Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT028. Entre seres intangíveis e pessoas: experiência e história

Longe de estarem confinados a cosmologias, sistemas de ideias, representações e planos de existência cerrados, espíritos, ancestrais, encantados, divindades estão imersos no mundano e no cotidiano dos humanos. Se, de um lado, suas características e seus atributos permitem antever os desdobramentos de suas ações, de outro suas capacidades e potências são tão inesperadas quanto transgressivas, na medida em que seus atos e os efeitos de suas presenças atravessam fronteiras entre o ritual e o cotidiano, o sagrado e o mundano, o passado e o presente, o privado e o público, o real e o imaginário. Partimos do entendimento de que seres intangíveis estão continuamente em movimento no tempo e no espaço, traçando caminhos e forjando (novas) relações, tanto no plano terreno quanto no espiritual. Interessa-nos receber trabalhos que mostrem, a partir de etnografias de fôlego, de que modo a co-presença desses seres no mundo social se constrói em diversos espaços de experiência, lugares e momentos. Trata-se de pensar, paralelamente, de que modo os efeitos das agências dos seres intangíveis tornam-se significativas e como presenças aparentemente fugazes se infundem no cotidiano dos humanos.

Emilia Pietrafesa de Godoi (UNICAMP)
(Coordenador/a)
Marcelo Moura Mello (Universidade Federal da Bahia)
(Coordenador/a)
Maria Rosário Gonçalves de Carvalho (Universidade Federal da Bahia)
(Debatedor/a)


Os caminhantes do céu: história, mobilidade e temporalidade entre os Kaiowá

Autor/es: Aline Castilho Crespe
Durante a realização dos trabalhos de campo, com o objetivo de escrever sobre os atuais conflitos fundiários no Mato Grosso do Sul e a luta dos Guarani e Kaiowá para reaver o direito de viverem em seus territórios tradicionais, pude conhecer algumas histórias indígenas que abordam este processo. O objetivo deste trabalho é apresentar a história narrada por Delfino Borvão, Kaiowá, morador de uma área indígena chamada Limão Verde, localizada no município de Amambai, extremo sul do estado de MS. Apesar de viver em uma área indígena já demarcada, sua família não se considera como pertencente ao local e luta para voltar ao território tradicional. Ao perguntar sobre a história de sua família e a luta pela terra, ele me contou uma longa narrativa que se desdobrou em extensas conversas que marcaram nossos encontros a partir de então. A história de Delfino envolve humanos e não humanos, viagens para o céu, rezas, temporalidades distintas que se encontram, animais, presentes, trovoadas, festas e se finda nos atuais conflitos fundiários. Sua narrativa aponta para o interesse que os Kaiowá têm pela história e que não é resultado das interações com as instituições do estado, da presença da colonização e do contato com os karaí (branco). A história está presente no cotidiano, nos caminhos percorridos para irem à caça, à coleta, à reza e às festas, nas rezas, cantos e danças e em torno do fogo. A narrativa de Delfino só é possível por ele ter ouvido muitas histórias ao longo de sua vida, transmitidas enquanto realizavam atividades da vida cotidiana. O evento principal da narrativa é a ida de seu avô, José Borvão, para o céu, levado por Arañanduá, divindade do tempo e do espaço. A experiência de ir vivo para céu explica os eventos subsequentes que aparecem na narrativa. Foi esta experiência que fez dele um importante xamã e com isso levantar uma grande parentela; que fez com que fosse levado para uma reunião com as principais lideranças dos brancos e sair vitorioso, com a garantia de que a terra seria dos Kaiowá. É cantando/rezando e dançando ao som do mbaraka que o rezador kaiowá, assim como José Borvão, pode viajar pelo céu e adentrar nos caminhos do espaço. No espaço é possível rezar com as divindades e decidir o caminho futuro das questões fundiárias. Neste sentido, um dos principais problemas a ser enfrentado pelos Guarani e Kaiowa é o enfraquecimento da reza, provocado pelo processo de colonização e confinamento nas reservas. Deste modo, a história de Delfino trata-se de uma história kaiowá, deles e para eles mesmos, assim como, aponta para a importância da reza e explica eventos ocorridos anteriormente e ao longo da colonização de seus territórios. Nela, os Kaiowá e os Guarani são sujeito plenos e com o controle sobre os eventos e sobre o futuro.
Apresentação Oral em GT

