privada e de dois termos comumente ligados aos dois temas: enquanto vulnerabilidade é frequentemente ligado à situação de rua, cuidado é ligado à velhice e envelhecimento. A ideia é nos atentarmos às rupturas e continuidades no conjunto dos discursos a partir da perspectiva de gênero, que solicita atenção a outros marcadores distintivos em e para tais públicos, sob e sobre políticas sociais e lutas discursivas.
Apresentação Oral em GT

“Vai ter viado se beijando, sim!”: Sexualidade, política e juventude em uma escola pública federal do Rio de Janeiro

Autor/es: Paula Alegria Bento,
Para alguns, dois anos depois, 2013 não havia acabado; desabrochava num tempo não-linear, como as flores de uma primavera que jamais cessou. Enquanto me dedicava à pesquisa, protestos borbulhavam por todo Brasil. Em 2015, porém, partidos e sindicatos tentavam dar nome à legião, outrora indiferenciada e disforme. O país dava uma guinada “à direita”, por uma oposição recheada de conservadorismos e extremismos, e lideranças políticas/sociais se integravam publicamente aos manifestantes, em um gesto de unificar as vozes, por ambos os lados. Ao mesmo tempo, a “Marcha das Vadias” ou a ocupação dos alunos nas escolas em SP não apontavam para um “mocinho”, pró ou anti-governo, embora identificassem também velhos “vilões”. Coletivamente, abriam-se ao “respirável”, ao “desejo de rua”, ao ensejar de “situações de encontro ou fricção”; contavam eles com eles próprios, mais no abrir-se ao que estava em vias de ser e menos ao fim político-partidário antecipado pelas suas reivindicações. Seguindo o vibrar das ruas, como os alunos paulistas, eu ocupava uma escola pública, no Rio. Interessavam-me as motivações para jovens, que não se deixavam envelopar sob a capa do reconhecível - “não é só pelos 20 centavos!”, “não tem partido!” -, transitar também por entre identidades de gênero e práticas sexuais; o caráter tão fluido quanto dinâmico destas singularidades encontrava um movimento político que, tal como ele, me escaparia por entre os dedos e não me permitiria nomear sob a prisma de velhos conceitos. Na escola, encontrei um entrelaçar com a política de forma direta pelas ações do grêmio, “frentes” e “coletivos” feministas e LGBTs. Buscava desfazer as fronteiras “dentro/fora”, “macro/micro”, para pensá-las em co-influência. Costuravam-se tramas em todo canto do colégio capazes de ultrapassar os seus muros e ativar a sua relação com o mundo, atualizando as interações com o país e a cidade, como numa construção de realidade vulnerável. Nesta perspectiva, as lutas pela afirmação de identidades sexuais minoritárias e as suas reinvenções lançavam luz sobre uma cena juvenil de ressignificações e novas apropriações, no interior de uma dinâmica crescente da produção de discursos conservadores e hierarquizantes. Assim, tanto afirmar-se lésbica/gay/bi/homossexual quanto aliar-se a uma “performatividade queer” significava instaurar uma força política. Pelas desestabilizações das categorias de identidade, pautadas na fluidez de quem rejeita estereótipos “impermeáveis” ou pela citação do que seria um insulto (“viado”, “sapatão”, “vadia”), uma onda contemporânea propunha a abertura de brechas para a produção e a afirmação de subjetividades e o deslocamento (ou a “confusão”) das posições de enunciação hegemônicas que uma palavra ou um comportamento outrora poderiam provocar.
Apresentação Oral em GT

Jovens vadias e o sujeito do feminismo contemporâneo - Reflexões em fluxo sobre corpo, gênero, idade/geração e outros marcadores da diferença na Marcha das Vadias de Goiânia/GO

