Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT024. Dinâmicas sociais, poder e transformação na África Contemporânea

Temos assistido a emergência e consolidação dos estudos africanos no Brasil, expressa em vários GTs sobre este tema aprovados em congressos de Ciências Sociais, Antropologia e História, pela criação grupos de pesquisa, associações, seminários e publicações. Este GT busca agregar trabalhos que tenham como foco discussões referentes à temáticas africanas, dentre as quais as relativas aos estudos sobre o poder e as instituições relacionadas à sua criação e manutenção; sobre a articulação entre diferentes formas de poder "tradicional" e Estado colonial e/ou pós-colonial; a cooperação internacional, migrações e deslocamentos de pessoas, objetos e narrativas; processos de produção identitária; conflitos em torno de concepções de direito e cidadania. O GT tem como objetivo adensar os diálogos entre pesquisadores produzir novas leituras e reflexões teóricas realizadas no Brasil sobre o continente africano. Encorajamos a apresentação de trabalhos de viés interdisciplinar, especialmente entre a antropologia e a história bem como trabalhos que apontem para a dimensão simbólica do poder em processos de mudança.

Luena Nascimento Nunes Pereira (UFRRJ)
(Coordenador/a)
Melvina Afra Mendes de Araújo (Universidade Federal de São Paulo)
(Coordenador/a)


Instabilidade politico-militar em Moçambique e a vida cotidiana

Autor/es: Albino Jose Eusebio; Sonia Barbosa Magalhães
Moçambique vive a partir do ano de 2013, uma instabilidade política provocada pela “tensão político militar” envolvendo o Governo de Moçambique comandado pela Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e a Resistencia Nacional de Moçambique (RENAMO), dois protagonistas da guerra civil pós-independência terminada em 1992 com assinatura na cidade de Roma, na Itália, do Acordo Geral de Paz. Ou seja, duas décadas depois do fim da guerra civil, o país se encontra mergulhado num autentico cenário de guerra, sendo a região central, - e principalmente alguns distritos da província de Sofala – o principal centro das ações militares. O objetivo do presente trabalho é fazer uma reflexão sobre os efeitos sociais dessa tensão político militar na vida cotidiana dos indivíduos. Neste contexto, a nossa discussão estará estruturada em três tópicos. No primeiro trazemos um breve histórico sobre a emergência da violência armada em Moçambique, como nota introdutória. No segundo tópico nos ocupamos por uma descrição contexto do ressurgimento da violência armada em Moçambique. No terceiro e último tópico nos focamos no objetivo central da nossa análise, a reflexão sobre os efeitos sociais da tensão político militar em Moçambique na vida cotidiana, destacando aspectos como a incerteza, o enraizamento do sentimento generalizado de insegurança e imaginário do medo, bem como os deslocamentos compulsórios das comunidades locais.
Palavras chave: Moçambique; guerra; cotidiano.
Apresentação Oral em GT

A “Reconstrução Nacional” de Angola nos rumos de projetos para a habitação e uso da cidade de Luanda

Autor/es: Camila Alves Machado Sampaio
Esta comunicação apresentará reflexões iniciais sobre projetos políticos para a habitação e uso da cidade no universo urbano de Luanda e alguns impactos possíveis sobre moradores de diferentes localidades.O recorte temporal será o primeiro decênio do fim das guerras, que coincidiu com um período de êxito econômico do país (2002-2012),acompanhado pelo discurso oficial de "Reconstrução Nacional". A análise partirá de bibliografia temática, expressões artísticas, relatórios institucionais e narrativas de alguns interlocutores que a autora manteve durante os meses de julho e agosto de 2010, durante pesquisa na cidade. As propostas acionadas para a região refletem um processo histórico de segregação espacial que encontra continuidades a projetos de 'desenvolvimento' implantados em diferentes contextos mundiais. Nas respostas locais em suas múltiplas formas de viver o urbano vislumbram-se agenciamentos criativos em ambientes marcados pelas desigualdades sociais extremas.
Apresentação Oral em GT

Festa na Favela: Concepções de Cidadania (Freedom) em Mamelodi, Pretoria.