As noções de "jepotá" e "kerembá" na sociocosmologia Mbyá-Guarani: um ensaio sobre a relação entre humanos e seres das séries intra e extra humanas

Autor/es: Carlos Eduardo Neves de Moraes
O presente estudo discute elementos da sociocosmologia Mbyá-Guarani a partir de pesquisa etnográfica realizada no litoral catarinense sobre as relações que os indígenas mantém com seres das séries intra e extra humanas (demiurgos, animais, espíritos da mata). Tais seres portam propriedades agentivas que tem a capacidade de interferência na vida social Mbyá-Guarani emprestando seus atributos de diferentes formas aos humanos. Isso se dá na formação dos corpos, no empréstimo de atributos de defesa, por exemplo, a partir do uso de objetos, no entanto também oferece riscos. Para entender a relação que os Mbyá-Guarani estabelecem com esses "outros", do ponto de vista teórico-metodológico, parto de duas noções comuns ao grupo, quais sejam: "jepotá" e "kerembá". Enquanto a primeira remete ao risco de metamorfose em animal (o jaguar), portanto apresentando uma conotação negativa, a segunda diz respeito a apreensão de diferentes atributos por humanos escolhidos que acabam por adquirir super poderes oriundos de animais e outros seres da natureza, tornando-se com isso uma espécie de super heróis capazes de defender sua coletividade. Em jogo está o debate acerca da clássica dicotomia Natureza e Cultura, cuja separação do ponto de vista da ontologia ameríndia não se aplica. Esse estudo visa justamente fornecer elementos etnográficos e contribuir teoricamente para suplantar essa dicotomia e enfatizar o caráter social que fundamenta a relação dos Mbyá-Guarani com esses seres outros, sejam eles intra humanos (animais, vegetais) ou extra humanos (espíritos, demiurgos), sugerindo que suas propriedades agentivas atuam na sociedade tanto quanto elementos "propriamente" sociais (relações de parentesco, aliança, circulações de bens) e tampouco estão restritos a atividade xamânica e ritual.
Apresentação Oral em GT

Paisagens da cosmopolítica: entre Encantados e lideranças indígenas

Autor/es: Cinthia Creatini da Rocha
Este paper apresenta parte das reflexões elaboradas em minha tese de doutorado, defendida em 2014 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina e intitulada “Bora vê quem pode mais: uma etnografia sobre o fazer política entre os Tupinambá de Olivença (Ilhéus/Bahia)”. Aqui, abordo o tema das relações entre a ação política ameríndia e o cosmos, especificamente a interação entre sujeitos eminentes, como o são as lideranças e anciãos indígenas, e os Encantados. Apresento através da descrição etnográfica de algumas situações acompanhadas em trabalho de campo na Terra Indígena Olivença dos Tupinambá, o modo como os Encantados são acionados pelos indígenas para dar conta das relações sociopolíticas propriamente ditas. O mundo dos Encantados, estes seres intangíveis do cosmos, se coloca inclusive como uma das principais portas de entrada para a ação política ameríndia. Irei mostrar como, sob a influência dos Encantados, os Tupinambá organizam suas relações, certamente com estes seres metafísicos, mas sobretudo, com outros humanos que fazem parte do plano terreno.
Palavras chave: Cosmopolítica Encantados Tupinambá
Apresentação Oral em GT

“é meu jãgré que é o conhecedor, ele quem me guia...” A importância dos jãgré para o fortalecimento das lutas pela terra Kaingang.

