Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT027. Ensinar e Aprender Antropologia

É notório que nos últimos anos a Antropologia tem expandido sua presença junto às mais diversas formações universitárias e não universitárias, bem como, tem havido no Brasil um incremento na formação de antropólogos em nível de pós-graduação e de graduação, sem que com isso tenha havido um debate profundo em torno do seu ensino, bem como das particularidades do aprendizado de ser antropólogo, em termos da aquisição teórica-metodológica. O processo formativo em antropologia passa, necessariamente, pelas relações entre ensino e aprendizagem, de modo que a discussão em torno de sua aquisição mostra-se fundamental para a própria compreensão dos rumos da Antropologia como ciência na atual conjuntura. O presente Grupo de Trabalho visa discutir estas questões, com foco na formação de antropólogos e de “não antropólogos”, discutindo as diversas inserções da ciência antropológica em vários espaços formativos. Buscamos realizar uma reflexão em torno do lugar do ensino/aprendizagem da antropologia, bem como dos desafios postos a sua realização, e das fundamentações teóricas, epistemológicas e práticas que subjazem seu ensino, voltando para a formação de antropólogos (em nível de graduação e pós-graduação), cientistas sociais, profissionais da saúde, professores etc. Também buscamos compreender o ensino/aprendizagem da Antropologia na educação básica. Este GT se baseia numa ampla interface entre a antropologia e ensino, visando abarcar os mais diversos trabalhos produzidos neste cenário.

Amurabi Pereira de Oliveira (Universidade Federal de Santa Catarina)
(Coordenador/a)
Rodrigo Pereira da Rocha Rosistolato (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO)
(Coordenador/a)

Sessão 1

Ana Pires do Prado (Universidade federal do rio de janeiro)
(Debatedor/a)

Sessão 2

Miriam Pillar Grossi (Universidade Federal de Santa Catarina)
(Debatedor/a)

Sessão 3

Bernadete de Lourdes Ramos Beserra (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ)
(Debatedor/a)


O relato etnográfico: contributos antropológicos na Educação Básica

Autor/es: Alef de Oliveira Lima
A reintrodução do ensino de sociologia na rede básica de ensino trouxe uma série de questionamentos a respeito das reais possibilidades científicas e pedagógicas que essa retomada pode acarretar. No que tange às especificidades incluídas na reinserção dessa disciplina, pode-se destacar o desenvolvimento das posturas de estranhamento e desnaturalização presentes nos conceitos, teorias e temas tratados pelas Ciências Sociais; estrito senso, a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) também já se ressalta uma visão de conjunto que envolve os conhecimentos das áreas de Antropologia e Ciência Política que estariam incluídos no ensino da ciência sociológica. Sob essa perspectiva, o presente artigo tem como objetivo expor a formulação de metodologias de ensino que dialoguem com a Antropologia, e consequentemente contribuam para firmar atitudes críticas e aguçar o senso de desnaturalização dos alunos da Educação Básica. Escolheu-se como aporte metodológico um conjunto de relatos etnográficos feitos por estudantes do terceiro ano do ensino médio, de uma escola estadual em Fortaleza/CE. Esses relatórios foram solicitados como parte da nota parcial da disciplina Sociologia e tinham a meta de descrever situações e lugares vivenciados pelos estudantes em seu cotidiano. A dinâmica era feita por meio da leitura de cada texto por seus respectivos autores, depois as conclusões eram problematizadas de modo a ressaltar a diferença entre um olhar apressado, fugaz e indisciplinado, e um olhar e ouvir mais constante, atento às peculiaridades e às relações sociais que se processam em diferentes espaços de convivência de cada estudante. Enquanto possibilidade educacional, percebeu-se que alguns alunos se espantaram ao ler seus textos com tantos detalhes, outros tiveram dificuldade em descrever suas vivências, e ainda tiveram aqueles que se mostraram excelentes etnógrafos do cotidiano, demonstrando habilidade surpreendente para a análise antropológica. Conclui-se que o uso dos instrumentos de pesquisa e análise da Antropologia podem funcionar em diferentes sentidos dentro do contexto do ensino médio, já que suas possibilidades de contato com a alteridade, com o “diferente”, com a busca de uma observação atenta habilitam o alunado a repensar seu lugar social, suas percepções e suas trajetórias à luz dos seus pertencimentos culturais.
Apresentação Oral em GT