Autor/es: Daniel Mendonça Lage da Cruz
"Dans chaque société, une forme d’égalité rassemble les hommes libres" (d’Iribarne, 2006). Nem sempre o assentamento informal em Mamelodi, township nos arredores de Pretoria, capital da África do Sul, dorme. Aos fins de semana, por exemplo, é tempo de isilala, termo em isizulu que traduzem como never sleeping. Quem embarca em isilala cruza a noite – noites, por vezes - a beber, de shack em shack, tavern em tavern, num fluxo paroxístico de sociabilidade e comunhão etílica. Não bastasse papalasi - ressaca, em afrikâner e isizulu -, o costume resulta em abatimento físico, intoxicação e pode encorajar a violência . No correr da etnografia, presenciei, infelizmente, a agressão de um homem a sua companheira, minha assistente de pesquisa. Apesar dos riscos e danos que efetivamente envolve, isilala não pode ser compreendida apenas nos termos da disciplina médica, social e legal hegemônica. É uma tradição da township, em que se engajam, animada e algo jocosamente, os jovens e parte dos mais velhos. Isilala parece constituir uma das manifestações de freedom. Este termo, não citizenship, tem curso ordinário entre os sul-africanos de Mamelodi. Ambos os conceitos recobrem, contudo, um campo semântico semelhante. Esse domínio de referência comum envolve um aspecto singular: enjoyment. "We are free only by the name freedom. We’ll be really free the day we can enjoy our lives", contou-me Ronald, porteiro num condomínio luxuoso de Pretoria. Segundo Luís Roberto Cardoso de Oliveira (2013), concepções de cidadania são "local categories, dependent on local civic sensibilities". Enjoyment pode constituir exemplo disso. Do mesmo autor, a distinção entre "public space and public sphere" permite pensar township e isilala, respectivamente, como espaço e modalidade prazenteiros de interação e reconhecimento entre iguais. Esse universo de gozo cotidiano opõe-se a espaços públicos, particularmente ao domínio do trabalho - hierárquico, desigual e, para muitos, precário (Barchiesi, 2011). Convém notar, aliás, que o trabalho, ainda o núcleo do conceito de cidadania no Ocidente (Marshall, 1950) e na retórica política sul-africana (Barchiesi, 2011), está a perder status, em decorrência do desequilíbrio entre oferta e demanda e da expansão de programas redistributivos centrados no dinheiro (Ferguson, 2015). Nesse quadro, isilala e sua colisão com a rotina laboral são reveladoras de uma forma altamente sociável, celebratória, e tensa, de freedom-citizenship. Paul Lafargue, a zombar dos "dégénérés" entusiastas do trabalho industrial oitocentista, perguntava-se: "oú sont ces commères dont parlent nos fabliaux (...), franches de la guele, amantes de la dive bouteille?" Alguns em Mamelodi, ora, pelos caminhos tresnoitados de isilala.
Apresentação Oral em GT

Entre Palmares e Liberdade: reconfigurações identitárias de estudantes africanos na UNILAB.

