Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT038. Interfaces contemporâneas dos estudos de rituais e performances

Os estudos contemporâneos de performance, em suas variadas perspectivas, vieram renovar o estudo antropológico dos rituais, articulando debates que têm configurado um modo profícuo de abordagem da natureza simbólica da experiência humana. O tema atravessa fronteiras internas à disciplina, percorrendo diversas áreas temáticas. Favorecendo a pluralidade da reflexão antropológica contemporânea, o GT pretende favorecer um debate profícuo entre perspectivas conceituais que perpassam diferentes áreas temáticas. Valoriza-se o enfoque etnográfico, diferentes estratégias e metodologias de pesquisa e análise que forneçam o acesso a novos prismas de interpretação dos processos sociais estudados. Interessa-nos especialmente a conjugação entre os estudos de rituais e performances e a abordagem etnográfica das formas expressivas – gêneros poético-musicais, danças, encenações, manipulação e fabrico de objetos e artefatos que se articulam e desarticulam no contexto de formas mais festivas ou mais cotidianas da prática social. Com enfoque comparativo entre perspectivas teórico-metodológicas, busca-se traçar os contornos das novas questões que perpassam esse campo de estudos.

João Miguel Manzolillo Sautchuk (Universidade de Brasília)
(Coordenador/a)
Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
(Coordenador/a)


"QUEM CASA QUER..?" Representações sobre casamento, parentesco e conjugalidade em contextos de ritualização e performance nupcial.

Autor/es: Breno Rodrigo de Oliveira Alencar, Carmem Izabel Rodrigues
A formação de uma parceria afetiva com objetivo conjugal é uma experiência de socialização que pode encontrar no noivado um forma de manifestação ritualizada. Neste trabalho procuramos discutir esta dimensão da vida social partindo de uma pesquisa de campo que reúne entrevistas com casais em diferentes etapas do noivado e o registro etnográfico realizado no âmbito de pastorais familiares católicas responsáveis por organizar o Encontro de Preparação para Vida Matrimonial nas cidades de Belém/PA e Teresina/PI. Os resultados obtidos com esta metodologia permitem afirmar que a experiência de socialização conjugal é orientada por uma ritualização polissêmica e performática que reúne, a um só tempo, uma dimensão prática - fortemente influenciada pelo desejo de aquisição da moradia - e uma dimensão simbólica - caracterizada pela bênção religiosa - cuja atuação revela diferentes estratégias de "navegação" de homens e mulheres. Em diálogo com Peirano, Segalen, Schechner e Tambiah discutimos como essas dimensões atualizam o debate acerca do imaginário sobre o casamento, o parentesco e a conjugalidade na interface com projetos e estilos de vida que são permanentemente tensionados por representações difusas sobre papéis em contextos urbanos e tradicionais.
Apresentação Oral em GT

"Nem dito nem feito”: dramaturgia, linguagem poética e performance na Companhia Brasileira de Teatro

Autor/es: Cauê Krüger
Análises bibliográficas sobre teatro, ritual e performance contam com obras clássicas tanto de orientação teatral (Artaud, 1999; Grotowski, 1992; Schechner, 1988; Taylor, 2013) quanto antropológica (Kuper, 1944; Leiris, 1958; Turner, 1982; Tambiah, 1996) e há, até mesmo, registros etnográficos nacionais sobre a concepção de “teatro ritual” e de processos ritualísticos no treinamento e na formação do ator (Castro, 1992; Mariz, 2007; Toledo, 2007). As características do teatro contemporâneo, entretanto, apresentam um interessante desafio à continuidade desta tradição: a ruptura com a representação de personagens, a diminuição da importância do treinamento do ator e as alterações da estrutura dramática (Lehmann, 2008; Ryngaert, 2013; Da Costa, 2009) estabelecem novas configurações cênicas que tendem a enfatizar a presença, a narrativa e a fala na construção da poética teatral, revelando maior ambiguidade e polissemia dramáticas em uma aproximação com a performance art. O presente trabalho busca elencar afinidades e distanciamentos entre a noção antropológica de ritual e a ideia de teatro contemporâneo (Cavalcanti, 2015) com destaque para o uso ritual da linguagem, o emprego da reflexividade, a formação de um enunciador complexo e plural, bem como procedimentos de metalinguagem como teorizados por Carlo Severi (1992, 2002, 2008). Esta chave de interpretação dos dados provenientes de pesquisa etnográfica, em andamento desde 2013, junto à Companhia Brasileira de Teatro, permitirá ainda contribuições adicionais de John Austin, Richard Bauman, Dell Hymes e Paul Zumthor, em renovada interpretação antropológica das noções de encontro, dramaturgia e linguagem poética como apresentadas por uma das companhias teatrais de maior destaque no contexto brasileiro atual.
Apresentação Oral em GT

