Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT033. Etnografias das Interseccionalidades: Raça e Gênero no Contexto Latino-americano das Políticas Públicas

Os Estudos de Gênero e das Relações Raciais possuem uma trajetória acadêmica e política que já nos permite considerá-los consolidados. No entanto, pensar a interseccionalidade entre estes marcadores sociais, e seus efeitos, é ainda relativamente novo. A questão social da interseccionalidade emerge no Brasil no Manifesto das Mulheres Negras durante o Congresso de Mulheres Brasileiras, em 1975. Não bastava pensar e lutar pela “mulher” no singular. Semelhante ao que aconteceu nos Estudos de Gênero e das Relações Raciais, dos quais emergiram, por exemplo, o Feminismo Negro, as demandas sociais e políticas estiveram (e estão) associadas às reflexões teóricas e às pesquisas acadêmicas sobre interseccionalidade

Este GT propõe-se, então, a discutir a interseccionalidade de gênero e raça no contexto latino-americano, particularmente através de abordagens etnográficas – estando aberto também para refletir sobre outras interseccionalidades, como classe, geração, orientação sexual. Para além da reflexão sobre como a intersecção de demarcadores sociais é construída socialmente em relações de poder e como afeta a vida de sujeitos, a proposta do GT é acolher estudos antropológicos que enfoquem políticas públicas com o recorte de gênero e raça, bem como outras interseccionalidades, na perspectiva de analisar impactos sociais; a relação Estado e sociedade; conexões regionais, nacionais e transnacionais entre outras problematizações possíveis.

Laura Cecília López (Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS)
(Coordenador/a)
Vera Regina Rodrigues da Silva (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-b)
(Coordenador/a)


Ìyálodè Iyà Orò: Uma análise das lideranças femininas na criação dos direitos das comunidades tradicionais de terreiro

Autor/es: Ana Laura Silva Vilela
Neste texto, analiso a atuação de lideranças religiosas femininas – as quais se identificam enquanto “mulheres de axé” - da Região Nordeste na construção dos direitos das comunidades tradicionais de terreiro, tendo como marco temporal e político a Constituição Federal de 1988. Com este intuito, apresento uma breve caracterização destas mulheres e das comunidades nas quais estão inseridas. Para o aprofundamento teórico da análise, utiliza-se das discussões acerca do sistema moderno colonial de gênero e das contribuições dos feminismos negros. A abordagem do tema demanda reconhecer outros espaços de produção do Direito. Por isto, apresento o pluralismo jurídico como pressuposto teórico capaz de ampliar a compreensão do fenômeno jurídico e contribuir para a construção de um Direito de caráter intercultural. O caminho metodológico proposto possui uma orientação etnográfica, buscando (re) conhecer a partir das histórias de vida de lideranças religiosas, os caminhos/estratégias utilizados por estas mulheres em suas trajetórias individuais para lutar pelos direitos das comunidades tradicionais de terreiro. Dessa forma, a partir do diálogo com duas líderes religiosas de cultos de matriz africana de João Pessoa/Paraíba, busco problematizar o lugar das mulheres de axé na disputa pela construção do Estado Laico no Brasil e pelo reconhecimento das comunidades tradicionais de terreiro enquanto sujeitos de direito. O esforço consiste em apontar sobre quais demandas voltam seus esforços, a partir de quais espaços se organizam para reivindicar por direitos. Alguns indícios puderam ser identificados. Historicamente as mulheres dos cultos de matriz africana participaram ativamente de seus contextos políticos. Além disso, contemporaneamente se organizam redes em âmbito local ou nacional; atuam junto ao Poder Público em conselhos e outras instâncias participativas, onde reivindicam pela concretização do Estado Laico, direito ao reconhecimento de suas comunidades, enfrentamento da intolerância religiosa, direito à saúde pela população negra e povos tradicionais de terreiro, dentre outras demandas. Palavras-chave: Mulheres de Axé; Criação de direitos; Comunidades Tradicionais de Terreiro; Antropologia Jurídica
Apresentação Oral em GT

A Semana Municipal do Hip Hop: Intersecção em um contexto de diáspora local.

