Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT034. Etnografias em contextos de violência

O objetivo deste GT é reunir pesquisas realizados em contextos de violência, conflitos ou extremada tensão social. Serão bem vindas as etnografias que envolvam situações de crises, sejam elas corriqueiras ou aparentemente fortuitas, sejam conflitos armados, processos de militarização e mesmo guerras civis, entre outras formas de tensão social. O delineamento das fronteiras (sempre fluidas) das diferenças (nacionais, étnico-raciais, de gênero e sexuais, regionais, religiosas, territoriais, etc), com seu jogo de interpretações e valorações, é o espaço-tempo privilegiado de observação dessas situações de crises. Esse é o momento da tensão social, durante o qual podem se desencadear os atos de excesso verificados no exercício das relações de poder e de sentido causadores dos danos sociais sob a forma de violência física ou simbólica. O propósito deste GT é, ainda, refletir sobre as experiências das violências física e simbólica na produção de etnografias. Trata-se, igualmente, de se colocar em perspectiva o lugar da militarização (em sua ampla acepção) na produção e na solução não apenas de conflitos (portanto, a razão humanitária também será interpelada de modo crítico), mas igualmente da violência racial e de gênero, dentre outras. Assim, interessa-nos abrir espaço tanto para entender as ações e a violência do racismo da ultradireita e o surgimento das chamadas “guerras étnicas” ou apreender os sentidos das negações e silenciamentos dos processos de produção de diferenças.

Fabiano de Souza Gontijo (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ)
(Coordenador/a)
Laura Moutinho (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO)
(Coordenador/a)


Identidades em movimento

Autor/es: Aline Gama de Almeida, Clarice Ehlers Peixoto
A partir da etnografia com familiares de vítimas do Rio de Janeiro em movimentos sociais contra violência analisamos como alguns familiares transformam suas identidades individuais em identidades coletivas e outros ao verem suas identidades espetacularizadas pela mídia “fogem” desse trânsito. Nesse processo, aqueles que transformam suas identidades em uma identidade coletiva acionam sua condição de familiar como uma autoridade moral que transita tanto entre o sofrimento individual para causas coletivas, como entre as causas que ao se tornarem coletivas reacendem a memória de seus sofrimentos individuais. Isto é, não é só o sofrimento individual que se converte em uma luta coletiva contra a violência, como analisou Luc Boltanski, mas também suas identidades de familiares de vítimas se reconstroem em prol da causa e os transformam em pessoas-símbolos contra violência que são acionadas pelo coletivo (mídia, movimentos sociais e novos familiares de vítimas – nessa “ordem”) no momento em que novas violências são publicadas noticiário. Essas identidades elaboradas para o coletivo como representantes do familiar que se foi e, também, de determinado grupo ou causa que surgiu a partir da violência original, como conceituada por Veena Das, retoma a ideia de família construída ao longo do século XVIII. Essa ideia, como demonstra Philip Ariès e outros, é centrada na noção de individuo e a família é entendida como um conjunto de indivíduos reunidos por laços contratuais e de sangue. Entretanto, esse trânsito em situação limite permite o surgimento de movimentos de negação ou de um agenciamento de identidades em diferentes situações. Dessa forma, baseado nas análises contemporâneas de identidade de Stuart Hall e de família de François de Singly, entre outros, esse trabalho analisa os diversos movimentos em que essas diferentes identidades são acionadas entre o individual e o coletivo nos movimentos sociais contra violência a partir de dados do campo e de entrevistas.
Apresentação Oral em GT

As estratégias do (sobre)viver: juventude negra no contexto genocida anti-negro

Autor/es: Aline Maia Nascimento
As interações sociais presentes entre população negra e o Estado brasileiro revelam tensões raciais que se desdobram de forma recorrente nos cenários cotidianos. Se optarmos por um recorte etário, observaremos que a morte sistemática de jovens negros é capaz de deixar ainda mais nítida a estrutura anti-negra que promove a aniquilação social e/ou física de negros no Brasil. Neste artigo, a partir do ponto de vista etnográfico, investigo as as práticas, ações e estratégias de resiliência e resistência da juventude negra frente ao genocídio anti-negro. São experiências que sugerem que os fios que tecem as geografias das mortes negras congregam fortes redes que se criam não só a partir de alianças entre os (sobre)viventes da estrutura anti-negra, mas essencialmente ao lado daqueles que de alguma maneira foram aniquilados físico ou socialmente.
Apresentação Oral em GT

Entre o pré-julgamento e o justiçamento popular: convenções de gênero, raça e classe nos linchamentos brasileiros