As muitas faces de Cristo: uma reflexão sobre performance e ritual na Semana Santa

Autor/es: Edilson Sandro Pereira
Nesta apresentação, abordo a atuação dramática mantida por diferentes pessoas que, no contexto de celebração da Semana Santa em Ouro Preto (MG), assumem o papel de Jesus Cristo. A partir da análise etnográfica das dramatizações públicas protagonizadas por tais “atores” (com ou sem aspirações artísticas) e da observação das tensões que caracterizam a experiência de pôr em cena esse personagem sagrado, abordo as fronteiras que permitiram distinguir, segundo alguns moradores, entre o que seria próprio de um “ritual religioso” e o que caracterizaria um “puro teatro”. E, dentro desse cenário mais amplo, proponho uma reflexão sobre a variação dos efeitos da imitação cênica de Cristo, tanto para os performers quanto para os seus públicos.
Apresentação Oral em GT

Como compor a etnografia de um ritual - Música, dança e performance na Festa da Moça Nova dos índios Ticuna

Autor/es: Edson Tosta Matarezio Filho
Os Ticuna são uma população indígena de língua isolada, concertada principalmente no alto curso do rio Solimões (AM), tríplice fronteira do Brasil, Peru e Colômbia. O ritual mais importante para estes índios é a chamada Festa da Moça Nova, ritual de iniciação feminina. Trata-se de um rito realizado por ocasião da menarca das meninas, demanda uma longa preparação e culmina em três dias de festa. No último dia, as moças são retiradas da reclusão e têm seus cabelos arrancados. Meu foco nesta comunicação é o seguinte desafio metodológico com o qual tive que lidar em minha pesquisa de doutorado sobre a Festa da Moça Nova (Matarezio, 2015): como compor uma estratégia para etnografar e analisar algo tão complexo como um ritual? No âmbito deste desafio, compus a Festa que inventei – no sentido roy-wagneriano de invenção –, com a seguinte fórmula: 1) observação e participação, 2) etnografias de terceiros, e 3) relatos e exegeses. Temos aqui três elementos que colaboraram para a descrição e análise dos rituais, mas que isoladamente não são confiáveis. Deste modo, pretendo mostrar alguns exemplos de elementos do mencionado ritual que são melhor compreendidos quando – aliados as minhas observações das Festas que etnografei – incluem os comentários dos Ticuna sobre como devem ser e como eram as Festas, os dados etnográficos de outros pesquisadores que se debruçaram sobre o tema, abarcando também etnografias dos Ticuna do Peru e da Colômbia. Partindo desta estratégia, pude notar que alguns elementos que existiam apenas “antigamente” têm suas idas e vindas. Daí a importância de se ressaltar os elementos que, apesar de estarem em desuso atualmente, permanecem na memória das pessoas como característicos da Festa. Podemos dizer que os Ticuna possuem uma espécie de ethos messiânico – o que inclui movimentos messiânicos de fato. Existem ocasiões em que uma volta à “tradição” é aquecida pelos acontecimentos, especialmente em momentos de crise. Nestas ocasiões o saber ritual que estava hibernando na memória dos velhos vem à tona como uma diretriz para as ações. A expressão mais radical deste retorno à “tradição” é a ressurgência da Festa da Moça Nova em aldeias que já não o praticavam mais. Num grau menor, alguns elementos aparecem em determinadas execuções do ritual e não aparecem em outras. A liturgia e as “regras de funcionamento” do ritual de iniciação feminina dos Ticuna, portanto, possuem uma flutuação bastante grande. Muitas vezes, um “mestre de cerimônias” (üaü̃cü), que pode conhecer mais ou menos as “regras” antigas, coloca ênfase nestas “regras” que podem ser seguidas ou não. Em geral, quanto mais “regras” são lembradas e se consegue colocar elas em prática no ritual, mais a Festa é valorizada como “tradicional”, como faziam os antigos.
Apresentação Oral em GT