Autor/es: Clémentine Maréchal
Os jãgré são os “guias” dos Kaingang. Cada ser kaingang tem seus próprios jãgré, inclusive os animais e as árvores. Este trabalho é uma escrita colaborativa baseada em uma convivência intensa com uma mulher, Iracema, kujá (pajé) Kaingang que, depois de ter crescido mais de 30 anos em diversas Terras Indígenas, mora hoje numa periferia de Porto Alegre com sua família. Relatando-nos como ela conheceu seu primeiro jãgré aos quatro anos de idade com os ensinamentos e incentivos dos seus avos, veremos como a presença de seres intangíveis como os jãgré são imprescindíveis ao mantimento do equilibro na vida relacional assim como o são para o fortalecimento da luta pela terra. Em maio de 2014, cinco lideranças Kaingang foram presas na comunidade de Kandóia (RS), acusadas de terem matado a dois colonos que tinham interrompido violentamente um bloqueio de estrada da comunidade que reivindicava a demarcação das suas terras. Paralelamente, Iracema, após ter tomado um chá de ervas sonhou diversas vezes com a mãe do cacique que se encontrava preso em Kandóia e com outra kujá da região, “mestre” de ela. Após do primeiro sonho, ela, sobe no mato do morro Santana (perto de onde ela reside) onde se encontra com um dos seus jãgré, o mĩg (onça) quem lhe mostra o remédio vẽnh-kagta que ela tem que levar até sua jamré (a mãe do cacique), doente pela ausência e encarceramento do seu filho. As viagens que resultaram dos sonhos de Iracema são um exemplo da porosidade que existe entre o mundo visível inh ga kri e o mundo dos sonhos inh ga kri vẽnh péti. Seres intangíveis como os jãgré expressam-se nessa experiência, em um momento de “crise” e acompanharam-nos durante toda a viagem manifestando-se no território percorrido com marcas específicas, profundamente inscritas na cosmologia Kaingang e que ressaltam que a territorialidade Kaingang deve ser concebida como um tecido de relações entre seres tangíveis e intangíveis, entre o mundo dos sonhos, dos antepassados e o “mundo aqui”. Além de ressaltar a importância dos jãgré no quotidiano dos seres Kaingang, parece-nos necessário resgatar através desse exemplo etnográfico específico, os impactos dessas relações para o fortalecimento e a continuidade das lutas pela terra. Tendo em conta a tentativa de escrita colaborativa, vemos importante nos deter em alguns conceitos Kaingang cuja tradução precisa ser cuidadosa já que palavras como jãgré, jamré ou vẽnh-kagta têm significados profundamente inscritos em cosmologias que vão se transformando quotidianamente. Assim, um desafio deste trabalho é também conseguir dialogar com esses conceitos a partir da nossa convivência, conjugando nossas experiências de entendimento dos mundos fog (“branco”) e Kaingang.
Apresentação Oral em GT

“Hoje mesmo ouvi os evóréhj assoviando”: O lugar dos espíritos na socialidade Ikólóéhj após 50 anos de adesão ao cristianismo protestante.

Autor/es: Lediane Fani Felzke
Os Ikólóehj Gavião, grupo tupi, residem no estado de Rondônia, na Amazônia Meridional. De contato recente com os brancos, foram evangelizados nos anos 1960 por missionários protestantes da New Tribes Mission. Donos de uma complexa compreensão do cosmos – formado pelos planos terrestre, subaquático e celeste – habitado por uma gama de seres intangíveis com quem se relacionam empiricamente no cotidiano, e até pouco tempo atrás por meio de rituais; sua adesão ao protestantismo provocou transformações, com rupturas e continuidades, nestas relações. O cosmos, habitado pelos demiurgos, pelos espíritos “donos” e pelas almas dos mortos até o contato interétnico, ampliou-se com os ensinamentos dos missionários. Atualmente, além dos seres identificados pelos xamãs desde tempos imemoriais, ocupam os planos cosmológicos, o Deus cristão, Jesus Cristo, Satanás, os anjos e os demônios. Ao tempo em que os Ikólóéhj foram se aproximando do “ser branco” através das práticas e rituais da igreja, este segundo conjunto de seres espirituais passou a ter lugar de destaque em sua cosmologia. Mas, para onde foram os demiurgos Goráh, Goján e Betagav? E os espíritos “donos” Korkoróh Tìh (espírito do gavião), Bebeéhj Tìh (espírito das queixadas), Majakóh Tìh (espírito do urubu), entre outros? E as almas dos humanos que se dividem em três após a morte e ocupam, cada uma, um plano do cosmos? Nosso objetivo neste texto é compreender, a partir dos dados etnográficos, o lugar destes seres intangíveis na cosmologia e no quotidiano dos Ikólóéhj em tempos de adesão quase majoritária ao cristianismo. Nosso argumento é que, embora haja um discurso da parte dos missionários e dos crentes mais tenazes anunciando a ruptura definitiva com tais entes identificados como sendo “o diabo e seus demônios”, observa-se a continuidade de sua influência na vida ordinária e nos momentos de “apresentação para os brancos”. Dentre inúmeros aspectos observados, destacamos que as mulheres continuam respeitando os interditos durante a menstruação para não ofender os donos das águas, os espíritos Gojanéhj; os nomes dos mortos permanecem proibidos, seus pertences e sua casa destruídos para que o esquecimento seja completo e os páhxoéhj – “espectros terrestres” – se desapeguem dos parentes vivos; os zerebàéhj, espíritos da floresta, ainda são apontados como causa de doenças misteriosas; e os lugares da mata considerados sagrados ou perigosos são escrupulosamente evitados. Apesar da aproximação ao “ser branco” através da igreja, quando precisam se apresentar “enquanto índios” são as canções xamânicas destinadas a estes seres que são evocadas e entoadas. Ao que parece, a forma como aderiram ao cristianismo protestante deixou uma margem razoável para que os espíritos continuassem operando.
Apresentação Oral em GT

