Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT021. Coleções, Colecionadores e Práticas de Representação

A geração e administração de 'coleções' organiza-se em práticas ligadas a múltiplos projetos: disciplinares, de desenvolvimento e autonomização de campos científicos e artísticos; de poder e governabilidade, de invenção e administração audiovisual da nação e do império. Neste quadro, vem se definindo um conjunto de preocupações etnográficas e analíticas focadas, em particular, nos atos de colecionamento, no entre-debate sobre a formação de arquivos (Museus, Bibliotecas, Herbários, Jardins zoológico e botânico); a organização distintiva das Ciências e das Artes; e a geração, recente, de contra-representações pelos grupos historicamente representados em regimes de subalternização. Estes investimentos, debruçados sobre economias simbólicas complexas, colocam em evidência a relação entre investigadores e interlocutores na objetificação da diversidade 'cultural' e 'natural' (de catálogos de plantas e acervos de herbários, até coleções de objetos, e coletâneas de poemas, canções e melodias) com auxílio de múltiplas tecnologias audiovisuais de mediação da observação e da experiência. Objetiva-se reunir pesquisadores de múltiplas áreas, formações e objetos, tomando como eixo de aproximação e exercício analítico-etnográfico o processo de produção-arquivo-edição de 'coleções' e o modo como pode ser revelador de redes e circuitos de transação e políticas de representação em publicações, exposições e fonogramas.

Edmundo Marcelo Mendes Pereira (MN/UFRJ)
(Coordenador/a)
Manuel Ferreira Lima Filho (Universidade Federal de Goiás)
(Coordenador/a)


Coleção de invisíveis

Autor/es: Andréa Rizzotto Falcão
A proposta desta comunicação é refletir sobre os desafios encontrados na identificação de acervos e coleções para compor o projeto expositivo do futuro Memorial da Anistia e Direitos Humanos. O projeto é parte de uma articulação histórica, fruto da mobilização de diversos grupos e setores da sociedade civil, pela transformação e ressignificação do espaço onde funcionou o antigo DOPS-RJ, na Rua da Relação nº 40, em um espaço cultural aberto à comunidade. A proposta tem caráter emblemático pois o prédio é testemunho não apenas das violações de direitos humanos cometidas durante o período da ditadura civil-militar, entre os anos 1964-1985, mas também, e de modo mais amplo, das diversas lutas políticas e sociais ocorridas no Brasil República. No prédio inaugurado em 1910 para abrigar a Repartição Central de Polícia e os serviços anexos de identificação datiloscópica e fotográfica e medicina legal, funcionaram diversos órgãos, dentre eles: a Escola de Polícia Científica do Distrito Federal, criada em 1912, e o Museu do Crime, dedicado ao colecionamento de objetos apreendidos nas investigações policiais, que em caráter subsidiário serviam como meio auxiliar de instrução da Escola. Em termos analíticos estas instituições podem ser vistas como parte de um complexo processo de produção, acúmulo e organização de documentos e informação. O conjunto de documentos produzidos pelas polícias políticas que operaram neste espaço ao longo do século XX, hoje sob a guarda do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro – APERJ, é um dos acervos mais importantes identificados até o momento. Este acervo, formado entre 1918 e 1983, é composto por 670 metros lineares de documentos textuais, 200.000 negativos fotográficos em vidro e acetato, ampliações fotográficas, fitas audiomagnéticas, livros, cartazes, flâmulas e outros objetos tridimensionais. Produzidos inicialmente para dar suporte às ações e práticas policiais de controle social e repressão política, mantidos em espaços reservados para uso corporativo, longe do público e de difícil acesso, estes “documentos” revelam-se não apenas de grande valor histórico mas também locus privilegiado para a pesquisa etnográfica, especialmente aquelas voltadas para investigação e análise das práticas e atos de colecionamento e sua relação com a constituição de campos disciplinares próprios. Tendo permanecido invisíveis, por mais de meio século, como grande parte dos grupos e indivíduos que os produziram e sobre os quais eles se debruçaram, esses “documentos” hoje, além de importantes artefatos históricos, encontram-se no centro de complexos processos de representação e disputa.
Apresentação Oral em GT

O oculto em movimento: ressignificando uma coleção etnográfica na reserva técnica