“Entre índios de verdade e tradições de boniteza”: Tribos de Índios, identidades e performance no carnaval

Autor/es: Jessyca Barbosa Marins, Luciana de Oliveira Chianca
O presente trabalho é fruto de uma reflexão acerca da manifestação carnavalesca conhecida como Tribos de Índio, na qual seus praticantes apresentam uma tribo, composta por indígenas com diversas atribuições: cacique, pajé, feiticeiro, caçador, curumins, espiões, invasores e contramestre, mas também personagens carnavalescos como porta-estandarte e músicos. Nossa pesquisa foi realizada através da observação direta da Tribo de Índio Guanabara (Mandacaru, João Pessoa/PB), num bairro que hoje concentra três das dez Tribos de Índio da cidade. Pautados em sua performance durante um grande desfile/concurso público oficial realizado na cidade por ocasião do Carnaval, em seus ensaios e em diversas situações cotidianas, buscamos apreender sua percepção sobre a própria identidade e as possibilidades políticas do reconhecimento extraordinário de uma identidade indígena cotidianamente encoberta. Percebemos ali o reforço de um estereótipo de “índio", bastante sintonizado com o imaginário comum que distingue "índios de verdade" (portadores de sinais diacríticos específicos), e "índios de mentira"- aqueles que destacam esses sinais apenas em momentos especiais, como em processos reivindicatórios ou, neste caso, na festa. No entanto, como expressão do patrimônio imaterial do bairro de Mandacaru, a Tribo de Índio Guanabara representa um recurso suplementar à visibilidade e ao reconhecimento de uma identidade urbana, trabalhadora e pobre (pois seus integrantes assim se reconhecem e afirmam), conciliando uma identidade negra- que lhes interpela cotidianamente- com outra, "perdida", que é preciso "resgatar", segundo suas próprias falas. Deste modo, eles recorrem a autoridades do "saber indígena"- reconhecidas localmente como fonte de informação e inspiração, e produzem uma síntese performática que envolve elementos de uma suposta tradicionalidade indígena, com elementos autóctones (como a Dança do Sapo e o ritual da Matança), englobando outros recursos musicais e dramáticos como seus imponentes Capacetes. Identificados como recursos técnicos e estéticos de outras linhagens culturais, estes últimos são valorizados em sua "tradição de boniteza", permitindo a elaboração de uma performance espetacular ao mesmo tempo conforme e original, sintetizando este falso paradoxo no desfile carnavalesco.
Apresentação Oral em GT

Performance, tempo e espaço em uma sequência ritual da Festa de Nossa Senhora do Rosário do Serro