Autor/es: Daniele Ellery Mourão
Esta comunicação pretende refletir sobre os processos de reconfigurações identitárias produzidos em decorrência dos deslocamentos internacionais de estudantes estrangeiros de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) para a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), situada no município de Redenção, interior do Ceará. Os recentes fluxos de estudantes estrangeiros para Redenção, cidade celebrada por ter sido o primeiro município do Brasil a libertar os escravos, em janeiro de 1883, têm deflagrado a produção de diversas formas de sociabilidades interculturais contemporâneas entre estudantes africanos e brasileiros, professores, e moradores da cidade. Essas relações são permeadas ora por situações positivas de interação social, ora por situações discriminatórias e excludentes produtoras de silenciamentos, tensões identitárias e ético-raciais, revelando a construção de estereótipos e autoimagens marcadas por relações de dominação, definidas pelo olhar branco e colonial. Os contatos têm reaberto antigas feridas sociais ao tocarem em verdades e mitos estabelecidos (também no senso comum acadêmico), que pretendem apagar a presença e a contribuição negra e afrodescendente no estado. Contraditoriamente às situações de hostilidade vividas pelos estudantes africanos, um desses mitos é a recorrente afirmação de que “no Ceará não tem racismo por ter sido o primeiro estado a abolir a escravidão”, ocultando assim a complexidade da dinâmica cultural dos povos de origem africana, e sua contribuição na formação histórica do Ceará. Diante disso, destaco a importância em analisar os impactos da instalação da UNILAB em Redenção, considerando as particularidades históricas do município (a memória abolicionista), a ideia de África imaginada no Brasil (como um “todo homogêneo”), para perceber como a questão racial é significada e ressignificada na interação social entre os diversos sujeitos, ressaltando que não só de hostilidades se fazem os contatos. Pois, há também os encontros, principalmente entre os mais jovens. As festas e os eventos realizados por estudantes brasileiros e africanos, dentro e fora da universidade, para dançar kizomba, kuduro, afro-house, funk, sertanejo, forró, etc., são um bom exemplo de inventividade no estabelecimento das relações sociais e afetivas, uma forma de jogar com o poder, sem necessariamente confrontá-lo, com possibilidade de quebrar fronteiras étnico-raciais e/ou de criar pontes interculturais, fazendo do corpo uma importante “estratégia de identidade” que também passa por um processo de reelaboração.
Apresentação Oral em GT

Terras como corpos (ou Dos meninos chineses da "Baixa")

Autor/es: Diego Ferreira Marques
Baseado em pesquisas realizadas em Angola ao longo dos últimos anos, este trabalho pretende articular um conjunto de fontes documentais, relativas aos três primeiros quartos do século XX, e diferentes discursos locais contemporâneos, a fim de discutir as formas singulares e, no entanto, recorrentes, pelas quais distintos sujeitos angolanos tendem a estabelecer uma correlação entre noções de "colonialismo" e "miscigenação", em que há não apenas um conjunto de vínculos mais ou menos óbvios, mas também explícitas referências à ligação entre processos de "reprodução social" e "reprodução física" e uma transferência metonímica entre ideias de "território ocupado" e "corpos ocupados". Exprimindo uma série de características relacionadas às dinâmicas particulares do processo de colonização de Angola (e, portanto, constituindo uma espécie de teoria nativa sobre o "colonial"), esses discursos e representações permitem compreender melhor distintas interpretações contemporâneas sobre os significados da presença estrangeira (incluindo suas relações com a formação, transformação e manutenção de elites locais), bem como, transcendendo o contexto nacional que lhes é próprio, ajudam a estabelecer elos comparativos com formas similares de percepção de "continuidades coloniais" em outros quadros da África austral.
Apresentação Oral em GT

Humanitarismo e ação seletiva: a invenção de um Nordeste e uma África vulneráveis a partir da atuação dos "braços sociais" do Caminho da Graça

