Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT032. Etnografias da Deficiência

O grupo tem como objetivo reunir investigações e reflexões antropológicas sobre, ou, que se proponham a pensar com, a “deficiência”. O grupo dá continuidade às atividades desenvolvidas na 29ª RBA e na V REA XIV ABANNE, considerando o encontro ou confronto etnográficos como aposta da disciplina para a constituição desse campo de estudos no Brasil. Serão privilegiadas abordagens sobre os mais diversos tipos de “deficiências” e “doenças raras”, considerando duas dimensões: a) dos movimentos sociais e das políticas públicas para “pessoas com deficiência” que estabelecem condições e parâmetros relativos aos direitos e cidadania tais como cuidado, acessibilidade, inclusão escolar, vida autônoma, etc; b) a das diferentes narrativas e/ou perspectivas da deficiência que organizam a inserção de sujeitos concretos em diferentes coletividades a partir dessa experiência. Além disso, a atividade contempla também ensaios teóricos (realizados a partir do amadurecimento etnográfico) que problematizem a categoria deficiência a partir do referencial antropológico, seja a partir dos debates contemporâneos da disciplina ou da articulação com categorias analíticas de rendimento no diálogo com outros campos como saúde, direito, lingüística, etnologia, gênero e sexualidade, estudos de ciência e tecnologia. Por fim, são bem vindas as reflexões sobre os desafios e adequações do e no método etnográfico, produzidas a partir das tensões encontradas no campo de pesquisa com "deficiência".

Carolina Cantarino Rodrigues (Universidade Estadual de Campinas)
(Coordenador/a)
Nádia Elisa Meinerz (UFAL)
(Coordenador/a)


Pesquisa etnográfica com líderes surdos: notas sobre desafios e desdobramentos de uma investigação

Autor/es: Cibele Barbalho Assesio
Quais desafios são colocados quando se realiza uma pesquisa sobre surdez, com interlocutores que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como meio de comunicação e expressão? E quais os possíveis desdobramentos quando, para tal investigação, se escolhe fazer etnografia? Este trabalho traz reflexões principalmente metodológicas, produzidas a partir de uma pesquisa sobre o tema surdez. Mais especificamente, tratou-se de etnografar espaços caracterizados por interações linguísticas gestuais-visuais, normatizadas juridicamente no Brasil em 2002 com a oficialização da Libras. De maneira geral, procurei inicialmente descrever e analisar práticas que conferem à surdez o estatuto e particularidade linguística e cultural. Em primeiro lugar, ter sido classificada como pesquisadora ouvinte (em oposição à surda), que inicialmente não conhecia Libras nem possuía conhecimentos aprofundados acerca da denominada comunidade surda teve suas implicações. Algumas restrições foram-me colocadas, mas ao mesmo tempo estas me levaram a certo percurso de investigação. Minha inserção no campo deu-se principalmente por meio de sujeitos considerados porta-vozes, que frequentemente ocupam posições de liderança surda. De maneira semelhante ao que aponta Goffman acerca de representantes de categorias estigmatizadas, líderes surdos informam diversos aspectos relativos à população que integram, possuem domínio de um repertório específico de categorias, de uma gramática relativa à surdez, e, em última análise, produzem um modelo de normalização, com o qual tive contato desde as primeiras interações de pesquisa. Em segundo lugar, a necessidade de aprendizado da Libras colocou-me em contato com professores de Libras, posição que, por vezes, confunde-se com a liderança. Durante o processo de aprendizado, meu corpo (da etnógrafa) tornou-se instrumento e a aprendizagem de normas linguísticas e tornou-se também conteúdo da investigação. A estas, comumente foram atrelados aspectos relativos à cultura surda. Para além dos crivos estabelecidos pelas diferenciações auditivas, em grande medida, por meio das aulas de libras aprende-se e ensina-se o que é ser surdo/surda. Enfim, para além de certos argumentos institucionalizados relativo à Libras e à cultura surda, foi possível revelar aspectos de subjetividades por parte de certos sujeitos. Apesar de haver biografias de vários dos meus principais interlocutores, bem como entrevistas concedidas por eles em trabalhos acadêmicos, poucas vezes são desenvolvidas reflexões relativas à posição específica que ocupam e menos ainda são discutidos os próprios fatores que levam pesquisadores a elegê-los como informantes centrais. Trata-se de algo que pode ser evidenciado analisando o percurso (etnográfico) e os desdobramentos de pesquisa.
Apresentação Oral em GT