Autor/es: Joana Ramalho Ortigão Corrêa
Proponho apresentar apontamentos etnográficos sobre a importância das dinâmicas de tempo e espaço no desenvolvimento de performances rituais da Festa de Nossa Senhora do Rosário do município do Serro (Minas Gerais), realizada anualmente no mês de julho. O Serro foi uma das primeiras cidades brasileiras a ter seu conjunto histórico e arquitetônico tombado, em 1938, pelo governo federal. A irmandade do Rosário do município, responsável pela festa, está dentre as mais antigas que se tem notícia no Brasil. Embora as narrativas históricas sobre a festa a associem à devoção de negros, tornou-se para os serranos de forma mais ampla um espaço privilegiado para a articulação de memórias e movimentação de relações sociais. Participam ativamente da festa grupos de dançantes conhecidos como Catopês, Marujos, Caboclos e Caixa de Assovios, que podem ser inscritos no que se convencionou como Congado Mineiro. São eles os principais responsáveis pela circulação da festa e seus elementos na paisagem da cidade. O calendário que envolve a preparação da festa tem início um ano e dois meses antes da semana festiva propriamente dita, com a eleição dos festeiros. A festa tem onze dias duração, envolvendo novenas, missas, procissões, cortejos dos dançantes e refeições coletivas. Pretendo abordar especificamente os fluxos temporais e movimentações espaciais que organizam as performances dos dançantes na sequência ritual do Primeiro Reinado, que se desenvolve durante o domingo principal da festa, no primeiro final de semana de julho.
Apresentação Oral em GT

Sobre mulheres brabas: ritual e apresentação entre os Arara de Rondônia

Autor/es: Júlia Otero dos Santos
Este trabalho debruça-se sobre o Wayo at' Kanã, um ritual realizado pelos Arara de Rondônia, povo falante de Tupi-Ramarama e habitante da região do rio Machado. Traduzido como Festa do Jacaré, o mote principal do ritual é o assassínio da espécie jacaretinga por mulheres consideradas brabas, seguido por dança com o animal e seu consumo em forma de caldo por todos os participantes. Após alguns anos sem realizar essa festa, ela foi retomada em 2010 no escopo de um projeto de revitalização de práticas culturais. Do ponto de vista arara, a inserção do Wayo at' Kanã nesse novo contexto impõe uma série de transformações ao rito que repercutem em sua execução e gera determinados efeitos. Entre as mudanças, destaco o caráter de apresentação que passa ser atribuído ao ritual, pois as pessoas dizem estar “apresentando a sua cultura”. O objetivo principal desse trabalho é compreender as formulações araras acerca do caráter performativo da festa em um contexto interétnico em que a festa aparece como emblema de um povo. O ritual é entendido aqui como um espaço-tempo que possibilita a reunião das diferentes aldeias e a emergência de uma forma povo, raramente acionada no cotidiano, este marcado por uma sociabilidade familiar. Busca-se compreender como a ideia de apresentação – tomada enquanto conceito nativo e não enquanto falsificação com fins de manipulação de uma identidade étnica – imprime sua marca nas ações rituais bem como oferece uma interpretação nativa acerca dos poderes e sentidos da performance.
Apresentação Oral em GT

Análise músico-ritual do Pep-cahàc Ràmkôkamekra/Canela

Autor/es: Odair Giraldin, Ligia Raquel Rodrigues Soares
O Pep-cahàc é considerado pelos Ràmkôkamekra/Canela (povo Jê-Timbira) como o seu mais expressivo ritual. Trata-se de um ritual de iniciação e formação masculina, executado a intervalos de vários anos e cuja duração pode se estender a até dois anos (Crocker, 1990). Seu planejamento é sempre realizado atenciosa e ponderadamente pelos mais velhos (Proh-kam - conselho de anciãos) e por aqueles que estão à frente deste ritual (os promotores e responsáveis pelo mesmo). Desde 2014 temos acompanhado um ritual do Pep-cahàc iniciado naquele ano e cujo final está previsto para junho de 2016. Seja pela etnografia deste ritual em curso, ou pelas informações sobre os realizados anteriormente, observamos que se trata de um ritual minucioso e amplo de detalhes músico-performáticos. O extenso repertório musical, registrado e analisado nesta etnografia, ocorreu ao longo de anos de trabalho de campo (Soares, 2015). Foi possível registrar e catalogar a existência de 200 cantos que chamamos de sistema cancional Pep-cahàc. Os cantos são divididos em vários conjuntos. O conjunto cancional Pep-cahàc, é um gênero musical composto de 107 cantos noturnos performatizados na casa de reclusão dos jovens, executados por um cantor experiente, uma cantora igualmente experiente, duas meninas aprendizes que acompanham a cantora e também por todos os rapazes reclusos. Além desse, há ainda vinte e um outros conjuntos (com nomes específicos ligados aos detalhes músico-performáticos aos quais estão relacionados), que reúnem os demais 93 cantos. Analisaremos neste paper o conjunto cancional Pep-cahàc, através de sua etnografia musical (Seeger, 2008) tratando da relação entre os cantos, a performance, corpo e cosmologia. Porque, para os Ràmkôkamekra/Canela, também se aplica a afirmação de Seeger de que body movement is part of most musical performance in Lowland South America (Seeger, 2015, p.40), além de considerar the importance of the emotions created through music and dance performances and the significance of space established through the movements of musicians and dancers through space (Idem, p.51). Para isso, lançamos mão dos conceitos de ritual como sistema cultural de comunicação (Tambiah, 1985) e também da performance musical (Seeger, 1977, 1980) para analisar o contexto de performance desta parte do ritual, para mostrar porque que eles estão fazendo aquilo daquela maneira (Seeger, 1980) quando performatizam esses cantos. Para isso, faz-se necessário estender a analise da performance para a noção de corpo e de sua construção pelos processos de reclusão e resguardos, bem como o contexto cosmológico através da noção nativa de ajpên cate (uma ideia de provocar um emparelhamento de diferentes corpos através de práticas adequadas de reclusão, resguardos e tratamentos profiláticos).
Palavras chave: Etnologia, ritual, música
Apresentação Oral em GT