Autor/es: Ana Laura Lobato Pinheiro
As recentes mudanças nas condições objetivas das vidas dos brasileiros não foram acompanhadas de mudanças profundas no tecido social brasileiro. Ainda que tenham sido diversificados os mecanismos de participação social e política, e fortalecidos o sistema de justiça e de transparência da gestão pública não foram suficientes para pôr em curso narrativas de valorização da democracia ou dos direitos humanos. Ao contrário, as tímidas alterações no imaginário social, especialmente aquelas provocadas por maior visibilidade de grupos e corpos historicamente marcados pela opressão e exclusão segundo suas diferenças de raça/etnia, de sexo, de gênero, de orientação e práticas sexuais, de religião, de renda, de território, têm sido mobilizadoras de desqualificações dos sujeitos e incitações à violência. Em grande medida, estão associadas às características históricas, que mesmo após a independência, foi gerido por elites que não se dispuseram a separar o público do privado, nem mesmo a preconizar os valores republicanos (CARVALHO, 2015). Nesse mesmo período constituiu-se o que Martins (2015) chama de uma “cultura do linchamento” no Brasil, sobre a qual não tem havido muitos estudos capazes de oferecer instrumentos de inteligibilidade. O linchamento, cujo índice é de 1 por dia “está fundamentalmente baseado num julgamento moral. É, sobretudo, indicativo de que há um limite para o crime, para o delito e, por incrível que pareça, para a própria violência – há o crime legítimo, embora ilegal, e há o crime sem legitimidade” (Martins, 2015). A conivência ou mesmo participação de policiais em linchamentos, como demonstrado por Sinnhoretto (2002), por considerarem legítima a ação dos linchadores não levam a cabo as investigações. Os principais motivos para execução do linchamento são em 55,7% dos casos por crimes contra pessoa (homicídio e abuso sexual, por exemplo), seguidos de 20,8% dos crimes contra pessoa e propriedade (roubo seguido de morte, principalmente). Contudo, há também aqueles que são linchados por transgredirem o que Martins (2015) chamou de princípios de convivência social e civilidade local (8,6%). Os efeitos da biopolítica pós-política (Slavoy Zizek, 2014) através da qual se “renúncia às grandes causas ideológicas, e tudo que resta é a administração eficaz da vida” tem nos impedido de observar a desumanização destes corpos, que nos ritos do linchamento são cruelmente agredidos, mutilados e marcados segundo hierarquias de gênero, raça, classe e sexualidade. Propõe-se traçar linhas de inteligibilidade sobre tais formas de violência e possibilitar compreensão sobre as mudanças recentes no tecido social brasileiro em que estão circunscritas observando as convenções e moralidades ancoradas nas formas de diferenciação destes corpos.
Palavras chave: Linchamentos, gênero, raça
Apresentação Oral em GT

Cuidar, curar, resistir: violência e corporeidade entre mulheres Tembé Tenetehara (Santa Maria - PA)

Autor/es: Camille Gouveia Castelo Branco Barata, Jane Felipe Beltrão
O trabalho problematiza as práticas de cuidado e proteção do corpo frente a situações de violência entre as mulheres Tembé/Tenetehara, moradoras do hoje município de Santa Maria do Pará. O corpo e as múltiplas corporeidades que coexistem entre as interlocutoras são aqui entendidos como territórios privilegiados da resistência das indígenas mulheres e das formas de cuidar de si mesmas. No caso dessas protagonistas, o corpo vem à cena tanto como alvo de violências e estigmas, quanto como território de “lutas” e afirmações identitárias. Essa relação se adensa na medida em que é no corpo que se inscrevem as violações da sociedade envolvente, que desrespeitam a autodeterminação dos povos e os lugares de enunciação de indígenas mulheres. Nesse sentido, as práticas corporais das Tembé Tenetehara também perpassam um empreendimento anti-hierárquico e desestabilizador da normatividade etnocêntrica e anunciam e enunciam a identidade étnica e as mulheridades plurais das interlocutoras em contexto amazônico. Nesse sentido, interessa compreender formas de empoderamento das interlocutoras frente a situações de violência e brutalização dos corpos e trajetórias. Categorias como dor (DAS, 2008) e terror (TAUSSIG, 1993), bem como o entendimento de marcadores sociais da diferença sob um ponto de vista interseccional (BRAH, 2006; MCCLINTOCK, 2010) estruturam o olhar sobre a pesquisa.
Apresentação Oral em GT

"Lugar da polícia é na escola? ’’ Conflitos, percepções e representações sobre o serviço de policiamento no interior de uma escola pública na região metropolitana do Rio de Janeiro. ’’