A Educação Inclusiva de índios surdos no processo de aprendizagem na Educação Básica

Autor/es: Edielso Manoel Mendes de Almeida, Lindomar Lili Sebastião
Este trabalho consiste em uma pesquisa bibliográfica referente à inclusão de índios surdos no processo de aprendizagem em escolas de educação básica. O objetivo foi realizar um levantamento e dar visibilidade as práticas desenvolvidas em algumas regiões do Brasil referente à inclusão de alunos índios surdos na educação formal, especificamente os anos inicias e finais do ensino fundamental. O método utilizado foi o dialético que implica sempre em uma revisão e em uma reflexão crítica e totalizante porque submete à análise toda interpretação pré-existente sobre o objeto de estudo. A pesquisa foi realizada em artigos publicados em revistas especializadas, relato de experiências publicadas em revistas na área de educação, dissertações de mestrado e teses de doutorado defendidas no período de 2008 a 2015. Os dados foram analisados a partir das categorias inclusão e aprendizagem, tendo como base o método e o referencial teórico adotado, para discutir identidades Bhabha (2005) e Hall (2003); educação inclusiva Mantoan (2010); educação intercultural Fleuri (2013); surdez a Língua Brasileira de Sinais Perlin (2008) e Quadros (2009). Os resultados mostram que há sinais compartilhados pelos surdos nas aldeias, que são por eles criados e que fazem parte da sua própria Língua, embora ainda não estudados linguisticamente, os surdos fazem dela sua comunicação e, sendo assim, sua diferenciação enquanto cultura. Conclui-se que é necessário identificar os elementos culturais que constituem a identidade dos índios-surdos, bem como os contextos em que emergem os sinais linguísticos surdos próprios à cultura e como se legitimam e entrelaçam com a Língua de Sinais Brasileira, pois os estudos apontam que há sinais compartilhados pelos surdos nas aldeias e que, enquanto educadores, precisamos conhecê-los para melhorar a comunicação e levar os surdos a avançar na aprendizagem.
Apresentação Oral em GT

Festa de surdo dá o que falar - Um estudo de caso realizado na Associação de Surdos de João Pessoa / Paraíba (ASJP -PB)

Autor/es: Elizangela Ferreira da Silva
A maioria dos trabalhos acadêmicos que discutem questões relativas à surdez, é direcionado para compreensão dos aspectos de inclusão e direitos da pessoa portadora de necessidade especial. Trabalhos que enfatizam a importância do reconhecimento da pessoa com necessidades especiais sobre um contexto educacional emancipatório, isto é, não seria incluir o deficiente, mas sim o diferente, que possui uma identidade e uma cultura a ser compreendida e desenvolvida, como é o caso da pessoa surda. Neste sentido, como mostra Magnani (2007), em ciências humanas e sociais como: a antropologia, pedagogia, história, linguística, entre outras, a pessoa surda é vista a partir da construção cultural e social que envolve o discurso de práticas, valores, linguagem, comunicação, reconhecimento e identidade específica, ou seja, o surdo deixa de ser deficiente auditivo, para se tornar um sujeito reconhecido por sua diferença, ainda que alicerçada em jargões ou categorias de distinção como: comunidade surda, cultura surda, minoria linguística, minoria social, etc. É certo afirmar que o universo da pessoa surda é realmente riquíssimo. A pessoa surda não se acha deficiente e, como qualquer outra pessoa, é capaz de fazer todo tipo de atividade, participar de qualquer ambiente social e levar uma vida como a de qualquer outra pessoa não surda. Deste modo, o estudo de caso realizado na Associação de Surdos de João Pessoa/PB teve como principal objetivo abordar os desafios de inserção e de aceitação da pesquisadora pelos sujeitos interlocutores desta pesquisa, uma vez que, conforme Beaud e Weber (2007, p.171), três elementos devem prender a atenção do pesquisador, antes mesmo de colocar em ação comparações sistemáticas: “relacionar, em cada caso, posições objetivas, práticas e pontos de vista subjetivos; as palavras nativas e os silêncios; os mal-entendidos”. Buscamos descrever a importância das festas de surdo na ASJP-PB, como elemento fundamental de uma sociabilidade que expõe determinadas ambiguidades de aceitação e não aceitação de alguns atores sociais no interior do grupo. A heterogeneidade dos atores sociais que fazem uso dos mesmos equipamentos de lazer da ASJP/PB, bem como as tensões sócio-espaciais no dinamismo das redes de interação do grupo. O espaço, neste sentido, se torna uma extensão da personalidade dos grupos que utilizam aqueles lugares em suas trocas interacionais. Não obstante das relações interacionais e de lazer, percebemos que a ASJP-PB é um lugar de encontro com o familiar e com o estranho. É neste espaço que o surdo assume sua identidade de pessoa surda, se identifica com o outro que é seu par, mas também estranha o familiar. Criando novas possibilidades de sociabilidade conforme as particularidades e afinidades dos indivíduos deste grande grupo.
Apresentação Oral em GT