Autor/es: Gilson José Rodrigues Junior
A presente proposta surge como parte das reflexões da tese de doutorado , através da qual se pretende desenvolver uma etnografia da rede de atuação dos chamados "braços sociais" do movimento religioso Caminho da Graça. Tratam-se de duas agências humanitárias: SOS Religar, que atuava no Sertão do Pajeú até meados de 2015; e Caminho Nações, atuante na Nigéria e no Senegal. A partir de situações suscitadas durante o trabalho de campo desenvolvido até aqui, venho me debruçando acerca da interface entre Estado, Humanitarismo e Religião. Dentre as questões que pretendo compreender, encontra-se a relação existente entre a defesa da urgência da ajuda humanitária, enquanto expressão da compaixão, e a manutenção de desigualdades, advindas destas mesmas ações. Tal questão surge a partir da informações obtidas em campo, acompanhando as intervenções realizadas, ou mesmo nas conversas e entrevistas já realizadas. Percebe-se a construção de "tipos ideais" de vulneráveis, os quais parecem inseparáveis de uma invenção de um Sertão Nordestino e de uma África precarizados. Não se trata aqui de relativizar fatores objetivos como a miséria socioeconômica e simbólica em que tais grupos possam se encontrar, mas como se estabelecem as relações de poder, e como parecem contribuir para a manutenção de desigualdades entre os referidos agentes - e com isso, regiões e/ou nações; classes sociais; raças/etnias; e uma perspectiva religiosa - e aqueles que merecem ser alvo de sua ajuda. Ainda que o trabalho aponte para especificidades de cada local, e seus públicos-alvo, assim como aqueles que participam mais ativamente de cada uma delas, percebe-se, preliminarmente, alguns convergências: um movimento geopolítico inter-regional e transnacional que tem chamado atenção, suscitando uma discussão sobre processos neocolonizadores e a culpabilização das dinâmicas culturais locais, apontadas como um obstáculo a implementação de melhorias. A questão dos movimentos geopolíticos chama a atenção por ser uma prática humanitária "sul-sul", e não "norte-sul", como ocorre habitualmente, sendo idealizada e liderada por grupos de brasileiros que se direcionam para cada uma dessas regiões. Neste sentido, ainda que se adote uma perspectiva crítica, em diálogo com os trabalhos de Didier Fassin, e outros estudiosos, tem sido indispensável compreender as concepções de humanitarismo dos agentes em questão, e como eles buscam diferenciar-se de outras práticas humanitárias, uma vez que parecem concordar que estas, sim, contribuem para a perpetuação de desigualdades, pois dependem disso para continuar existindo, e, consequentemente, não trabalham de maneira a "gerar consciência" naqueles para quem se dirigem.
Apresentação Oral em GT

Mamdani e os chefes: podemos entender os estados africanos sem eles?

Autor/es: Josué Tomasini Castro
A publicação de Citizens and Subjects (1996), de Mahmood Mamdani, é um marco importante nos estudos sobre os estados africanos. Desenvolvendo uma perspicaz análise do processo de formação estatal em vários países africanos, o livro é tanto uma reavaliação da história política no continente, como uma resposta às suas crises mais recentes. Situando-se à meio caminho entre os ‘afro-pessimistas’, que veem a permanente crise dos estados africanos como produto de uma cultura política que fomenta autoritarismos e corrupções, e os ‘essencialistas’, para os quais ela é produto da imposição de formas de governo exógenas e devem ser remediadas com soluções endógenas verdadeiramente democráticas, Mamdani oferece uma terceira via aos debates sobre a chamada ‘transição democrática’, do final da década de 1980, cravando a ‘sociedade civil’ como principal instrumento de fomentação de uma real democratização no continente. Para Mamdani, a forma pela qual os estados africanos são administrados é, em grande medida, um legado colonial. Ela é caracterizada pela bifurcação entre duas formas de poder: nas áreas urbanas, um ‘poder civil’, que protege os direitos dos ‘cidadãos’ em detrimento dos ‘súditos’; nas áreas rurais, um ‘poder consuetudinário’, imposto como ‘tradição’ às populações ‘tribais’ através dos chefes. Para o autor, o tendão de Aquiles dos estados africanos é a continuidade da lógica tribal nas áreas rurais. A importante crítica de Mamdani, no entanto, só pode ser entendida em sua real dimensão em relação a um fenômeno paralelo, que acompanha as reformulações fomentadas a partir da década de 1990: a chamada ‘reemergência’ das chefaturas. Várias críticas foram feitas ao trabalho de Mamdani, mas poucas delas levando às últimas consequências o que, diante da imensa bibliografia sobre a ‘reemergência’, merece ser analisado com maior cuidado: a contínua corrupção da sociedade civil e, por extensão, da democracia, pelo rural não-destribalizado. Saudados por muitos como veículos de desenvolvimento e cidadania em uma nova era de descentralização, a renovada saliência dos chefes é um convite a refletir sobre a maneira pela qual Mamdani dispõem em seu argumento da ideia de que para que uma verdadeira democracia emerja no continente – isto é, para que o súdito sejam transformado em cidadão – o fim das chefaturas é necessário. Além disso, nos impele também a problematizar sua visão estereotipada dos chefes como forças antidemocráticos e os limites impostos por ela na compreensão do Estado africano, que é sua intenção investigar. Este trabalho, assim, quer reavaliar a posição dos chefes no trabalho de Mamdani a luz do cenário etnográfico atual, considerando o impacto desses processos em nosso entendimento sobre os estados africanos.
Apresentação Oral em GT