Autor/es: Cecilia de Oliveira Ewbank, Maria Pierro Gripp
Materialização das relações que o homem estabelece na natureza, os objetos ressoam histórias e memórias. Coletados por seu caráter exótico e científico, os artefatos etnográficos compõem hoje em dia grande parte das reservas técnicas de museus. O Museu Nacional é uma destas instituições, que possui entre as variadas coleções sob a sua salvaguarda um conjunto de objetos Karajá coletados pelo antropólogo norte-americano William Lipkind. Patrimonializada em 1939, a coleção W. Lipkind foi reapropriada por um projeto museográfico entre 2015 e 2016. As diversas etapas decorridas na reserva técnica neste período contribuíram para a contínua ressignificação a que as coleções estão sujeitas em sua existência. Apesar de técnica a abordagem prezou pela amplificação do pertencimento da etnia representada buscando, em suas ainda iniciáticas ações, promover uma relação orgânica entre acervo, equipe, instituição e público.
Palavras chave: coleções etnográficas, museologia
Apresentação Oral em GT

Entre museologia e pesquisa etnográfica: a fabricação compartilhada de uma coleção ao longo de um processo de concepção e de realização expográfica

Autor/es: Dominique Bernard Schoni, Soraya Silveira SIMÕES, Professora IPPUR-UFRJ
A concepção e a realização de uma exposição são consideradas, na presente proposta, como um processo de fabricação de sentido e ferramenta metodológica para a pesquisa e para a constituição de coleções. Hoje, nos museus, é comumente a partir de coleções existentes e com base em pesquisas anteriores que as exposições são projetadas como meio de divulgação ao público não-especialista. Neste contexto, dada a especialização atual das profissões museais, os pesquisadores muitas vezes só aparecem ao final como garantidores dos "conteúdos" apresentados nas exposições concebidas e realizadas, no entanto, por outros profissionais. A nossa proposta, baseada em dois experimentos, um realizado em Genebra (Suíça) e outro em curso no Rio de Janeiro, pode, assim, parecer paradoxal. Pois a dissociação comum entre o fundo (o "conteúdo") e a forma é, na nossa opinião, contrária à dinâmica da prática antropológica atual: o interesse nas dimensões materiais e sensíveis da vida social, as reflexões epistemológicas sobre as convenções da representação, os aspectos dialógicos da pesquisa e as modalidades reflexivas da restituição dos saberes construídos não podem ser reduzidos a um "conteúdo informativo”. Isto nos encoraja a refletir sobre um método de fabricação compartilhada de exposição que concorre para a constituição pensada de uma coleção. Nosso trabalho no Rio desenvolve, em colaboração com antropólogos, ativistas e atores da prostituição, um conjunto de propostas para um projeto de exposição. A reflexão comum sobre a sua estrutura, forma expositiva e espaço cenográfico é o que o distingue das modalidades mais usuais da pesquisa acadêmica. Se o uso de uma coleção já existente não está excluída (como o uso do acervo doado pelo movimento de prostitutas ao Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro), objetos tão diversos como mobiliário urbano, declarações fiscais, roupas, filmes, frases e modos de falar aparecem como sugestão em nossos grupos de trabalho. A diversidade de objetos mencionados para figurar na exposição reflete a maleabilidade das categorias empregadas para avaliar a adequação de uma aquisição. Nesse caso, ela é condicionada em primeiro lugar pela capacidade de fazer sentido numa cenografia expográfica. O interesse, portanto, é desenvolver uma coleção que se baseia menos em categorias (comumente utilizadas) de pertencimento cultural ou de inclusão biográfica, e mais sobre as dimensões pragmáticas da ação humana: do que somos capazes de fazer e pensar com um objeto particular, imagem ou figuração, no contexto de uma profissão estigmatizada que coloca em tensão as relações entre o privado e o público, os constrangimentos experimentados em seu exercício, a criminalização, as vocações e o ativismo?
Apresentação Oral em GT

Associações entre religião, cultura e arte: considerações sobres as coleções de objetos religiosos do Museu Afro Brasil

Autor/es: Fernanda Heberle
A exibição de objetos relacionados aos cultos religiosos afro-brasileiros em museus e outras instituições públicas tem uma longa história no Brasil, estando intimamente relacionada com as constituição de coleções etnográficas em museus universitários. Nas últimas décadas, a constituição dos chamados "novos museus afro-brasileiros" têm contribuído para multiplicar as possibilidades de associação entre esses objetos e categorias como “religião, “cultura” e “arte”. Neste trabalho, proponho discutir como essas articulações vêm sendo produzidas na composição do acervo do Museu Afro Brasil, instituição inaugurada em 2004 na cidade de São Paulo, a partir da coleção particular de seu atual diretor e curador, o artista plástico de origem baiana Emanoel Araújo. O objetivo mais geral do trabalho é refletir sobre a especificidade das formas expositivas e das técnicas envolvidas na prática de justapor esses objetos num museu que se apresenta sobretudo como um museu de arte.
Apresentação Oral em GT