FAZENDO ETNOGRAFIA EM UMA ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL: experiências construídas e compartilhadas nos encontros com as crianças

Autor/es: Amanda Fonseca Soares Freitas, Sandra Pereira Tosta
Este trabalho destaca a experiência etnográfica da pesquisadora em campo. Uma pesquisadora professora, que, mesmo sem a formação em Antropologia, ousou olhar, vivenciar, refletir, interpretar e escrever sobre seus encontros com crianças de uma escola da rede Municipal de Belo Horizonte que participam do Programa Escola Integrada . O objetivo principal deste texto é revelar como a pesquisadora percebeu as experiências das crianças nos diferentes tempos e espaços da escola escolhida e, também, como se percebeu em suas interações com essas crianças. Além disso, pretendemos destacar o processo de ensinar e aprender Antropologia em um Programa de Pós-graduação em Educação, onde os desafios de se fazer uma etnografia na escola foram sendo compartilhados com a orientadora da tese, que sendo antropóloga, possibilitou um diálogo permanente entre Antropologia e Educação no exercício permanente e reflexivo do ensinar e aprender por parte das duas pesquisadoras. A expressão “de perto e de dentro” é utilizada por Magnani (2002) para explicitar que o exercício da etnografia é permitir-se estar em interação com o ‘outro’, dando-lhe voz e ao mesmo tempo, assumindo que ambos (pesquisador e pesquisados) serão ‘afetados’ nesta relação. A etnografia foi realizada no período de fevereiro a dezembro de 2013 numa turma de crianças de 8 anos, que corresponde ao 3º ano escolar. Foram realizadas observação participante, registros no caderno de campo e também por fotografias e desenhos. O caderno de campo e a máquina revelaram-se objetos mediadores das conversas, das interações construídas no campo e possibilitaram que diferentes significados sociais fossem apreendidos e também reconstruídos. As imagens foram compondo o texto escrito: fotografias tiradas pela pesquisadora e compartilhadas com as crianças; fotografias tiradas pelas próprias crianças e também fotografias feitas por outros professores, as quais estimularam as conversas em campo, produziram relações de confiança e cumplicidade e, principalmente, demonstraram que o exercício da etnografia é um processo educativo, capaz de transformar todos aqueles envolvidos. E, por suposto, capaz de estabelecer relações de aprendizagens mútuas entre a antropóloga e a professora de educação física.
Apresentação Oral em GT

Antropologia e educação: interdisciplinaridade, ensino, pesquisa e trabalho de campo

Autor/es: Anderson Xavier Tibau Gonçalves, Tania Dauster
A possibilidade de construção da interdisciplinaridade entre os campos da antropologia e da educação é abordada, neste texto, a partir do intercâmbio das experiências de ensino de dois pesquisadores. Uma é professora emérita do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. O outro, professor adjunto do Curso de Pedagogia do Instituto de Educação da Universidade Federal Fluminense em Angra dos Reis. Consequentemente, objetiva-se caracterizar a diversidade de modos de conceber e realizar que se desenvolvem nos distintos contextos da disciplina antropologia e educação, relativizar seus limites e fronteiras, situar as representações e práticas de leitura/escrita no contexto universitário, além de revelar as peculiaridades de cada caso em função de algumas limitações e liberdades inerentes ao tipo de aluno que ingressa no ensino superior. Trata-se de perceber, dentro de um amplo processo de diálogo e cruzamento de saberes e reflexões, como se constituiu a disciplina antropológica tanto numa situação quanto noutra e o lugar aí ocupado pelo trabalho de campo.
Palavras chave: Antropologia; Educação; Interdisciplinaridade
Apresentação Oral em GT

Considerações sobre o uso das categorias Diversidades e Desigualdades por professores de Antropologia