Autor/es: Paula Nogueira Pires Batista
Esta proposta tem o objetivo de debater alguns aspectos de intersecções entre corpo, gênero, idade/geração, sexualidade, “raça”, entre outros possíveis marcadores da diferença, presentes na Marcha das Vadias de Goiânia/GO. Tal marcha, que representa uma expressão do movimento feminista contemporâneo, é o campo a partir do qual realizo minha pesquisa em âmbito de mestrado, sob orientação do Prof. Dr. Carlos Eduardo Henning (PPGAS/UFG), financiada pela Capes. Aqui, busco refletir sobre questões pautadas por autoras como Gomes e Pinto (2011), que envolvem aspectos relacionados a como jovens feministas recusariam certa forma de organização política que não se sensibilizaria à mudança geracional, questionando hierarquias e um “adultocentrismo” no feminismo. Em referência às “jovens feministas”, assumo uma visão do curso da vida pós-moderno (Debert, 2010), ou seja, sem a necessária alusão fixa a um grupo etário. Segundo Debert, a juventude passa a ser entendida também como uma etapa da vida marcada pelo dinamismo e criatividade - características que acredito fazerem-se presentes de maneira relevante nesta forma de manifestação política, na qual o corpo toma centralidade e é constantemente politizado. Por outro lado, haveria críticas de feministas de gerações anteriores, alusivas tanto ao termo “vadias” quanto a um suposto caráter despolitizado da marcha. No que tange a relevância local – considerando que a Marcha das Vadias surgiu no Canadá em 2011 e desde então “viajou” para pelo menos 15 países, com chegada ao sul e realização em mais de 20 cidades brasileiras - acredito que a marcha goiana seja especialmente frutífera para algumas reflexões, uma vez que apresenta, enquanto movimento, um trajeto atravessado pelos dois cenários que Gomes e Sorj (2014), a partir de análise da Marcha das Vadias no Rio de Janeiro, sugerem como em curso nos dilemas internos do feminismo contemporâneo. O primeiro deles seria a afirmação política pela oposição identitária, cuja expressão se daria no campo teórico com o conceito de interseccionalidade; o segundo, com o reconhecimento das diferenças tendo como objetivo a política de coalizão, expresso pela teoria queer. Sobre a oposição identitária, este cenário seria expresso na marcha goiana pela mudança de seu nome, em 2014, para “Marcha das Libertas”, ocasionada por reflexões sobre críticas oriundas principalmente do feminismo negro, com a questão: quem poderia de fato se reivindicar “vadia” como ato revolucionário?, marcando a diferença. Já em 2015, com o retorno a “Marcha das Vadias”, defendido inclusive por feministas negras da marcha, sugere-se a busca pela coalizão, com a possibilidade de abertura do sujeito do feminismo – e o questionamento de sua estabilidade.
Apresentação Oral em GT

O ENUDS na interseção entre movimento estudantil, movimento LGBT e "academia"