Virtualidade política e o esboço de um manifesto contra-visual

Autor/es: Felipe Moreira
Busco neste ensaio pensar algumas questões de antropologia do corpo, materialidade e estruturas/potências, repensando um suposto projeto cartesiano de corpo em contraponto com discussões de autores das dissidências cartesianas. Pensando o projeto de corpo e mente (análogo ao de natureza/cultura), pretendo discutir como esta questão se coloca em nossos dias e, junto com as críticas a este projeto, pensar a não-vidência não como a falha deste projeto mas como uma forma de relativizar nossa epistemologia informada pelas expectativas sensório-corporais. O que poderíamos aprender invertendo perspectivas patológicas que buscam amedrontar pelo contágio por incorporações cosmológicas dissidentes?
Apresentação Oral em GT

Estratégias de atendimento e prevenção à violência contra pessoas com deficiência: o cuidado nos serviços de saúde

Autor/es: Fernanda Cristina Ferreira Nunes
Este trabalho, parte da pesquisa de doutorado que se encontra em fase inicial, refletirá sobre os encaminhamentos e as políticas de enfrentamento atribuídos aos casos de violência intrafamiliar cometidos contra pessoas com deficiência, que chegam a partir de serviços públicos de saúde direcionados à família. Nesta pesquisa, as dimensões do cuidado dialogam com três eixos temáticos: deficiência, violência doméstica e gênero. Embora de grande potencial heurístico, a interface entre estes temas é ainda pouco explorada no Brasil. Dois motivos sugerem a ausência de estudos: a) há o silenciamento dos casos de violência contra pessoas com deficiência em geral, ficando restritos, assim, ao contexto particular; b) ao tratar da deficiência, a mídia de massa costuma focalizar somente a necessidade de aprimoramentos em saúde, inclusão e acessibilidade. Enfatizo que, de modo mais amplo, a investigação visa contribuir com o campo dos Estudos sobre Deficiência, bem como com estudos referentes a populações vulneráveis (mulheres, crianças e idosos). A metodologia compreende entrevistas com informantes qualificados e trabalho etnográfico realizado junto às equipes do Programa Saúde da Família (PSF). Lançado em 2011, o programa de governo “Viver Sem Limite: Plano Nacional de Direitos da Pessoa com Deficiência” (Decreto nº 7.612/2011) articulou serviços de proteção social e de educação a atividades projetadas para outros pontos de atenção da rede do Sistema Único de Saúde (SUS), que envolve a atenção básica, especializada e hospitalar. É importante observar que as equipes do Programa Saúde da Família recebem orientações especializadas do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) referentes, sobretudo, à gestão do cuidado. Apoiando-se em um dos resultados da pesquisa promovida pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República, Débora Diniz, Lívia Barbosa e Wederson Santos (2009) questionaram a inexistência de políticas específicas voltadas à pessoa cuidadora, ofício que é desenvolvido, majoritariamente, no âmbito doméstico e por mulheres (mães, avós, irmãs ou profissionais). A mesma pesquisa mostrou que a população entrevistada reconhece que há discriminação contra pessoas com deficiência, embora não a identifique como forma de violência que deve ser, prioritariamente, combatida, seguida do abandono e dos maus-tratos. Assim, se a violação não é reconhecida nem denunciada, a invisibilidade se perpetua. Por outro lado, mesmo quando os casos são identificados há dificuldades, por parte das instituições, em reconhecer os direitos das pessoas com deficiência e as especificidades de suas violações.
Apresentação Oral em GT

"Problemas de Cabeça": Reflexões sobre deficiência e práticas de cuidado a partir da experiência de três famílias de um bairro popular.

