Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT022. Cultura Popular, Patrimônio e Performance

Os estudos sobre cultura popular guardam longa tradição no âmbito das Ciências Sociais. A preocupação com a cultura popular teve participação ativa na formação da Antropologia no país seja no que toca à demarcação de fronteiras e constituição da disciplina; seja no desenvolvimento teórico, especificamente nas reflexões sobre pensamento social brasileiro, processos identitários, teorias da cultura e antropologia dos rituais. Atualmente as investigações ganham novo fôlego, abordando as mudanças de cenários e contextos nas manifestações da cultura popular a partir da discussão sobre processos de patrimonialização. Se a patrimonialização de formas expressivas e populares representa um mecanismo jurídico de salvaguarda, ela desencadeia uma série de desafios relativos aos modos como os bens culturais, agora patrimonializados, são vivenciados. Neste sentido a noção de performance parece ser promissora para pensarmos as relações entre formas expressivas populares e patrimônios. Assim, o GT pretende reunir pesquisas que reflitam sobre os processos de patrimonialização associados às culturas populares, privilegiando estudos sobre folguedos, rituais, danças, produções artesanais, saberes e sociabilidades. Trazendo para o debate performances e patrimônios, é também intenção deste GT provocar uma reflexão sobre os trânsitos e as tensões entre culturas populares, turismo, consumo, mídia e política.

Julie Antoinette Cavignac (UFRN)
(Coordenador/a)
Patricia Silva Osorio (Universidade Federal de Mato Grosso)
(Coordenador/a)
Thais Fernanda Salves de Brito (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia)
(Debatedor/a)
Juliana Braz Dias (Universidade de Brasília)
(Debatedor/a)
Maria Isabel dantas (Instituto Federal do Rio Grande do Norte - IFRN)
(Debatedor/a)


¡Ahí vienen los diablos! Sentidos e espaços de performance dos Diablos Danzantes de Corpus Christi em San Francisco de Yare (Venezuela)

Autor/es: Amarildo Ferreira Júnior, Silvio Lima Figueiredo Rosa Elizabeth Acevedo Marín
Anualmente, na quinta-feira de Corpus Christi, centenas de pessoas saem às ruas de San Francisco de Yare, povoado do município Simón Bolívar (estado Miranda, Venezuela), vestindo trajes vermelhos e coloridas máscaras de diabos, com vários terços e colares pendurados no pescoço, realizando uma série de performances rituais marcadas pelo som de instrumentos de percussão e pela dança. Conhecidos como Diablos Danzantes de Yare, integram uma ampla quantidade de festividades existentes em localidades da costa central da Venezuela, denominadas como Diablos Danzantes de Corpus Christi. Reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, são festas onde esse conjunto de pessoas usando máscaras de diabos integra o ritual público da festa, missa e procissão de Corpus Christi, ora se constituindo um corpo mais ou menos independente, ora se ligando à celebração litúrgica. Este artigo discute, a partir de categorias teóricas das antropologias da religião e do conflito, a produção dos fluxos de sentidos desta festa e a espacialização dos significados políticos e sociais de suas performances. Para isto, apresenta dados coletados em trabalho de campo realizado no ano de 2015, do qual se obteve um diário de campo e registros fotográficos, e em pesquisa documental e bibliográfica. Entendendo a festa estudada como um campo de relações em que emergem arenas simbólicas, cenas de performances (scène de performances) e discursos, com inversões simbólicas e afirmação de identidades coletivas, nas quais se movimentam aspectos sociais, étnicos e econômicos, defende-se o argumento de que nesta compósita manifestação cultural e religiosa popular, seus membros mobilizam sentidos e significados que lhes permitam ressignificar os agenciamentos e enquadramentos que recebem ao mesmo tempo em que produzem lugares de experimentação, representação e resistência sociocultural-religiosa.
Apresentação Oral em GT

"Santos Reis mandou dizer pra você me pagar": estudo antropológico e as relações de "pagamento" no reisado.

Autor/es: Antonio Vagner Ribeiro Lima
O artigo se propõe fazer uma abordagem antropológica ao versar sobre as relações de pagamento na performance do reisado. Por meio da etnografia empreendo de maneira reflexiva e dialógica uma discussão presente nas transformações vividas na atualidade da tradição popular do catolicismo rural, perscrutando à luz de autores como Geertz (1983), Woortmann (1990), Bitter (2008) e Peirano (2014) dentre outros a dialogar a partir dos significados e trocas, relações e representações sociais dos que fazem a festa do reisado. Neste sentido procuro entender como se dão as negociações de pagamento "do santo", dos brincadores, as tensões e ambiguidades presentes nos cantos, danças, brincadeiras, versos, cortejo, arrecadamentos de "donativos" para a festa, a reza, conflito e diversão na peregrinação em louvor a Santos Reis. Minha interpelação reflete sobre como se acomodam os fluxos do que se ganha e o que se gasta na brincadeira do reisado, as influências na performance do ritual, mediadas por outros "valores", quer sejam morais, religiosos, culturais e de consumo de massa em diálogo com a cosmologia da manifestação popular. É da observação participante e análise dos variados contextos por onde o reisado se faz significativo para as pessoas que participam das atividades do reisado de onde construímos compreensão de sentidos com abordagem antropológica.
Apresentação Oral em GT

