Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT039. Manifestações políticas religiosas e seculares: outro olhar sobre as ruas brasileiras

Desde junho de 2013, pensar sobre as manifestações políticas nas ruas das cidades brasileiras voltou a ser uma questão crucial para abordagens sobre o Brasil contemporâneo. Tais manifestações constituem-se em eventos complexos, formados por agenciamentos integrados a partir de posições políticas, midiáticas, econômicas, jurídicas, educacionais, de gênero e sexualidade, dentre outras. A proposta deste GT é reunir trabalhos informados etnograficamente sobre estes eventos públicos de caráter reivindicatório, centralmente aqueles em que as fronteiras entre o religioso e o secular e suas contínuas formações e transformações foram relevantes. Seja por uma suposta “invasão” do religioso em cenas políticas tomadas prioritariamente como seculares; seja pela ação organizada de grupos religiosos específicos em “marchas” e “caminhadas” que buscam firmemente o aumento de sua visibilidade no espaço público urbano; seja por ações que se opõem à maior visibilidade pública da religião. O objetivo é compreender tanto as especificidades quanto as semelhanças de cada uma delas, ampliando o entendimento sobre as modificações na forma cívica brasileira.

Carlos Eduardo Valente Dullo (Departamento de Antropologia/UFRGS)
(Coordenador/a)
Carly Barboza Machado (UFRRJ)
(Coordenador/a)


A rua como local da caridade: os agenciamentos político-religiosos de familiares vítimas da violência urbana

Autor/es: Amanda Gomes Pereira
Ao escolher a rua como espaço privilegiado de suas ações sociais, voltadas para a promoção da caridade e do perdão, o grupo espírita de familiares de vítimas da violência urbana "Amor Além da Vida" movimenta uma gramática emocional que torna público sentimentos privados de elaboração do luto. Nesse espaço de trânsito, esses pais e mães fazem transitar suas articulações morais e emocionais empreendidas como estratégias para promoção de um projeto de "Cultura da Paz" intimamente vinculado a uma adesão subjetiva a linguagem da paz. Ao mesmo tempo, os agenciamentos promovidos por esse grupo destacam um abandono das metáforas e linguagens da guerra como mediação de suas relações cotidianas. As intervenções no espaço público realizadas por esse projeto espírita, através do exercício da caridade para com os moradores de rua da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, se relacionam com as estratégias desse grupo de superação da dor e da perda, assim como demonstram as operações realizadas por esses pais e mães para habitarem os espaços de dor, ressignificando-os através de uma descida ao cotidiano (DAS, 2011). Essas operações e estratégias, que acompanhei durante pesquisa de campo para elaboração de tese de doutorado, serão apresentadas neste artigo. Nesse sentido, a rua torna-se espaço de movimentação das emoções e de ações político-religiosas que acionam possibilidades de habitar a metrópole carioca.
Apresentação Oral em GT

“Crimes sexuais” e “extermínio da juventude”: um estudo sobre regimes de (in)visibilidade do sofrimento em favelas de Fortaleza

Autor/es: Ana Paula Luna Sales
Neste artigo proponho analisar como eventos recentes ligados ao governo da violência letal contra jovens negros e pobres, incluindo iniciativas de pacificação dos “traficantes” e chacinas atribuídas à polícia, acontecidos em Fortaleza nos últimos meses interpelam certos sujeitos das ações de enfrentamento a crimes sexuais nesta cidade. Através da pesquisa de doutorado "Desejo, “vulnerabilidade” e agência: políticas de enfrentamento a crimes sexuais e seus efeitos nos mercados do sexo em Fortaleza", orientada por Adriana Piscitelli, acompanho os grupos missionários Sociedade da Redenção (católico) e Missão Iris (evangélico) em suas ações nas favelas do Pirambu e do Oitão Preto, respectivamente. Apesar de o interesse principal de tais grupos em relação às mulheres e meninas atendidas se constituir no enfrentamento a crimes sexuais, a etnografia realizada com missionárias/os e moradoras/es da favela tem demonstrado que os relatos femininos de sofrimento mais frequentes nesses contextos são ligados à morte de entes queridos por assassinato e ao luto incompleto ou irresolvível dessas mortes que não são reconhecidas como perdas, tal como elaborado por Judith Butler. A partir desse quadro busco desenvolver nesse artigo considerações sobre como, nas atuações missionárias católicas e evangélicas voltadas para mulheres e meninas nessas favelas fortalezenses, certos sofrimentos são ressaltados e construídos enquanto problemas sociais enquanto outros são assimilados como cotidianos e inelutáveis. Proponho compreender os elementos da cartografia moral que, segundo Carly Machado, determina os sujeitos do sofrimento, assim como o contexto no qual este pode ser vivido, observando, por um lado, a construção do Ceará como espaço emblemático de crimes sexuais face à indústria transnacional do resgate e, por outro, as noções específicas de vítima, crime e violência elaboradas pelos grupos religiosos em estudo. A partir destes elementos, analiso como gênero, sexualidade, raça, classe, idade e nacionalidade se intersectam nas conceptualizações e ações missionárias cristãs em favelas de Fortaleza, constituindo regimes de (in)visibilidade do sofrimento nesses espaços.
Apresentação Oral em GT