Autor/es: Diogo Raul Zanini
O presente resumo pretende refletir a relação do Movimento Hip Hop com o poder público municipal. O ponto de partida é problematizar a Semana Municipal do Hip Hop de Porto Alegre como um espaço de intersecção entre os ativistas do movimento, o poder público municipal e o público local onde são realizadas as atividades da Semana. Entendo a Semana do Hip Hop como uma política pública que se realiza no diálogo entre organizações e instituições locais ( prefeitura, cãmara de vereadores, escolas, Ongs, e coletivos do Hip Hop) no município a partir de uma agenda afirmativa. Percebendo o Movimento Hip Hop como um movimento de diáspora, de amplitude global e também local, tendo como referencia os estudos culturais voltados para a descolonização (Paul Gilroy e Stuart Hall, por ex.). Essa proposta de artigo pretende trazer experiências etnográficas em Porto Alegre e provocações teóricas para analisarmos as interseccionalidades no ambiente social e político no qual se envolvem a militancia do Hip Hop na atualidade
Apresentação Oral em GT

“Não é só cabelo, é também identidade”: transição capilar, luta política e construções de sentido em torno do cabelo afro.

Autor/es: Lidia de Oliveira Matos
O momento político vivido no Brasil tem propiciado uma eclosão de movimentos com demandas mais particulares, diferente dos movimentos sócias da primeira onda, que reivindicavam direitos amplos que beneficiariam a sociedade como um todo a exemplo das lutas sindicais, por moradia, saúde e educação. Temos acompanhado um movimento que reúne mulheres em torno do cabelo, que tem modificado os sentidos atribuídos a luta, afirmação, beleza e negritude Propomos-nos a refletir sobre os desdobramentos do movimento de transição capilar que através de um chamariz estético tem reunido atores em torno de lutas politicas que ocupam as ruas e a internet, faremos isso principalmente A partir dos relatos de mulheres que passaram pelo processo e da etnografia produzida nas observações dos eventos organizados e publicizado através do grupo no facebook Cabelos crespos e cacheados Aracaju. O cabelo sempre foi uma das partes do corpo que recebe grande atenção, é responsável pela composição do visual, realçando, reforçando ou minimizando traços fenotípicos. A transição capilar se caracteriza por um momento em que se abandona o uso de químicas que transformam a estrutura do cabelo e passa a usá-lo em sua forma “natural”, esse processo não ocorre sem conflitos, dilemas e reconfigurações que desemboca em uma transformação na autopercepção, nossa analise se volta principalmente para as mulheres que se organizam em torno da luta pela aceitação da estética negra, tendo como símbolo desta os cabelos crespos e cacheados. O uso do cabelo como forma de expressão do estilo e gosto pessoal e também da identidade não é uma estratégia nova, já era utilizada pelo movimento negro americano dos anos 60 como símbolo de luta, reisignificando a elaboração identitária através do uso dos blacks powers. Esse movimento de transição capilar que nos propomos a analisar, se organiza através de grupos no facebook e outras redes sociais, tem conhecimentos compartilhados através do youtube e ocupam as ruas em marchas e encontros que publicizam e atraem a atenção das pessoas fortalecendo e buscando modificar os padrões de beleza, lutando contra o racismo e pela aceitação da beleza negra. Assim me interessou perceber quais os sentidos que estavam e estão sendo atribuídos a esse cabelo, como esse sinal diacrítico está sendo disputados, quais os conhecimentos que são adquiridos nesse processo de transição capilar, como a transição capilar altera a forma como as mulheres se veem, buscando entender também como elas se reúnem em grupo e promovem uma luta política utilizando um referencial estético. A etnografia nos permite perceber as nuances desse processo como ele afeta as trajetórias das participantes modificam a sua autopercepção e propõe uma outra forma de se perceber como mulher negra.
Apresentação Oral em GT

Quais políticas, quais sujeitos? A produção de sujeitos e direitos através de políticas de combate às desigualdades de gênero e raça no governo brasileiro.