Narrativas Locais em Fontes Orais: o lugar da memória no imaginário da paisagem da Ilha de Cotijuba (PA)

Autor/es: Carla Melo de vasconcelos, Renilda do Rosário Moreira Rodrigues Bastos Flávio Leonel Abreu da Silveira
As narrativas orais, enquanto acontecimentos e materialidade, são tecidas no cotidiano local das paisagens insulares do estado do Pará. Seus desdobramentos em memórias e imaginários envolvem a comunidade de narradores e ouvintes de Cotijuba. Assim, busca-se traçar uma atitude mais reflexiva dos encontros entre o imaginário poético, que as narrativas evocam, e as memórias dos narradores da ilha de Cotijuba, por meio das representações produzidas durante o trabalho de campo. Na Ilha de Cotijuba as narrativas, de maneira geral, tem se prestado muito fortemente ao longo do tempo a uma vasta série de construções simbólicas que, até certo ponto, ultrapassam as narrativas sobre o lugar e, se misturam e evolvem-se nos seus fluxos de água doce, narrativas que se desencadeiam, se resignificam e se conectam em diversos aspectos do cotidiano da ilha. Uma marca que a ilha traz do seu passado histórico, é a memória da penitenciária, construída em 1968. Assim, a ilha se transformou em ilha-presídio, recolhendo condenados e presos políticos, adultos e menores, com um sistema penal violento e arbitrário. Esse fato povoou o imaginário da sociedade paraense, mantendo-a a distância da ilha, porém hoje as ruínas do antigo presídio se tornaram patrimônio da ilha. Em 1990, a Ilha de Cotijuba foi transformada em Área de Proteção Ambiental, pela Lei Municipal. Desse modo, a construção de uma história local deve prever uma contextualização particular e global, buscando, assim, no estudo do particular e de suas articulações, a lógica de interinfluências com o global, lançando mão de diferentes fontes para construção dessa realidade, que são as narrativas contadas sobre a ilha de Cotijuba.
Apresentação Oral em GT

Samba de coco de Arcoverde – mudança de estrutura ou de posições?

Autor/es: Danielly Amorim de Q. Jales
O samba de coco é uma manifestação da cultura popular em Arcoverde - PE. A sua organização é pautada na construção de uma identidade que une raça e cultura popular afirmando assim, sua tradição. O objetivo deste trabalho é demonstrar como os integrantes desta manifestação, alteraram suas funções e papeis como mecanismo de auto preservação e reprodução. Desde 1930, o samba de coco mantinha sua estrutura baseada na figura masculina do mestre coquista que dirigia, compunha e cantava os cocos. Os participantes dançavam utilizando um tamanco de madeira como uma extensão do próprio corpo, marcando assim, o ritmo e sonoridade do grupo. As mulheres desempenhavam papéis associados aos da dona de casa como confeccionar as roupas, cozinhar e vender comida durante as comemorações. Em 1970, o samba de coco ganhou visibilidade regional com a Caravana de Coco Ivo Lopes. Com a morte de Ivo, o samba de coco passou quase 10 anos em silêncio. Em 1994, os membros mais velhos das principais famílias do coco, reuniram-se organizando a Caravana de Coco Raízes de Arcoverde. Este momento parece marcar o início das alterações de posições dentro do grupo, uma vez que as mulheres passaram a ocupar posições hegemônicas do ponto de vista masculino, tais como: tirar cocos, tocar instrumentos, organizar a agenda e os contratos do grupo. Mudanças que culminaram na nomeação da primeira mestra coquista. Em se tratando da análise da estrutura simbólica, este trabalho dialogará com M. Sahlins. Autor que discute a noção de estrutura como sendo algo passível de transformação, uma vez que esta se realiza dentro da ordem cultural. Assim, a cultura não estaria exposta e orientada por modelos exteriores, sua transformação sobrevém numa construção em que o indivíduo avalia e reavalia a estrutura pela história. Desse modo, estrutura, história e ação do indivíduo tornam-se interdependentes e complementares. Sahlins parte de uma perspectiva analítica que considera os modelos de estrutura prescritiva e performática para compreensão das modificações de ordem prática e simbólica, ou seja, o reordenamento cultural. Neste sentido, este trabalho ajudará a entender a relação entre estrutura, significados e ação dos sujeitos no samba de coco, visto que o atual posicionamento das mulheres pode indicar uma reconfiguração dos significados simbólicos. De maneira que, os significados ganham novos sentidos na prática, contudo, mantém uma correlação com os anteriores. Assim, as alterações de posicionamento dos indivíduos indicam que estes reagem seguindo lógicas particulares e independentes, elaboradas a partir de suas próprias percepções e concepções.
Apresentação Oral em GT