Vissungos, vissungar, vissungueiros. sentidos tradicionais e usos contemporâneos de um ritual fúnebre.

Autor/es: Oswaldo Giovannini Junior
Os cantos vissungos foram registrados na década de 1930 por Aires da Mata Machado em garimpos de diamantes em São João da Chapada, Diamantina, Minas Gerais. Os cantadores eram remanescentes de escravos que ainda cantavam alguns cantos em língua africana, ou “dialeto crioulo”, no trabalho do garimpo, em festas religiosas, para carregar defunto, e em situações cotidianas, envolvendo uma “língua secreta” e também efeitos mágicos. Tornaram-se conhecidos dentro do Movimento Folclórico e emblemáticos da cultura afrobrasileira ganhando ressonância (Greenblat) para além do contexto onde foram originalmente criados. Analiso os cantos vissungos refletindo à luz da antropologia dos estudos de rituais (Mauss, Turner, Tambiah, Wilson), compreendo-os em sua produção local e em seus deslocamentos e suas diversas camadas de significações agregadas a eles nesses processos. O objetivo é compreender os cantos vissungos em seus sentidos tradicionais e em seus usos contemporâneos. Os símbolos rituais, os cantos, a linguagem e as metáforas comunicam algo aos homens e os instigam para a ação por eles e através deles e o fazem dentro de uma realidade social que lhes dá sentido. Os cantos rituais, organizando sentimentos e ações têm sua força na potência criativa de um cosmos, de um mundo habitado por seres humanos e não humanos em interação, classificados e concebidos de acordo com uma determinada ordem. A manipulação simbólica é necessária para o controle desta ordem, para manter as coisas no lugar ou manipulá-las de acordo com as necessidades de seus agentes, seja no sentido de alcançar uma cura ou provocar uma moléstia, de superar um conflito ou derrotar um inimigo, de criar laços de solidariedade ou provocar uma transformação na ordem social, de permitir a vinda de um novo rebento ou de controlar a ação da morte na vida dos homens, seja enfim para demonstrar poder diante de outros homens e classificar pessoas de acordo com papéis sociais. Nesse sentido compreendo os cantos vissungos, sejam eles cantados e significados como cantos de trabalho, de levantamento de mastro, de louvor à santa dos escravos, sejam de saudação, de multa ou de carregar defunto, sejam também compreendidos como canto dos escravos ou como patrimônio cultural, língua com segredo ou contribuição do elemento negro para a cultura brasileira. Mesmo em seu processo de deslocamento social os cantos continuam carregando suas propriedades rituais e simbólicas e atuam na sociedade e no ânimo dos homens, provocando emoções, identidades, interações, integração ou tensão social, manutenção ou transformações na ordem social e cósmica, de acordo com o sentido que lhe são atribuídos aos que deles fazem uso.
Apresentação Oral em GT

Performances na finalização do ritual, a fugida e morte na brincadeira de boi.

