Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT023. Diálogos no campo da Antropologia da Alimentação: Comensalidade, Ética e Diversidade

A Antropologia da Alimentação é uma área que vem se tornando um lócus de interlocução entre os campos das Ciências Humanas e Sociais e as Ciências da Saúde, em particular a Nutrição. Desde 1996 a RBA tem acolhido um debate fértil entre antropólogos, sociólogos, historiadores e nutricionistas, nos GTs nesta temática. No contexto contemporâneo, a comensalidade constitui-se num foco instigante de análise, diante de um amplo leque de questões associadas à normatividade discursiva da Nutrição, que se fundamenta nas concepções de risco à saúde. Neste contexto, o hiperindividualismo contemporâneo lança o indivíduo num emaranhado de escolhas diárias, definindo formas de comer diversas, com base em aspectos que vão desde as preocupações com a saúde e em particular com a obesidade, à adoção de determinados estilos de vida que têm no comer uma de suas bases de sustentação. Ligam-se, assim, discursos sobre o saudável com preocupações éticas relativas ao sistema produtivo alimentar, tornando relevantes questões sobre procedência e modo de produção dos alimentos. Em contrapartida, a gastronomia ganha visibilidade própria, recolocando a ideia de prazer e sociabilidade através da alimentação. Novamente a comensalidade é central num debate que envolve as tradições e memórias e a identidade cultural. Todas estas questões não apenas despertam o interesse antropológico, mas apontam para a necessidade fundamental de se estabelecer um diálogo permanente com diferentes campos do saber.

Gilza Sandre-Pereira (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
(Coordenador/a)
Ligia Amparo da Silva Santos (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA)
(Coordenador/a)

Sessão 1

Maria Eunice de Souza Maciel (UFRGS)
(Debatedor/a)

Sessão 2

Mônica Chaves Abdala (Universidade Federal de Uberlândia)
(Debatedor/a)

Sessão 3

Carmen Silvia Rial (UFSC)
(Debatedor/a)


Comércio informal de alimentos nas ruas: memórias e práticas recentes

Autor/es: Antônio Augusto Oliveira Gonçalves, Mônica Chaves Abdala - UFU
Antônio Augusto Oliveira Gonçalves - UFMG Dra. Mônica Chaves Abdala - UFU Resumo Comer na rua é prática recorrente na história do Brasil, que remonta ao período colonial e vai até os dias atuais. Nas mais diversas localidades e períodos históricos, a comida de rua foi uma fonte de renda para classes e grupos sociais marginalizados. Na miríade de significados não se conjugam apenas aspectos econômicos, pois o comércio informal favoreceu o estreitamento dos elos sociais, o encontro das pessoas nos centros urbanos. Somados à sociabilidade, essa prática é caracterizada por um diálogo imanente entre o tradicional e o moderno, além de representar um vínculo entre o local e o global. Num movimento pendular, é justamente a partir do local que tentamos estabelecer algumas ilações sobre o fulcro de sociabilidade da comida de rua, mormente, objetivamos ampliar o acervo de registros históricos sobre os costumes populares na cidade de Uberlândia, bem como aprofundar a compreensão do liame entre comida e relações sociais. Como corolário, debruçamo-nos no estudo do cotidiano, da cultura e imaginário locais, pretendendo então irisar novos matizes às dinâmicas circunscritas. Em virtude disso, assumimos que as tradições e hábitos locais perpassam por ressignificações e re-apropriações, adaptando-se aos parâmetros da contemporaneidade. Além disso, visamos também perceber as correlações entre os processos culturais, socioeconômicos e do imaginário local e aqueles que se dão no âmbito regional e nacional. Portanto, nosso escopo de análise centrou-se em duas vertentes: uma diacrônica, ao minutar a história e a memória, e outra sincrônica, ao investigar práticas alimentares e sociabilidades no contexto da rua, apontando para as transformações culturais, econômicas e sociais de maior escala. Em Uberlândia, entre a Praça Tubal Vilela, no centro da cidade, e os prédios históricos do Bairro Fundinho, entrevistamos um sorveteiro, um pipoqueiro, um vendedor de cachorro-quente e um antigo proprietário de uma rede de carrinhos de cachorro-quente. Por meio das narrativas singulares e memórias deslocadas no tempo e espaço, apresentamos alguns indícios históricos e sociais sobre a comida de rua na cidade.
Apresentação Oral em GT

Comer no trabalho: escolhas saudáveis, sociabilidade ou prazer?