Autor/es: Stephanie Pereira de Lima
Este trabalho é resultado da pesquisa realizada durante o mestrado cujo objetivo centrou-se na descrição da trajetória do Encontro Nacional Universitário da Diversidade Sexual (ENUDS) e na análise das transformações dos sujeitos que o constroem e o compõem. Nesse cenário, as disputas com o movimento estudantil, o distanciamento e crítica ao movimento LGBT, a aproximação com a “academia”, as aproximações e tensões com outros movimentos sociais, a relação com a universidade, bem como a entrada de novos sujeitos, a experiência controlada e direcionada a partir dos ideais de liberdade são os componentes essenciais que permeiam a realização das doze edições do Encontro. A trajetória sócio-antropológica do ENUDS possibilitou observar o quanto são tênues e flexíveis os limites e linhas de demarcação entre “academia” e movimento social. O processo de transformação de cada edição apresentou o ENUDS como um complexo espaço político relacional e contextual. Ou seja, as formas de organização do Encontro, que aparecem a cada edição, através dos grupos e coletivos, são resultados da interconexão com os atores sociais que o precedem: movimento estudantil, movimento LGBT e academia. Assim, a trajetória do Encontro mostrou como que em diferentes contextos históricos são criados modelos de diferenciação e demarcação em relação a certos “outros”. Tais diferenciações se manifestam de inúmeras formas e sua análise orienta-se a partir de determinadas categorias que emergiram no campo. Com isso, a proposta deste trabalho é analisar estas categorias que surgem no campo, como “estudantil/universitário”; “ativista/militante”; “grupo/coletivo”; “institucionalizado/não-institucionalizado” e “horizontalidade”. Através desta análise, o trabalho vai explorar os processos de diferenciação do ENUDS, que se estruturam, principalmente, no nível geracional, em relação aos três atores sociais de maior relevância neste espaço: movimento LGBT; movimento estudantil e a “academia”. Seguir as categorias que surgem no ENUDS é, nesse sentido, o caminho escolhido para compreender este campo empírico, que ora se apresenta como “estudantil”, ora como “militante”, ora como “acadêmico”, ou mesmo, como certa mistura de todas estas categorias. Pelo fato de algumas dessas categorias existirem no campo político e no campo científico, para além do ENUDS, seu estudo também possibilitará analisar sua incidência em outros espaços, de modo a trazer uma contribuição de aprofundamento dos conceitos. Por fim, busca-se elucidar quais seriam os modelos de formação e organização do fazer política e fazer-se como sujeito político deste e neste espaço.
Apresentação Oral em GT

“Adolescentes LGBT” e o confronto de moralidades em relação ao gênero e a sexualidade nas políticas públicas brasileiras: negociações para a construção da possibilidade de ser e estar

Autor/es: Vanessa Jorge Leite
O presente trabalho é um fragmento de pesquisa que se desenvolveu a partir da identificação de uma trama de atores, discursos e jogos de poder no cenário brasileiro contemporâneo, na constituição de uma nova categoria social para as políticas públicas brasileiras, os “adolescentes LGBT”. O processo de construção desse “adolescente LGBT” está articulado a um processo mais amplo de constituição dessa nova população denominada “LGBT”, como sujeitos de direitos para o conjunto de atores que configuram o Estado brasileiro – na sua multiplicidade e contradições. A construção dessa nova categoria social se dá a partir do entrecruzamento de vários atores e múltiplas concepções e moralidades em relação à sexualidade e ao gênero, articuladas a questões ligadas a forma como os jovens são vistos e tratados pelo mundo adulto. Tendo como um dos campos empíricos os Centros de Cidadania LGBT do Estado do Rio de Janeiro (CCLGBT), serviços governamentais previstos no Programa Rio sem Homofobia, a pesquisa reflete sobre o conjunto de discursos e atores institucionais que interpelam e são acionados pelos Centros, a partir das demandas trazidas e/ou relacionadas aos adolescentes. A grande parte dos adolescentes que acessaram os Centros o fez por estar vivendo problemas familiares, seja com pais ou mães, mas também com outros familiares e ainda a vizinhança. Em relação às instituições públicas, a escola é o lócus de maior incidência de problemas, que vão desde as discriminações cotidianas vindas de colegas, com a silenciosa conivência de professores e gestores, ou ainda com ações discriminatórias mais diretas desses profissionais. Há histórias de problemas enfrentados em abrigos para adolescentes e as dificuldades enfrentadas no diálogo com Conselhos Tutelares. Em relação às unidades de saúde, elas apareceram a partir do grande número de adolescentes trans que acessaram os Centros e não havia possibilidade de encaminhamento para acompanhamento em uma unidade de saúde. Há um certo entendimento comum nos CCLGBT que a adolescência LGBT ainda é, hegemonicamente, uma impossibilidade nas instituições. A partir das histórias desses jovens, o trabalho busca contribuir com a reflexão sobre como diferentes instituições e políticas públicas vêm lidando, na sua ação cotidiana, com os experimentos sexuais e de gênero dos adolescentes. Limite complexo, intimamente ligado ao estatuto de sujeito dessa categoria social. A diversidade sexual e de gênero é uma realidade na vida de um sem número de adolescentes. E eles vêm confrontando uma série de valores morais e convenções no cotidiano de suas vidas e fazendo negociações várias com as instituições com que se relacionam, para garantir uma existência possível, mesmo que tal existência seja considerada “imprópria para menores”.
Apresentação Oral em GT