Autor/es: Andréa Bayerl Mongim
Neste estudo, em andamento, assumo como proposta analisar percepções construídas por professores de sociologia/antropologia acerca das categorias desigualdade e diversidade cultural. Do ponto de vista metodológico, estão sendo entrevistados, através de entrevistas semiestruturadas, docentes que atuam em escolas de ensino médio, localizadas na Região da Grande Vitória/ES. Entre outras questões, observa-se tendência ao uso da categoria diversidade cultural como sinônimo de pluralidade, complementada pela concepção de desigualdade como sinônimo de diversidade. Por esta via, tende-se também à secundarização da diversidade como experiência que se constitui na alteridade, ou seja, na troca recíproca e permanente de enfretamento, tensão e complementariedade.
Apresentação Oral em GT

PITAKAJÁ: ensino de antropologia, saberes tradicionais e práticas culturais.

Autor/es: Carlos Kleber Saraiva de Sousa, Valdênia M.L.L. Saraiva
A proposta central deste ensaio é refletir sobre a relação entre o ensino de antropologia, saberes tradicionais e práticas culturais presentes na Licenciatura Intercultural Indígena PITAKAJÁ, que é desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará. De maneira mais específica, nossas reflexões recaem sobre três perspectivas dos discentes índios (as), a saber: 1) a compreensão que evidenciam sobre a relação entre o aprender antropologia e a descentralização do olhar; 2) o entendimento que possuem sobre as práticas educacionais que consultores docentes dessa graduação lançaram mão para lecionar-lhes essa disciplina e 3) a apreensão que destacam sobre as consequências desse aprendizado enquanto instrumento teórico e prático que qualifica os processos de ensino e aprendizagem nas escolas indígenas em que atuam como professores da educação básica de suas respectivas aldeias. Sublinhamos que nossas reflexões incidiram-se sobre a disciplina “Antropologia e educação indígena” e os dados primários e secundários foram coletados ao longo dos meses de Janeiro e Fevereiro de 2016. Entre os resultados encontrados notamos uma convergência de sentidos que indica um aprofundamento da qualidade na percepção índia relacionada à diversidade cultural e às ações de ensinar em suas instituições escolares específicas.
Apresentação Oral em GT

O “Corre”: Etnografia da Reunião Geral do Espaço Comum Luiz Estrela

Autor/es: Claudia Regina Dos Anjos, Lucia Gouvêa Pimentel Luiz Eduardo R. de A. Souza
O presente artigo configura-se como uma etnografia realizada no Espaço Comum Luiz Estrela, parte do projeto sobre culturas na cidade de Belo Horizonte- MG, coordenado pela professora Sandra Tosta, aprovado pelo CNPq, fruto da parceria entre os Programas de Pós-Graduação da PUC-Minas e da EBA/UFMG, particularmente, entre os seus Grupos de Pesquisa, GIS, EDUC e EARTEC, intitulado Culturas Urbanas: Georreferenciamento e Análise Cultural de Grupos Juvenis em sua relação com a Escola, as tecnologias e com a cidade de Belo Horizonte/MG-Brasil. O referido projeto teve como objetivo georreferenciar os distintos grupos culturais urbanos que atuam no hipercentro da capital mineira, cujos objetivos foram: registrar, descrever e analisar os seus perfis, objetivos, possíveis propostas e relações estabelecidas com as escolas e seus projetos educativos. Na Etnografia realizada entre os anos de 2013 e 2016, além da pesquisa de campo com observação participante e registros audiovisuais e entrevistas, foi considerado, ainda, o georreferenciamento. No processo de coleta de dados escolhemos o Espaço Comum Luiz Estrela, como um dos espaços que convergem vários grupos representativos das expressões e intervenções culturais na cidade. Como parte dos resultados desse projeto foram organizadas etnografias de vários grupos organizativos do Espaço Comum Luiz Estrela que concentram vários grupos, ativistas e movimentos políticos, culturais e sociais da cidade de Belo Horizonte. A construção coletiva das etnografias foi um desafio constante enfrentado pelos pesquisadores e participantes, tanto na imersão no campo como nas discussões, organizações e sistematizações realizados dos dados. O tempo e espaço foram também desafiadores e determinantes de um processo de ensinar e aprender etnografar. Esses desafios foram a cada momento também se transformando em aprendizagens, sobretudo, das relações humanas e humanizadoras que perpassaram o processo de fazer etnografias coletivamente.
Apresentação Oral em GT