Autor/es: Paula Layane Pereira de Sousa
O ritual é uma constante variável, pois depende de quem, como e quando é realizado. Significa ação e representação simbólica realizada por um grupo social e pode apresentar diferentes finalidades. O considerado ritual de bumba-meu-boi realizado por grupos formados muitas vezes por gerações familiares, como é o caso do grupo Imperador da Ilha da cidade de Teresina-PI, apresentam etapas de construção e efetivação da brincadeira que vão desde a preparação com ensaios, iniciação da brincadeira com o batizado, as apresentações, até a morte do boi (artefato). Antes da ultima etapa tem ainda a fugida do boi que junto a sua morte consolida o fim de mais um ano de brincadeira. Estas últimas duas etapas são também de fundamental importância devido a intensificação da relação existente entre a narrativa do boi e as performance dos brincantes e a promoção do sentimento de pertencimento ao grupo, uma vez que brincantes de diferentes grupos também participam destes momentos. Sendo assim, este trabalho tem como objetivo demonstrar a performance dos brincantes no ritual nas suas etapas finais uma vez que se intensifica a relação entre performance e narrativa, assim como o reforço dos papeis sociais. O trabalho aqui apresentado é parte de uma pesquisa já finalizada que trata do ritual de bumba-meu-boi, e teve como método a etnografia, que permitiu a vivencia e busca pelas relações e simbologias referentes ao ritual do bumba-meu-boi. Sendo assim, evidenciou-se que o grupo vive e transforma sua realidade a partir da brincadeira, principalmente na ultimas duas etapas que concretizam e finalizam o ritual.
Palavras chave: Bumba-meu-boi. Ritual. Performance.
Apresentação Oral em GT

“Fogo no beco que o beco está escuro!” – A confecção dos fogos de artifício em Estância - SE

Autor/es: Priscila Soares Silva
Taboca retirada, cortada, lixada, enrolada e bitolada. Preparação da pólvora: pisaro salito, o enxofre e a cachaça. Pisados carvão e pólvora, junto com a limaia são embarrados ou colocados com muita atenção e cuidado, um a um na taboca. Plásticos coloridos: amarelo, vermelho, verde e azul; cortados e pregados, são enfeite da boca de fogo. Materiais frágeis e perigosos. Trabalho corporal envolvendo mãos firmes e calejadas, braços fortes e olhar atento. Eis o longo processo de fabricação dos fogos de artifício – espada, busca-pé e barco de fogo - cheio de detalhes e cuidados que começa tão logo se inicia o ano, antes em fundos de quintais e hoje em casas de fabricação de fogos. Tudo preparado para os trinta dias de Festejos Juninos da cidade de Estância – SE, festa que possui como atração principal os shows pirotécnicos e valoriza a dimensão lúdica baseada em brincadeiras, desafios, riscos, medo, espanto e admiração. Destaco nesta comunicação a etnografia da arte de fazer fogos de artifício, saber-fazer que se utiliza de técnicas corporais transmitidas pela tradição local. E, elejo os estudos da performance como enfoque no patrimônio cultural intangível para análise deste processo ritual. No contexto dos bastidores festivo a produção dos fogos de artifício permite demonstrar como o destaque de artefatos culturais provoca mudanças no ofício de seus produtores, da esfera lúdica para a esfera do trabalho, a partir de mecanismos de regulação do ritual do Pisa Pólvora e da soltura dos fogos de artifício nas ruas da cidade. Enquanto nas apresentações públicas estes artefatos tornam-se, no plano simbólico, objeto de diferenciação e tematização da festa, ícones representativos da cidade sendo úteis nas propagandas e lucrativos em sua produção. Assim, os fogos de artifício remetem às lembranças de um passado recente ou distante, são produzidos e consumidos em momentos performáticos com base no espetáculo e tornam-se indispensáveis na construção da memória coletiva da cidade e de cada participante da festa.
Apresentação Oral em GT

Drama, ritual e festa: gênero e sexualidade em performance no São João de Belém – Pará.