Entre a encruzilhada e a correnteza: as relações entre “almas”, “caboclos” e pessoas numa ilha no rio São Francisco.

Autor/es: Márcia Maria Nóbrega de Oliveira
Fruto de uma pesquisa de doutorado em andamento, esse trabalho se propõe a pensar de que forma pessoas, “almas” e “caboclos”, em suas diversas modulações, convivem e povoam o espaço de uma ilha situada no trecho sub-médio do Rio São Francisco, a Ilha do Massangano. Por viverem numa ilha no semi-árido nordestino, seus habitantes – que segundo a formulação nativa são “um povo só”, o povo de Iaiá Celestina – articulam a todo momento a presença desses seres à força dos regimes das águas do rio e sua relação com o sem-fim da “terra firme”, atualizado ali no bioma da caatinga. Ao passo que as “almas” habitam tanto as encruzilhadas dos caminhos de terra quanto os cemitérios, sempre postos no alto ou longe da ilha; parte dos “caboclos” são concebidos como seres afeitos às águas do rio, habitando suas pedras e correntezas. De todo modo, almas e caboclos estão “por aí” povoando certos lugares e é preciso levar isto em conta no cálculo dos percursos cotidianos por onde passam de modo que possam ora evitar, ora procurar, por esses encontros. De todo modo, não é apenas o caminhar da gente que conforma o território vivido – como é o caso de uma encruzilhada, por exemplo. Para seus habitantes, a Ilha do Massangano, ela própria, também anda, movida pela força das correntezas do rio: já esteve aqui e acolá, comprovam-no observando o desenho do que faz margem entre ilha e terra firme – “encaixa direitinho uma na outra”. Por força das águas, a terra, como a encruzilhada, caminha junto com aqueles que a povoam. De modo geral, a impressão que se tem é que, na Ilha do Massangano, o mundo das “almas” e dos “caboclos” não é descontínuo àquele em que se vive. Diante disso, procurarei pensar de que forma essas pessoas atualizam na relação com esses seres intangíveis a “tangibilidade” do espaço em que habitam.
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“Lonnè é rèspé pou zansèt an nou”: lembrança do passado, escravidão e reparação em Guadeloupe/Caribe

Autor/es: Mariana Vitor Renou
Este artigo pretende explorar diferentes facetas do movimento por Reparação que contemporaneamente se desenvolve em Guadeloupe, departamento francês no Caribe. Sobretudo a presença e participação de não-humanos nesses processos. O pedido de reparação conduzido por grupos de afro-guadalupenhos, que são a maioria absoluta dos habitantes do arquipélago, dirige-se ao Estado francês exigindo compensações econômicas, políticas, sociais e culturais pelo crime contra a humanidade do tráfico e escravização de africanos. Contudo, os significados de reparação e as maneiras pelas quais ela deve ou não se realizar são múltiplos e estão sendo intensamente debatidos em diversas esferas e por variados atores. Durante quase um ano de trabalho de campo acompanhei as associações CIPN (Comité International des Peuples Noir), MIR (Mouvement International Pour les Réparations), que junto ao FKNG (Fos pou Konstwui Nasion Gwadloup) formam o CNGR (Comité National Guadeloupéen des Réparations). As associações isoladas ou em conjunto tem desenvolvido diversos tipos de ações “pour les réparations”, exigindo, iniciando processos, encontrando caminhos e até mesmo já realizando diversas formas de reparação. Essas ações vão desde seminários internacionais, conferências-debates, construção de museus e memoriais, marchas comemorativas, atividades culturais até processos contra o Estado na justiça francesa e interpelações públicas ao presidente da república. Na preparação e na realização de todas essas ações, uma série de debates, polêmicas e divergências surgiam com força, além disso, era um momento de reunião, experimentação, explicitação e produção de conceitos, artefatos, performances, tempos, espaços e actantes (Latour, 2006) diversos. De maneira significativa e inesperada surgiam seres intangíveis, como actantes fundamentais, atuando e provocando ações de maneira significativa, questionando fronteiras e concepções. Sobretudo espíritos de ancestrais acionados e mobilizados, por exemplo, em cerimônias específicas caracterizadas como “momentos de espiritualidade”, se presentificando nas paisagens, surgindo nas marchas memorias ou sendo objeto central das árvores genealógicas construídas por genealogistas profissionais para integrar os processos jurídicos contra o Estado francês, de modo que os supostos descendentes pudessem comprovar a sua ascendência escrava. Deste modo, pretendo refletir sobre as diversas formas através das quais os ancestrais surgem, participam, agem e provocam ações nas iniciativas dos movimentos por reparação, o que possibilitam, geram, reúnem e significam para o movimento como um todo e para os seus integrantes. Assim como busco pensar sobre o que colocam em questão e os impactos sobre os sentidos de reparação e o que é produzido nas ações para obtê-la.
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“A família de Légua tá toda na eira”: tramas de parentesco nas relações entre pessoas e encantados