DANÇA DOS CONGOS: memória, cultura popular, performance cultural e patrimônio imaterial

Autor/es: Eliene Nunes Macedo, Drª. Izabela Maria Tamaso
A Dança dos Congos se realiza na cidade de Goiás (GO), desde a primeira metade do século XVIII. Constitui-se em uma performance dividida em marchas de rua e embaixadas, executadas por homens afro-brasileiro, de classe menos favorecidas. A Dança inicia na casa do Rei do Congo, região periférica e segue em marcha para o Centro Histórico da cidade (reconhecida como patrimônio mundial pela UNESCO), por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo e da Festa de Nossa Senhora do Rosário. Nesses lugares, carregados de valores patrimoniais, realiza-se o ritual, que interpreta a luta entre mouros e cristãos. O reconhecimento da cidade de Goiás como patrimônio mundial, em 2001, fomentou o turismo e, consequentemente, a participação de manifestações religiosas em outros espaços, atribuindo novos contornos às expressões culturais. Objetivando interpretar os mecanismos de reprodução dessa forma de expressão popular, focamos, sobretudo, nas memórias coletiva e pessoal dos detentores desse bem cultural. Paralelamente, buscamos comparar a memória dos congadeiros com a dos outros vilaboenses, a fim de compreender as várias representações e apropriações dessa forma de expressão por parte de grupos diferenciados na cidade. Observamos igualmente as mudanças de cenários e contextos da Dança dos Congos, em relação ao conjunto dos bens patrimoniais da cidade de Goiás, bem como os mecanismos de salvaguarda que têm sido praticados, seja apenas pelos seus detentores, seja pelas agências governamentais. Esses diálogos também terão como referência a análise do dossiê do Inventário Nacional das Referências Culturais da Cidade de Goiás (GO) e Entorno, realizado em 2014.
Apresentação Oral em GT

“Sob a Luz da Tradição e do Negócio”: Vaqueiros e Patrões nas Vaquejadas Contemporâneas no Rio Grande do Norte-RN.

Autor/es: Francisco Janio Filgueira Aires, Luiz Carvalho de Assunção
Essa comunicação visa discutir o cenário da vaquejada e das relações dos vaqueiros e patrões, configurada na passagem da vaquejada realizada na fazenda, como brincadeira no passado, para vaquejada contemporânea vista como negócio. Desse modo, buscamos discutir sobre o cenário das vaquejadas contemporâneas no Rio Grande do Norte, assim como caracterizar as relações estabelecidas entre patrões e vaqueiros nas vaquejadas, reelaboradas pela tradição, associada ao negócio e ao universo da fazenda. Para este estudo, analisamos o evento a partir das categorias de tradição (Hobsbawm; Ranger, 1997; Bornheim; 1997; Zumthor, 1997); as relações de poder entre patrão e vaqueiro percebidas como prática interessada (BOURDIEU, 2007) e pelo poder em sua micro- relações cotidianas (FOUCAULT, 1997) na qual diz que ninguém o tem em seu sentido concreto, passando a ser disputado a todo o momento. A pesquisa de campo, mediante as observações diretas e diálogos, tem demonstrado que não há vaquejada, mas vaquejadas no sentido plural tendo em vista que seu cenário caracteriza-se por múltiplas diversidades de eventos, como vaquejadas-espetáculo, vaquejadas bolões e vaquejadas da pega do boi no mato, e de personagens, patrões e vaqueiros variados, que a compõe estabelecendo dinâmicas próprias, mas que interagem com o mundo sertanejo. No caso das vaquejadas-espetáculos remete-se a uma diversidade de relações entre patrões e vaqueiros que lembram um passado, mas que também são vistos apenas como um referente do presente vivido por todos seus personagens como um negócio e lazer.
Apresentação Oral em GT

O maracatu de baque solto e o Estado: desafios para a salvaguarda de um “brinquedo pesado”