Museu Antropológico da UFG e o projeto integracionista da Nação: salvemos os objetos para os povos não se “perderem”

Autor/es: Gustavo de Oliveira Araújo
O objetivo dessa comunicação é pensar a possível relação entre a criação do Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás com algumas ideias de políticas indigenistas em curso no Brasil, desde a década de 1930, bem como pensar a constituição de acervos e de coleções como desdobramentos destas políticas voltadas para os povos indígenas do Brasil central. Interesse notar que nos primórdios do Museu Antropológico está a tônica de uma antropologia de viés culturalista. A perspectiva de ter que coletar material etnográfico com vistas ao “salvamento” de uma possível perda da cultura de povos tradicionais dita a prática do colecionismo. Lima Filho, em seu artigo William Lipkind e as trilhas de uma coleção Karajá: Memória, Atores e Agência (no prelo), ao estudar acerca da trajetória do antropólogo norte-americano William Lipkind no Brasil, bem como sobre a constituição de uma coleção de objetos Karajá no Museu Nacional do Rio de Janeiro, fez a seguinte observação acerca da relação entre a antropologia praticada pelo Museu Nacional e a corrente culturalista da antropologia no que tange à constituição de acervos etnográficos: De maneira particular, me interessou refletir ainda sobre as conexões algumas vezes presentes entre as coleções entesouradas nas reservas técnicas, uma certa obsessão expositiva colada ainda nos princípios boasianos do espetáculo e ancoradas por princípios redutor e monetário do olhar ocidental. (2015, p.10) Nota-se que, para atender a uma demanda de “espetáculo”, as expedições feitas aos diferentes povos indígenas capitaneadas por instituições museais, tinham como princípio a coleta de diferentes artefatos com vistas a atender dois propósitos imediatos: formação de acervos e coleções, em primeiro lugar, e exposições que apresentassem esse material coletado ao grande público. Dando sustentação a essa prática – comum no Museu do Índio no Rio de Janeiro, comum no Museu Antropológico da UFG e comum a tantos outros museus que tinham como “política patrimonial” a salvaguarda de acervos etnográficos – está o discurso salvacionista e preservacionista dos povos em extinção. É imbuído desse discurso, salvacionista, que se estrutura as primeiros expedições que o MA/UFG fez junto aos povos do Xingu e junto aos povos do Araguaia.
Apresentação Oral em GT

Coleções e educação patrimonial: da formalidade à informalidade das experiências colecionistas contemporâneas

Autor/es: José Rogério Lopes
Pretende-se descrever os agenciamentos que colecionadores privados operam de suas coleções em processos informais e formais de educação patrimonial, utilizando dados de pesquisa em desenvolvimento. A concepção de educação patrimonial e suas implicações societárias permitem discutir as experiências individuais e sociais de colecionismo, como “mapas de orientação social” (VELHO, 1987). No escopo desses mapas, as coleções objetivam registros de trajetórias individuais, familiares, comunitárias ou de objetos sociais, que ora se configuram em coleções institucionalizadas, ou formais, ora se enformam nas experiências e agenciamentos de indivíduos e grupos, singularizando interações situacionais entre os humanos e seu mundo ou cultura material (KOPYTOFF, 2008). Definida nesse quadro de análise, a educação patrimonial expressa uma lógica de projetos contemporâneos, individuais ou coletivos, que se inscrevem na agenda política. Pensados como “mapas de orientação social”, os projetos podem ser sociais quando englobam ou incorporam projetos individuais, segundo a percepção de “interesses comuns” e “uma definição de realidade convincente” (VELHO, 1987, p. 33). Assim definidos, os projetos adquirem conotação política, cuja viabilidade depende da “eficácia em mapear e dar um sentido às emoções e sentimentos” (Idem, p. 33) que os indivíduos experienciam na fragmentação das orientações coletivas e nas singularizações que se processam em suas interações com os objetos (como artefatos materiais ou imateriais). A conotação política e a interdependência de visões de mundo, com suas fronteiras, na experiência contemporânea e metropolitana, implicam que os projetos eficazes devem apresentar “plasticidade simbólica, uma certa capacidade de se apoiar em domínios diferentes, um razoável potencial de metamorfose” (VELHO, 1987, p. 33). Nesse sentido, as lógicas de publicização das coleções explicitam agenciamentos que ressignificam o potencial educativo dos processos de patrimonialização, como coisas boas para se pensar (MARSHAL, 2005), na forma de “contratos de visibilidade” (PASSERON, 1991). Referências bibliográficas KOPYTOFF, Igor. A biografia cultural das coisas. In: APPADURAI, Arjun (org.). A vida social das coisas; as mercadorias sob uma perspectiva cultural. Rio de Janeiro: EdUFF, 2008, p. 89-121. MARSHAL, Francisco. Epistemologias históricas do colecionismo. Episteme, Porto Alegre, nº 20, p. 13-23, jan./jun. 2005. LOPES, José Rogério. Colecionismo, objetos e arte: entre o visível e o invisível. Z Cultural, Rio de Janeiro, X, nº 2, p. 1-9, 2015. PASSERON, Jean-Claude. Le raisonnement sociologique. Paris: Nathan, 1991. VELHO, Gilberto. Individualismo e cultura; notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.
Apresentação Oral em GT