“Eu vou experimentar, não vou me render”: identidade makonde na produção artística híbrida de Agostinho Ndalinga (Moçambique)

Autor/es: Lia Dias Laranjeira
A presente comunicação é fruto da minha pesquisa de doutorado em curso intitulada “Os makonde na construção da identidade nacional moçambicana: interações históricas entre arte, cultura e política”, que tem como objetivo central investigar a produção de arte makonde em diálogo com os movimentos históricos em Moçambique, entre as décadas de 1950 e 1970. Com esse propósito, a pesquisa tem se debruçado sobre documentos e publicações do período colonial, produzidos por funcionários da administração colonial, etnólogos, antropólogos e por membros da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e, sobre entrevistas realizadas com artistas que se identificam como makonde. O presente trabalho, um pequeno recorte dessa pesquisa mais ampla, aborda os significados em torno das categorias de “arte makonde” e de “identidade makonde” nos discursos do artista Agostinho Ndalinga. Esses têm como referência a sua trajetória dividida, por razões políticas, entre o norte de Moçambique e a Tanzânia, e a sua atual produção artística híbrida. A referida produção incide em composição de músicas cantadas ao som da timbila, em língua shi-makonde, contos escritos em português, e pinturas. As diferentes linguagens artísticas se aproximam ao se apresentarem ao próprio artista como ferramenta para se pensar além de aspectos identitários da cultura makonde, a complexidade de certas práticas culturais, a sua obrigatoriedade, as consequências em segui-las, e as possibilidades de transformações. As narrativas apresentadas aqui foram produzidas no contexto das entrevistas realizadas com o artista na cidade de Pemba, capital da província de Cabo Delgado, berço das lutas pela independência do país a partir de meados da década de 1960, referência histórica que permeia as narrativas de Ndalinga.
Apresentação Oral em GT

Entre festas e quereres: a construção de uma “moçambicanidade” mediada pela Igreja Universal

Autor/es: Livia Reis Santos
O presente trabalho visa apreender os desdobramentos da (re)construção do “lugar do religioso” na esfera pública moçambicana a partir de uma perspectiva que privilegia a “religião vivida” pelos crentes da Igreja Universal do Reino de Deus em Maputo, capital do país. É importante destacar que Moçambique enfrenta hoje, em variados aspectos, profundas dificuldades resultantes do imbricamento de acontecimentos históricos significativos. Além da colonização portuguesa e dos conflitos étnicos, o país viveu duas guerras e um período pós-revolucionário no qual a orientação política estatal condenou práticas religiosas. A Igreja Universal chega ao país em 1992 tendo esse contexto como pano de fundo e prometendo milagres e prosperidade a quem tem fé. Para fins deste trabalho, escolhi me deter sobre as dimensões concretas e práticas “encorporadas” da religião, cujas experiências se materializam de múltiplas formas, circulam, transmutam-se e forjam sensibilidades para além do “campo religioso”. Dessa maneira, descrevo dois momentos que considero centrais para construção do meu argumento. O primeiro deles é a festa realizada para recepção do Presidente da República à sede da IURD. Ali, performances políticas e/ou religiosas, individuais e/ou coletivas em ação deixam claras as visões de mundo em jogo, permitem perceber como Igreja e Estado adotam um discurso único e atuam conjuntamente na tentativa não só de gerir as condutas dos fiéis, como também de promover uma transformação social baseada em valores como trabalho e determinação. Em seguida, exponho alguns dos "desejos" de fiéis e espíritos publicizados durante os cultos, a fim de evidenciar como a conjuntura moçambicana reuniu as condições ideais para emergência, ainda que parcial, de uma cultura evangélica (Mafra, 2011). Apropriada pelos fiéis como uma “arma” eficaz na solução de problemas individuais que muitas vezes estão atrelados às tradições – tais como maridos espirituais e família estendida –, a emergência dessa cultura completou o cenário apropriado para consolidação – pelo menos entre aqueles fiéis – de um sentimento de pertencimento nacional, a moçambicanidade, atrelado a uma noção de indivíduo de direitos.
Apresentação Oral em GT