Autor/es: Fabiana Bom Kraemer, Nathália César Nunes Shirley Donizete Prado
Os atuais debates sobre alimentação e saúde situam o ambiente como importante fator de escolhas saudáveis. Pouco são os estudos que fazem uma análise das práticas alimentares em um determinado espaço exercendo um papel central como reprodução de uma estrutura social que organiza a vida. Assim, nosso objetivo é analisar as práticas alimentares de um grupo de trabalhadores em seu ambiente de trabalho. O cenário da pesquisa foi um equipamento público que se destina a ofertar uma alimentação adequada a preços acessíveis a população da cidade do Rio de Janeiro, o Restaurante Cidadão. Utilizamos os critérios metodológicos da pesquisa qualitativa e privilegiamos para o trabalho de campo a entrevista em profundidade. O material empírico foi tratado através da Análise do Discurso e o referencial teórico compreendeu as discussões de Pierre Bourdieu acerca do conceito de habitus e a discussão acerca das práticas alimentares e da noção de espaço e saúde. Foram entrevistados 10 funcionários, de ambos os sexos, da empresa que faz a gestão do restaurante. No local de trabalho são realizadas 3 refeições diárias: o café da manhã, às 7h, o 1º. almoço entre 9 e 10h e o 2º. almoço após o fechamento do restaurante, às 15h. As escolhas alimentares são realizadas a partir de um cardápio pré-definido pelo restaurante, podendo o funcionário se servir à vontade das preparações, com exceção do 2º. almoço, pois neste momento, nem sempre todas as preparações estão disponíveis aos funcionários. A disponibilidade de frutas, legumes e verduras diariamente no restaurante faz com que os funcionários consumam estes alimentos no trabalho. Prática esta que não se repete em casa ou porque não ‘são muito chegados’ ou são alimentos que estragam rapidamente e, ainda, há o trabalho de lavá-los e cortá-los. Observa-se a reprodução de uma normatividade discursiva da Nutrição ao associar o consumo destes alimentos à uma alimentação saudável. O prazer e a sociabilidade através da alimentação foram observados quando os funcionários se cotizam para a compra de gêneros alimentícios para preparação de uma comida diferente do que é normalmente feito no restaurante como, caldo verde, macarronada e costelinha. Diante do exposto, somos levados a acreditar que se por um lado, a alimentação neste ambiente de trabalho constitui-se das diretrizes da Política Nacional de Alimentação e Nutrição. De outro lado, ao considerar a alimentação humana vinculada às experiências pessoais e exigências tradicionais é plausível considerar que a nossa cultura influencia diretamente a escolha dos alimentos. Estas são questões que nos ajudam a problematizar o acesso a alimentos saudáveis como fator para influenciar a mudança na alimentação das pessoas em busca de hábitos saudáveis, no sentido da construção de um habitus.
Apresentação Oral em GT

Entre laços, afetos e subjetividades: comensalidade em uma Cozinha Comunitária

Autor/es: Helisa Canfield de Castro, Helisa Canfield de Castro Maria Eunice Maciel
Quando se procura entender o papel desempenhado pelos alimentos na vida das pessoas percebe-se que ele é não apenas uma fonte de nutrientes em resposta a estímulos fisiológicos. A comida e o comer possuem uma dimensão simbólica fortemente entrelaçada ao contexto social vivido. Assim a análise da comensalidade confunde-se com a observação do próprio contexto social em que se manifesta. Um dos aspectos mais marcantes da sociabilidade humana é dado pela comensalidade. O Homem tem a tendência de comer junto, em grupo e ainda que não restrito à mesa, a comensalidade implica em comer com outras pessoas. Evoca-se assim princípios circunscritos a uma realidade específica: todos à mesa, num mesmo horário, com ritos precisos. Ao percorrer o cotidiano de uma Cozinha Comunitária (CC) localizada em uma Unidade de Triagem e Compostagem de Resíduos (UTC) – popularmente conhecida como “lixão” - na periferia da cidade de Porto Alegre, concentramo-nos nas experiências alimentares compartilhadas pelos trabalhadores de reciclagem que frequentam diariamente este espaço. Nesta comunicação, partindo da situação localizada e circunstanciada pela “hora do almoço”, buscamos explorar os laços de solidariedade e a dinâmica de comensalidade que marcam as relações no refeitório e que são estabelecidas pela comida em um contexto permeado por programas de Segurança Alimentar e Nutricional as quais repercutem na análise aqui proposta. O destaque conferido à refeição do almoço, como organizadora e mobilizadora de forças que orientam a vida em comunidade, serve para analisar o ritual de comensalidade em torno do qual se definem práticas, estilos, relações e subjetividades que se estabelecem somente a partir da intermediação entre a comida e os sujeitos que ali estão envolvidos. Expressando-se como uma experiência que neutraliza as urgências ordinárias, colocando em suspensão os fins práticos da refeição, o momento do almoço na “cozinha da UTC” é marcado pela partilha e pela sociabilidade. Em torno das grandes mesas do refeitório as pessoas conversam, riem, choram, reclamam. Manifestam-se. Se bem que haja dias de menos euforia, a hora do almoço parece marcada por um ethos de festa, de franca diversão, com risos e comentários sobre algum fato trivial mas que dada a conjuntura se torna motivo de diversão. É bem verdade que também se observam discussões, pequenos atritos por dividas, mau-humor, queixas sobre dores causadas pela rotina desgastante. Ainda sim são todas experiências sentadas à mesa evidenciando o quanto o momento das refeições é um mosaico de relações e interações e igualmente, uma forma de partilhar sensações e reforçar o pertencimento.
Apresentação Oral em GT

Gordinhas do século XXI: sociabilidade e erotismo entre gordinhas e seus admiradores na cidade de São Paulo