Autor/es: Leonardo Leal Esteves
As ações do poder público voltadas para as chamadas “culturas populares” no Brasil parecem ter sido, quase sempre, marcadas por algum mecanismo assimétrico de controle e ordenação. Isto tem ocorrido, a despeito das inúmeras mudanças nas políticas direcionadas a este “segmento”, “setor” ou “linguagem cultural” - como se costuma chamar no jargão da administração pública. Esta relação um tanto vertical - é certo - se estabeleceu de maneira mais contundente com determinadas expressões e tem se apresentado, ora de modo mais direto e explícito, ora de forma mais sutil e indireta, em certos momentos da história. Apesar das transformações na forma de compreender as danças, músicas, rituais, festas, crenças, modos de fazer e algumas tradições ao longo do tempo, a despeito da adesão do Estado brasileiro a tratados internacionais que preconizam o respeito e o fomento à diversidade cultural e não obstante às inúmeras ações e políticas públicas que foram criadas para apoio, incentivo, fomento e salvaguarda voltadas para as culturas populares e ao patrimônio imaterial, percebe-se contradições entre alguns discursos e práticas governamentais. Observa-se, de forma recorrente, ingerências e tentativas de (re)adequação - de tempos em tempos - por parte do poder público que contrariam a retórica de valorização das diferentes expressões culturais e parecem favorecer predominantemente alguns interesses particulares de setores da sociedade. Entre 2014 e 2015, por exemplo, o governo do estado de Pernambuco passou a exercer uma forte repressão policial junto às sedes dos maracatus de baque solto, estabelecendo um limite para o horário de encerramento das chamadas “sambadas”. Neste ritual, entretanto, como apontou José Jorge de Carvalho (2004), o tempo da performance possui também uma dimensão sagrada que a indústria do entretenimento e o poder público, paradoxalmente, tende a suprimir para permitir a sua comercialização e consumo como bem simbólico. Ao que se percebe, portanto, o Estado como instituição idealizada a partir da lógica pragmática e racionalista moderna parece não compatibilizar suas ações com toda complexidade inerente a algumas expressões culturais. No lugar de compreendê-las como aquilo que Marcel Mauss (2005) chamou de “fato social total”, tende a empreender ações a partir de uma significativa redução nas múltiplas dimensões destas expressões. Isto fica particularmente evidente em algumas situações relacionadas ao maracatu de baque solto, considerado um “brinquedo” carregado de práticas e sentidos para seus integrantes, revelando alguns dos desafios que estão por vir na definição das políticas de salvaguarda desta manifestação recentemente patrimonializada.
Apresentação Oral em GT

AS CHEGADAS DOS PALHAÇOS: Ritual e Conflito dentro da Festa do Arremate na Folia de Reis

Autor/es: Luiz Gustavo Mendel Souza
Este trabalho visa explorar o período de apresentação dos palhaços dentro da festa do arremate da folia de reis, analisando suas intensas relações agonísticas. O texto proposto pretende expor três análises etnográficas realizadas nos pedidos de chegadas dos palhaços. Todas as três serão abordadas como “situações sociais”(GLUCKMAN, 2010) e revelam as relações sociais estabelecidas, não somente entre os palhaços, mas a disputa, que entre os palhaços se estende para as suas respectivas folia de reis, pois neste momento o palhaço representa o seu grupo de folia de reis ali presente. Cada uma das “situações sociais” escolhidas ocorreu em anos diferentes, o que denota uma determinada constância desses conflitos nesse terreno conflitante, que traz à tona as frágeis alianças estabelecidas entre os grupos de folias de reis visitantes e o anfitrião. Os casos etnográficos ocorreram nas festas do arremate do mestre Antônio José da Silva (mestre Fumaça) no município de São Gonçalo no Estado do Rio de Janeiro em anos diferentes e o intervalo de apresentação dos palhaços denota um forte caráter de competitividade para o reconhecimento do prestígio de ser um bom palhaço, capaz de versar e desencadear seus versos sem transgredir o fundamento da folia de reis. Será através das brincadeiras e das chulas que os palhaços irão manifestar suas performances, em concorrência com os demais palhaços de outras folias. Eles representavam seu grupo de foliões naquele momento e o reconhecimento dos demais se tornava uma questão de reputação e prestígio para a sua respectiva folia de reis. Essa competição pode ser incluída na categoria de jogo de Huizinga. Outra perspectiva que contribui para a análise desse período da festa são as questões sobre competição e de conflito como elementos essenciais para a manutenção e formação do grupo, pois as hostilidades operam para demarcar os limites no interior do grupo e o preservam do desaparecimento gradual (SIMMEL,1983). Outro elemento a ser ressaltado na análise é a importância do papel do mestre da folia de reis anfitriã, pois ele está sendo avaliado a todo o momento pelos seus convidados e sua postura diante de todos ali é de suma importância para o estabelecimento da ordem em sua festa do arremate. É nessa “situação social” que manifesta uma performance, que pode ser analisada como a manifestação da “persona” (MAUSS, 2010) do mestre da folia de reis: todo um sistema configurado e regrado de obrigações e proibições que faz com que gere uma tensão para aquele que esteja no centro desse sistema. A todo o momento, o mestre Fumaça está presente na festa, prestando atenção em cada detalhe, principalmente em períodos críticos, como é o caso da chegada dos palhaços no terreiro.
Apresentação Oral em GT

JONGO: Distinção, religião, tradição e espetacularização na comunidade quilombola de Porto Grande no território do Sapê do Norte.