Autor/es: Helena Moura Fietz
Neste artigo, proponho uma aproximação entre os estudos sobre a deficiência e as pesquisas sobre o cuidado com o objetivo de refletir sobre as relações mobilizadas no cuidado de adultos cuja autonomia pode ser considerada limitada em razão de uma “deficiência intelectual”. A partir de uma etnografia realizada junto a três famílias de um bairro de classe popular da cidade de Porto Alegre, centro minha análise nas práticas e narrativas de três cuidadoras - Jurema, Margarida e Dona Edna-, a fim de compreender “o que está em jogo” para essas mulheres que lidam com um parente que, segundo elas, possui “problemas de cabeça”. Para tanto, penso o cuidado tanto como uma prática quanto como uma categoria moral e proponho uma análise que parta daquilo que Annemarie Mol (2008) chama de lógica do cuidado. A partir desta perspectiva, foi possível complexificar possíveis distinções como entre cuidado/negligência, autonomia/dependência e cuidado/economia; e perceber como questões que dizem respeito à obtenção e ao gerenciamento de recursos - em especial no que tange ao Benefício de Prestação Continuada -, centrais para minhas interlocutoras, encontram-se inseridas em redes de “cuidado familiar”, médico-jurídicas, comunitárias e institucionais. Tais práticas de cuidado aparecem em minha etnografia como permeadas por tensões e negociações, onde diferentes versões do que é o “bom cuidado” são constantemente performadas. Nesse sentido, tem-se que o cuidado, enquanto uma categoria de análise, não permite categorizações simples ou soluções pré-fixadas, pois o que a sua lógica exige são respostas locais e contingenciais a cada situação.
Apresentação Oral em GT

Corpo, sexualidade e paralisia cerebral: a partir da noção de pessoa

Autor/es: Luana Santos Cunha, Luana Santos Cunha Doutoranda em Sociologia PPGS/UFPB Mónica Franch Professora de Antropologia. DCS/PPGA/PPGS/UFPB
Este trabalho faz parte da problematização que estou desenvolvendo, no marco da minha tese de doutorado, sobre a prática da sexualidade entre pessoas portadoras de paralisia cerebral. Uma das perspectivas teóricas que levanto, em forma de hipótese, é que a noção de pessoa é fundamental para a situação do problema de pesquisa, afinal, o que se considera deficiência X normalidade está ligado à compreensão do que seja uma “Pessoa”, quais são seus atributos, qualidades, limites e contornos. Nesse sentido, tenho como objetivo discutir a construção do corpo como um processo social que muitas vezes implica na ideia de perfeição, completude e beleza, e também o modo como tal concepção está ligada diretamente à noção de “Pessoa” que temos nas sociedades ocidentais modernas, repercutindo em representações restritivas sobre a sexualidade de portadores de deficiências. Para esta discussão, apresentarei os primeiros achados de um trabalho etnográfico que estou desenvolvendo na rede social Facebook, especificamente no grupo “Paralisia Cerebral e amigos”, onde realizei entrevistas on-line e conversas (chats) sobre temas como sexualidade e estigmas. Essas primeiras incursões apontam situações nas quais as pessoas com paralisia cerebral tiveram que reivindicar o “direito à autonomia” dos seus corpos e outros tantos momentos de luta por reconhecimento como “pessoas” ou mesmo da negação desta condição. Entendemos que essas negociações em torno da sexualidade ancoram-se no ideário do individualismo moderno, girando em torno de ideias como autonomia, direitos individuais e independência. Para tanto, fez-se necessário compreender o que seria o ser humano, o que entendemos por indivíduo como valor e a quem consideramos “Pessoa” e se tais compreensões têm ligações com nossa percepção de corpo e tudo que ela engloba: perfeição, normalidade, completude, sexualidade, gênero. Assim, passamos por autores como Louis Dumont, Marcel Mauss e Csordas, a fim de ver tais questões, especialmente a sexualidade, como discursos, como construções sociais, como aprendizado e sua relação com a construção da pessoa sempre tentando observar o que esse trabalho nos permite compreender sobre nossa sociedade e os debates sociais em torno desses temas.
Apresentação Oral em GT