Autor/es: Carina da Cunha Santos, Prof. Lênin Pires
Este trabalho busca identificar os arranjos formais os quais viabilizam o convênio do Programa Estadual de Integração de Segurança – PROEIS, e seus possíveis efeitos no ambiente escolar. Esse programa já funciona em pelo menos doze instituições conveniadas, como a Prefeitura do Rio, Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (CODIN), e empresas concessionárias como a Light e a Supervia, com previsão de que mais catorze instituições venham a estabelecer convênios. A inserção do Programa na Rede Estadual de Ensino, foi promulgada pelos Secretários de Educação, Segurança Pública e o Comandante Geral da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Segundo eles, o objetivo do programa é reforçar a segurança escolar, na proteção de alunos, professores, e servidores, bem como a segurança patrimonial. Estas Escolas são escolhidas por um pretendo histórico de ‘conflitos’ internos, ou mesmo observados nas regiões do entorno. Essas instituições estão situadas nas regiões centrais das principais cidades da Região Metropolitana, ou próximo às chamadas comunidades, principalmente aquelas que apresentem registros de conflitos violentos. A instituição escolar escolhida para realização do presente estudo está situada em Niterói, em um bairro próximo ao centro da cidade. Ela também se encontra em meio a duas áreas de favelas significativamente habitadas. Há um expressivo contingente de alunos provenientes dessas duas localidades. Durante 4 meses eu frequentei a mesma, em média, duas vezes por semana. Durante este período eu observei as relações entre policiais, alunos e professores, realizando com as mesmas conversas informais, além de entrevistas semiestruturadas. A instituição aderiu ao convênio que implementa o PROEIS nas escolas estaduais em 2012. Sua diretora, porém, parece representar essa atividade também a partir de um propósito educacional. Nesta representação a presença dos policiais serviriam como modelo para os jovens. Assim, eu buscarei analisar os possíveis objetos de controle policial, particularmente no que se relaciona aos discursos sobre o controle da violência. É a que existe dentro ou fora da escola? Para tanto, recorrerei as representações sociais que os policiais militares emitem uma vez inseridos como partícipes do espaço escolar. Quais são os mecanismos materiais e simbólicos engendrados pela presença da Policia Militar dentro da Escola? Podemos compreender na justificativa do PROEIS que sua competência não é oficialmente exposta como pedagógica. No entanto, há quadros comparativos em outros Estados, como Goiás e Amazonas, em que a ideologia militar é institucionalizada como parte do método pedagógico. Nestas regiões a Policia Militar se introduz como interventora, modificando o modus operandi da Escola. Qual seria, portanto, o papel social dos agentes policiais militares no Rio de Janeiro?
Apresentação Oral em GT

“If you suspect of someone with Ebola, call 177”: a militarização da saúde em Serra Leoa no período da epidemia de Ebola (2014-2016)

Autor/es: Denise Moraes Pimenta
Nos últimos dois anos, tenho me debruçado sobre as questões sociais que circundam a epidemia de Ebola no Oeste Africano, mais precisamente em Serra Leoa. De outubro de 2015 a janeiro de 2016 viajei para a região, fazendo trabalho de campo tanto na capital de Serra Leoa (Freetown) quanto nos distritos; Makeni, Kono, Kailahun (onde ocorreu o primeiro registro do vírus no país, por ser uma região fronteiriça com a Guiné-Conacri; país em que foi registrado o primeiro caso da epidemia nos anos 2000), Kambia e finalmente Kenema. Neste último distrito, dirigi-me a uma comunidade chamada Komende Luyama. Lugar este que foi signo de medo na região durante o período de maior contágio e taxa de mortes da epidemia, no ano de 2014. Komende Luyama era não só um lugar evitado pela população do entorno, mas também um lugar de entrada proibida. Desta forma, Komende é icônica na fala das pessoas da região como um lugar que representava o medo, o perigo e a evitação. Hoje, esta comunidade não representa mais o perigo do contágio, porém, guarda muitas narrativas de um tempo (recente) em que o exército e a polícia eram elementos presentes por lá, exercendo as funções de ajudar os órgãos de saúde nacionais e internacionais na contenção da doença. E, também, responsáveis por gerar vários constrangimentos no tocante à liberdade de trânsito e às atividades diárias das pessoas. Também as enfermeiras da comunidade alcançaram o posto de autoridades estatais, recebendo até mesmo paramentos policiais para que fossem identificadas como representantes do Estado. Em todo o país – do aeroporto ao limite entre distritos - podem ser vistos ckeckpoints para a medição de temperaturas e higienização. A conferência de temperatura e a higienização das mãos é realizada – em precários postos do exército - por homens fardados e armados. O termômetro medidor de temperatura lembra um pequeno revólver, o que se torna ainda mais verdadeiro quando policiais apontam o aparelho para as têmporas das pessoas, costume recorrente. Além disso, por todas as cidades existem outdoors do governo mobilizando a população a se manter atenta a casos de Ebola, sugerindo inclusive “denúncias” como: “If you suspect of someone with Ebola, call 177”. É notório o uso de uma linguagem militar para tratar da epidemia. Porém, a militarização não encontra-se apenas nas metáforas, partindo para o contexto das práticas diárias como ameaças, privações de liberdade como lockdows, quarentenas e até prisões. Ou seja, o controle da epidemia sempre esteve diretamente ligado à militarização da saúde. Um exemplo claro disso é o fato do Centro Nacional de Luta contra o Ebola (NERC) estar localizado em um quartel do exército na capital do país. Busco dialogar com Sontag, Butler, Das e Taussig.
Apresentação Oral em GT