Autor/es: Luiz Henrique Rodrigues, Osvaldo Martins de Oliveira (Prof. Orientador)
Este artigo tem o objetivo de analisar o processo de construção das identidades quilombola e jongueira do grupo de jongo de são Cosme e Damião da comunidade quilombola de porto grande, localizada no território do sapé do norte, no norte do espírito santo. A partir dos diálogos entre jongueiros e agentes institucionais, busco identificar as distinções étnicas e ampliar a discussão das inovações de performances na roda do jongo, dessa comunidade, ocorridas após a patrimonialização, com o intuito de aproximá-los da formatação mercantil transformando o jongo, enquanto cultura, em objeto de troca nas relações e interações sociais com agentes públicos e privados. O território do sapê do norte é tradicionalmente ocupado por famílias quilombolas desde o tempo da escravidão, mantendo-se até hoje em uma região de conflitos sociais latentes. Uma forma de resistência às pressões política e econômica exercidas por grandes empreendimentos do ramo de celulose e álcool, adotadas pelos quilombolas, é a organização das diferenças culturais demarcando a fronteira que define o “nós” quilombolas e o “eles” representados pelas elites econômicas e política. Nessa conjuntura, as diferenças culturais se tornaram demarcadores de pertencimento e de reconhecimento de quem é e quem não é quilombola. Assim, as comunidades quilombolas jongueiras do sapê do norte estão elegendo o jongo como um produto cultural e/ou simbólico para demarcar as diferenças e afirmar a sua identidade quilombolas e o utilizando como uma das estratégias para alcançar o reconhecimento e a integridade de seu território. O jongo como produto cultural afro-brasileiro foi registrado e reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo instituto do patrimônio histórico e artístico nacional em 2005. Diante da lógica do consumo cultural que transforma o patrimônio em show comercial favorecida pelos registros patrimoniais do governo, preservar os saberes tradicionais que envolvem o jongo e a religiosidade africana é também uma forma de não se deixar dominar, por completo, pelo mercantilismo cultural. Contudo, para a promoção da cultura enquanto entretenimento é necessários ajustes nas dinâmicas de apresentação, alguns grupos de jongo estão adotando novidades nas rodas, mas mantendo os princípios da “brincadeira” que são a celebração de graças e devoção aos santos queridos. O grupo de “Jongo de Cosme e Damião” de porto grande é um desses grupos, isso não significa que estão atendendo à espetacularização que os agentes governamentais estão tornando o folclore, mas sim uma negociação que se faz com o ambiente externo.
Apresentação Oral em GT

Patrimônio e tradição: uma avaliação da implementação da Lei do RPV – Registro do Patrimônio Vivo do RN

Autor/es: Maria das Graças Cavalcanti Pereira, Maria das Graças Cavalcanti Pereira – PGCS-UFRN; Luiz Assunção – DAN-UFRN.
A Lei do RPV-Registro do Patrimônio Vivo no RN (Lei 9.032/207), institui a política de fomento à cultura popular e tradicional, na administração pública estadual, visando “valorizar, difundir e garantir a salvaguarda dos saberes e fazeres que se estabeleça como bens de natureza imaterial”, seguindo os preceitos apontados pela Declaração Universal da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para a diversidade cultural. A Lei estabelece a premiação anual de sete (sete) pessoas físicas e três (3) grupos, que tenha comprovada participação em atividades culturais há mais de vinte (20) anos, com a concessão de bolsas vitalícias e prioridade na análise de projetos por eles apresentados ao Sistema de Incentivo à cultura. Esta comunicação tem como proposta apresentar e refletir alguns aspectos referentes à avalição do processo de implantação da referida Lei, considerando estudos e pesquisa de campo que venho realizando. Desde a sua implantação, a Lei do RPV publicou apenas um edital, deixando de atender uma demanda significativa. A contrapartida exigida pela Lei, ou seja, a participação dos premiados nas ações de ensino-aprendizagem, não foi implementada, indicando uma postura assistencialista em detrimento da salvaguarda do patrimônio e a difusão dos saberes da tradição. Permeando essas questões, faz-se necessário refletir como a gestão pública se apropria e difunde os conceitos de patrimônio e tradição. A pesquisa toma como referência autores que vem trabalhando com os conceitos de patrimônio e tradição (Regina Abreu, Cecília Londres, José Reginaldo Gonçalves, Paul Zumthor) e, a concepção de avaliação de políticas públicas (Maria Cecília Minayo, Sônia Draibe, Marta Arretche). A pesquisa utilizou os procedimentos da abordagem quantitativa e qualitativa, fazendo o elo entre os modelos explicativos da teoria social e a evidência empírica dos fenômenos sociais observados, implicando em várias estratégias de registro, tais como: observação participante, anotações de campo, entrevistas estruturadas e semiestruturadas individuais e/ou coletivas com os habilitados pelo RPV, gestores e técnicos. Assim, avaliar uma política pública implica, metodologicamente, acompanhar as diferentes fases de sua formação, envolvendo o contexto de surgimento da questão social, a sua transformação num problema político, a formulação da política propriamente dita, a sua implementação e os resultados sociais alcançados.
Apresentação Oral em GT