Autor/es: Igor Costa Pereira de Souza
O texto aqui proposto tem por temática problematizar como marcadores sociais da diferença (raça, gênero, idade e classe social) são operacionalizados e articulados por mulheres autodenominadas de gordinhas e seus admiradores (As categorias gordinhas, operadas e admiradores são categorias êmicas e foram desenvolvidas, aparentemente, já nos primeiros meses de encontros dos grupos e tais categorias se encontram em disputas constantes). Estes sujeitos procuram, através de eventos temporal e espacialmente limitados, a produção de subjetividades centradas a partir de um dos estigmas mais presentes em seus corpos e individualidades: a gordura. Através do excesso corporal é materializado um mercado erótico e identitário de trocas de saberes médicos que, em conjunto com a formação de uma rede de trocas eróticas possibilitam, a seus participantes, tanto uma inserção em um mercado desejos quanto a possibilidade de ressignificação e positivação de seus corpos. O artigo, de caráter etnográfico e aliado a uma revisão da bibliografia preliminar se propõe a um diálogo maior com os chamados fat studies norte-americanos. O grupo de gordinhas é composto por mulheres na faixa de seus trinta anos para cima e, em sua maioria, mulheres brancas, moradoras de áreas não centrais e um expressivo número de seus membros é composto por funcionárias públicas. Os admiradores, por sua vez, são grupos compostos por homens entre vinte e quarenta anos, negros e moradores de regiões periféricas da cidade. Em levantamento prévio constatou-se que a maioria dos admiradores era composta por trabalhadores não formais (ambulantes, motoboys e até a presença de dois atores profissionais que prestam serviços publicitários). Além da uma diferença entre faixas de renda e estabilidade de ocupação profissional é aparente uma diferenciação em termos de formação educacional: enquanto a maioria da gordinhas possuem diploma de ensino superior, os admiradores, em sua maioria, apresentam formação até o ensino médio completo. Além dos aspectos envolvidos na sociabilidade, como o conhecer pessoas, trocar experiências e formar novas alianças, esses encontros, seja em parques públicos ou em localidades privadas como sítios na região metropolitana de São Paulo, fortalecem o surgimento de um intenso mercado de trocas eróticas, trocas essas, virtuais e/ou físicas. A subversão do padrão de beleza ideal, no qual, a falta de gordura corporal representaria a beleza é substituído pelo seu oposto: quanto mais gordura corporal melhor. O excesso, tanto de tamanho corpóreo quanto de quantidade de comida e bebida nos encontros, são valorizados, tendo assim, por contramão a recusa ao policiamento alimentar e a obrigação moral do autocontrole e dos modos na hora de se alimentar.
Apresentação Oral em GT

Na estrada e nas enciclopédias, um encontro: (discurso sobre) a tradição alimentar numa região de Minas Gerais

Autor/es: Juliana Lucinda Venturelli, Juliana Lucinda Venturelli Phellipe Marcel da Silva Esteves
A(s) culinária(s) de Minas Gerais, aclamada(s) (inter)nacionalmente pelo sabor e modo de fazer, tem sido estudada e levada a diversos espaços do saber como elemento cultural importante na definição das relações identitárias do povo mineiro, em sua formação étnico-cultural que tange a constituição de seu paladar, de seus gostos e sabores: um patrimônio material, no que diz respeito a seus ingredientes, e imaterial, quanto aos saberes e técnicas. Este trabalho pretende, de modo multidisciplinar, abordar teórica e analiticamente (com os princípios teóricos da Análise do Discurso de Michel Pêcheux e da metodologia etnográfica) alguns aspectos dessa culinária, bem como discursos que historicamente se relacionam a ela. Com base numa pesquisa (VENTURELLI, 2016) que trilhou, no reconhecimento de narrativas orais e cadernos de receitas, uma região do estado de MG recortada pela Estrada Real, apresentaremos de que modo as questões relativas à tradição alimentar mineira, à nutrição, à gastronomia, ao urbano e ao rural circulam nas práticas observadas. Também se debruçará sobre o discurso acerca da comida e da alimentação em enciclopédias (ESTEVES, 2014), no sentido de detectarmos como os dizeres das cozinheiras se encontram com o saber legitimado das enciclopédias. Foram percorridos 11 municípios. Analisados 110 anos de publicação de enciclopédias. Numa etnografia das receitas culinárias presentes nas narrativas orais e nos cadernos e na verificação de como foram e são transmitidas desde o início do século XIX até o presente momento; como as novas gerações se relacionam com a cozinha dita “tradicional” mineira e se há presença de métodos tradicionais nos modos de fazer as receitas em detrimento das inovações tecnológicas, pôde-se observar uma prática de resistência cotidiana. Tomamos esses cozinheiros e cozinheiras não como pessoas, sujeitos empíricos, mas como posições discursivas heterogêneas que, em seus fazeres e dizeres cotidianos, vão alimentando um discurso que se perde nas publicações editoriais dos livros de receita, dos programas de TV, das enciclopédias. Algumas questões deste trabalho, portanto, serão: quando se observa a culinária da Estrada Real de Minas Gerais, o que ela nos instiga a pensar? O que ela, a partir do seu território, provoca de efeito de sentidos aos outros, que estão de fora? Como pode ser interpretada diante da pluralidade de discursos sobre comida e alimentação que circulam hoje? Indo na contramão, numa certa manutenção tradicional tanto de ingredientes originários do seu território quanto de técnicas de cozimento, no fogão e no forno à lenha, como essas práticas podem ser compreendidas na sociedade contemporânea?
Apresentação Oral em GT