Adolescentes infratoras: múltiplos contextos que envolvem conflitos e tensão social

Autor/es: Elida Damasceno Braga
Os processos sociais que envolvem adolescentes tomam cada vez mais espaços nas agendas contemporâneas. Este artigo apresenta as primeiras incursões ao campo realizadas para a pesquisa de doutorado em sociologia, para a qual sobressai à temática "jovens em conflito com a lei", com foco na Unidade Socioeducativa Feminina Maria do Carmo Alves / UNIFEM - Aracaju-Sergipe.Pretende-se ao longo da pesquisa compreender os mecanismos que operam entre o sistema socioeducativo,internas, policiais, famílias, fazendo uma reflexão sociológica sobre as muitas faces que se apresentam, bem como as fronteiras e o campo de tensão que orbitam entre eles. A pesquisa traz como recorte as adolescentes mulheres que se encontram em conflitos com a lei. Nesse texto, proponho um olhar geral sobre o campo, autores que se debruçam sobre a referida temática, bem como os aspectos históricos que envolvem a criação dessa instituição.
Apresentação Oral em GT

A angústia da influência: das vicissitudes do policiamento comunitário na periferia urbana de Salvador

Autor/es: Hildon Oliveira Santiago Carade
A presente comunicação versa sobre as repercussões da implantação de uma nova política de segurança pública – bases comunitárias de segurança – no bairro do Calabar, favela localizada na orla atlântica da cidade de Salvador. Aqui explorarei as angústias e as aflições dos policiais militares em torno da imposição de um novo modelo de vida societária para esta localidade. Terei como guia as seguintes questões: o que representa, na ótica do policial, o policiamento comunitário? O que significa, para ele, estar 24 horas presente em um lugar concebido como um antro da perdição e da violência? Como ele deve se portar nesta situação? Quais são as categorias por ele utilizadas para classificar este novo mundo? Veremos que, concebendo o seu trabalho como uma forma de redenção para esta comunidade, a Polícia Militar enxerga no tráfico de drogas local uma instância a ser superada, não em termos de extinção completa do comércio de entorpecentes, mas de “pacificação” da ação dos traficantes. Tal tarefa, eminentemente simbólica, aponta para a necessidade de minar o poder que os traficantes têm de impor as suas categorias para o restante da população. Daí, a urgência em conter e substituir esta deletéria influência. Desta feita, no que tocante à dimensão geracional, o corpo do adolescente é compreendido como o lócus onde se dará esta “guerra epistemológica” entre policiais e bandidos, uma vez que ele é considerado pelos primeiros como o futuro desta localidade, como o lugar onde será selada a vitória da civilização frente à barbárie. Assim sendo, nos termos de Taussig (1992), toda a operação policial consiste na tentativa de deter o monopólio da atividade mimética, isto é, de se afiançar como o único pólo cuja ação pode ser copiada pelos moradores locais. Por outro lado, a disputa entre policiais e traficantes, no que concerne à dinâmica de gênero, coloca os primeiros como vinculados à esfera da feminilidade (porque é um agrupamento militar não comprometido com a repressão e mais afeito ao diálogo), ao passo em que o tráfico de drogas é tido como um domínio do masculino, uma vez que as mulheres, em termos nativos, só entrariam neste universo a partir do envolvimento sexual com homens pertencentes a esta órbita. Desta forma, à guisa de conclusão, a pacificação seria um trabalho endereçado aos homens, especialmente os mais jovens, da referida comunidade.
Apresentação Oral em GT

Travestilidade carcerária: violência e cerceamento da identidade travesti em situação de aprisionamento