A pesquisa como ferramenta de ensino em sociologia

Autor/es: David Gonçalves Soares
A utilização de atividades experienciais como ferramentas didáticas, e no conjunto destas, de atividades de pesquisa em moldes científicos (observação, construção e teste de hipóteses etc.) há muito vem ocupando o debate sobre didática escolar. Esse debate sobre formas de experimentação científica, embora tenha sido mais presente nas disciplinas referenciadas nas ciências da natureza, não é, todavia, idiossincrático destas. Em graus diferenciados, as disciplinas das ciências humanas vêm conferindo importantes espaços em seus currículos (História e Sociologia, por exemplo) para discussões sobre suas bases epistemológicas e metodológicas. Apesar dessa valorização da utilização da pesquisa no ensino, entretanto, pode-se dizer que esse é ainda um elemento estranho à cultura escolar brasileira. É conhecido que o currículo da escola básica dá pouca ênfase para questões acerca da cultura científica, da construção individual e coletiva sob as quais ocorre propriamente a atividade científica, valorizando, ao contrário, a utilização de conceitos e fórmulas prontas. No caso da disciplina escolar de sociologia, disciplina que engloba as ciências sociais como um todo, embora haja indicação normativa expressa nas Orientações Curriculares Nacionais para o uso sistemático da atividade de pesquisa, pode-se dizer que pouco se conhece ou se sistematizou sobre a questão. No relativamente recente campo de investigação em ensino de sociologia esse ainda é um tema pouco explorado. Neste contexto, este trabalho apresentará uma investigação exploratória, ainda em fase inicial, sobre instrumentos didáticos experienciais, baseados em formas de utilização de pesquisa social no ensino de sociologia escolar, dando ênfase às condições sócio-estruturais e às práticas docentes associadas a esses elementos. Trata-se de refletir a relação de professores e alunos do ensino médio com atividades experienciais em sociologia, principalmente aquelas baseadas em pesquisa, englobando nesta categoria as pesquisas que manifestem algum grau de sistematicidade metodológica e não apenas “pesquisas exploratórias pontuais”, como as pesquisas em livros, revistas etc a partir de um tema trabalhado em aula. As seguintes fontes caracterizam o desenho metodológico deste trabalho: 1) uma revisão bibliográfica (artigos de periódicos e coletâneas especializadas; anais de congressos ; blogs de discussão de professores etc.) que apresentem relatos de experiências de uso de pesquisa em sociologia escolar; 2) análise de livros didáticos e paradidáticos, com indicações e propostas de utilização de pesquisa em sociologia para o ensino médio; 3) entrevistas realizadas junto aos professores de sociologia de duas escolas da rede pública estadual conveniadas ao curso de licenciatura em Ciências Sociais da UERJ.
Apresentação Oral em GT

Fazer antropológico e prática docente: relatos de experiências no PARFOR/CAMEAM/UERN.