Autor/es: Rafael da Silva Noleto
Os concursos de quadrilha, que caracterizam e animam os festejos juninos, são marcados por performances dançadas cujos enredos giram em torno de noções corporificadas de ruralidade, conjugalidade, religiosidade e sexualidade. Pressupondo que dramas sociais estão conectados a dramas estéticos, entende-se que as coreografias juninas encenam a resolução de um drama social de atribuição de paternidade. Dessa maneira, a celebração de um casamento surge como ação reparadora do drama instaurado, resultando na inserção de mulheres e homens em um sistema de relações de parentesco. Entretanto, nos concursos de quadrilha de Belém (Pará), financiados pelos poderes públicos, há uma expressiva participação de homossexuais, travestis, transexuais e transgêneros, que desestabilizam, no plano estético, a divisão coreográfica binária entre damas e cavalheiros e, no plano simbólico/social, as concepções tradicionais sobre conjugalidade heterossexual. Com base em trabalho de campo realizado em concursos juninos, objetiva-se discutir a articulação das noções antropológicas de ritual, drama social, festa e performance aos debates sobre gênero e sexualidade em um contexto de produção de cultura popular."
Palavras chave: ritual, festa, sexualidade
Apresentação Oral em GT

As festas populares na Amazônia: os fluxos entre os grupos de dança das cidades de Manaus (AM), Parintins (AM) e Santarém (PA)

Autor/es: Socorro de Souza Batalha, Deise Lucy Oliveira Montardo – PPGAS/UFAM
O artigo apresenta apontamentos iniciais de uma pesquisa sobre os fluxos e práticas dos grupos de dança Wãnkõ Caçaueré, da cidade de Manaus (AM); Garantido Show, da cidade de Parintins (AM) e Festa do Carimbó, da cidade de Santarém (PA). A construção de parcerias e trocas entre os festivais amazônicos, sempre foi comum, uma vez que grupos de brincantes e dirigentes se deslocavam para participarem de outras festividades. Atualmente esses fluxos têm ganhado novas configurações, nas quais ocorrem negociações, disputas de poder e reconhecimentos performáticos. Dentro desse processo de circulação se destacam o Festival Folclórico do Amazonas, Festival Folclórico de Parintins e Festival dos Botos de Santarém, por contratarem e receberem grupos de dança. O estudo tem se delineado no acompanhamento do grupo de Dança Wãnkõ Caçaueré em suas apresentações na cidade Manaus e fechamentos de contratos com as Associações Folclóricas do Boi-Bumbá Garantido de Parintins, do Boi-Bumbá Corre campo de Manaus e do Boto Tucuxi de Santarém. Há um amplo destaque para os grupos que se apresentam, mas para que isto aconteça, há dentro dos bastidores disputas entre as equipes de dança. Portanto, existe uma concorrência e consequente seleção para a contratação de quem irá se apresentar, visto que não se trata de um grupo fixo para todos os espetáculos, mas sim um fluxo de complementaridade. Ao acompanhar os percursos dos agentes em diferentes festivais folclóricos é possível perceber as formas de organização dos grupos e os sistemas que são estabelecidos e, portanto, suas alianças e parcerias.
Apresentação Oral em GT

A bateria "nota dez" da escola de samba Balanço do Morro: se for pra "chupar sangue”, é melhor pedir "arrego"