Autor/es: Johnatan Ferreira Marques do Vale, Eduardo Sérgio Soares Sousa Bárbara Cristina de Oliveira Marques do Vale
O trabalho etnográfico procura narrar as trajetórias de travestis em instituição carcerária de João Pessoa – PB. Procuraremos relevar dois momentos que marcam tais trajetórias: no primeiro momento, citaremos as violências e abusos sofridos pelas travestis antes da criação da resolução que institucionaliza um espaço LGBT específico para acolher tais pessoas. Sendo assim, mostraremos como a instituição, a direção e os agentes penitenciários eram algozes nesse processo, pois desfiguravam a identidade travesti, visando normatizar os corpos e símbolos que marcam as identidades dos sujeitos. No segundo momento, evidenciaremos como as violências praticadas sofreram mutações, caminhando para uma violência mais simbólica do que prática, seja no impedimento de entrada de cosméticos, adornos, roupas femininas, seja no tratamento das travestis com o nome de registro, ou ainda nas proibições de banho de sol, políticas de exclusão de dias de visitas e discriminação institucional. Para tanto, utilizaremos o conceito de performance, tal como expresso em Marcos Benedetti na obra Toda feita: o corpo e o gênero das travestis, significando que a manutenção dessa identidade “inversa”, “fluida” e “subversiva”, necessita de alguns signos e símbolos necessários à sua sustentação. Percebe-se que no contexto prisional, tais signos e símbolos serão desfigurados/desrespeitados, como no primeiro momento de violência que abordaremos, ou serão dificultados, impedidos de adentrar no contexto carcerário, como no segundo momento, o que impedirá, de modo violento e ao mesmo tempo sutil a preservação da identidade travesti.
Apresentação Oral em GT

Das guerras à pacificação nas dinâmicas criminais e lutas faccionais armadas nas favelas à beira-mar em Fortaleza.

Autor/es: Leonardo Damasceno de Sá, Izabel Accioly Larissa Reis
Depois de uma série de chacinas na cidade de Fortaleza, cujas suspeitas recaem sobre a atuação de grupos de extermínio compostos por policiais militares, diversas áreas deflagradas, marcadas por intensos conflitos armados entre “comandos”, “gangues”, “facções”, entre outros bandos, que se definem como sendo “do crime”, notícias se espalharam pelas redes sociais e boca a boca no cotidiano da cidade em torno de um processo de pacificação inédito nas favelas, bairros populares e periferias, contanto com a atuação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho nas prisões cearenses e nas ruas, provocaram efeitos amplos nos segmentos dos fluxos de opinião pública midiática e popular. A partir de trabalho de campo etnográfico que desenvolvemos desde 2008 em favelas à beira-mar da orla do espaço metropolitano da capital cearense, buscamos interagir com alguns membros de tais facções e os moradores do entorno de duas favelas, Serviluz e Pirambu, a fim de discutir os significados atribuídos pelos agentes sociais a esse processo de pacificação no mundo do crime. O objetivo deste paper é descrever e analisar a partir do nosso acesso etnográfico, apoiando-nos em entrevistas em profundidade recentes com moradores das duas favelas citadas, as dimensões da atual mudança nos conflitos que envolvem a produção social do inimigo nas “tretas”, “rixas” e disputas, onde as práticas de extermínio estão conectadas às formas relativas da alteridade no universo da socialidade guerreira de meninos e rapazes “maquinados” (em armas). Após a pacificação, dois tipos de eventos nos chamaram a atenção: as execuções de membros do crime que desobedeceram às novas regras e as festas unificadas das facções nomeadas “bailes de favela”, onde ex-rivais e ex-inimigos, os “envolvidos” e os “não envolvidos”, convivem sem agressões mútuas, o que não quer dizer que tenham se tornado “amigos”, como pontuam nossos interlocutores. Os discursos após a pacificação estão adotando os policiais como inimigos comuns a todas as facções, o que tem deixado os agentes da lei publicamente ansiosos e em estado de alerta. As comunidades locais observadas eram anteriormente divididas em segmentos territoriais separados por fronteiras de tensão devido aos constantes conflitos de poder e aos circuitos de vingança a eles ligados. Tais segmentos eram comandados por “gangues” que impediam com ameaça de violência o trânsito de qualquer morador pertencente à área de segmentos inimigos. Com a abertura das fronteiras, os moradores dessas comunidades podem circular livremente por todo o bairro sem sofrer retaliações. Buscamos compreender as especificidades das referidas comunidades, entender como o processo de pacificação aconteceu e como ele está sendo recebido e percebido pelas pessoas que habitam esses lugares.
Apresentação Oral em GT

III MARCHA DA PERIFERIA: ativismos político-culturais contra a criminalização da juventude pobre e negra