Autor/es: Martina Ahlert
Terecô é uma experiência religiosa afro-brasileira encontrada no interior do estado do Maranhão, nordeste brasileiro. Nela, as pessoas convivem continuamente com encantados – seres recebidos em rituais, mas também presentes em momentos ordinários, por intermédio da incorporação, por sensações físicas ou objetos que os pertencem. Os encantados foram pessoas que, em determinado momento de suas vidas, desapareceram, passando a viver em um entre mundo chamado de Encantaria. Esse conjunto heterogêneo de seres se organiza por intermédio de famílias, que são formadas por parentesco consanguíneo, mas também “por consideração”. Aqui na terra, eles se relacionam com pessoas possuidoras de “mediunidade” e com aqueles que as rodeiam, como seus familiares, amigos e vizinhos. Nesse texto, procuro pensar as relações entre pessoas e encantados a partir de dois casos onde estes seres se cruzam em tramas de parentesco - que envolvem partos realizados por entidades, casamentos por elas previstos e anunciados; encantados recebidos como herança em momentos de morte e conexões geracionais evidenciadas pelos mesmos. As situações descritas e analisadas no texto surgem de uma pesquisa etnográfica desenvolvida há cerca de cinco anos no município que é visto como ‘berço’ do terecô, Codó. A cidade possui uma família de encantados característica, a de Légua Boji Buá da Trindade, um vaqueiro afamado que possui diversos irmãos(as), filhos(as) e netos (as). Ao pensar nas relações entre pessoas e encantados, tendo como eixo o parentesco, procuro chamar atenção para a dialética entre agenciamento e desagenciamento provocada pela presença desses seres na vida das pessoas. Sugiro, portanto, que a partir da feitura de parentes e de relacionados, podemos pensar: i) a forma como as conexões entre pessoas e encantados são utilizadas pelos sujeitos para ocupar determinados lugares de fala, legitimando quem são e as posições que ocupam; ii) a maneira como é determinada a responsabilidade de certas ações, o que nos leva a pensar em noções de liberdade ou ausência de escolha e; iii) o acionamento de vínculos com pessoas e com localidades ou territórios, realizado por intermédio da relação com as entidades.
Apresentação Oral em GT

“Os donos das paisagens”: Domínio dos seres intangíveis nas relações de uso, compartilhamento e apropriação das paisagens culturais entre os Katukina do Rio Biá (Amazonas, Brasil).