Caminhos da etnomusicologia e registros sonoros ameríndios no Brasil

Autor/es: Líliam Cristina Barros Cohen
O presente trabalho aborda aspectos históricos relacionados com gravações musicais e a disciplina etnomusicologia, bem como as condições de registros de música indígena no Brasil e consequentes formações de acervos musicais com registros sonoros ameríndios no país, enfatizando as coleções do Museu Nacional (RJ) e Museu Paraense Emílio Goeldi (Pará). Explora, também, relatos de experiências de produção audiovisual e constituição de acervos musicais indígenas por associações indígenas brasileiras em parceria com instituições de pesquisa, focalizando a experiência dos Desana Guahari Diputiro Porã do Alto Rio Negro, Amazonas. No acervo do Berliner Phonogramarchiv, 194 cilindros são de música indígena brasileira nos quais encontram-se as coleções de Whilhelm Kissenberth (1878-1944), Theodor Koch-Grunberg (1872-1924), Emil Snethlage (1897-1939). O Museu Nacional do Rio de Janeiro possui os cilindros de cera com as gravações históricas de Edgar Roquete-Pinto, realizadas em 1912, que foram as primeiras gravações de música ameríndia brasileira feitas por um brasileiro. Para as gravações, foi utilizado um fonógrafo moderno movido a cordas que permitia gravações de até três minutos nos cilindros de cera (Pereira e Pacheco, 2008). O Museu Paraense Emílio Goeldi é depositário de coleções etnográficas e arqueológicas que contém exemplares de instrumentos musicais indígenas brasileiros. Na Reserva Técnica de Arqueologia Mário Simões está sendo desenvolvido o projeto “Arqueologia Musical Amazônica”, a partir de uma colaboração entre o Laboratório de Etnomusicologia da UFPA, o Museu Paraense Emílio Goeldi e o Museu Nacional do Rio de Janeiro, este último para estudo sobre sua coleção. O projeto prevê o estudo e documentação dos instrumentos musicais e sonorizantes constantes nestas coleções que totalizam 32 instrumentos marajoaras, tapajônicos e xinguanos no arquivo de arqueologia do MPEG e 7 instrumentos marajoara e tapajônicos no Museu Nacional do Rio de Janeiro. O Laboratório de Etnomusicologia da Universidade Federal do Pará conta com acervo fonográfico agregado a partir de pesquisa colaborativa com os Desana Guahari Diputiro Porã, moradores de Iauaretê, no Alto Rio Negro, Amazonas, Brasil, a exemplo de diversas ações de fortalecimento, salvaguarda e difusão da música ameríndia brasileira protagonizada por associações indígenas em parceria com instituições de pesquisa e de ensino (SETTI, 2004; Luhning e Sousa, 2013). Pretende-se, então, discutir aspectos relativos a este esforço de comunidades indígenas e os novos usos das gravações e acervos no Brasil (especialmente na Pan-Amazônia) e no mundo.
Apresentação Oral em GT

Colecionismo como ato performático: um olhar sobre o acervo do Instituto Ricardo Brennand