A inserção de surdos no ensino superior brasileiro: a experiência da EPLIBRAS

Autor/es: Maria Izabel dos Santos Garcia, Ana Regina e Souza Campello Rebeca Garcia Cabral
Nos últimos anos, com a discussão em torno da chamada educação inclusiva, muitas questões vêm sendo levantadas em relação às comunidades de surdos. Seja por parte das instituições educacionais, seja própria militância do grupo. Um grande desafio que se coloca é como assegurar à criança, jovem/adolescente ou adulto surdo nos ensinos fundamental, médio e superior uma formação adequada, uma vez que o sistema educacional brasileiro apresenta sérios problemas no que se refere à qualificação dos professores. Ademais, há necessidade de revisão do modelo pedagógico ouvintista, bem como o pleno reconhecimento da LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais – uma vez que no Brasil, as políticas educacionais atuais não asseguram aos surdos a LIBRAS como L1 (primeira língua e/ou materna) e a Língua Portuguesa, na forma escrita, como L2 (segunda língua). O presente trabalho visa por em discussão como vem sendo a inserção dos Surdos no ensino superior brasileiro, a despeito da Lei 10.436/2002 e do Decreto 5626/2005 que oficializam a LIBRAS como a língua oficial do surdo brasileiro, tomando por base a experiência da Escola Preparatória em LIBRAS (EPLIBRAS/UFABC), a qual implementei e coordenei na Universidade Federal do ABC (UFABC) com o objetivo de atender às leis de direitos humanos, ora vigentes no Brasil, que visam a acessibilidade à educação em caráter de equidade. Assim, nasceu a EPLIBRAS que visa a preparação dos alunos surdos para o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) – dispositivo adotado pelo Ministério da Educação e Cultura como única forma de ingresso nas universidades federais brasileiras. No curso ofertado aos surdos, a LIBRAS era a língua prevalente em todas as disciplinas que por sua vez, eram ministradas por professores surdos em sua maioria. Tal experiência fez emergir aspectos do que vem sendo chamado por pedagogia visual. A motivação para o desenvolvimento da mesma se deve ao fato de que ainda se observa uma forte resistência na adequação das instituições de nível superior brasileiro no atendimento às leis em vigor a partir de 2002, o que pode ser entendido como um importante fator de impedimento e acessibilidade dos membros desse grupo social à educação. Nesse sentido, a presente proposta se insere no debate atual em torno das políticas públicas educacionais, eixo da discussão dos movimentos sociais. Vale ressaltar que para além das questões linguísticas e cognitivas que se colocam, há também os aspectos culturais e identitários da(s) comunidade(s) de Surdos que precisam ser considerados.
Apresentação Oral em GT

Crianças com Adoecimentos Raros e de Longa Duração: reflexões sobre a pesquisa antropológica em hospitais onde habitam e os novos arranjos normativos.

Autor/es: Martha Cristina Nunes Moreira
A pesquisa antropológica e a capacidade do pesquisador desenvolver interações qualificadas pela observação e reflexão sistemáticas, pode oferecer um aprofundamento do conhecimento relacional em ambientes onde crianças nascem, crescem e se desenvolvem com adoecimentos de longa duração. Elas habitam o espaço hospitalar, onde primeiro se reconhecem como sujeitos, e tardiamente conhecem suas casas. Ganham destaque aqui dois aspectos um de ordem teórica e outro de ordem empírica, a serem trabalhados na comunicação: (1) é nas interfaces da temporalidade e de sua experiência que as definições sobre adoecimentos de longa duração se colocam. Com um acúmulo significativo de estudos e conceituações a partir da perspectiva dos adultos jovens e idosos, pelo diálogo sócio-antropológico. Há uma novidade nos cenários institucionais sanitários que referem a vida com um adoecimento longo desde o nascimento. Paradoxalmente o adoecimento é nomeado como longo, mas a vida não necessariamente. Ao contrário de rupturas biográficas, instauram-se antecipações biográficas. Ou seja, a vida pode ser qualificada como curta, breve, desafiadora para os padrões de normalidade, mas a criança e as relações que a investem instauram novas outras normatividades para um corpo que desafia padrões. Nessa direção perspectivas teóricas sobre, normatividade, antropologia das emoções e do corpo dialogam, com as temporalidades da doença e da vida que segue; (2) urgem reflexões sobre pesquisas com crianças em ambientes de hospitalização pediátrica, onde vivem por vezes desde o nascimento e toda a primeira infância. Destacamos que essas reflexões estão ancoradas em pesquisas e produções coordenadas pela autora e cujos dados ratificam a urgência do debate.
Apresentação Oral em GT