Tias e novinhas: envelhecimento e relações intergeracionais nas experiências de travestis trabalhadoras sexuais em Belo Horizonte

Autor/es: Vanessa Sander Serra e Meira, Lorena Hellen de Oliveira
Este trabalho pretende discutir as relações entre diferentes gerações de travestis no cotidiano do trabalho sexual e no convívio doméstico, suas dinâmicas de periodização da vida e as perspectivas atribuídas aos processos de envelhecer. Concebendo as categorias geracionais e o envelhecimento como produções discursivas, buscou-se compreender quais discursos são acionados pelas travestis para dar contornos e singularidades às suas experiências. O foco reside nas relações intergeracionais entre tias e novinhas: seus conflitos, afetos, dinâmicas distintivas e memórias de experiências compartilhadas. As tias contam suas histórias e se constituem discursivamente como pessoas no sentido de pertencer a uma geração, de partilhar um passado, o qual é comumente descrito por três elementos principais: a violência policial (especialmente na ditadura militar), a emergência do HIV na década de 80 e o glamour dos bailes e concursos de beleza. Tais narrativas estão atravessadas por uma estratégia de construção da autoridade das travestis mais velhas diante das mais novas dentro de uma ideia de pioneirismo. Assim, o reconhecimento do seu sofrimento, do “abrir caminhos” e dos domínios dos saberes da pista e das transformações de seus corpos marcam seus discursos na intenção de situá-las neste lugar distintivo. Por sua vez, o questionamento desse lugar de autoridade pelas novatas caminha muito pela insinuação de que as mais velhas não seriam belas e, em alguns casos, pela própria desqualificação de suas experiências Os ideais de beleza das novinhas passam por um gradiente entre mais e menos feminina, que muitas vezes significa ser mais ou menos passável. Essas experiências, carregadas de tensionamentos, parecem estar relacionadas a certa rivalidade entre as veteranas – escoladas, já não tão atraentes para o mercado do sexo– e as mais jovens – inexperientes, mas muito atrativas ao olhar dos clientes. Analisar tais relações intergeracionais e o próprio conceito de envelhecer nestas experiências é parte importante desta etnografia. As categorias êmicas com que operam apontam para um emaranhado de relações, vínculos e conflitos, que constituem importante rede de suporte social. A reflexão sobre tais categorias geracionais também é fundamental para compreender as transformações corporais características do tornar-se travesti em cada época. Assim, técnicas disponíveis para cada geração, estilos estéticos em voga e demanda dos clientes no mercado do sexo atuam na conformação de corporalidades muito específicas dentro de recortes temporais. A interseccionalidade entre sexo, gênero, raça, classe e geração propicia corpos e performatividades diferenciadas dentro da categoria travesti e das plurais experiências que a constituem.
Apresentação Oral em GT

Educação e Perspectivas de gênero: Um estudo do ambiente escolar envolvendo questões de gênero e violência