Acepções sobre alimentação saudável em uma feira-livre

Autor/es: Luiza Guimarães Cavalcanti Spinassé, Lígia Amparo da Silva Santos
O objetivo deste trabalho foi compreender como os sujeitos experimentam e conferem sentidos à alimentação saudável no cotidiano de uma feira-livre da cidade de Salvador-Bahia, buscando apreender o desenvolvimento das percepções sobre o alimento, as práticas alimentares e a dimensão do saudável neste contexto. Para tanto, durante o período compreendido entre outubro de 2011 e julho de 2013, o corpus da pesquisa foi construído a partir de dados documentais, observação direta com registro em diário de campo e entrevistas narrativas. Foram entrevistados seis homens e oito mulheres, com idades entre 29 e 88 anos, incluindo neste universo cozinheiras, feirantes, comensais e fregueses. As informações produzidas foram categorizadas e analisadas com interlocução do referencial teórico. Como resultados, foram identificados e discutidos os principais aspectos referentes aos sentidos atribuídos ao ato de comer associados à constituição identitária dos sujeitos, ao longo de sua história de vida, bem como às percepções sobre a comida e o saudável. Estas questões de maior relevância apresentam-se organizadas em três tópicos: “[...] Na feira não vende marca. Na feira vende natural”: a dimensão da alimentação saudável no espaço da feira, em que se apresenta o natural como o conceito chave que acompanha o desenvolvimento de todo o trabalho; “Tá fresquinho!”: o natural entre o campo e a cidade, onde se encontram as referências marcantes relacionadas à dimensão de transição entre o campo e a cidade, em que se evidenciam as acepções relacionadas ao natural, no que se refere aos alimentos frescos e considerados “sem química”; e, por fim, “Comida caseira-comida de feira”: o natural entre a casa e a rua, quando são descritos o natural e a sua associação com a comida caseira, como são denominadas as refeições comercializadas na feira-livre, bem como o contraponto estabelecido entre estas e os alimentos industrializados. Espera-se que este estudo contribua para uma melhor compreensão do comer saudável a partir de uma perspectiva cultural, ainda incipiente, e para a elaboração de propostas e ações que visem à melhoria da qualidade de vida e de saúde das populações, através da prática do diálogo e da troca de saberes, bem como para a afirmação das identidades culturais destes grupos sociais.
Apresentação Oral em GT

O cru e o pasteurizado: incorporação alimentar e representações da desordem na produção queijeira de Jaguaribe-CE

Autor/es: Maria de Fátima Farias de Lima, Antônio Cristian Saraiva Paiva
Em Jaguaribe, no Ceará, novas formas de controle sobre a qualidade sanitária da produção queijeira têm obrigado produtores a abandonar o leite cru na feitura de seus queijos, prática considerada antiga e bastante disseminada. Tal modificação, revestida nos imperativos de uma lei estadual, prevê ainda a adoção do leite pasteurizado como estratégia de segurança alimentar e condição para o comércio interestadual dos queijos fabricados. Entre as alterações impostas pelas normativas em vigor, esta tem mobilizado particular resistência entre queijeiros, que consideram a pasteurização um procedimento oneroso, desnecessário e que compromete a qualidade gastronômica de seus produtos. Considerando esse cenário simbólico-produtivo, objetivo compreender como os termos “cru” e “pasteurizado” vêm sendo articulados por produtores jaguaribanos de queijo coalho, influenciando o modo como conduzem seu ofício e fundamentam suas preocupações alimentares. Resultante dos estudos realizados para minha tese de doutorado, este trabalho se fundamenta em pesquisas conduzidas entre os meses de julho e dezembro de 2015, por meio de visitas regulares ao município citado. A metodologia desenvolvida inclui a observação das práticas e ambientes que constituem as queijarias, além de entrevistas compreensivas com proprietários e funcionários das mesmas. A análise das interpretações recolhidas ao longo da pesquisa de campo deu-se a partir do diálogo com a antropologia de três autores: Contreras e suas discussões sobre modernidade e alimentação; Poulain e sua teoria sobre o processo de incorporação alimentar; Balandier e seus estudos sobre a desordem. Sendo o alimento um consumo que não é banal, pois implica incorporação (torna-se o corpo do comedor), os modos de fabricação e comercialização de queijos negociam de forma direta com as percepções da desordem à mesa, evidenciada nas modernas tensões entre comida, corpo e saúde. Embora anunciada pelas normativas sanitárias como instrumento de regulação e ordenamento (ou padronização), na lógica dos produtores, a pasteurização encarna as inseguranças que permeiam o consumo de comida industrialmente processada, inspirando desconfiança e sentidos de impessoalidade cuja decorrência inclui um adensamento de angústias alimentares. Contrapondo-se à artificialidade presumida (e indesejada) do pasteurizado, o queijo de leite cru, preparado com técnicas consideradas tradicionais e familiares, (re)conhecidas, é apresentado como resposta ao desordenamento dos sentidos e certezas provocado pela cozinha industrial. Assim, o “cru” que qualifica o leite assume a aparentemente paradoxal condição de conceito indicativo de naturalidade, justificada aí sua “pureza” insuspeita, e de cultura, pois é eleito a marca que consagra o queijo como patrimônio regional.
Apresentação Oral em GT

A procura microscópica por Deus. A kashrut: um indicador delicioso para a análise do crescimento exponencial da ortopraxis no judaísmo ortodoxo contemporâneo