Trâmites epistemológicos dos afetos e desafetos nas tramas das intersubjetividades: Algumas considerações sobre gênero, corpo, poder e processos de estigmatização nas interações entre mulheres brasileiras e africanas na

Autor/es: Marina Pereira de Almeida Mello
O objetivo dessa comunicação é discutir aspectos preliminares de uma reflexão do âmbito das intimidades e dos tabus associados às sexualidades e subjetividades em trânsito e, sobretudo, aos perigos que o imaginário da branquitude associa ao corpo negro. Temos como referência mulheres negras, que nesse caso estão representadas majoritariamente por um número expressivo de alunas da UNILAB (Universidade Internacional da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira) oriundas do continente africano, mais especificamente dos países de língua oficial portuguesa (PALOP), em sua maioria jovens e que migram ao Brasil por um tempo determinado pela duração de sua formação junto à universidade. Contudo, embora as estudantes internacionais representem a maioria das mulheres não brancas na instituição (incluindo-se aqui as que se autorreferem como mestiças ou pardas), é intrigante perceber que mesmo dentre as estudantes nacionais, a branquitude não é aparente e tampouco evidente a olhos nus, a despeito de assim se designarem. Também esse fenômeno é objeto de investigação em curso, posto que está profundamente enraizado numa percepção de que no Ceará há predominância de pardos. Oficialmente, segundo o Censo de 2010, no país a população negra (pretos e pardos) corresponde a 50,7% da população total, sendo portanto maioria. Já no Ceará, os números revelam 31% de brancos, 2,7% pretos, 66,1% de pardos e 0,2% de indígenas. Nossas indagações preliminares, pautam-se sobretudo, na imediata percepção de incômodos associados ao estranhamento dessas jovens mulheres, ao se perceberem alvo de estigmatização em suas interações com mulheres brasileiras e homens brasileiros bem como com os rapazes do continente africano. Os comportamentos relatados ocorrem tanto na região do maciço de Baturité, região onde estão instalados os campi da UNILAB, bem como na região metropolitana de Fortaleza, em que parte dessas mulheres transita, de forma ocasional, posto que apenas algumas delas ali residem. Relataremos parte de nossos anseios nessa busca por desvendar os trâmites, trânsitos e tramas desses múltiplos deslocamentos. Neste sentido, enfatizando a perspectiva transcultural e diaspórica que tais deslocamentos evocam, temos buscado romper com as referências epistemológicas que operam por meio de discursos estruturados em dicotomias e no fetiche das origens e essências. Nossas referencias teórico-metodológicas pautam-se, sobretudo em autoras e autores que nos tem permitido questionar tais fronteiras, além de apontar para a centralidade do corpo para os estudos sobre cultura e, no que nos diz respeito, o corpo feminino e racializado. Daí nosso destaque a Franz Fanon, Gayatri Chakravorty Spivak, Gloria Anzaldua, Maria Lugones e Homi Bhabha, dentre outras e outros autoras e autores.
Apresentação Oral em GT