Autor/es: Maria Aparecida dos Santos
A Marcha da periferia é uma frente que articula redes de diversos movimentos sociais, partidos políticos, ativismos e coletivos, convocados pelo Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe, ligado à CSP-Conlutas, com a intenção de mobilizar a cidade, tendo como pauta, a violência e criminalização das juventudes negras e pobres. A sua principal tática organizativa é a nucleação por bairro, visando às especificidades locais da ação do Estado e as demandas por políticas públicas de um modo geral. Em Fortaleza, acontece desde 2013 e se movimenta pelos bairros da Serrinha, Barroso e Água Fria. No último dia 20 de novembro, em celebração ao dia da “Consciência Negra”, centenas de jovens se concentraram na Praça da Cruz Grande, para seguir em marcha pelas ruas e avenidas do bairro da Serrinha até a chegada à Igreja do bairro de Parangaba. Durante o trajeto, faixas, cartazes, blusas e discursos inflamados denunciaram a responsabilidade da polícia militar, pela Chacina do Curió, em 11 e 12 de novembro, quando 12 homicídios de jovens foram registrados nos bairros, Lagoa Redonda, Curió e na Comunidade São Miguel, em Fortaleza. Moradores das localidades acreditam em retaliação pela morte do policial militar Charles Serpa. Além das chacinas, a mobilização denuncia também abusos policiais como invasões de domicílios, prisões arbitrárias e “baculejos” vexatórios no espaço público. A pauta da desmilitarização da polícia e o direito à ocupação da cidade, a luta pela livre circulação das juventudes e a prisão de todos os socioeducadores envolvidos em torturas de adolescentes no sistema socioeducativo estadual (internação), fazem parte do repertório de enunciados performativos, utilizados como estratégias discursivas e rituais acionadas para construir a luta simbólica de enfrentamento da violência policial sobre as periferias. O discurso performativo dos locutores na marcha buscou todo o tempo, categorizar, nomear, evocar, acusar, revelar, constranger. Nesse sentido, podemos afirmar que há um processo em curso, de objetivação de um mundo social, projetado pelos eventos rituais desse movimento, que ainda subterrâneo, já provoca alguns resultados práticos e se torna visível para a cidade. A marcha como sendo um momento de um amplo e longo “processo de formação de sujeitos que culmina na constituição de um sujeito moral” (GIANNOTTI, 2006), autor de um processo de integibilidade do real, tão refratário aos “jogos de linguagem” com status dominante, forjam outra história narrativa dos acontecimentos ocorridos na periferia, outra compreensão comunicativa, ou seja, produz a diferença discursiva sobre o espaço público, as formas de conviver e ocupar um “espaço dominado reflexivamente” (GIANNOTTI, 2008).
Apresentação Oral em GT

Bate-volta: trânsitos e tensões em torno das visitas à prisão

Autor/es: Natália Bouças do Lago
Este trabalho se propõe a explorar as tensões e relações que permeiam os trânsitos entre dentro e fora da prisão a partir das pessoas, sobretudo mulheres, que não estão presas, mas entram na prisão na condição de visitas de seus familiares privados de liberdade. A despeito de serem “não-presas”, tais mulheres vivem o cotidiano da instituição prisional e têm seus corpos marcados por práticas impostas pela instituição e que são consideradas violações (por exemplo, a revista íntima/vexatória, que requer o desnudamento e exposição das partes íntimas das/os revistadas/os). Em meio a tais processos, articulam negociações de diversas ordens de modo a garantir não apenas seus próprios trânsitos entre dentro e fora da prisão, mas também a entrada de objetos e alimentos no interior do cárcere. O contexto etnográfico da proposta se desenvolve em torno dos “bastidores” da preparação às visitas: uma pensão localizada em um município do oeste paulista que recebe, aos finais de semana, mulheres que se deslocam de diversas partes do estado para visitarem seus maridos e filhos na penitenciária da cidade. A pensão, além de servir de pouso para o fim de semana, é um dos locais onde essas mulheres aprendem a lidar com (e a contornar) as regras e restrições impostas pela administração penitenciária, que se inscrevem em seus corpos e também na autorização/proibição de objetos que chegam à prisão a partir das visitas - como alimentos e produtos de higiene. Nos períodos que antecedem as visitas as mulheres, na pensão, preparam alimentos enquanto trocam informações sobre o que é permitido ou proibido de levar a seus familiares; informam-se sobre quais tipos de roupa interferem no processo de entrada das visitas, seja pelas cores, comprimentos ou tecidos; trocam informações sobre o acompanhamento dos processos de seus familiares presos; compartilham histórias sobre os inúmeros momentos de entrada e saída das prisões e sobre as revistas às quais são submetidas. Essas interlocuções ocorrem em meio à tensão existente na passagem rua-prisão e demonstram a produção de vínculos de solidariedade em contraposição às violências perpetradas pelo Estado, corporificado pelos funcionários da instituição prisional. Ao mesmo tempo, a convivência e a troca de informações e experiências vivenciadas em torno da prisão passam pela produção de diferenças entre essas mulheres, que se revelam em marcadores raciais, de classe e de gênero. Argumento, por fim, que a pensão borra os limites entre dentro-fora: trata-se de um lugar fronteiriço entre rua e prisão e entre situação de liberdade e encarceramento, cuja existência está intimamente ligada à instituição prisional.
Apresentação Oral em GT