Autor/es: Valdemiro Severiano Filho, Valdemiro Severiano Filho Luiz Assunção
O presente trabalho tem como proposta compreender a dupla dimensão da “bateria” de uma escola de samba que, enquanto ação coletiva, por um lado, é força integradora e mobilizadora de participantes e brincantes, constituindo uma opção de lazer, festa e diversão, e, por outro, consiste num trabalho organizado e árduo, que exige técnica e dedicação, com uma finalidade específica: sair vitorioso. Pretende-se refletir o aspecto performático da bateria, que envolve não somente o componente percussivo da música, mas a atuação, a dança e o canto, exigidos e ensaiados exaustivamente. A análise sociocultural da qual partimos, buscando interpretar a teia de significações em que estão imersos puxadores, diretores e ritmistas, é fruto da pesquisa etnográfica, por meio de observação participante nos ensaios realizados pela bateria da agremiação “Balanço do Morro” e entrevistas semiestruturadas com seus participantes. Na preparação para o desfile das escolas de samba de Natal/RN há inúmeros processos artístico-culturais que perpassam por dois eixos, compondo a totalidade carnavalesca: o “visual” e o “samba” (CAVALCANTI, 1994). Neste contexto, a “bateria”, enquanto um dos principais elementos do “samba” de uma escola, ocupa uma centralidade na dimensão agonística deste universo cultural, que, embora seja uma forma inclusiva e aberta de expressão, exige-se responsabilidade e comprometimento, para assegurar o sonhado “dez” na apuração. A performance da escola de samba depende, assim, sobremaneira da “bateria”, havendo uma única chance, que pode funcionar ou não. Este elemento artístico-sonoro tem um caráter ritual e dramático que permeia todo o universo carnavalesco e da cultura popular, sobretudo, por se tratar de um quesito formal do desfile e, de acordo com o regulamento, o primeiro critério de desempate. Pelo papel ocupado no desfile e pelo caráter coletivo como prática geradora de sociabilidade que permite uma leitura do cotidiano mergulhado em diálogos e tensões, verifica-se a relevância de compreender, através da presente pesquisa, este aspecto musical (ou do “samba”) da escola de samba. Assim, se for pra ficar “chupando sangue”, é melhor “arregar”, porque a “Balanço do Morro” é nota dez na bateria.
Apresentação Oral em GT

Importância social e performance dos músicos no contexto do desfile cívico em Rio Tinto - PB: um estudo de caso

Autor/es: Caio Nobre Lisboa
O presente trabalho dedica-se a Bandas de Música e Fanfarras do Município de Rio Tinto – PB, a partir da interlocução com um músico integrante da Banda de Música Municipal Antônio Cruz e também instrutor da Fanfarra Antônia Luna Lisboa, de escola homônima da rede municipal de ensino. Intento esse que exigiu um aporte teórico interdisciplinar para sua compreensão: começando pelas imagens, uma de suas “protagonistas”, com ênfase no filme etnográfico e nas implicações que a Antropologia Visual tem para a Antropologia em geral; em seguida, com a Música e, mais geralmente, a Arte, apresentando-nos outras implicações relativas ao conhecimento da sociedade e das culturas, com um pé bem firme nos estudos de performance, levando em consideração autores como Victor Turner e, em especial, Richard Schechner. Um fundamento teórico assentado nas Memórias foi de grande relevância, incluindo ainda os estudos de Histórias de Vida e Etnobiografia. Meus objetivos residiram, em suma, em tentar expandir a percepção da música e daqueles nela envolvidos assumindo a existência de relações (muitas vezes conflituosas) que expressam âmbitos tanto individuais como socioculturais. Consequente do embasamento concebido, tive que igualmente me utilizar de uma metodologia na qual se entrecruzaram aspectos de outras metodologias, dentre as quais se destacam a observação participante (no sentido clássico), a observação diferida, a metodologia exploratória em Antropologia Visual e a história oral. Com resultados desde a obtenção de materiais audiovisuais filmados de performances musicais, destacando-se o desfile cívico-militar de Sete de Setembro da cidade – no momento presente da elaboração desse resumo, sendo transformados em filme para meu Trabalho de Conclusão de Curso –, bem como transcrições de áudio de duas entrevistas de áudio-vídeo-elicitação, retornado ao interlocutor, e por fim, um trabalho escrito orientado a um conhecimento e análise desse universo a mim apresentado da forma mais acurada e ética possível.
Pôster em GT