Autor/es: Elcimar Dantas Pereira, Prof.ª Dr.ª Eliane Anselmo da Silva (DCSP/UERN)
O trabalho em tela objetiva expor as experiências de dois professores ao ministrarem disciplinas de Antropologia, no curso de Ciências Sociais, na modalidade PARFOR (Plano Nacional de Formação de Professores na Educação Básica), no CAMEAM (Campus da UERN na cidade de Pau dos Ferros/RN). O PARFOR é um programa implantado em colaboração entre a Capes, os estados, municípios, Distrito Federal e Instituições de Educação Superior, que fomenta a oferta de turmas especiais em cursos de Primeira e Segunda Licenciatura, e de Formação Pedagógica. Seu objetivo principal, é assim induzir a oferta de educação superior gratuita para professores em exercício na rede pública de educação básica, para que estes profissionais possam obter a formação exigida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, contribuindo para a melhoria da qualidade da educação básica no País. Nesta modalidade de ensino, as aulas são divididas em presenciais e não presenciais. As aulas não presenciais são desenvolvidas através de tarefas propostas pelo professor. No caso das disciplinas de Antropologia, optamos sempre por propor observações diretas, relacionadas à realidade cotidiana do aluno, a fim de provocar nestes a necessidade de pensar-se enquanto sujeitos inseridos em universos culturais, que por falta de algumas ferramentas, ainda não tinham acessado. Em cada uma das quatro disciplinas tivemos a construção de microtextos etnográficos, que iam da identificação de traços culturais próprios das localidades onde viviam, passando por experiências de alteridade em um terreiro de candomblé e uma comunidade indígena, até a utilização das técnicas antropológicas para a produção das observações das escolas onde os estágios seriam realizados. O que podemos observar é que, o conjunto de disciplinas nesse processo de ensino aprendizagem superou o conteudismo, na medida em que auxilia por meio de um conjunto de ferramentas antropológicas que os alunos questionem suas realidades locais e globais, além de serem evidentes em seus trabalhos e em suas falas que, o exercício do fazer antropológico leva a um reconhecimento dos valores culturais presentes em suas localidades e de si, enquanto sujeito.
Apresentação Oral em GT

Estranhando a antropologia: as aulas de introdução à antropologia para estudantes indígenas em Rondônia.

Autor/es: Gicele Sucupira Fernandes
Apresento os desafios e inquietações que emergiram nas aulas de Introdução aos Estudos Antropológicos para estudantes indígenas do Curso de Educação Intercultural da Universidade Federal de Rondônia. Em sala, 28 indígena e mais de 8 etnias distintas em aulas intensivas. Discussões como alteridade e etnocentrismo pareciam ser lugar comum. Em antropologia, pareciam exímios praticantes. A relação com algum antropólogo tampouco era distante. Críticas a estes eram diversas. Aprender como o outro diz o "outro" ou outras pequenas palavras nos levavam a perguntas infinitas. Impossível era não questionar os "outros" dos textos comumente utilizados como introdutórios dessa disciplina acadêmica. Para quem afinal falavam os textos de antropologia¿ Os "nós" e "eles" nos textos não eram os na sala de aula, onde tudo se embaralhava e tornava latente o exercício antropológico. A cada frase o estranhamento de mim mesma e da antropologia que até então ensinara era inevitável. Os questionamentos antropológicos pareciam refletiam suas próprias interrogações.
Apresentação Oral em GT

Processo de construção coletiva de pesquisas em Sociologia & Antropologia da Educação no PROFEBPAR: educação formal e narrativas de sofrimento e violência como experiência escolar em Codó, Maranhão

Autor/es: Luiz Alberto Alves Couceiro
Participei do PROFEBPAR de Ciências Sociais, em 2014, lecionando Sociologia da Educação, no campus da UFMA, em Codó, município do norte do Maranhão. Trabalhei com os textos em leituras coletivas, em voz alta, revezando-me com todos @s alun@s. Meu método se completava com pausas programadas nestas leituras, nas quais incentivava depoimentos dos alun@s acerca de episódios através dos quais vissem sentido no que estávamos lendo. A partir disso, eu elucidava os textos. Ao longo das aulas sobre famílias e trajetórias escolares (Bourdieu e Passeron 2015) e indisciplinas (Willis 1977), @s estudantes elaboraram percepções sobre alun@s que frequentemente não compareciam às escolas. E resolveram investigar, a partir das conexões entre ambiente escolar, lar e vizinhança (Lahire 1992), o que havia por trás disso, vendo como “cada caso não é um caso” (Fonseca 1999). @s alun@s residiam noutras cidades deste estado, como Timon, Peritoró e São Mateus do Norte, e eram tod@s professor@s, em atividade, em escolas públicas e/ou privadas. Lecionavam os mais diversos temas, em lugares distantes às suas residências. Tod@s possuem motocicleta, pegam estradas precárias, nem sempre asfaltadas, e trilhas para chegar aos povoados em que essas escolas estão localizadas. São povoados dentro de, ou limítrofes a, latifúndios pertencentes às mesmas gerações de famílias, que sempre comandaram, direta ou indiretamente, a administração pública do lugar. Uma vez que uma criança parasse de frequentar a escola, @s professor@s, alun@s da turma que assumi, passaram a ir conversar com seus responsáveis. Assim, iam de moto até certo ponto e, depois, caminhavam alguns metros, ou, até mesmo, uns dois quilômetros mata adentro. São localidades que só tiveram acesso à luz elétrica recentemente, mas que não tem a mesma relação com saneamento básico, atendimento médico, e registros documentais, como RG e CPF. Nesse trabalho, pretendo avaliar como a pesquisa d@s estudantes foi construída, a partir da experiência do método adotado em Sociologia da Educação, como eles operaram coletivamente suas interpretações pragmáticas dos textos adotados. Também busco observar a sua influência na construção de discursos de sofrimento e dor (SARTI 2001), observados durante a disciplina, para os estudantes narrarem experiências de castigos físicos das crianças e suas famílias na paradoxal relação com a escola, seus desafios, e consequências. A questão que pretendo responder: é em que medida as escolas são capazes de conformar códigos de significação da vida social para essas crianças, sem envolver dramáticos custos familiares? Nesse sentido, avalio quais seriam esses custos do ponto de vista d@s professor@s/pesquisador@s nas visitas aos pais, quanto da imagem que configuram dos mesmos nesses tensos encontros.
Apresentação Oral em GT