Etnografias das Violências: Experiências Narradas por Travestis e Transexuais que se Prostituem em Petrolina-PE

Autor/es: Paulo Dourian Pereira de Carvalho
Este trabalho é desdobramento da pesquisa etnográfica de conclusão de curso de graduação em Ciências Sociais da UNIVASF, realizada entre 2014 e 2015, com travestis e transexuais que se prostituem em Petrolina-PE. O objetivo geral do estudo foi compreender processos de violências no cotidiano dessas pessoas. Porém, nesta proposta de comunicação, pretendo discorrer sobre os principais atores envolvidos nas situações de violências narradas pelas trans. Dentre esses atores destacam-se: os “transeuntes”, a família, a polícia e os clientes, a estes foi atribuído o nome de “algozes externos”; a cafetina e as próprias colegas de “pista”, denominadas “algozes internos”. Por intermédio das narrativas colhidas no campo, é possível identificar um ambiente em que a violência é acionada como um operador fundamental das relações que caracterizam a vida das trans. Isto poderia explicar, em parte, a violência que há entre elas mesmas e também as agressões por parte da cafetina. Por outro lado, para compreender a inserção dos “algozes externos”, é preciso ter em mente que, na sociedade ocidental, historicamente, se construiu uma série de padrões de comportamento tidos como (in) corretos e (in) desejáveis. Assim, todos aqueles que saem da linha demarcatória da normalidade são frequentemente alvos de punição, rechaço e abjeção. Esta tensão entre normalidade e diferença se efetiva diariamente nas experiências trans. A existência “precária” dessas pessoas dissidentes funciona como um suporte de afirmação da heterossexualidade compulsória. O “outro”, considerado diferente e abjeto, é colocado em paralelo com o padrão tido como desejável, saudável e natural. A diferença aparece como desvio, algo de valência negativa, que precisa ser eliminado ou que serve de exemplo de mau caminho, de erro, de sujeitos bestiais e sem humanidade. Neste sentido, nota-se que “bichas”, travestis, transexuais e etc. vivem em um mundo onde suas existências são menosprezadas, suas vidas consideradas inferiores, seres, nas palavras de Judith Butler (2015), indignos de luto, sem importância, cujo genocídio sistemático não desperta clamor na sociedade. Neste trabalho estudo pessoas que “fogem” às linhas demarcatórias de normalidade, sujeitos que subvertem o gênero e a sexualidade. Travestis e transexuais que redesenham as fronteiras das “verdades” sobre o sexo. Os “maus sujeitos” , que são a todo tempo controlados e vigiados, pois são indivíduos fora da ordem sexual hegemônica, na concepção de Preciado (2011). Percebe-se que, para os “algozes externos”, as trans aparecem como portadoras de uma sexualidade marginal e perigosa. Por viverem em zonas inabitáveis, nos territórios dos desvios e das inadequações, suas existências figuram como ininteligíveis para o mundo. (BUTLER, 2002).
Apresentação Oral em GT

Por uma "dupla revolução": movimento de mulheres curdas na luta contra a opressão étnica e de gênero