Autor/es: Nara Neves Pires Galvão
Na antropologia são praticamente ausentes temas relacionados a colecionismo, museu e campo ritual que busquem a compreensão das coleções, sob a perspectiva da formação do gosto e da performance. Marcel Mauss foi um dos primeiros teóricos da antropologia que, ao trabalhar o conceito de ritual, afirmou que as representações e as práticas encontram-se sob um só domínio: o campo das significações, por ele chamado de fato social total. Pensar o colecionismo sob esse prisma, pressupõe a compreensão do ato de colecionar como um fato social, que compreende duas categorias: a do gosto, por um lado (através da paixão e a busca incansável do objeto pelo colecionador) e a da performance (que implica em códigos e rituais de afirmação de um capital intelectual através da força simbólica de uma coleção). Este artigo propõe uma reflexão sobre as relações entre o colecionador Ricardo Brennand, a lógica expográfica dos espaços expositivos do museu construído por ele (O Instituto Ricardo Brennand, localizado no Recife – PE), os sistemas de classificação dos objetos de sua coleção e as relações construídas entre o museu e os seus visitantes. O Instituto reflete o desejo de seu criador em atribuir sentido e significado para os seus objetos. A identidade curatorial do museu dá ênfase a uma narrativa que coloca os espaços expositivos concebidos pelo colecionador Ricardo Brennand ao invés de curadores ou museólogos. Essas narrativas expográficas são entendidas, neste artigo, como atos performativos sendo ritualizados através das exposições, coleções e acervos, tornando o diálogo entre o museu e o público um encontro não só de troca de experiências, mas além disso um encontro de expectativas. Assim, o que é coletado pelo colecionador e exibido no museu não são apenas objetos, mas experiências que nascem de suas interações. (Latour, Fabian e Turner). Considerando que os museus são espaços onde são construídas e expressas diferentes identidades individuais, de gênero e de classe eles também têm sido acionados como importantes instrumentos políticos que evidenciam as intrínsecas relações entre memória, colecionismo e poder. A abordagem performativa ora proposta neste artigo pretende entender as estratégias acionadas pelo colecionador Ricardo Brennand na criação e manipulação dos objetos de sua coleção, inscrevendo-os no processo de discursos com vários sentidos e significados.
Apresentação Oral em GT

Coleção Folch: arte e antropologia em disputa nos museus de Barcelona.

Autor/es: Renata da Silva Montechiare Pires, -
Esta proposta de comunicação parte da pesquisa de campo realizada entre 2015 e 2016 em dois museus de antropologia de Barcelona (Catalunha/Espanha): o Museu Etnològic e o Museu de les Cultures del Món. A Coleção Folch é conhecida entre pesquisadores, colecionadores e demais atores do campo museológico na Espanha como um conjunto de objetos “extra-europeus” reunidos entre 1952 e 1976 por Albert Folch, membro de uma das tradicionais famílias catalãs. Atualmente, a Coleção Folch está imersa em uma controvérsia a respeito de seus usos e interpretações envolvendo os dois museus citados. A coleção privada de objetos passa às mãos do Estado para somar-se às coleções do tradicional museu de etnologia catalã. Em um dado momento, o plano se desfaz. A Coleção Folch é avaliada por “especialistas” de todo o mundo e requalificada: antes considerada “etnografia”, abandona o plano de ser exibida num museu tradicionalmente dedicado à disciplina antropológica, e ganha novo status, alçando maior prestígio quando considerada capaz de sustentar a criação de um “museu de arte”, ou ainda, “de culturas”. A criação do Museu de les Cultures del Món na prestigiosa Calle Montcada, em frente ao Museo Picasso, reascende as disputas entre arte e antropologia na cidade, na medida em que uma mesma coleção é reclassificada de modo a adequar-se a um novo projeto de museu, celebrando as “culturas do mundo” através da produção “artística” das regiões mais distantes da Europa. Ambos os museus, e suas coleções, se veem envolvidos em acusações de “etnocentrismo” provenientes tantos dos antropólogos quanto dos historiadores da arte. A decisão prévia de abrigar a Coleção Folch no Museu Etnológic esteve cercada de elementos que pareciam dar coerência à proposta de reformulação do museu a partir da chegada deste novo acervo. Afinal, a história das expedições de Albert Folch nos anos 1950 está intrinsecamente ligada à própria história deste museu, que inaugurou em 1949 com o nome de Museo Etnológico y Colonial. Eduald Serra, então colaborador do museu, foi companheiro de Folch em suas viagens pelo mundo, e juntos adquiriram objetos que tornaram-se matriz da composição de duas importantes coleções: uma pública e outra privada. Tratando-se de um colecionista privado interessado em obras de arte e um antropólogo de um museu público, os objetos coletados por ambos passavam pelo crivo da classificação entre arte e antropologia já em meados do século passado. Após cerca de 70 anos, esse mito de origem de ambas as coleções se refaz e renova as discussões das fronteiras entre arte e antropologia num ambiente de atualização dos discursos dos museus etnográficos europeus, frente às revisões pós-coloniais.
Apresentação Oral em GT