Autor/es: Vinícius Gabriel da Silva, Mónica Lourdes Franch Gutiérrez
O presente trabalho tem por objetivo abordar questões de gênero e violência no cotidiano escolar, tendo por base uma pesquisa etnográfica realizada numa escola pública de ensino médio de João Pessoa. Inspirado na análise situacional de Max Gluckman (1940), organizarei os resultados em torno de quatro eventos . Os dois primeiros eventos correspondem a atuações da escola em prol da inclusão do debate de gênero entre os alunos: uma exposição de painéis com fotos, pinturas, textos, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher (08 de março) realizado por alunos e alunas da escola e um seminário apresentado por autoridades judiciais em relação à lei nº 11.340/2006, popularmente conhecida como Maria da Penha, para as mães dos alunos e toda comunidade. Os outros dois eventos dizem respeito a dinâmicas de violência contra a mulher na escola ou envolvendo pessoas da escola: a divulgação de fotos pessoais de uma aluna feita por um grupo de alunos que ocasionou a exposição da intimidade por meio de telefones celulares por toda a escola; e ocorrência, no intervalo de menos de um ano, de dois homicídios, um contra uma aluna e outro contra uma professora pelos seus ex-parceiros, situações que permearam o cotidiano escolar analisado ao longo da pesquisa etnográfica. Para chegar ao cumprimento deste trabalho foi realizada observação campo e conversa informal em salas de aula e nos momento de maior interação – o intervalo escolar. Ao todo nossa presença na escola circundou três anos de experiência por meio da participação de um dos autores no Programa de Iniciação a Docência (PIBID SOCIOLOGIA) nas aulas de sociologia e dois anos na experiência de pesquisa antropológica. Dito isso, abordaremos ao longo do trabalho, como estes eventos demonstram negociações e perspectivas de gênero presentes na cultura discente e docente, que por um lado reforçam as desigualdades e por outro também formam espaços de contestação e de resistência tanto por parte das alunas como da própria escola. Em tempos em que o ensino de gênero está sendo banido dos planos municipais, este trabalho demonstra a imperativa necessidade de a escola debater essas questões, mesmo que o impacto das intervenções mais comuns (palestras, exposições em datas comemorativas) seja, em si, muito limitado. .
Apresentação Oral em GT

Homens trans: Um olhar sobre a construção de subjetividades e masculinidades

Autor/es: Marina Mantovani Rodrigues de Castro, Moisés Lopes
Título: Homens trans: Um olhar sobre a construção de subjetividades e masculinidades. Numa sociedade onde os corpos gritam, as identidades se escondem e as violências se multiplicam, encontramos pessoas que escalam muros altos de preconceitos, invisibilidade e luta. Neste emaranhado de privações, os homens trans buscam construir suas subjetividades e enfrentam um embate cotidiano pelo reconhecimento de suas identidades diante de amplas imposições sociais e políticas que constroem múltiplos padrões de masculinidades vinculadas a mídia de massa, ao esporte, a saúde, dentro da família, na educação. Entendendo que as subjetividades desses sujeitos não permeiam apenas o universo de masculinidades, mas também as múltiplas feminilidades, a classe social, raça/etnia, faixa etária, territorialidade, entre outros aspectos, voltamos nossos olhares em direção a compreensão da construção de subjetividades, linguagens e corporalidades masculinas que perpassam a vida e o universo simbólico e material dessas pessoas. A partir de reflexões levantas por Connell sobre masculinidade hegemônica e de algumas críticas subsequentes aos conceitos por ele descritos, é possível indagar: Quem concretamente representa a masculinidade hegemônica? Como identificar os aspectos hegemônicos de masculinidades que se multiplicam em cada contexto? Definir esse conceito requer atenção e cuidado para que não sejam analisados num viés essencialista, simplesmente naturalizando comportamentos ditos recorrentes e não nos atentando para os diversos grupos sociais que se consolidam nos territórios urbano e rural, e como a masculinidade se expressa nesses locais. Talvez mais do que pensar num modelo de comportamentos, linguagens e símbolos hegemônicos, seja interessante analisar como as diversas masculinidades podem estar, em seus mais distintos contextos - sociais, de etnia, de classe, orientação sexual -, vinculadas a uma imagem de poder que estrutura uma relação hierárquica a partir de um binarismo de gênero. Os homens trans efetivamente apresentam trajetórias de vida muito diferentes de outros homens? No contexto dessa pesquisa, as entrevistas de história de vida associadas a observação participante serão os métodos que guiarão nosso olhar e o arcabouço teórico dessa pesquisa, suscitando, conjuntamente com esses sujeitos, questões acerca dos processos de subjetivação e identidade desses, tentando compreender o conjunto de significados dados às suas masculinidades.
Pôster em GT