Movimento social e movimento evangélico na "Ocupação do Glória", Uberlândia - MG

Autor/es: Claudia Wolff Swatowiski, Luciano Senna Peres Barbosa
Esta apresentação trata da relação entre a composição de um movimento social pela moradia e o movimento evangélico. Partindo de uma pesquisa em andamento na chamada “Ocupação do Glória” em Uberlândia, analisamos como a demanda pelo direito à moradia se entrelaça a uma leitura evangélica. Trata-se de examinar como o movimento evangélico, ao agenciar um discurso capaz de ressignificar moralmente a figura do “invasor” e o ato de "invadir", contribui para o estabelecimento das condições de possibilidade das ocupações no espaço urbano. Ademais, analisamos como os modos de atuação das igrejas evangélicas na “Ocupação do Glória” ora se compõe, ora se opõe, a outras modalidades de intervenção neste espaço, sejam elas estatais ou não.
Apresentação Oral em GT

As subjetividades políticas dos crentes pentecostais: a igreja de Malafaia nos protestos em Brasília.

Autor/es: Cleonardo Gil de Barros Mauricio Junior
Este artigo traz as primeiras reflexões de minha tese de doutorado, cujo objetivo é investigar os modos pelos quais são constituídas as subjetividades políticas dos crentes pentecostais. Em outras palavras, tenho buscado compreender como se dá a formação do ethos político pentecostal, mais especificamente dos fieis envolvidos em controvérsias públicas. A percepção a respeito da postura política dos crentes pentecostais tem sido extraída do debate público que coloca em lados opostos o “ativismo conservador evangélico” (nas palavras de Maria das Dores Machado) e os movimentos sociais como o LGBT e feminista. Diante deste cenário, as igrejas pentecostais têm sido consideradas os principais entraves à consolidação de direitos, e muitos de seus líderes, pastores com poderio midiático ou detentores de mandatos políticos eletivos, são acusados de induzir os fieis a assumirem posturas intolerantes. Se a chamada bancada evangélica e os líderes pentecostais tornaram-se alvo de trabalhos recentes, várias perguntas sobre a formação política dos crentes ordinários, por sua vez, ficam sem resposta: Que instituições, que não a igreja, servem como instâncias de subjetivação política para estes fieis? Em que medida eles replicam a performance política de seus líderes? Os níveis de adesão à igreja influenciam em suas aptidões políticas? Meu trabalho tem como objetivo preencher esta lacuna, investigando o que entendo ser uma das principais instâncias da constituição das subjetividades políticas dos fieis pentecostais: os grandes eventos de cunho político promovidos por suas igrejas. Esta modalidade de evento político-religioso parece ser inaugurada pelo pastor Silas Malafaia, figura paradigmática nos embates aqui citados, na ocasião da “Manifestação Pacífica em Brasília” (em junho de 2013), organizada para fazer frente ao que chamava de “ativismo gay” e pressionar pela reprovação da PL 122/2006 (que visava instituir o crime de homofobia no Brasil). Continuando com as manifestações políticas e, desta feita, fazendo coro com as recentes reivindicações pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Malafaia, no fim de semana dos protestos de 13 de Março, inaugura sua primeira igreja em Brasília e convoca os fieis a juntarem-se à passeata naquela cidade. Além disso, marca outro protesto para o mês de Maio, o “Ato profético em favor do Brasil”. Este, organizado exclusivamente por líderes evangélicos capitaneados pelo próprio Malafaia. É a partir, portanto, do trabalho de campo na inauguração da igreja de Malafaia em Brasília, bem como acompanhando os membros de sua igreja nos referidos protestos que pretendo investigar os modos de constituição das subjetividades políticas dos crentes pentecostais, dando ênfase à performance ritualizada nestes eventos de grande proporção.
Apresentação Oral em GT

Às ruas, entre o sagrado e o secular: Novas vozes e atores na sociedade contemporânea.