As coleções de Johann Natterer e da comissão austríaca no contexto do colecionismo da primeira metade do século XIX

Autor/es: Rita de Cássia Melo Santos
No período em que esteve no Brasil (1817-1835), Johann Natterer remeteu em conjunto com a comissão austríaca doze carregamentos de produtos para Europa. O conjunto de espécimes naturais impressiona tanto pela quantidade, quanto pela singularidade dos itens enviados. Contendo itens desconhecidos, não descritos e inéditos, eles provocaram a curiosidade na intelectualidade europeia, sobretudo, a partir da sua apresentação no Museu Brasileiro e das publicações dos relatórios e cartas dos naturalistas pelo então diretor do gabinete de História Natural, Schreibers. A publicação das obras dos naturalistas que retornaram até o ano de 1821 favoreceu ainda mais a divulgação das coleções, estimulando pesquisas sobre o acervo que resultou ao longo do tempo numa vultosa produção bibliográfica nos diferentes domínios da História Natural. Embora tenham sido enviados em conjunto e os planos iniciais estimassem que eles realizariam uma grande expedição coletiva, os naturalistas da comissão austríaca desenvolveram pesquisas independentes e por diferentes regiões. Do conjunto dos 17 integrantes, pretendo nesse artigo analisar as viagens realizadas por 1) Natterer e Sochor, 2) Pohl. A escolha dos dois grupos de naturalistas deve-se ao tempo de permanência e à abrangência das viagens realizadas. A análise do conjunto de materiais coletados e analisados por eles nos permite entrever um interessante panorama dos produtos naturais e das gentes do Brasil na primeira metade do século XIX. Soma-se ainda a essas referências, os naturalistas que os precederam ou que a eles foram contemporâneos: 3) Eschwege, 4) Neuwied, 5) Langsdorff. Longe de serem empreendimentos individuais, como indica Domingues (1995), todas essas expedições estavam interconectadas e eram resultantes do interesse dos germânicos nos domínios Ibéricos Sul-americanos. O meu objetivo nesse artigo, portanto, é apresentar o quadro mais amplo no qual o colecionismo de Johann Natterer estava inserido, localizando-o no contexto geopolítico internacional das demais comissões científicas ao mesmo tempo em que destaco sua singularidade, suas contribuições para o campo e os pré-requisitos por ele cumpridos. Minha hipótese é que a leitura transversal do colecionismo praticado nas primeiras décadas do século XIX pode vir a contribuir ainda com o entendimento da imagem de Brasil produzida e veiculada na construção do período Imperial. Para isso, nesse artigo, apresentarei primeiramente o conjunto de viajantes anteriores aos da comissão austríaca e que foi utilizado por ela como referência para os trabalhos desenvolvidos; em seguida, o colecionismo praticado pela comissão ainda nos anos em que havia um plano de trabalho em conjunto; e, finalmente, o colecionismo praticado pelas viagens independentes de Pohl e Natterer.
Apresentação Oral em GT

Etnografando o “Palacete Montenegro” e suas coleções: Museu da Universidade Federal do Pará (MUFPA) em Belém do Pará