Autor/es: Marta Francisca Topel
Nos últimas décadas, a ortodoxia judaica, definida como uma religião ortoprática, tem aumentado significativamente o número de preceitos relacionados à kashrut ou leis dietéticas judaicas. Segundo seus arquitetos, esta mudança tem como objetivo dar continuidade ao judaísmo tradicional. Entretanto, nos encontramos diante de um paradoxo: a manutenção, através dos avanços da ciência e das mais sofisticadas tecnologias, de um modus vivendi pré-moderno na Pós-modernidade. O objetivo principal desta proposta é compreender como os judeus ortodoxos se atualizam e conseguem respeitar as centenas de preceitos e costumes que regem as leis dietéticas judaicas. Para isso, se tentará elucidar os novos mecanismos de transmissão de uma cultura de comensalidade, cuja normativa discursiva já não depende da memória coletiva do grupo, mas de outras instâncias, sendo os peritos, especialistas em diferentes tipos de alimentos, insetos e tecnologias, aqueles que legislam sobre as velhas e novas regras. Diante desse panorama, perguntas como as que seguem são de relevância fundamental para compreender o novo modelo de kashrut. Assim, quais são os passos para preparar, diariamente, uma comida que exige levar à risca inúmeras regras, como: os tipos de ingredientes (hidropônicos, com determinado tipo e quantidade de pesticidas, devidamente abatidos por um perito ritual, adquiridos em determinado comércio, empaquetados de modo correto, etc.), a mistura dos ingredientes (laticínios com carnes ou laticínios e carnes com ingredientes neutros), o calendário judaico (o shabat, o ano sabático da terra e a páscoa judaica com todas as suas exigências e restrições), os diferentes tamanhos da rede das peneiras (para farinha comum, farinha integral, farinha de milho, etc.) além de conhecer as complexas classificações dos alimentos como sólidos, líquidos, fritos, fervidos, quentes e frios, crus e cozidos. O conhecimento aprofundado das leis da kashrut junto a outras que compõem a Lei judaica, leva a justaposições interessante. Assim, também faz parte da cultura de comensalidade do grupo saber que prece recitar e em que momento quando se prepara uma massa de determinado peso e definida segundo determinada categoria (fritura, massa para assar, massa para ferver, etc.), e por que não se deve receitar a prece caso as condições não a façam necessária, com os problemas decorrentes de recitar uma prece “injustificada” ou “sem sentido”. A análise desses fenômenos ilustram as novas abordagens sobre o fundamentalismo religioso que afirmam que ele é mais uma questão de performance do individuo e do grupo do que uma questão de fé ou experiência, além de nos mostrar uma relação singular com o que se come e o que é proibido comer.
Apresentação Oral em GT

NA ROÇA, NA MESA, NA VIDA: uma viagem sobre as rotas da mandioca ao fazer-se beiju em Araí

Autor/es: Miguel de Nazaré Brito Picanço
Esta apresentação compõe o escopo de minha tese doutoral que se encontra em andamento e que se inscreve nos estudos contemporâneos sobre as agências da cultura material na vida coletiva, considerando a trajetória de singularização ou de “coisificação” de algumas espécies do mundo natural cultivadas por indivíduos. Assim, neste trabalho busco estudar as ressignificações que estão acontecendo na cultura material contemporânea, numa ordem de interação entre objetos, elementos e espécies da natureza que compõem essa cultura material, e sua interação com humanos e não humanos. Nessa perspectiva, me proponho trabalhar com a mandioca e seus ciclos na região nordeste do Pará, onde ela estabelece redes de interações com e entre os sujeitos que a cultivam e a transformam em outros bens de consumo, agenciando e sendo agenciada por esses sujeitos. Especificamente, num vilarejo chamado Araí, no meio rural do município de Augusto Corrêa, onde ocorre um fenômeno próprio da região que é a singularização e ressignificação da mandioca em um bolo denominado de beiju, produzido e coletivizado nas celebrações locais da Semana Santa católica. A exposição objetiva descrever tal fenômeno operado nos ciclos da mandioca, a partir do seu uso ritual, nas interações dos moradores em torno dos processos de produção, troca e consumo do beiju, com o intuito de: identificar como ocorrem as interações entre natureza e cultura no circuito do beiju; reconhecer como são negociadas e estabelecidas as relações que se formam nesse processo; analisar os processos pelos quais os ciclos rituais da mandioca e sua transformação em alimento (beiju) possibilitam o estabelecimento das redes de interações entre as pessoas.
Apresentação Oral em GT

“O boi rende festa”– a carne de boi em uma festa religiosa católica na comunidade quilombola de Quartel do Indaiá, Vale do Jequitinhonha/MG.

Autor/es: Nadja Maria Gomes Murta, Herton Helder Rocha Pires João Victor Leite Dias
As festas religiosas dedicadas aos santos católicos são eventos presentes na maioria das comunidades afrodescendentes do Vale do Jequitinhonha/MG. Este trabalho discute o motivo pelo qual os moradores afirmam que o “boi rende festa”, ou seja, como se dá o consumo da carne de boi nos festejos dedicados aos seus santos padroeiros. O estudo foi realizado entre julho de 2014 a julho de 2015, e no método foi utilizado a observação participante. A Festa de Nossa Senhora das Mercês e de São Vicente de Paulo, é um evento que acontece anualmente durante o mês de julho, com duração de cinco dias, sendo o principal momento de encontro das 25 famílias da comunidade, de parentes que nela não mais residem, bem como das comunidades vizinhas. Os preparativos para a festa começam a partir do último dia do evento anterior, quando na missa dedicada aos santos padroeiros, são escolhidos os “festeiros” (um casal responsável pelo almoço comunitário, barraquinha, etc.) “mordomos” (moradores de ambos os sexos responsáveis pelo trajeto da procissão, feitio e levantamento dos mastros) e “juízes” (moradores de ambos os sexos, responsáveis pelos fogos). O boi que foi abatido para a festa de 2015 pesava 11 arrobas (cerca de 160 Kg de carne – considerando as “de primeira” e as “de segunda” que podem conter ossos). Foi observado que o consumo da carne e/ou preparações (caldos, farofa, churrasco, cozidos, etc.) dava-se em momentos específicos (antes, durante e após a festa). Para exemplificar, o fígado do boi foi consumido pelos jovens que o abateram, uma semana antes do início da festa, sendo considerada uma recompensa pelo trabalho realizado. A festa teve início em uma quinta-feira e este dia foi dedicado a parte litúrgica, não havendo consumo da carne do boi. Na sexta-feira a barraquinha, que ocupa a área central da comunidade, começou a funcionar e as carnes de segunda eram vendidas em forma de caldo e distribuídas em forma de farofa aos mordomos. No sábado durante o dia houve distribuição do “caldo de osso” às crianças e aos que estavam trabalhando. À noite, o boi volta a aparecer na farofa distribuída a todos que participavam do levantamento dos mastros. No domingo parte das carnes de primeira foi consumida cozida, na casa dos festeiros - onde todos os que vão à festa ou a organizam almoçam, após a missa do último dia oficial da festa. Na segunda-feira, quando do desmonte da barraca, a carne foi consumida entre aqueles que trabalharam e às crianças na forma de fritura e churrasco. As últimas carnes do boi foram consumidas, no dia da descida dos mastros que encerra as festividades. Assim, pudemos observar que o boi rende toda a festa, estando associado à economia, a fluidez entre o consumo e os ritos, a sociabilidade e a manutenção da cultura local.
Apresentação Oral em GT