Ver e pensar a diferença: experiências de ensino em antropologia com ações artísticas.

Autor/es: Maria Luiza Rodrigues Souza
“Você vê o mundo do outro e olha para o seu” é o instigante título de um artigo de Isaac Pinhanta, professor e cineasta Ashaninka, sobre sua experiência com imagens. Enquanto participava de oficinas para domínio técnico dos atos de filmagem, juntamente com participantes de outras etnias, podia perceber que o material lhe fazia olhar de outro modo sua própria vivência indígena. Neste trabalho abordo etnograficamente duas experiências pedagógicas em antropologia, em que estudantes de graduação de diferentes cursos da Universidade Federal de Goiás produziram fotografias, painéis audiovisuais e vídeos. Depois de apresentados/as a um variado conjunto de expressões estéticas, saíam a campo para experimentos fotográficos e audiovisuais a fim de perceberem com outros ângulos a vida comum: a cidade na primeira disciplina e a universidade na segunda. Era sugerida a leitura prévia de textos sobre arte e antropologia, arte urbana, imagem e pesquisa com imagens. Individualmente ou em grupo, realizavam exercícios fotográficos e videográficos em campo, enfocando três eixos (usos do espaço urbano, arte na cidade e desigualdade social), a fim de ver e mostrar a cidade com outras perspectivas. Dois painéis foram montados com as fotografias de cada um/a e vários pequenos vídeos inspirados pela proposta de Crônica de um verão, de Edgar Morin e Jean Rouch. Tal como no filme em que se indagava a parisienses sobre o que pensavam sobre a felicidade, o grupo foi a campo para perguntar o que as pessoas mais apreciavam e o que menos gostavam em Goiânia. Na segunda disciplina, a proposta foi fotografar a vida universitária para descobrirem as alteridades tornadas invisíveis pelo dia a dia mecânico. Depois de tomarem contato com obras fotográficas que desestabilizavam a fronteira entre documento e arte, seguiam a campo para fotografar a universidade. Assim, para as imagens que ressaltavam geometrias diversas, jogos de luz inusitados, tinham de fotografar o espaço acadêmico de ângulos desconhecidos, inéditos ao olhar cotidiano. Das fotografias jornalísticas ou que evidenciavam o que Sontag chama de arquivo humano do horror, foram estimulados a olhar e dar a ver a desigualdade racial, econômica e de gênero presente e não percebida no dia a dia. Estas experiências apontam que por outros caminhos pedagógicos é possível desenvolver atitudes políticas mais criticas e transformadoras, outros caminhos para viver e pensar a alteridade. Ao decidirem o que filmar, quais imagens “pegar”, ao perceberem que podem se expressar esteticamente, puderam compreender o papel da arte como desestabilizadora do senso comum, assim como um recurso interessante para pesquisa, para conhecer e ver a vida cotidiana em outros traços.
Apresentação Oral em GT