Autor/es: Sarah Siqueira de Miranda
A presente comunicação tem como objetivo apresentar as reflexões realizadas em minha dissertação de mestrado sobre o papel desenvolvido pelo movimento de mulheres curdas no combate à discriminação e à violência de gênero, tendo como contexto etnográfico associações curdas na França e Alemanha. Articuladas em uma rede política transnacional, elas lutam contra uma dupla opressão: como mulheres, contra a opressão imposta por sociedades patriarcais; como membros de um grupo étnico minoritário, contra políticas assimilacionistas e genocidas perpetradas pelos estados nacionais que incidem sobre o seu território. Não obstante os inúmeros problemas ainda enfrentados, elas lograram em grande medida empoderar-se e promover a igualdade de gênero nas comunidades curdas diretamente influenciadas pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), ou seja, aquelas localizadas no sudoeste da Turquia, no norte da Síria, e na diáspora. Em contextos totalitaristas e teocráticos, de jure ou de facto, nos quais as mulheres são particularmente privadas de direitos básicos, o PKK se distingue como um movimento democrático, laico e defensor da igualdade de gênero. Serão abordadas duas dimensões de análise: 1) Implementação de uma ideologia feminista no seio do PKK a partir das ideias propagadas por seu principal líder, Abdullah Ocalan, cujas publicações constituem a base da formação política curda, em territórios curdos e na diáspora. Como um movimento de liberação, a educação política e o desenvolvimento pessoal são elementos fundamentais e indissociáveis da ideologia do PKK, ainda que comumente negligenciados pelas análises que o privilegiam, as quais tendem a enfatizar a militarização curda como sinônimo de negação do diálogo democrático. Do mesmo modo, elas tendem a negligenciar que as questões de gênero têm sido abordadas pelo PKK desde a sua fundação, no final dos anos 1970, dando origem a uma ideologia que tem como um dos elementos centrais a liberação feminina. 2) Apropriação, pelas mulheres curdas, das ideias desenvolvidas por Ocalan, e como elas lograram colocar em prática, dentro do movimento curdo, o princípio da igualdade de gênero. Como guerrilheiras, parlamentares ou ativistas de direitos humanos, elas constituem, na atualidade, parcela expressiva da representação política curda - todos os partidos políticos, assim como movimentos da sociedade civil organizada, obedecem ao princípio da paridade de gênero. Neste sentido, através de diversas iniciativas, que incluem desde manifestações públicas e campanhas, a cursos de formação direcionados a homens e mulheres, elas atuam incansavelmente para que esses valores sejam integrados pela sociedade em geral, combatendo a violência cotidiana das quais são potenciais vítimas: violência doméstica, crimes de honra, etc.
Apresentação Oral em GT

“Mães Guerreiras”: Uma etnografia sobre mães de jovens encarcerados em Porto Velho/RO.

Autor/es: Simone de Oliveira Mestre, Érica Renata de Souza
“Mães guerreiras” é uma etnográfica sobre mães de jovens encarcerados em Porto Velho, realizada durante a pesquisa de mestrado (2014-2015) e que se apresenta como uma continuidade da minha pesquisa de graduação intitulada “Amor. Só de mãe: O drama das mães de adolescentes privados de liberdade (2014). A proposta foi de continuar acompanhando as mulheres participantes da pesquisa, especificamente depois da liberação do filho da unidade socioeducativa ou do alcance da maioridade penal. Nesse contexto, a delimitação do tema da pesquisa proposto foi estudar as maternidades e as relações das mães visando à manutenção do sujeito privado de liberdade, procurando descortinar violências, relações de cuidado e estigma a partir da observação e descrição das situações que constituem o cotidiano dessas mulheres. Deste modo, o trabalho apresenta reflexões sobre o ser mãe no contexto no qual o filho encontra-se privado de liberdade, no qual o estigma de “criminoso” atribuído ao filho por seu envolvimento com o crime, é acoplado a sua identidade de mãe, evidenciando uma dupla pressão exercida sobre a ideia de “cuidado de mãe”, que implica em culpa e responsabilidade, tanto pelos atos como pelo acompanhamento do filho encarcerado. Essa situação em comum com outras mães proporciona a formação de uma rede de cuidados visando à manutenção do sujeito encarcerado, assim como a experiência de se submeter à violência dos procedimentos de segurança do presídio. Essa experiência é um ponto de convergência dessas mulheres e que estão atravessada por questões de raça, classe e vulnerabilidade social."
Palavras chave: etnografia, maternidade, violências
Apresentação Oral em GT

Da Caatinga para os Seringais: O recrutamento dos soldados da borracha

Autor/es: Carolina Holanda Castor
Essa Pesquisa visa, a partir de documentos históricos, como documentação oficial do Governo Brasileiro e do Estado do Ceará, como também jornais de época, fazer um levantamento de como se deu o processo de recrutamento dos Nordestinos, mas especificamente, Cearenses, para trabalharem como “soldados da borracha” na Amazônia brasileira, no período de 1943-1945, ou seja, nos dois últimos anos da Segunda Guerra Mundial. Um enfoque importante por onde perpassa a pesquisa é a criação do SEMTRA (serviço especial de mobilização de trabalhadores para a Amazônia) por Getúlio Vargas que visava convencer os nordestinos a deixarem à seca e buscarem uma terra cheia de prosperidade e abonança. Nesse sentido, também se pretende mostrar a fictícia vida oferecida pelos órgãos governamentais e a realidade encontrada por esses trabalhadores ao chegarem ao norte do país. O ponto inicial para entender como se deu esse processo de mobilização é por meio do acervo de Jean Pierre Chabloz, desenhista contratado pelo governo à época para desenhar as propagandas que serviriam de sensibilização aos homens para se deslocarem. Portanto, essa pesquisa visa, por meio de um estudo histórico entender as dinâmicas sociais, políticas e pessoas dos que se envolveram nesse período histórico do Brasil.
Pôster em GT