Pessoa com deficiência: uma abordagem política e antropológica

Autor/es: Paula Guedes Bigogno
O tema das deficiências perpassa a vida em todo lugar do mundo. Nas chamadas sociedades complexas, a racionalização ocidental, influencia a forma como vivem as pessoas com algum tipo de deficiência nas cidades e no campo. Historicamente, é preciso analisar a maneira como podem ter vivido essas pessoas ao longo dos tempos, de acordo com suas condições socioeconômicas. A proposta é que esses dados além de reveladores possam ser também transformadores, lançando luz sobre os processos de sociabilidade mais diversos da vida cotidiana. Questões como preconceito e exclusão emergem numa reflexão que extrapola a questão das deficiências, ao mesmo tempo em que a configura, permitindo um estudo aprofundado do tema. Existem movimentos de pessoas com deficiência, que surgiram na década de 70, na Europa Ocidental. Esses grupos lutaram por direitos após o enfraquecimento dos Estados de Bem Estar Social e alertaram para um paradigma de coletividade. Este artigo apresenta os resultados de uma etnografia sobre “Surdos”, ao mesmo tempo em que busca uma abordagem mais geral sobre deficiência, fundamentada no modelo biopsicossocial e na antropologia do corpo, procurando compreender experiências e representações.
Apresentação Oral em GT

Deficiência e marcadores sociais da diferença

Autor/es: Pedro Lopes
A proposta desta comunicação é refletir sobre a categoria “deficiência” e a produtividade e as contradições de pensá-la como um “marcador social da diferença”. A proposta de trabalho na intersecção de marcadores como raça, gênero e sexualidade tem ganhado espaço na antropologia brasileira e permitido articulações interessantes entre debates sobre variadas formas de diferença e desigualdade social. Segundo a análise proposta por Laura Moutinho, esse trabalho vem se estruturando nos seguintes eixos: construção de Estados-nacionais e representações da nação; regulação de práticas e personagens e constituição de sujeitos de direitos; e socialidades e subjetividades, entre o cuidado de si e os espaços de agência. Sugiro que a partir dos anos 2000 nos Estados Unidos, as temáticas da cultura e da interseccionalidade também passam a ter destaque na produção de pesquisadores e pesquisadoras que se dedicam a pensar deficiência, bem como no Brasil, com maior ênfase na presente década, despontam trabalhos que articulam perspectivas especialmente feministas ou queer para o campo da deficiência. O esforço desta comunicação, então, é percorrer alguns trabalhos brasileiros e estadunidenses acerca de deficiência, sugerindo que os eixos identificados por Moutinho também estão presentes nessa seara e que a proposta de articulação ou intersecção de sistemas de diferença levanta pontos que contribuem para o adensamento teórico e o apuramento da sensibilidade etnográfica, bem como colocam em evidência limites e contradições dessa categoria, que temos usado na organização de pesquisa e de um campo de debate e produção acadêmica e política. Objetiva-se com isso colocar questões para uma reflexão conjunta, e não exatamente propor sínteses.
Apresentação Oral em GT

Uma experiência etnográfica numa instituição de cuidado para pessoas com deficiência