O ensino de Sociologia e Antropologia na Educação Básica: ou sobre o culto moderno dos deuses e fetiches da academia

Autor/es: Mauro Meirelles, Daniel Gustavo Mocelin Leandro Raizer
O presente trabalho têm por objetivo problematizar o modo como a sociologia e a antropologia são trabalhadas – ou dito de outra forma, transpostas didaticamente enquanto conteúdo programático – nas salas de aula da Educação Básica. Nesse sentido, busca-se através da pesquisa de campo e etnográfica explorar as múltiplas dimensões que envolvem essa transposição e busca-se com isso identificar elementos que permitam ao professor tornar as aulas de sociologia cada vez mais interessantes, críticas e emancipadoras. Muitos são os temas e os conteúdos programáticos que compõem a grade curricular da disciplina, assim como, também, é diverso os arranjos entre conceitos sociológicos e antropológicos que são feitos pelos professores no momento em que montam o programa de sua disciplina. Neste sentido, após análise de 150 planos de ensino, percebemos dois movimentos bastante comuns entre os professores que atuam junto a disciplina nos três últimos anos do Educação Básica. Um primeiro, comum entre os neófitos no ofício, que se pauta na crença de que os alunos os alunos da Educação Básica devem ler tanto quanto um aluno de Ciências Sociais – e inclusive textos ditos como estritamente acadêmicos – apesar de, não ser o foco da Educação Básica, formar especialistas em Ciências Sociais. Outro, que se constitui em certo fetiche, por parte daqueles que estão há mais tempo na profissão e consideram que a aula de sociologia se constitui muito mais num bate-papo orientado por um ‘mestre’ do que, algo, que exija investimento, preparação e cuidado no lido com conteúdos programáticos. Além disso, foi possível constatar a presença/ausência dos principais conceitos antropológicos nos planos de ensino. Grosso modo o que se propõe no presente trabalho é se pensar alternativas que nos permitem subverter essas lógicas canhestras e que permitam, ao professor de sociologia, alçar a sua disciplina a um outro patamar. E, não ser mais, apenas, uma disciplina que não roda, que não tem importância e que só esta presente na grade escolar por força de lei.
Apresentação Oral em GT

Aprendizados em cenas: o cotidiano escolar de uma especialização em Gênero e Diversidade na Escola em Santa Catarina.

Autor/es: Pedro Rosas Magrini, Miriam Pillar Grossi
Com esse artigo nos propomos a refletir sobre as dificuldades e êxitos nos processos de ensino e aprendizagem do curso de especialização à distância em Gênero e Diversidade na Escola (GDE) promovido pelo Instituto de Estudos de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina (IEG/UFSC) no ano de 2015. A partir do acompanhamento etnográfico de encontros presenciais em cinco cidades catarinenses (Florianópolis, Itapema, Laguna, Praia Grande e Laguna); da elaboração, aplicação e correções de provas de mais de duzentas/os cursistas; e de reuniões periódicas da coordenação do curso para a resolução de problemas das mais diversas naturezas, apresentaremos algumas cenas emblemáticas do cotidiano do curso nos quatro primeiros módulos. A cena 1 aborda a realização de uma oficina para a discussão sobre a legalidade e criminalização do aborto, onde as/os cursistas foram divididas/os em grupos pró e contra para debater sobre a questão. A cena 2 põe em foco a realização de um fórum no primeiro trimestre do curso dentro do Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem (AVEA), que interpelava às cursistas da seguinte maneira: Você é feminista?. A cena 3 ilustra as performances de um professor do GDE que fez leituras de Caio Fernando de Abreu indumentado de salto alto e batom em aulas presenciais do curso; na cena 4, procuramos trazer à tona algumas das justificativas de desistências apontadas pelas/os cursistas que chegaram na coordenação do curso; e por último, na cena 5, descreveremos as performances de cursistas no encontro unificado realizado em novembro de 2015 e que reuniu os cinco polos do curso em uma aula presencial em Florianóplis. A partir dessas cinco cenas, percebemos muitos das dificuldades encontradas pelas/os cursistas, seja para aprenderem conceitos acadêmicos, seja para voltarem a estudar depois de anos, bem como de romperem muitos dos preconceitos presentes em suas práticas e no próprio cotidiano escolar. Apesar das dificuldades, os resultados dos trabalhos, das provas e dos questionamentos produzidos nos espaços presenciais mostraram um significativo avanço crítico frente as questões de gênero, sexualidade e raça/etnia.
Apresentação Oral em GT