Perspectivas de consumo da imagem do padre Cícero

Autor/es: Michael Medeiros Marques, Luís Carvalho de Assunção (DAN/UFRN)
Este estudo pretende considerar a área da antropologia do consumo e alguns olhares sobre o estudo da cultura material na contemporaneidade, no sentido de perceber como as coisas fazem as pessoas e produzem as relações sociais em cadeia. Reconhecendo que o consumo pode ser visto como um meio de identificação de grupos sociais, inseridos em um projeto de territorialidade e mapeamento, diversificando e ampliando os efeitos do consumo de artefatos religiosos e sua força simbólica, na tentativa de construir uma compreensão mais profunda de uma humanidade não separada da materialidade. A pesquisa parte da cidade de Juazeiro Norte (Ceará), tendo como objeto o consumo da imagem do Padre Cícero e as estratégias de uso do bem, analisando os sentidos e significados do consumo do treco (Miller, 2010) Padre Cícero, vendidos no comércio de Juazeiro do Norte, para os seus frequentadores. Em seguida, há a pretensão de explorar a partir da formação do lugar, a força simbólica da figura do Padre Cícero, consumo como identidade (pensando o comportamento dos indivíduos a partir das estratégias e efeitos do lugar) e a variabilidade do uso do bem. Tendo como as principais referências conceituais: a teoria das coisas, ou seja, o treco como agente-chave característico da nossa própria sociedade (Miller, 2010); a vida social das coisas (Appadurai, 2009), tendo como destaque as estratégias compostas por um emaranhado complexo de investigação da demanda por mercadorias. As coisas são ditas a partir de um lugar, e essa distinção do lugar está relacionada ao espaço/tempo; e o MacCraken (2003), a partir da necessidade de analisar o consumo por sua significação cultural, percebendo as expressões de categorias e princípios culturais, cultivando ideias e sustentando estilos de vida, construindo noções de si e criando (e sobrevivendo) mudanças sociais. O consumo possuindo um caráter completamente cultural. A pesquisa está sendo realizada, na cidade do Juazeiro do Norte, na rua São José, quadra onde se localiza a maioria das lojas que vendem os trecos do padre Cícero. A metodologia a ser usada basea-se na observação participante, no olhar, ouvir e escrever (Oliveira, 2000).
Apresentação Oral em GT

Entre a produção e a “tradição”: discursos e representações sociais em torno do consumo da cachaça de Paraty – RJ

Autor/es: Nathália Caroline Dias
Neste trabalho, a proposta é analisar como as representações e os discursos sociais são construídos entre os domínios da produção e do consumo da cachaça, bebida alcoólica produzida a partir da cana-de-açúcar. Esses domínios, apesar de comporem a vida social de um produto, renovando o processo econômico, são universos com características opostas. O domínio da produção, especialmente na escala do capitalismo industrial, caracteriza-se pela seriedade e impessoalidade dos produtos. O domínio do consumo, por sua vez, é “marcado” por identidades e particularidades conferidas aos produtos através de construções sociais. Nesta perspectiva, os discursos da produção dita “artesanal” são acionados na busca pela valorização simbólica e pela preservação de um saber-fazer “tradicional”. Historicamente de origem brasileira, a cachaça tem passado por um processo de profundas transformações valorativas no decorrer dos séculos. Adotando olhar sócio antropológico, esta pesquisa caracteriza-se por sua natureza qualitativa, apresentando resultados de trabalho de campo e entrevistas semiestruturadas, realizados em Paraty (RJ). As cachaças produzidas na cidade, ao menos as que estão legalizadas, possuem o selo do governo federal de Indicação de Procedência, o que lhes confere “tradição” na produção da bebida. Essa tradição histórica encontra-se presente em discursos e representações sociais de produtores e de moradores da cidade. No entanto, é preciso destacar que não há uma unanimidade nos discursos e representações locais. Sendo assim, este trabalho tem como objetivo refletir sobre como essas memórias conflitantes se relacionam com a construção ideológica da cachaça como identidade e patrimônio cultural local.
Palavras chave: Cachaça; Tradição; Patrimônio.
Apresentação Oral em GT

Quando a cultural popular se transforma em "crime": o caso da Guerra de Espadas.

Autor/es: Rodrigo Gomes Wanderley
A guerra de espadas é uma manifestação da cultura popular que ocorre em vários municípios do interior do estado da Bahia. Está situada no complexo dos festejo juninos e acontece na véspera do dia de São João, quando, em Senhor do Bonfim, norte do estado, centenas de guerreiros, brincantes, saem as ruas em grupos em direção a grande árvores montadas como fogueiras, com suas copas repletas de prêmios. No percursos enfrentam outros grupos com seus artefatos pirotécnicos, as espadas, "soltando", "arriliando" e "devolvendo" seus brinquedos de fogo. No caminho passam nas casas de amigos e"compadres" perguntando se "São João passou por aqui?" ou "Oh, dona da casa cadê o Lícor?". Nos últimos anos essa tradição secular vem sendo questionada no judiciário pelo Ministério público do estado da Bahia. Com base no estatuto do desarmamento, e na analogia de que a espada (artefato produzido manualmente em tendas na zona rural do município de Senhor do Bonfim e em outras cidades como Cruz das Almas) seria uma arma de fogo colocando em risco a integridade física dos Guerreiros brincantes e daqueles que saem as ruas para ver a Guerra de Espadas. Esta comunicação visa apresentar de que forma vêm ocorrendo o processo de criminalização da Guerra de Espadas de Senhor do Bonfim, Ba, e como os Guerreiros e Fogueteiro (fabricantes do artefatos) estão resistindo ao processo de judicialização, inclusive com a apropriação de argumentos, conceitos e discursos, como cultura popular, tradição, patrimônio e patrimonialização.
Apresentação Oral em GT