Pedagogias do gênero e políticas públicas em Cabo Verde

Autor/es: Miriam Steffen Vieira
Cabo Verde vem se apresentando, tanto na bibliografia acadêmica quanto para as instituições estatais, como uma sociedade marcada pela família matrifocal e, em termos de relações de gênero, como patriarcal. Estas duas dimensões vem sendo problematizadas, no âmbito das práticas estatais, especialmente a partir de 1991, desde um processo de democratização das instituições políticas. Foram criadas instituições voltadas à equidade de gênero, normativas, políticas e serviços para a garantia de direitos. A partir de uma pesquisa sobre o processo de construção de políticas públicas de gênero, com ênfase para a violência, identifiquei o predomínio de um discurso social que vem apostando na mudança de valores, focalizando, essencialmente, a figura masculina e o desempenho das paternidades. Este texto apresenta uma análise desta última dimensão, com base em dados etnográficos da pesquisa em desenvolvimento na Casa do Direito de Terra Branca/Praia (Ministério da Justiça), da campanha “Ami ê pai” (2013), realizada pela Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania e a Rede Laço Branco Cabo Verde e análise da produção de legalidades e dos Planos de Governo no campo da igualdade de gênero, no período entre 2011 a 2015.
Palavras chave: Gênero Cabo Verde
Apresentação Oral em GT

Algumas impressões sobre carnaval e política em Cabo Verde

Autor/es: Natalia Velloso Santos
A proposta deste trabalho é apresentar apontamentos preliminares, no âmbito de uma pesquisa de caráter etnográfico, acerca das relações entre o carnaval e a política, na cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Para tal pretende-se dialogar sobre algumas das concepções dos integrantes do grupo “Vindos do Mar”, no contexto da realização dos desfiles de carnaval de 2015 e 2016, bem como suas atividades realizadas ao longo deste ano, no qual acorrerão três processos eleitorais no país. Assim, busca-se refletir como os percursos pessoais dos participantes e a performance artística do grupo, se articulam com o contexto mais amplo da política institucional e partidária. O bairro da Achada Grande Frente, onde se desenvolve a pesquisa, é um dos maiores e mais antigos da capital cabo-verdiana, cuja ocupação se deu, inicialmente, por famílias que viviam de atividades relacionadas à pesca. Sua configuração mais recente está relacionada a processos de deslocamento de outras ilhas e do interior da ilha de Santiago. Ainda assim, este é considerado um bairro periférico e é frequentemente identificado como uma das zonas afetadas por um “crescimento da insegurança”. Nesse contexto, no entanto, coexistem diversas associações de caráter bastante diferenciado que mobilizam os moradores e acionam distintas formas de participação e engajamento. As relações entre elas serão observadas a partir da(s) perspectiva(s) do grupo de carnaval que desfila todos os anos representando o bairro. Parte-se do entendimento de que refletir sobre as relações entre “política” e “carnaval” implica em não tomar nenhum destes termos como definidos previamente, e sim pensá-los a partir das considerações das pessoas envolvidas nestes processos. Sabendo que estas nunca serão unívocas e consensuais, a proposta é, justamente, acompanhar as disputas e dissensos em torno destes termos. Desta forma, pretende-se evitar tanto que ambos sejam tomados como dois domínios (pré-concebidos) que em nada podem dialogar. Mas também desviar de uma tendência em estudos preocupados com política, de reificar esse domínio como, ainda que de forma subjacente, determinante de todos os processos sociais. Neste sentido, a “potência política” destas manifestações, e eventuais riscos de sua perda, serão debatidos a partir das representações dos próprios participantes do grupo sobre a os efeitos políticos presentes no carnaval. Por fim, vale destacar que o carnaval não será tomado como capaz de oferecer elementos para pensar política em Cabo Verde, por oferecer qualquer forma de essência, síntese ou totalização da sociedade cabo-verdiana, mas sim porque as tensões e reflexões daqueles que o organizam oferecem um olhar específico tanto sobre os processos eleitorais, quanto sobre outras formas de fazer política.
Apresentação Oral em GT