Oficinas de antropologia para crianças: notas sobre uma experiência

Autor/es: Valéria Cristina de Paula Martins
Este trabalho volta-se a uma experiência particular relacionada a processos de ensino-aprendizagem na área de Antropologia. Trata-se de oficinas de antropologia ministradas a crianças em uma biblioteca pública municipal na cidade mineira de Uberlândia. As quatro oficinas foram ministradas ao longo do segundo semestre de 2014 e envolveram, ao todo, cerca de 30 crianças entre 5 e 12 anos. O objetivo principal era sensibilizá-las e aproximá-las de temas e ideias caros ao debate antropológico, tais como a questão da diversidade e a (in)tolerância em relação à diferença. Este trabalho discorre sobre a experiência mencionada apontando e buscando analisar algumas transformações em relação ao formato e ao conteúdo das oficinas, desde o contato com as crianças que participaram da primeira edição, até a quarta e última oficina ministrada. Interessa-me refletir especialmente sobre alguns aspectos desse processo, tais como o exotismo como via de acesso à alteridade (Peirano 2006), a questão do conhecimento associado à educação da atenção e não à transmissão de representações (Ingold 2010), e ainda a possível especificidade do ensino-aprendizagem da antropologia para o público em questão: as crianças.
Apresentação Oral em GT

FAZER ETNOGRÁFICO: uma experiencia no processo de ensino e aprendizagem das práticas antropológicas em espaços formativos

Autor/es: Beatriz Demboski Búrigo, Beatriz Demboski Búrigo Felipe Boin Boutin
A expansão da Antropologia compreendida a partir de suas mais diversas formações, sejam elas universitárias ou não, em conjunto com o incremento na formação de antropólogos em seus diversos níveis, não pode se desvincular de discussões sobre questões relacionadas aos processos de ensino e aprendizagem da ciência antropológica e de como esses processos são inseridos em espaços formativos. Considerando este cenário e a centralidade desta questão para a realidade empírica do ensino dessa ciência, faz-se necessário o desenvolvimento de debates e estudos sobre as particularidades do aprendizado de ser antropólogo e de fazer antropologia. Por excelência, a etnografia é compreendida basicamente como o método de coleta e análise de dados da Antropologia e, em conjunto a isso, o trabalho de campo atua como base de uma pesquisa etnográfica. De maneira a fomentar o debate sobre essa interface entra a antropologia e seu ensino, este presente trabalho nos apresenta informações que contribuem para a análise do processo de aprendizagem do fazer etnográfico, especificamente, possui como objetivo compreender como é produzir etnografia na sala de aula. Compreendemos que este debate sobre como aprender a fazer etnografia é demasiadamente importante para a constituição de nossa trajetória como Cientistas Sociais em formação. Em termos da aquisição teórico-metodológica, o trabalho bibliográfico é praticamente indispensável. Porém, ao analisarmos as práticas utilizadas nas investigações empíricas e as formas como são conduzidas, vários questionamentos sobre os processos de ensino podem ser levantados. Sendo assim, com base em leituras bibliográficas e na realização de entrevistas semi-estruturadas, além da investigação de campo, este trabalho apresenta como se deu este processo de aprendizagem e realização de etnografia multi-situada em sala de aula, a partir da realização de uma pesquisa de iniciação científica sobre as trajetórias e formação dos professores de sociologia da educação básica, graduados e não graduados em Ciências Sociais, que atuam na rede estadual de ensino em Florianópolis. Para isso, foram pesquisados elementos que vão além do que podemos considerar como observação empírica, documentando as suas trajetórias profissionais e abarcando também as histórias pessoais dos entrevistados.
Pôster em GT