Autor/es: Daniele de Jesus Oliveira
A Avenida Paulista, em São Paulo, palco de diversas manifestações, protagonizou no dia 07 de junho de 2015, um episódio que acirrou a polêmica entre segmentos religiosos conservadores e os movimentos sociais ligados aos grupos LGBTS, e apoiadores dos Direitos Humanos. O motivo da controvérsia foi a encenação da crucificação de Jesus, pela atriz Viviany Beleboni, num dos trios elétricos que atravessam a Avenida. Com ampla divulgação nas redes sociais, imediamente, líderes religiosos como Silas Malafaia, Deputado Marco Feliciano, Dom Odilo Scherer e outros se manifestaram contrarios, alegando afronta aos princípios religiosos e intolerância por parte da organização da Parada Gay. A partir daí, se estabeleceram dois campos de forças bem definidos, de um lado os grupos seculares (GLBTs) e de outro os religiosos de diferentes denominações, porém os religiosos em questão, compõem um segmento que atualmente transita entre o sagrado e o secular, com expressiva representação política nas esferas do poder nacional, o que por si só mostra como é tênue a linha entre o secular e o religioso na sociedade contemporânea, contrariando assim algumas teses da infalibilidade do processo secular, onde supõem-se que a religião perdeu poder de influência no espaço público. E Nesse sentido, percebe-se que, às ruas nos últimos anos com suas manifestações seculares e religiosas, emergiram como lugar fundamental para a sociedade expôr seus sentimentos e posições políticas, culturais, econômicas. Levando-nos a pensar sobre a análise de Damatta (1997) sobre a gramática das ruas em oposição a da casa, onde a primeira se relaciona a individualidade, desordem , malandragem, enquanto a segunda cabe à ideia de um lugar moralizante, de familiaridade e hospitalidade, quase que uma espécie de ordem cósmica dada por Deus. Deste modo, é possível ver que às ruas com suas vozes, aqui, no caso da parada gay representa na visão dos religiosos a oposição da casa, pois estes consideram os grupos LGBTs libertinos que destroem a instituição família e seus preceitos a medida em que não correspondem aos ensinamentos religiosamente orientado; por seu turno as minorias LGBTs, se defendem alegando que os segmentos religiosos não respeitam as diferenças de pensamento, gênero e outras que compõem a sociedade. Assim, o trabalho pretende analisar o papel das ruas na formação dos movimentos sociais brasileiros, em especial os de cunho de gênero e políticos, bem como as manifestações religiosas (Marcha para Jesus, Shows Gospel) que se valem das ruas para divulgar suas crenças e concepções sobre assuntos de ordem religiosa, mas que erodiram a fronteira do sagrado retomando os espaços públicos, configurando uma sociedade onde secular e religioso estão em constante disputa.
Apresentação Oral em GT

Descriçao sobre igrejas no modelo de células, uma análise antropológica.

Autor/es: Diego Darlisson dos Santos Sousa
Os pentecostais e a forma pela qual expressam e arregimentam fiéis para suas denominações, apontam para uma possível forma de compreender a tomada de espaços políticos por grupos evangélicos. O recente “modelo de células” adotado por algumas dessas igrejas, dentre essas a Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ) baseia seus princípios na “batalha espiritual” como tomadas de espaço (casas, Congresso). Representam uma forma eficiente de dominar através da “crença” e expressam o “desejo” proselitista dos grupos globalizantes e retomam a discursão no entorno da secularização e dessecularização do mundo moderno. O trabalho foi desenvolvido através de entrevistais informais, visitas a bibliografia da IEQ, três entrevistas formais (suficiente para nos demostra a infelicidade dessa escolha) acompanhada de observação participante a encontros, promovidos pela Igreja nos anos de 2014 2015. Tais aspectos complementares adotados na “visão celular”. Forma de organização por células; e um carácter “revolucionário” dado pela fé, através de “atos proféticos”. Tomados como monadas de Tarde (2007) e células assumidas como tal, exemplificam o estar no mundo em suas diferentes formas. Tal modelo de células consiste basicamente em reuniões com liturgia diferenciada quando são realizadas nas casas dos fiéis e com objetivo explícito: esta matriz se reproduzir para outras casas. “Células”, grupo pequeno de pessoas, que reúnem-se uma vez por semana na casa de um membro e submetem-se a uma “congregação”. Uma das marcas desse trabalho ( Andrade 2010) são os “atos proféticos” enquanto ocupação de espaços pela igreja, iniciando nas casas dos seus membros e expandindo se até as assembleias legislativas. Tornando visível suas ações através de “batalhas espirituais”, exemplo maior disto em nossa opinião, são as “marchas para Jesus”. Em meio à disputa eleitoral do ano de 2014 quando acompanhei várias reuniões na cidade de Santarém (PA) demoninadas pelos organizadores de "arregimentação politica" , Nessas reuniões pude verificar quais táticas seriam utilizadas para a conquista de voto para os dois representantes da igreja no estado do Pará. Na candidatura a deputado estadual pastor/deputado Martinho Carmona, primeiro vice-presidente da convenção estadual, e para deputado federal o pastor Pr. Josué Bengtson. No presente trabalho tentarei demostra as continuidades entre o projeto político partidário e o modelo de células.
Apresentação Oral em GT