Ciência à mesa: propostas de endereçamentos do saber gastronômico a partir dos conceitos da gastronomia molecular

Autor/es: Rodrigo Araújo Maciel
Claude Lévi-Strauss, ao redigir seu estudo basilar sobre a alimentação, já chamava a atenção para a importância da utilização de técnicas e tecnologias na dinâmica humana daquilo que descrevia como “passagem da natureza à cultura”. Principalmente quando sublinhava o papel do fogo na operação cultural de transformação do alimento cru para o cozido, alegoria exponencial de sua argumentação. Ainda que eventualmente mencionados, essas operações do ato culinário foram poucas vezes tomados como centrais, ou mesmo problematizadas suficientemente, na literatura antropológica. Transpostos para um contexto no qual a utilização do fogo em si já não figura mais como a ferramenta exclusiva empregada no fazer culinário, cabe questionar como são concebidas, apropriadas e hierarquizadas essas subsequentes tecnologias e saberes que despontam no horizonte culinário, gastronômico e de forma mais geral, humano. Sobretudo em um contexto no qual o desenvolvimento e o domínio da técnica são tomados como instrumentos legitimadores das diversas apropriações feitas pelo homem em espaços concebidos como naturais, assim como sua consequente transformação e/ou submissão. Neste sentido despontou como rico o estudo da nova disciplina científica chamada gastronomia molecular. Ao objetivar uma racionalização do híbrido campo da gastronomia, aproximando-o de áreas como a química e a física, esse revestimento científico das práticas culinárias consolidou-se nos finais do século XX e hoje é introduzido massivamente nas escolas e faculdades do Brasil. Lida no presente trabalho como uma tentativa de dar uma unidade paradigmática para uma área que é tida como artística e subjetiva, esse esforço responderia a necessidade de legitimar a gastronomia enquanto ciência, justificando assim o espaço que essa pretende em locais como o meio acadêmico. Através da transformação da cozinha em laboratório, do cozinheiro em cientista e dos pratos em experiências, observam-se conjuntamente a inserção de novas técnicas e tecnologias, garantindo dessa forma a manifestação de novos fenômenos, e consequentemente, novos discursos. Buscando acessar essa realidade por meio de uma pesquisa qualitativa que pauta-se na etnografia em faculdades e cozinhas de gastronomia molecular, observamos as maneiras como essa proposta se insere no plano de ensino e o quanto e como estas técnicas e ideais são assimiladas pelos discentes, docentes e profissionais. Visamos ultrapassar as reduções operativas estabelecidas na tentativa de identificar as redes tecidas que acionam e articulam diversos interesses - tanto individuais quanto institucionais e derivados; identificando o quanto essa “cientificização” embasa ou fortalece o papel da gastronomia não apenas no meio universitário, como também na sociedade em geral.
Apresentação Oral em GT

A dieta lactovegetarina dos Hare Krishna: estilo de vida e adaptações normativas alimentares

Autor/es: Vanessa Moreira dos Santos
Para os adeptos do Movimento Hare Krishna as práticas alimentares são ações rituais que englobam aprendizado cultural e saberes religiosos. Cozinhar é misturar na panela variados elementos e sabores temperados com palavras votivas e devoção. Krishna e seus discípulos se alimentam de cheiros, gostos e fé e os devotos nutrem-se de sacralidade, tendo que se orientar e se distinguir, expressando um determinado estilo de vida, tão particular ao seu grupo religioso No processo de construção, afirmação e reconstrução de uma identidade, a comida, destacada enquanto elemento cultural, pode se transformar em marcadores identitários, apropriados e utilizados pelo grupo como sinais diacríticos, símbolos de uma identidade reivindicada. Comida essa, derivada de práticas alimentares, que expõem o papel da cozinha, do cozinheiro, do comensal, dos ingredientes, das receitas, dos utensílios, dos rituais e de mais um conjunto de elementos referenciados na tradição e articulados no sentido de constituí-la como algo particular e reconhecível diante outras comidas. Entretanto, as práticas alimentares dos devotos da doutrina Hare Krishna que frequentavam a Casa de Cultura Hare Krishna em Fortaleza não podem ser reduzidas a fórmulas ou combinações de elementos cristalizados no tempo e no espaço. Como mostrou minha pesquisa, a tentativa de manter a tradição alimentar hinduísta sugerida por Prabhupada já tem em si um alto valor simbólico, por que de qualquer forma é uma readaptação culinária e gustativa, uma reconstrução de um processo que se atualiza. As adaptações passaram a ser utilizadas como identidade, visto que o cotidiano se modificou em formas, saberes, sabores e práticas cunhadas no processo de inserção de um tipo de comensalidade, evocando sensações intransferíveis para as pessoas que creem em Krishna. Observar as práticas alimentares dos Hare Krishna é inferir o processo de construção social de identidade alimentar enquanto um conjunto normativo, com regras de inclusão e de exclusão de alimentos. A dieta lactovegetariana, além do uso recorrente de especiarias indianas, como o curry e a noz moscada, indica uma “hierarquia que transcende os gostos subjetivos individuais e se afirma como valor cultural partilhado pelo conjunto do grupo.” (POULAIN, 2004, p. 252)
Apresentação Oral em GT