Autor/es: Silvia Aguião, Márcia Lima (USP)
O objetivo deste paper é abordar a relação mutuamente constitutiva entre sujeitos e direitos através da análise de algumas das ações governamentais de combate às desigualdades de gênero e raça no Brasil contemporâneo. Mais especificamente, busca-se compreender os mecanismos de reconhecimento (e produção) de diferenças atrelados a uma determinada concepção de promoção da igualdade de direitos inerentes a tais processos de estado. A partir da análise de documentos que versam sobre diretrizes de ação e avaliações de execução dessas políticas e da observação de eventos, tais como a Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, propõe-se refletir sobre os sentidos imiscuídos em discursividades, conceitos e categorias que progressivamente moldam novos repertórios de sentido e de reconhecimento de sujeitos (e suas especificidades) e direitos. O recorte temporal da investigação abrange o período 2003-2015. A perspectiva interseccional vem ganhando cada vez mais destaque em projetos políticos e acadêmicos que enfrentam o desafio de refletir a respeito da constituição de sujeitos, subjetividades e agenciamentos, mas também sobre o reconhecimento de identidades e a construção de políticas de enfrentamento às desigualdades sociais. Nesse sentido, parte da análise é dedicada à reflexão sobre as possibilidades de conciliar a abordagem "transversal" investida no desenho atual das políticas públicas de gênero e raça e a perspectiva "interseccional" proposta por certo campo teórico-político que se debruça sobre a compreensão da constituição e articulação de marcadores sociais da diferença. A proposta é tomar como hipótese inicial que esses dois enfoques têm como objetivo, a partir de searas analíticas distintas, dar conta de contextos complexos e de fatores múltiplos que confluem para a produção e a manutenção de desigualdades. Essa proposta faz parte de um desdobramento de pesquisa anterior que investiu na análise de processos sociais e políticos que tornam possível a constituição da população designada, no momento, LGBT, como sujeitos de direitos no Brasil contemporâneo. Esse investimento implicou em uma análise que, a partir do cotejamento das estratégias políticas de atores envolvidos nos debates em torno dos “direitos LGBT” e de algumas políticas governamentais, manteve como pano de fundo a questão de como certos “direitos” corporificam certas “identidades” e vice-versa. A presente análise desloca o foco de iniciativas localizadas na constituição e administração da "população LGBT" para uma área mais abrangente envolvendo um conjunto de políticas de promoção da igualdade de gênero e raça.
Apresentação Oral em GT

Relações raciais e suas variâncias: efeitos do gênero na identificação racial e percepção sobre discriminação

Autor/es: Susi Anny Veloso Resende
O presente artigo tem como proposta trabalhar sobre as diferentes percepções das relações raciais brasileiras a partir de um recorte de gênero. A partir de um conjunto de leituras preliminares realizadas sobre a questão racial tendo como interseccionalidade o gênero, pretendo entender como as mulheres possuem diferentes vivencias das relações raciais a partir de aspectos relacionados à identidade e percepção de preconceito e discriminação racial. Apesar de não ter se empreitado na etnografia de grupos este trabalho busca a partir de dados nacionais entender como a relação entre gênero e identidade racial influencia nas percepções de discriminação e preconceito racial. Analiso dados preliminares da pesquisa nacional sobre raça, realizado em 2008 pelo Instituto Datafolha. “O racismo cordial”, pesquisa que buscou entender de que forma os brasileiros entendem raça e de que forma os indivíduos mobilizam raça dentro de contextos sociais variados. As identidades em relação à cor/ raça mudam a partir dos papeis sociais que temos em nossa sociedade. Assim, se perceber dentro de uma identidade de gênero específica pode vir a influenciar os tipos de relações raciais que as pessoas possuem. Dentro do contexto brasileiro existem diferenças entre brancos/as e pretos/as, bem como diferenças entre homens e mulheres no que se refere a barreiras sociais, ocasionando diferenças nas formas de identidade e percepção sobre as relações raciais. O entendimento de classificação racial e com isso o direcionamento de discriminação e preconceito racial possuem relação com os tipos de experiências sociais vivenciadas pelos indivíduos, sendo estas experiências marcadas pelo também pelo fato de ser considerado homem ou mulher. A manifestação das relações raciais envolvem portanto questões históricas, culturais, políticas e econômicas em que o processos de percepções da realidade racial mudam de acordo com o contexto. Para preencher essa lacuna, esse artigo pretende entender de que maneira as diferenças de gênero influenciam nas dinâmicas das relações raciais brasileiras.
Apresentação Oral em GT

Narrativas Etnografadas: raça, gênero, sexualidade e cultura no Bloco Afro Ilú Obá De Min.