Rainha do Céu, da Terra e do estado do Paraná: A Festa de Nossa Senhora do Rocio

Autor/es: Edmar Antonio Brostulim
O presente trabalho intenciona discutir as relações entre agentes religiosos e públicos em torno da Festa de Nossa Senhora do Rocio, padroeira oficial do Paraná; festa que é considerada um dos maiores eventos católicos do país. A programação da festa, que inclui eventos religiosos e profanos e é organizada e financiada pelas empresas portuárias da cidade de Paranaguá, onde se localiza o santuário mariano, que mobiliza romeiros, fiéis e turistas de todo o país na primeira quinzena de novembro. A partir dos conceitos de devoção e controvérsia pública, buscar-se á compreender as articulações entre os religiosos, fiéis, agentes públicos e empresas privadas em torno da santa, seja no financiamento da festa ou ainda na disputa pelo espaço onde se localiza o santuário, a zona portuária de Paranaguá. Intentando perceber as negociações entre os devotos, não-devotos e a santa, torna-se relevante perceber como as agências se mobilizam, ora para interesses distintos, ora para os mesmos interesses. Neste sentido, a partir da experiência de campo acompanhando a festa e a programação de missas e romarias do santuário como voluntário da pastoral do turismo, busca-se detalhar a compreensão do fenômeno religioso a partir das relações que estabelece com outros.
Apresentação Oral em GT

In hoc signo vinces: a formação religiosa da iconografia secular pública no Brasil

Autor/es: Evandro de Sousa Bonfim
O objetivo da apresentação é analisar o uso de imagéticas religiosas em demandas por maior laicidade do Estado brasileiro, principalmente por instâncias consideradas não religiosas ou seculares como movimentos sociais (LGBT, feministas, defensores direito dos animais, dentre outros) em manifestações recentes no espaço público brasileiro. A intenção é explorar o aparente paradoxo de mobilização da imagética religiosa pública com o intuito declarado pelos próprios agentes secularizantes de denunciar a presença indevida de elementos religiosos na sociedade civil, como nos casos das formulações de leis e mesmo ações de intolerância religiosa. Se levará em conta, sobretudo, os "deslizamentos de sentido" entre imagens religiosas e seculares, buscando estabelecer as referências para a intericonicidade existente na configuração de uma iconografia secular das manifestações públicas laicizantes no Brasil contemporâneo
Apresentação Oral em GT

Gritos contra a violência em defesa da terra: etnografia de mobilizações coletivas no contexto de conflitos agrários e ambientais no sul e sudeste do Pará

Autor/es: Igor Rolemberg Gois Machado
A partir de uma etnografia sobre conflitos agrários na região do sul e sudeste do Pará, pude acompanhar manifestações coletivas de denúncia contra atos de violência (assassinatos e agressões) dos quais são vítimas trabalhadores rurais, pequenos agricultores, e lideranças de suas organizações. Diferentes atores, tais como associações, sindicatos, movimentos sociais, ONGs, pastorais sociais, familiares das vítimas, participam dessas mobilizações. A imbricação do "religioso" com o "político" está presente em muitas dessas situações que visam tornar público o caráter violento dos conflitos. A análise do repertório dessas ações coletivas, em termos de narração, retórica e dramaturgia, nos ajuda a perceber a combinação desses dois elementos. A adoção de uma perspectiva histórica junto ao método etnográfico, é fundamental para compreender essa imbricação. Os discursos e meios de ação de que dispõem os atores para denunciar a violência e fazer reivindicações têm uma história. No conjunto das mobilizações, diferentes temporalidades se entrecruzam, e elas se manifestam nas diferentes causas defendidas, desde as mais “modernas” como a proteção ao meio-ambiente, até outras como a repartição das terras, que é ainda marcada por uma visão "religiosa" do mundo, compartilhada por muitos dos migrantes e seus descendentes que vieram ocupar a região. Trata-se de argumentos e justificações que têm origens distintas no tempo e implicam diferentes regimes de ação. Vale notar também que a organização de muitos movimentos políticos e populares na região foram influenciados pela presença de um forte trabalho de base de pastorais sociais, durante muitos anos. Tomando como ponto de partida a análise de algumas das mobilizações que aí ocorrem com periodicidade, tais como o ato em memória do “Massacre de Eldorado dos Carajás” e o ato em memória a José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo (lideranças assassinadas em maio de 2011), o artigo visa descrever como a articulação de diferentes elementos, que poderiam ser categorizados como “religiosos” e “políticos” se combinam, e, mais além, como é problemático analiticamente trabalhar com tais categorias. O objetivo é também de submeter à análise antropológica temas clássicos dos estudos políticos, como construção de problemas públicos, formas de engajamento e participação em ações coletivas.
Apresentação Oral em GT