Autor/es: Myrian Sá Leitão Barboza
Dentre os diversos fatores decisivos para o uso, compartilhamento e apropriação de certos espaços entre os Ameríndios, as relações estabelecidas entre famílias e grupos sociais específicos possuem importante destaque. Estas relações envolvem laços de parentescos e afinidades, e geralmente são permeadas por acordos, alianças e conflitos. Internamente, no território Rio Biá, os Katukina (Foz de Jutaí, Amazonas) compartilham a maioria de seus ambientes de pesca, caça e extração de frutos. As roças, embora constituam-se como áreas de atividades coletivas, apresentam uma divisão espacial interna que delimita temporalmente o espaço para cada família. Cada unidade de roça familiar é demarcada por fileiras de abacaxis, ou troncos queimados. Após alguns anos ocorre diminuição no uso destes espaços, porém eles nunca são vendidos. Em vez disso esses locais são “transferidos” ao longo do tempo para outros “proprietários”. A “propriedade” dos atuais ou antigos espaços cultivados (capoeiras) pode pertencer a indivíduos Katukina vivos ou já falecidos. Enquanto as paisagens da floresta que não contem evidências de cultivos recente são concebidas como propriedades de entidades animais. Os Katukina consideram os animais como “donos” responsáveis pelo domínio daquele ambiente. Nas florestas compostas por lianas, os macacos são os “proprietários” dessas unidades de paisagens, enquanto as formigas são donas de outros espaços. Tendo em vista a dinâmica Katukina de uso, compartilhamento e apropriação de paisagens culturais, eu pretendo compreender a concepção Katukina acerca dos conceitos de propriedade e de paisagens culturais, além dos mecanismos embutidos no processo de “apropriação” e “transferência” destes locais. Considerando a possibilidade da existência de “donos” de determinadas paisagens culturais Katukina, eu pretendo verificar as relações permeadas entre os novos e antigos “proprietários” dos mesmos espaços, e como ocorre a difusão e transferência ao longo do tempo. Também pretendo analisar a distribuição espacial das atuais roças e distribuição de tarefas dentre os diferentes grupos, a fim de verificar a existência de correlações. Por fim, irei investigar se os espaços de entidades animais ou de ancestrais Katukina serão eternamente de seu domínio ou podem ser transferidos. Os seres intangíveis apresentam-se incutidos no universo e contexto Katukina, entrelaçados em suas relações, e parecem ser considerados para as tomadas de decisões que envolvem uso, apropriação e compartilhamento dos espaços culturais. Este estudo irá discutir o conceito de paisagem, propriedade e a possibilidade de apropriação de paisagens culturais por seres intangíveis na Amazônia indígena, de forma a auxiliar no aprimoramento do meu projeto de doutorado.
Apresentação Oral em GT

A Fuga da Mãe - Um exercício etnográfico sobre a relação entre imaginário e meio ambiente na comunidade do Rrio das Pedras, Curuçá/PA

Autor/es: Yasmin Ainá Martins Barbosa Loureiro, Lourdes Gonçalves Furtado - Museu Paraense Emílio Goeldi
Essa reflexão teve como foco a região do entorno do Rio das Pedras, situado no município de Curuçá, Pará. A partir das entrevistas com os moradores da área, onde o propósito era ter uma noção de como essas pessoas se relacionavam com o meio ambiente, em especial com o rio, foi possível compreender que além da relação de consumo do recurso natural existe também um imaginário sagrado representado na crença deles na existência de animais “encantados” que seriam responsáveis pelo equilíbrio do espaço (rio). As “Mães do Rio”, identificadas geralmente como cobras são associadas ao estado de conservação do meio ambiente, pois podem “fugir” quando tem seu espaço destruído ou alterado. A partir dos dados coletados na pesquisa de campo, refleti sobre a “fuga da mãe” como uma permanência da crença na Mãe do Rio mesmo diante de mudanças no espaço. Refleti sobre a função dessas figuras sagradas dentro da cultura local e em especial como a sua presença (ou ausência) pode determinar a maneira com que o recurso hídrico é utilizado e preservado pelos habitantes da região. Refleti também sobre a relação entre “crença” e “descrença” na Mãe do Rio e como os ditos “conhecimentos científicos” por si só não anulam a percepção local em relação ao imaginário sagrado, apenas são resignificados, criando-se novos mitos como o da Fuga da Mãe.
Apresentação Oral em GT

Entre o espírito santo e os demônios: uma reflexão sobre o papel dos seres intangíveis na favela Cidade de Deus