Autor/es: Valéria Alves de Souza
O objetivo desta proposta é apresentar e discutir a construção de “novos” sujeitos de direitos a partir da articulação entre as categorias gênero, raça e sexualidade vivenciadas pelas integrantes do Bloco Afro Ilú Oba de Min na cidade de São Paulo e, perceber, como os discursos identitários estão sendo agenciados por uma série de políticas culturais. Pretendo apresentar um estudo de caso realizado durante a minha pesquisa de mestrado defendida em novembro de 2014 sob o título: Os Tambores das “Yabás: raça, sexualidade, gênero e cultura no Bloco Afro Ilú Obá De Min. A pesquisa que deu origem a dissertação investigou as maneiras pelas quais as integrantes do Bloco Afro Ilú Obá De Min: educação, cultura e arte negra, operacionalizam e articulam os marcadores sociais da diferença raça, gênero, cultura e sexualidade no sentido de entender como, a partir desta articulação, o grupo construiu um diálogo com as políticas culturais, os discursos sobre cultura e identidade negra na cidade de São Paulo e o trânsito entre o bloco afro e seu Ponto de Cultura: Ilú Oná Caminhos do Tambor. Irei apresentar e discutir as transformações que este bloco afro formado e comandado por mulheres obteve através do seu Ponto de Cultura. No decorrer da pesquisa surgiu um tipo de posicionamento: o “estar aberta” designando o Ilú Oba como um espaço onde seria possível subverter as fronteiras classificatórias e criar outras possibilidades de ações e interações. De forma similar, estas narrativas operam de modo complexo os marcadores raça, gênero e sexualidade articulados com a questão da valorização da cultura negra e, interpelando de forma original as atuais políticas de identidade, em especial as étnicas/raciais e culturais. O que nos chama atenção para este bloco carnavalesco são justamente os discursos, aqui, entendidos como prática social que produz sentidos e que são capazes de atuar na realidade, bem como a defesa de um espaço de sociabilidade onde são vivenciadas diferentes experiências afetiva/sexuais. Dessa forma, apresentarei alguns possíveis contextos que a interseccionalidade das categorias gênero, raça e sexualidade é operacionalizada buscando compreender, as diferentes formas de atuação política e social a partir desses novos formatos identitários de resistências e interação.
Apresentação Oral em GT

Hierarquia de opressões: uma (auto)etnografia na Marcha das Vadias em Pelotas-RS

Autor/es: Amanda Medeiros Oliveira
Neste trabalho busco discutir a socialização da mulher negra e a interseccionalidade de raça, de gênero e de classe no âmbito da experiência. Tendo como ponto de partida uma (auto)etnografia da Marcha das Vadias em Pelotas-RS faço uma análise etnográfica das imagens da Marcha sobre um aspecto transnacional. Contesto as formas de silenciamento da socialização da mulher negra em detrimento ao feminismo-branco-hegemônico. Por meio da experiência, é possível notar que o estereótipo acerca do corpo e do temperamento das mulheres negras está diretamente ligado a questões raciais, de gênero e de classe. A feminilidade que as feministas brancas descreveram como imposta à sujeita mulher não cabe dentro da realidade da mulher negra.
Pôster em GT

Quebrando grilhões: Sou Negra, Sou Mulher, NÃO sou objeto!

Autor/es: Rebeca Thalia Bastos Barros, Gabriela Leal Brito Luciane Mota Seabra
O presente artigo tem como objeto de pesquisa a exotificação da Mulher Negra presente no imaginário social, a partir da análise do estereótipo estruturado e enraizado socialmente que objetifica as Mulheres Negras. Fazendo um traçado desde o período colonial — quando os senhores de engenho "tomavam" suas escravas (muitas vezes por força) por acreditarem que essas mulheres seriam mais "fogosas" — até o século XXI, no qual esse imaginário se perpetua através da mídias que utilizam esse pensamento para vender a ideia de um país sexual, onde as Negras detém corpos avantajados, o que acaba por hipersexualizar a Mulher e exotificar a cor que a Negritude carrega. A consideração deste artigo, é a tentativa da desconstrução do estereótipo alienatório, ideológico e culturalmente enraizado no imaginário social de que ser Negra é ser escrava – seja em relação a mão de obra ou a objetificação sexual, para compreendermos que a Mulher Negra não pode e não deve ficar restrita a um âmbito de promiscuidade. A metodologia de pesquisa deste artigo se dá através de pesquisas nos diversos meios de comunicação e informação e no recolhimento de relatos experienciados por Mulheres Negras.
Pôster em GT