O uso de alimentos regionais nas práticas alimentares de uma comunidade remanescente de quilombo do Alto Vale do Jequitinhonha/Minas Gerais

Autor/es: Virgínia Campos Machado, Nadja Maria Gomes Murta Maria Helena Villas Boas Concone
A investigação sobre práticas alimentares em uma comunidade tradicional revela grande variedade de alimentos regionais ou não-convencionais cujo consumo se respalda no conhecimento ancestral. Este trabalho discute práticas alimentares de uma comunidade rural remanescente de quilombo do Alto Vale do Jequitinhonha/MG. O estudo foi realizado entre os anos de 2009 e 2012 e, no método, foram utilizados a observação participante e entrevistas com membros da comunidade. Como alimentos não-convencionais mais consumidos foram identificados: castanha do indaiá (Atallea dúbia), coroa de frade (Melocactos zehneri), ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata), palma (Opuntia ficus), quiabo da lapa (Cipocereus sp.), samambaia do mato (Pteridium sp.), cereja do mato (Eugenia involucrata), amora do mato (Rubus urticaefolius), jatobá (Hymenaea rubriflora) e panã (Annona crassiflora). A maioria desses alimentos, a exceção do ora-pro-nóbis, são coletados, atividade que fica a cargo das mulheres e crianças da comunidade. O consumo se dá no núcleo familiar, sendo os alimentos consumidos in natura ou em preparações. A título de exemplo, destacamos o caso do jatobá. Nos meses de agosto e setembro as mulheres e crianças se dedicam a coletar os frutos caídos no chão, bem como aqueles considerados maduros que se encontram no pé. A extração do fruto é manual, sendo utilizada uma pedra para quebrá-lo. As crianças maiores o consomem, em geral logo após a colheita, batendo as sementes em um copo contendo água, de onde surge uma pasta (mingau de água). As mulheres são responsáveis pela extração da “farinha de jatobá” (produto obtido pela raspagem e peneiragem dos frutos) que é utilizado para preparação de mingau (feito com leite) e bolos. As receitas dessas preparações são consideradas heranças ancestrais, sendo que as idosas são tidas como as detentoras do “saber fazer”. Há de se destacar que o consumo de alguns dos alimentos citados não se restringe à comunidade quilombola estudada, alguns destes alimentos compõem pratos considerados “demarcadores identitários” da gastronomia regional, como por exemplo é o caso da “samambaia com costelinha de porco”. O uso sazonal destes alimentos contribui para a conservação e valorização da cultura alimentar da comunidade, bem como para a garantia da segurança alimentar e nutricional.
Apresentação Oral em GT

Comendo Como Gente, Práticas de conhecimento indígena sobre alimentação e Comensalidade". Um encontro de Antropologia e Educação.

Autor/es: Clarissa Torres de Aguiar, Arthur Henrique Almeida Elvison Moura
Realizado em junho de 2015, o seminário "Comendo Como Gente", uma iniciativa do OEEI - UFMG (Observatório da Educação escolar indígena), contou com a participação de pesquisadores indígenas de diferentes etnias e etnólogos. O OEEI é um espaço de interação e cooperação entre pesquisadores indígenas e não indígenas, constituindo-se como uma rede de trabalho conjunto. Dessa forma, as mesas do seminário foram compostas por etnólogos de diferentes gerações, com trabalhados já reconhecidos na Antropologia, e por convidados indígenas das etnias com que trabalham. Essa proposta se mostrou desafiadora por reunir diferentes perspectivas num mesmo espaço, no qual antropólogos não indígenas e pesquisadores indígenas participaram igualmente, dividindo as mesas de diálogo, assim como o auditório. Para pensar a educação indígena é indispensável discutir a alimentação. As diferentes falas do seminário demonstraram esta continuidade, que envolve o tema da comensalidade. Por comensalidade entende-se alimentação para além do seu mero valor fisiológico, enfatizando os aspectos cosmológicos, os significados simbólicos, a produção da vida cotidiana, a mitologia, a fabricação dos corpos, a gestão do território, entre outros. Ciente que na perspectiva ameríndia do corpo e dos processos de fabricação da pessoa (Segeer, Da Matta, Viveiros de castro, 1979), pretende-se enquadrar as técnicas alimentares enquanto práticas de conhecimento que interagem na produção do corpo e das relações sociais. Nesse sentido, a comida e as práticas relacionadas se constituem como um modo de ser e estar no mundo, assumindo diferenças e alianças com o Outro, sendo este parente, agente do governo, antropólogo, animais, espíritos da floresta, ou seja, toda uma rede sócio-cósmico do mundo ameríndio. O corpo é indissociável dos processos de conhecimento. Cuidar do corpo, alimentar-se de uma maneira correta, faz estabelecer vínculos que contribuem para o próprio modo de ser indígena, sua identidade e a existência do universo que o cerca. Comer como gente, é premissa para aprender como gente. E ser gente é ser Paumari, Yanomami, Maxacali, Krahô, etc. Com o seminário, foi possível um amplo diálogo sobre a temática, em que antropólogos revisitaram e avaliaram suas pesquisas ao compartilhar com seus colegas e também com os convidados indígenas, que traziam atualidades, outras experiências e críticas.Talvez o mais importante tenha sido a intensa troca entre indígenas de diferentes partes do país. Apesar das muitas etnias, é possível que tenham encontrado continuidades entre as distintas maneiras de pensar e de ser gente, além de refletirem sobre possibilidades de ação frente às transformações no mundo indígena, sobretudo no que diz respeito às práticas alimentares.
Pôster em GT