Autor/es: Diogo Silva Corrêa
Segundo narrativa clássica de Max Weber a respeito do desencantamento do mundo, o Ocidente teria passado por um progressivo processo de racionalização. Esse processo teria se iniciado no judaísmo clássico, com a retirada dos deuses da imanência do próprio mundo, teria se intensificado com a transcendência do Deus católico para, enfim, radicalizar-se na transcendência absoluta e muda do Deus protestante. A história do Ocidente seria, nesse sentido, a história da marcha inexorável de um progressivo processo de secularização. O que Weber não previra, nem poderia prever é que do próprio protestantismo clássico emergiria uma ramificação que subverteria completamente a lógica do processo aludido: o pentecostalismo. Ao contrário de uma transcendência absoluta, ele instauraria uma imanência radical; no lugar de um Deus mudo, calado e silencioso, ele instituiria um Deus barulhento, ruidoso e altissonante. Na forma de vida pentecostal pode faltar qualquer coisa menos a presença permanente das entidades espirituais no plano mais prosaico e quotidiano dos crentes. Baseado em uma etnografia de dois anos na Cidade de Deus junto a ex-traficantes pentecostais da Assembleia de Deus, esse trabalho pretende apontar o modo como entidades espirituais como espírito santo e os demônios compõem a mobília ontológica do universo crente. A ideia é expor como, ao invés de estarem encerradas em uma transcendência sem qualquer contato direto com as pessoas, esses seres são constitutivos da vida cotidiana dos crentes da favela Cidade de Deus. Mais do que isso, pretende-se por meio desse trabalho apresentar como esses seres intangíveis integram a forma de vida dos crentes e possuem uma actância ou simplesmente um poder de agência irredutível à divisão entre real e imaginário, isto é, entre o mundo objetivo dos fatos e mundo subjetivo das representações. Para mostrar essa dimensão cotidiana dos seres espiritais e suas múltiplas formas de interação com os humanos, primeiro, me deterei sobre as narrativas descritivas que os crentes fazem a respeito de tais entidades. Segundo, irei apresentar exemplos de situações que pude observar enquanto pesquisador na Igreja. Procurarei focar-me nos atributos e nas potências que os seres intangíveis como o espírito santo e os demônios apresentam dentro de um cenário violento, como é o da Cidade de Deus. Uma vez que a minha pesquisa se concentrou na Igreja de um ex-dono da boca de fumo local, o tráfico de drogas e o cenário de violência eram onipresentes nas pregações e na vida quotidiana desta Igreja. Daí porque não apenas irei mostrar como as entidades espirituais são seres que participam diretamente da forma de vida crente, como irei expor o modo como elas desempenham um papel fundamental de explicação e mediação junto à forma de vida do crime.
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A índia Luiza e a cidade de São Vicente (RN)

Autor/es: Sheila Ramos da Silva, Julie Antoinette Cavignac
Propomos analisar as narrativas sobre a índia Luiza que é vista como fundadora da cidade de São Vicente, localizada no sertão do Rio Grande do Norte, uma região onde houve uma grande resistência indígena durante todo o período colonial e na qual há registro de grupos indígenas até o início do século XX. A história da cidade se confunde com a da índia que teria morrido nos meados do século XVIII: até 1948, a cidade era chamada de Luíza e foi substituída por o nome de um santo cristão. Nos relatos dos moradores da cidade, há descrições de paisagens naturais e monumentos históricos que fazem referência à esta personagem: o Saco da Luíza, um dos lugares de refúgio que conserva pinturas rupestres e materiais arqueológicos, foi usado como cemitério durante a epidemia de varíola, no século XIX; o riacho da Luiza; a prefeitura ou Palácio da Luíza, etc. Propomos avaliar as narrativas sobre o passado relacionados à índia e descrever os outros lugares habitados por seres sobrenaturais que aparecem nas falas. Como coloca Fischman (2007) as reelaborações são constitutivas da memória e para determinar como se constitui a lembrança devemos focar no centro daqueles episódios que o enunciador seleciona e manifesta como parte da reconstrução do passado. A metodologia da pesquisa é de caráter qualitativo, com ênfase na pesquisa etnográfica em articulação com a história oral, compreendendo diário de campo, gravações em áudio com entrevistas semiestruturadas. Utilizamos também de recursos visuais como fotografias para apresentar os lugares mencionados pelos narradores. A partir das seis entrevistas realizadas até o momento, verificamos que tanto a índia como os seres sobrenaturais são significativos para uma compreensão histórica da cidade, pois estas são reveladoras de contextos consideráveis para uma assimilação sobre território que os são-vicentinos ocupam. Nas diversas histórias, esses seres são associados como constitutivos de relações cotidianas por meio de sua presença no tempo e no espaço. Referências FISCHMAN, Fernando. La Múltiple autoria del Recuerdo: propuesta metodológica para el análisis de los procesos de configuración de memória social através del arte verbal. In: FISCHMAN, Fernando & HARTMANN, Luciana. Donos da Palavra: autoria, performance e experiência em narrativas orais na América do Sul. Santa Maria: Editora da UFMS, 2007, p.41-65.
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