Corpos coletivos, receptáculos da vida e a recusa da morte – Um outro paradigma de corporalidade baseado na domesticação da ubiquidade dos corpos femininos em Moçambique

Autor/es: Segone Ndangalila Cossa
Este artigo tem como objetivo central analisar ontologias diversas sobre a necessidade de domesticação da ubiquidade dos corpos femininos em Moçambique. Afirmando a existência de corpos coletivos, enquanto receptáculos de ancestralidade, fontes inesgotáveis de conhecimento e refletores da tradição comunitária/étnica, relativizam-se paradigmas mais hegemônicos de corporalidade, colocando em causa o “ocidente” – usado apenas como uma referência fugaz ao espaço privilegiado de desconstrução e desconsideração de ontologias outras que lhe são alienígenas (SANTOS, 2010; NGOENHA, 1993; COSSA, 2014) – como o local único produtor de enunciados válidos sobre o outro não ocidental. Para tal, se resgata a noção de corpos ubíquos, trazida e definida por Cossa (2014), como sendo: “a capacidade que os corpos humanos têm de transmitir sua pessoalidade aos objetos, aos humanos e aos não-humanos que com eles interagem; a ubiquidade permite que os corpos ocupem e estejam presentes em diferentes espaços em simultâneo”; ainda de acordo com o autor, a ubiquidade faz com que os corpos humanos sejam rastreáveis e onipresentes, independentemente do tempo e do espaço onde se encontram. Através desta noção de corporalidade, neste artigo se traz à tona os limites da pessoalidade do corpo; o corpo enquanto produtor de um modelo civilizatório que transcende as “normais” configurações e convenções de gênero.
Apresentação Oral em GT

O processo da viuvez para a mulher: uma experiência em Moçambique

Autor/es: Aline Beatriz Miranda da Silva
Moçambique é um país localizado na África Subsaariana e sua capital, cidade de Maputo, está localizada na costa sul do país. Há cerca de 40 anos o país conquistou sua independência , tendo em seu histórico a colonização portuguesa e duas importantes guerras. São as tradições Bantú que marcam a diversidade da maioria dos grupos que habitam Moçambique e, na capital, os grupos predominantes são Ronga e Changana. Há alguns anos em Maputo, mulheres viúvas têm reivindicado direitos relacionados à herança e à guarda dos filhos, além de terem queixas sobre certas práticas que lhe são impostas após a morte de seus maridos, como por exemplo, Kubasisa e Namurapi. É nesse contexto que surgiu a AVIMAS – Associação das Viúvas e Mães Solteiras, criada em 1997 com o objetivo de proteger os direitos dessas mulheres e promover sua formação, para que elas pudessem manter um lar. Além das viúvas, a associação atua em prol também das mães solteiras e de mulheres chefes de agregados familiares. Na AVIMAS pude conhecer algumas viúvas que frequentam a organização, e através disso a pesquisa se fez possível. A partir de vivências no local, de conversas e entrevistas com essas mulheres, procurei entender quais eram as implicações da viuvez em suas vidas. Pude identificar então três momentos distintos que vão caracterizar a vida dessas mulheres: o casamento e a viuvez, considerados por mim como status distintos; e o período de 7 dias referente à transição entre esses dois momentos. Em minha pesquisa pude analisar ainda como a viuvez afeta as relações sociais e familiares das mulheres e como organizações semelhantes à AVIMAS são importantes para elas, por se tratar de espaços de vivências e de luta. Locais como esses passam segurança e são referência ao se tratar da proteção dos direitos das mulheres, além de providenciar formação sobre a saúde e estratégias de manutenção dos recursos familiares.
Pôster em GT