Práticas de conhecimentos sobre alimentação e comensalidade em uma aldeia guarani em São Paulo

Autor/es: Cristiana Marinho Maymone, Valéria Mendonça de Macedo Fernanda Baeza Scagliusi
A discussão tem por objetivo compartilhar aspectos da pesquisa etnográfica em curso a respeito de práticas de conhecimentos envolvendo alimentação e comensalidade na Tekoa Pyau, uma das aldeias Guarani Mbya vizinhas ao Pico do Jaraguá, na capital de São Paulo. Com foco em práticas que mobilizam, expressam e transformam conhecimentos, o trabalho se volta para experiências dos Guarani Mbya em uma aldeia marcada pela escassez de terras, impossibilitando atividades produtivas tradicionais, bem como pelo afluxo crescente de pessoas e mercadorias da cidade. À medida que a ocupação urbana foi se intensificando no entorno das aldeias, os Guarani foram sendo cada vez mais confinados em pequenas terras e ameaçados por disputas territoriais. Dessa forma, os Guarani da Tekoa Pyau se esforçam para manter forte o nhandereko (seu modo de viver). Um tema sempre presente em suas falas cerimoniais é a grande dificuldade em manter a força dos corpos e da vida entre os Guarani a partir do acesso ao nanerembiu ete´i – “nosso alimento verdadeiro” - cujo conceito perpassa por dimensões políticas, ambientais, econômicas, espirituais, sociais e de saúde. Como nem sempre é possível selecionar o que comer seus moradores buscam escolher como e com quem comer como modos de fortalecer seus corpos e as relações entre os parentes.
Pôster em GT

Reeducação Alimentar: busca e possibilidades

Autor/es: Euripedes dos Santos Filho, Drª Janine Helfst Collaço
REEDUCAÇÃO ALIMENTAR: BUSCA E POSSIBILIDADES 1º Autor: Euripedes dos Santos Filho 2ª Autora: Profª. Drª Janine Helfst Collaço Resumo - O presente trabalho foi inspirado pelos resultados de pesquisa de campo realizado durante a graduação em torno dos temas Saúde, Alimentação e Educação. A realização deste se deu no âmbito de uma unidade de saúde onde busquei tratamento para sintomas de doenças que ao passar por todo o processo de consulta realização de exames e diagnóstico chegaram à conclusão que era diabético. Esta doença está intimamente ligada ao comportamento alimentar. De posse do diagnóstico buscou-se o tratamento devido, tentou a principio orientações de como se alimentar de forma que os níveis de açúcar no organismo não chegassem ao ponto de causar transtorno. Pensando como resolve isto viu se a necessidade de reeducar os costumes alimentares. Não é certo dizer que diabético não pode comer nada, ou quase nada. O diabético pode e deve comer de tudo, porém de forma comedida. Comer de forma orientada (SANTOS FILHO, 2015). Nesta circunstância viu se a possibilidade de realização de pesquisa no ponto de vista da antropologia da alimentação, saúde e educação. Pois são fatores que estam ligados à ação humana e estando o humano presente é de interesse de a antropologia registrar os fatos sociais, neste caso os fatos sociais da doença crônica. Resolvido à escolha da área de pesquisa, antropologia da saúde/alimentação/educação. Tarefa difícil de fazer aproximação, pois existe material, porém cada um em seu espaço. Portanto o titulo deste trabalho é uma sugestão dada por trabalhos anteriores realizados por mim, Reeducação Alimentar: uma situação de guerra (SANTOS FILHO, 2015). A busca bibliográfica recaiu sobre autores como Maria Cristina Boog e Ligia Amparo dos Santos que sugeriu o conceito de educação alimentar e reeducação alimentar como questão social. Autores da educação estiveram em torno de Carlos Rodrigues Brandão que propõe o conceito de cultura popular como educação. O conceito de Saúde e doença esteve amparado por Lamplatine. Janine Collaço sugeriu como o ato de comer é uma questão antropológica por excelência. Cyntia Sarti e Ana Canesqui contribuíram com informações importantes de como o alimento e a saúde são questões a ser discutida socialmente pela antropologia. A metodologia empregada para realização deste foi de observação participante. Os tópicos estão relacionados de acordo com os achados de campo. PALAVRAS CHAVE – Antropologia da saúde, educação, diabetes, reeducação alimentar.
Pôster em GT