Se estiver na política, fique “longe” da igreja : controvérsias nas disputas eleitorais paraibanas de 2014

Autor/es: Maria Isabel Pia dos Santos, Dilaine Soares Sampaio
Nas eleições paraibanas de 2014, uma das controvérsias provocadas se deu pelo posicionamento da Arquidiocese da Paraíba com a publicação de uma nota normativa em que assumia, dentre outras questões polêmicas, uma posição contrária a participação de clérigos em disputas eleitorais a cargos eletivos. No entanto, eles continuaram a pleitear tais cargos mesmo sujeitos a suspensão do “exercício religioso”. A partir disso, observa-se o imbricamento do "campo" religioso e político no processo eleitoral. As controvérsias se ampliaram com a publicação da "Cartilha Eleições 2014" por esta arquidiocese, na medida em que demonstra a proximidade inexorável entre política e religião, pois através dela, o voto opera como via de valores morais e éticos cristãos, defendidos e estimulados pela Igreja junto a seus fiéis e, simultaneamente, instigando neles um “exercício político” em que suas decisões de voto em determinados candidatos levem em consideração as posturas que apresentam quando confrontados com temas relacionados à vida e à família. Diante disto, esta pesquisa tem a finalidade de investigar, partindo de uma perspectiva socioantropológica, as controvérsias no “campo” político e religioso paraibano nas eleições de 2014, focando as trajetórias cruzadas dos atores em disputa, que transitam entre a religião e a política, reconfigurando tanto o “campo” religioso como o "campo" político.
Apresentação Oral em GT

As manifestações do pacífico: "evangélicos" e "cidadania" na Marcha para Jesus

Autor/es: Raquel Sant'Ana da Silva
Embora o protestantismo brasileiro seja marcado pela heterogeneidade, é possível verificar, juntamente com o recente processo de redemocratização, uma disputa pela representatividade dos “evangélicos” na esfera pública ganhar forma. Além de uma unidade de atuação parlamentar em torno de pautas comuns, a consolidação de uma indústria cultural “gospel” permitiu a circulação de diversos produtos midiáticos que constituíram um repertório comum aos adeptos das diferentes denominações evangélicas, seus simpatizantes e opositores. Neste trabalho analiso as implicações desse processo de construção de um repertório identitário “evangélico” em disputas por projetos de “cidadania”. Para isso, analiso o caso da “Marcha para Jesus”, um evento público de visibilidade evangélica organizado pelos setores mais poderosos da indústria cultural e da política parlamentar evangélica brasileira. A “Marcha” ocorre anualmente em diversos municípios e consiste em grandes caminhadas por locais centrais da cidade, acompanhadas por músicas evangélicas entoadas em alto som pela multidão. A fruição do evento é organizada sob a lógica da “batalha espiritual”/ teologia do domínio, segundo a qual, o diabo teria responsabilidade pelas mazelas sociais. Na Marcha para Jesus, esse repertório vem se combinando a uma concepção específica de cidadania em que ser cidadão seria atuar nessa “batalha”, não apenas em oração, mas na efetiva ocupação do espaço público. Analiso material coletado em observações participantes realizadas nas edições de 2013 do evento nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nessas edições, ocorridas em um ano de grandes manifestações de rua no Brasil, verificou-se a um esforço de diferenciação entre a manifestação pacífica, que seria própria dos que “manifestam a paz de Cristo” e os atos contra o aumento das tarifas de transporte público daquele ano. Os desdobramentos do conceito de performance na noção de “performatividade” permitem analisar a mobilização inseparável de dimensões que nossa bibliografia costuma dividir como política, religião e mídia. Percebemos que o entoar das músicas, o “declarar”, “profetizar”, orar, ou mesmo o pisar sobre um determinado local se tornam a própria performance de uma “cidadania evangélica”. Cidadania conquistada em uma guerra contra “principados e potestades” que seria a “manifestação pacífica do amor de Deus”, em toda a sua polissemia.
Apresentação Oral em GT