Festa como performance e contradição : Negros e Índios , caboclos e escravos em conflito.

Autor/es: Vanessa Regina dos Santos
A festa conhecida como “teatro a céu aberto” tem como cenário as ruas da cidade de Laranjeiras, uma pequena cidade localizada no interior do Estado de Sergipe em que sua historia social foi construída por conflitos sociais dos três grupos: branco, negro e o índio, seu nome é Festa dos Lambe sujos contra os Caboclinhos. A luta apresentada teatralmente é a saga do negro em busca de liberdade, fugidos das fazendas de cana de açúcar, constroem seus refúgios nas matas e são caçados e capturados pelos índios. O presente trabalho tem como objetivo assinalar a contribuição das principais teorias sobre festa que compreende ritos, mitos e performance, destacando os nomes de Émile Durkheim, Victor Turner, Van Gennep, Mariza Peirano e Richard Schechner entre outros autores. Primeiro fazer uma descrição etnográfica do enredo para pontuar as diversas composições que o conceito Festa esta inserido, como a ideia de quebra de rotina, uma desordem consciente e a representação dos papeis ali apresentados, ou seja, toda a ação performática segue uma logica social, perpassa além dos muros do teatro já que possui sentido e sua fundamentação é legitimada pelo momento festa. O diálogo apresentado entre a teoria da performance e festa enaltece durante o evento dramas e as contradições sociais no sentido de se festejar a própria derrota ( lambe sujos ) embasada pelo contexto , mas tomam destaque pela euforia , pela efervescência coletiva , apontam para outra ótica , a da identidade , reluzem a memoria coletiva Laranjeirensse na busca de solidificar através da patrimonialização e é pelos gestos, pelas músicas , pela roupa e demais símbolos que se observa a historia social da cidade.
Apresentação Oral em GT

IÊ viva a todos os mestres - A capoeira Angola e a importância do mestre popular

Autor/es: Ana Luísa Pereira da Silva, Juliano Canedo Antunes
O trabalho apresentado é fruto de um exercício etnográfico realizado no grupo de Capoeira Angola Eu Sou Angoleiro, de Belo Horizonte. A pesquisa foi feita com a autorização e apoio do mestre do grupo (Mestre João Bosco) e busca se aprofundar no papel que o Mestre de Capoeira exerce dentro de seu grupo e, através dele, na sociedade que o cerca. A primeira parte trata-se de uma breve contextualização histórica da prática da Capoeira Angola e da Capoeira Angola em Belo Horizonte. A segunda, e principal parte da pesquisa, foi organizada a partir de uma resposta concedida pelo Mestre João em entrevista, quando questionado sobre qual seria o papel do mestre popular, e busca elucidar melhor as diferentes funções que este cumpre, e expor a profundidade de cada uma delas. O trabalho aponta que o mestre é aquele que tem acesso aos chamados valores ancestrais, que esses valores não podem ser transmitidos através do discurso – e que, portanto, o mestre é também aquele que sabe transmiti-los e assim preservá-los. Afirma-se também a função do mestre de levar esses valores ancestrais, através de seu grupo, à comunidade que o cerca, bem como a capacidade desses valores de promover a união na comunidade e no grupo. Destaca-se nessa parte do texto o papel político da Capoeira Angola na promoção da saúde e da união da comunidade ao redor do grupo, e também no amparo que seus valores ancestrais oferecem à resistência aos valores hegemônicos do mundo globalizado, descritos pelo mestre como eurocêntricos e capitalistas. Essa forma de ação política é apontada no texto como incompreendida pelas instituições políticas organizadas com base em modelos europeus. A terceira e última parte do trabalho trás uma breve reflexão acerca das dificuldades de pesquisar e escrever sobre a cultura popular, e a respeito da importância da valorização da figura do mestre para a preservação desta em todas as suas manifestações, e de como essa valorização vem sendo discutida dentro do grupo e nos diálogos entre este e o poder público.
Pôster em GT

Políticas de higiene e as controvérsias em torno do saber fazer e da produção do queijo minas artesanal do Serro