Autor/es: Ubiratan Garcia Vieira
Nesta comunicação irei apresentar uma reflexão sobre a experiência etnográfica na Comunidade da Figueira, uma instituição filantrópica de acolhimento de pessoas com deficiência localizada na cidade de Mariana, MG. O trabalho de campo na comunidade, uma das atividade de um projeto de extensão com interface com pesquisa, foi feito durante os dois anos de sua duração, entre 2011 e 2013, por mim, responsável pelo projeto, mas também pelos bolsistas, estudantes de pedagogia e serviço social, sob minha orientação e da professora Mônica Rahme, da área de psicologia da educação, também docente da Universidade Federal de Ouro Preto. Nos primeiros oito meses do projeto foram dedicados, sobretudo, à participação da equipe nas atividades desenvolvidas na Comunidade e relatar a experiência ali vivida em encontros de orientação semanais. Embora, contribuir com as atividades desenvolvidas pela comunidade na promoção de relações entre pessoas com e sem deficiência na cidade, fosse o objetivo do projeto de extensão, neste primeiro momento precisávamos conhecer a vida naquela comunidade. De fato não sabíamos que atividades poderíamos desenvolver, tínhamos apenas o princípio de contribuir com “contatos mistos” entre pessoas com e sem deficiência na cidade. Uma releitura normativa de um conceito proposto por Erving Goffman. Mesmo após o trabalho de campo propriamente dito, a reflexão sobre a experiência de convívio com a comunidade continuou durante a realização de atividades de extensão. Nos últimos meses do projeto, após uma importante atividade de extensão, retomamos a pesquisa e fizemos entrevistas semi-estruturadas nos lares de pessoas com deficiência que frequentam a Figueira, com o objetivo de conhecer sua trajetória escolar, suas relações afetivas e suas definições de deficiência. Retomando o trabalho de campo realizado no início das atividades do projeto irei apresentar: (1) a análise do uso dos termos “meninos” e “professoras” e a forma como tais usos remetem ao (não) lugar da instituição no sistema de ensino municipal; (2) as implicações éticas e políticas da abordagem proposta. No que refere-se ao primeiro ponto, se mostrou frutífera a articulação entre a teoria etnográfica de Howard Becker e a análise pragmática social do uso da linguagem de Jakob L. Mey. No que se refere ao segundo ponto, essa articulação permite refletir sobre os aspectos intrinsecamente éticos e políticos do uso da linguagem conforme propõe Kanavillil Rajagopalan e, em particular, da “escrita” etnográfica conforme propõe Howard Becker. Também permite refletir sobre os dilemas da emancipação como ponto de partida da pesquisa etnográfica nos Estudos sobre Deficiência colocados por John M. Davis e por Nicholas Watson.
Apresentação Oral em GT

Quando Cidadania demanda Cuidado: Políticas públicas e moralidades na inclusão de pessoas com autismo no mercado de trabalho

Autor/es: Valeria Aydos
Com o reconhecimento legal do Transtorno do Espectro Autista como deficiência, em 2012, pessoas com este diagnóstico começam a ter acesso às politicas de inclusão no mercado de trabalho propiciadas pela Lei de Cotas 8.213/91. Durante os últimos três anos acompanhei o ciclo de efetivação desta politica, cuja implementação em Porto Alegre se deu, dentre outras formas, através do Projeto Autismo e Mercado de Trabalho. O foco de minha etnografia deu-se no acompanhamento das experiências de Tomás e Ricardo nesta política, dois jovens diagnosticados com autismo cujos processos de inclusão no ambiente laboral foram considerados, cada um a seu modo, “casos de sucesso”. No registro das políticas públicas, tal acesso ao trabalho é visto como essencial para que haja uma transformação simbólica e prática de pessoas, antes excluídas do universo “adulto” e “dependentes” da família ou de benefícios sociais do Estado, em “cidadãos autônomos e produtivos”. Em diálogo com os Estudos da Deficiência e pesquisas etnográficas sobre o Cuidado, busco problematizar algumas das categorias centrais à noção de Cidadania presentes no universo das políticas públicas, assim como complexificar, a partir da “lógica do cuidado” (Mol, 2008), o que é entendido em meu campo como uma “boa inclusão”. Para tanto, entendo a Cidadania não como um conjunto de direitos a serem adquiridos, mas sim como um processo sociocultural de subjetivação e de pertença (Ong, 2003), e compartilho de uma agenda antropológica que acredita que categorias analíticas devem ser vistas como morais e práticas, abordando-as a partir do fazer etnográfico. Esta proposta possibilitou-me perceber que as noções de independência e autonomia, presentes na implementação destas políticas e especialmente caras em ambientes corporativos, entram em tensão com as “práticas de cuidado” requeridas para/pelas pessoas com autismo no cotidiano laboral. Neste contexto, a “boa inclusão” é aquela que se faz possível frente ao desejo subjetivo de pertencer ao mundo do trabalho e às suas relações, às negociações na economia doméstica que a possibilitam, à gestão dos recursos humanos e dos custos das cotas para as empresas e ao projeto do Estado de construção de “cidadãos produtivos”. Compreender esta política na prática significa perceber que cidadania neste contexto demanda cuidado; e cuidado, especialmente para pessoas com autismo, implica sempre algum tipo de dependência humana. Argumento que, na prática, não há um único ideal de cidadania que devemos alcançar, há uma miríade de diferentes formas de pertencer, de “ser cidadãos”. Ricardo e Tomás têm as suas.
Apresentação Oral em GT