Autor/es: Edna Silva de Abreu, Douglas Mansur da Silva
Trata-se de um estudo de caso sobre o saber-fazer tradicional do queijo artesanal da microrregião do Serro-MG e da rede de controvérsias em torno de sua produção. Situada na vertente oriental da Serra do Espinhaço, a microrregião do Serro desenvolveu-se graças a produção do queijo minas artesanal – Queijo do Serro. Desde a decadência da mineração, a partir do século XIX, a produção do queijo minas artesanal constitui a principal atividade como fonte de geração de renda para as famílias produtoras. A produção de queijo permitiu, em 2014, que, aproximadamente, 880 produtores, distribuídos nos onze municípios, produzissem anualmente quase 3.000 toneladas de queijo artesanal, gerando 2.290 empregos (EMATER-MG, 2013), contribuindo com mais de 60% da renda dos municípios (SEBRAE, 2014). A microrregião do Serro abrange os municípios de Alvorada de Minas, Conceição do Mato Dentro, Dom Joaquim, Materlândia, Paulistas, Rio Vermelho, Sabinópolis, Serro, Santo Antônio do Itambé, Serra Azul de Minas e Coluna. As características especificas destes municípios influenciam na produção do leite e, no tipo de queijo produzido na região, o que permite diferencia-lo dos demais queijos produzidos em outras regiões, com sabor característico próprio (EMATER-MG, 2002). O processo de fabricação do queijo do Serro está inserido no âmbito familiar, persiste no tempo, e tem sido elaborado do mesmo modo na região, conservando o aspecto, textura e sabor que o define. Como parte de uma tradição, durante séculos, o queijo foi produzido utilizando-se fermento láctico natural recolhido do próprio soro do queijo, com prensagem manual utilizando-se formas de madeira, uma bancada de madeira, o que lhe confere um sabor e qualidade característicos. Reconhecido como patrimônio cultural imaterial mineiro e nacional, o que lhe agregou valor e reconhecimento. O reconhecimento do trabalho dos produtores de queijo do Serro, que compreende este saber tradicional, persiste como prática cultural, embora envolta em uma rede de controvérsias em torno de saberes e práticas quanto à fabricação desse alimento. A criação de uma legislação sanitária regulatória da produção de queijo a partir de leite cru, tem colocado em xeque a possibilidade de continuidade dessa tradição e identidade regional. Para muitos produtores, as normas que o regulamentam não condizem com as peculiaridades do produto, o que implica em dificuldades em sua perpetuação como patrimônio cultural, contribuindo para a sua descaracterização como tal.
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Da praia do Paiva (PE) para São Jorge (GO): o passeio da boneca procurando sua festa

Autor/es: Emilia Guimarães Mota
A Festa da Lavadeira, surgida na Praia do Paiva- Cabo de Santo Agostinho/PE, acontece desde 1987. Ficou conhecida como uma das maiores festas da cultura popular do estado além de ter recebido premiações - Prêmio Rodrigo Melo Franco - IPHAN e Prêmio Culturas Populares do SID/Minc - e de ser reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco e do Cabo de Santo Agostinho. Teve início a partir da movimentação que a estátua da lavadeira gerou em grupos religiosos de matriz africana e moradores da região e, posteriormente, passou a reunir vários grupos de expressão das culturas populares todos os anos no dia 1º de maio. Após ganhar grandes proporções e parceiros, inclusive instâncias governamentais, a partir da segunda metade dos anos 2000, uma série de desentendimentos começaram a acontecer devido aos empreendimentos imobiliários/ turísticos na região. A realização da festa foi comprometida, algumas edições foram realizadas em outros lugares (Marco zero, bairro São José/RE) culminando com a edição de 2015 realizada na Vila de São Jorge/ Goiás. O trânsito da Festa da Lavadeira até Goiás e seu retorno, em 2016, para Pernambuco é o que motiva este trabalho. Tendo em vista que o setor turístico em São Jorge (portal de entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros- também reconhecido como patrimônio) e observando como a Vila vem atuando e valorizando as expressões das culturas populares (vide Encontro de culturas tradicionais da Chapada dos Veadeiros), procuro pensar aqui as tensões, encontros e desencontros que levaram a festa para Goiás e não para outra cidade. Nesse sentido, busco evidenciar o emaranhado que compreende o envolvimento de inúmeros agenciamentos, formações de redes, processos de patrimonialização e valorização dos bens culturais, relações com o setor turístico dentre outros fluxos que podem ter colaborado para a realização da edição de 2015. Foram realizadas entrevistas com os representes da festa e da Casa de cultura Cavaleiro de Jorge bem como a pesquisa em materiais bibliográficos e audiovisuais sobre as temáticas relacionadas. A Festa da Lavadeira demonstra uma conexão com aspectos religiosos de matrizes africanas, nesse sentido, procuro ainda identificar e problematizar se esta edição e se a festa de modo geral pode ser associada ao que vem sendo chamado de performance, o que sugere a relação com os diversos fluxos citados anteriormente.
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