Autor/es: Rosangela Marques de Britto, Natália Andrielly Trindade Alfaia Sandra Regina Coelho da Rocha Dávison Cirilo Queiroz Miranda
As pesquisas acerca do patrimônio cultural musealizado e suas coleções têm objetivado compreender as relações das pessoas com as coisas, delimitando o lócus em uma “esquina” do bairro de Nazaré, em Belém do Pará. A interpretação dos processos de transformação do “Palacete Montenegro”, construído em 1903 e adquirido em 1965 – outrora habitado por famílias tradicionais belenenses – assume nova função ao abrigar a sede da reitoria da Universidade Federal do Pará (UFPA) e outros setores até a implantação do Museu da Universidade Federal do Pará (MUFPA) em 1984. O MUFPA está relacionado às ações de preservação da memória do patrimônio histórico, a partir da formação do acervo que reúne coleções incorporadas através da aquisição das obras pertencentes à pinacoteca da reitoria e às faculdades de medicina e direito preexistentes à criação da UFPA, em 1957. Os debates sobre a criação de um “museu universitário” no Norte do país, e o seu papel como embrião da formação das coleções e da interconexão entre ensino, pesquisa e extensão emergem nos espaços acadêmicos antes e após a institucionalização da UFPA, assim como os fatos que permeiam a “biografia sociocultural” da arquitetura musealizada e o “processo de produção-arquivo-edição de coleções” são algumas das reflexões advindas da pesquisa de tese filiada à Antropologia, tomando como objeto este patrimônio cultural material, na perspectiva da observação participante, que consiste em uma análise polifônica com enfoque na atribuição de valor cultural e patrimonial, envolvendo a interação dos habitués do espaço urbano da rua, do público visitante e estudantes com o espaço musealizado, além das práticas artísticas no âmbito das artes visuais e, sobretudo, a percepção êmica dos trabalhadores de rua em relação ao “Palacete Montenegro”. Em 2015, dei continuidade aos projetos, com novas pesquisas sobre coleções: “Quadros de formatura”, procedendo à análise de dez quadros de formatura elaborados em técnica mista sobre papel, datados entre os anos de 1906 e 1934; e “Coleção Carmen Souza” (Lisboa, 1908, Belém, 1950), que engloba 212 desenhos, 43 esculturas, 32 pinturas e objetos pessoais. Na análise, o acervo divide-se em duas categorias: objetos pessoais, incluindo fotografias, documentos, cadernos, diários, cartas e recortes de jornais; e obras de arte. A pesquisa contempla a constituição formal e estilística de cada peça e a elaboração de uma (etno)biografia da artista, interpondo a sua trajetória pessoal à sua produção artística. Outro estudo refere-se à composição do acervo do “Arquivo do MUFPA”, que reúne as fontes documentais dos processos históricos e da musealização do bem patrimonial.
Apresentação Oral em GT

Memória e esquecimento yanomami no arquivo fotográfico de Claudia Andujar

Autor/es: Valeria Pérez Vega
Memória e esquecimento yanomami no arquivo fotográfico de Claudia Andujar. Valeria Pérez Vega/Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais na Escola de Belas Artes, UFRJ A antropologia tem o desafio de se aproximar aos arquivos e coleções fotográficas com temas etnográficos e entender suas condições de existência e transformação. Ditas coleções e arquivos fotográficos podem ser compreendidos mediante uma etnografia do coleccionamento que rastreia os artefatos “desde o campo ao museu” (O’Hanlon), e refere o conteúdo das fotografias aos atos de observação, coleccionamento e interação (Edwards). Implica fazer visíveis os processos de produção, reconhecer as historias locais, repensar os sistemas de documentação, descobrir as categorias com que eles devem operar e reconhecer os mecanismos de poder que operam na coleta e na documentação, sem desconsiderar as capacidades locais para influenciar os termos de interação e do conteúdo das coleções. A etnografia do coleccionamento nos leva a refletir a obra fotográfica de Claudia Andujar sobre os Yanomami de Roraima, Brasil realizada de 1971 a 2003. Tenta-se refletir junto com o grupo indígena fotografado quais seriam os critérios de reunião e descarte de imagens que possibilitariam a formação de um arquivo que eles pudessem considerar como próprio. Trata-se de encontrar uma metodologia em que as concepções sobre arquivo, memória, imagens, fotografia, arte e conceitos da cultura yanomami sejam suficientemente discutidos junto as classificações da própria fotografa para a conformação do sistema de documentação de dito arquivo; assim como de encontrar ações e formas concretas de fomentar a participação do povo indígena em projetos sociais e artísticos que lhe competem. A aparente ideia de que a memória não dependa de um suporte material para os Yanomami, nos afasta do conceito tradicional de memória que se funda no suposto de que os objetos atuam como análogos da memória humana (Forty) e nos aproxima a uma memória que não reside mais no objeto ou em suas partes, mas no recurso mental criado mediante a desaparição do objeto (Kuchler). No caso dos Yanomami os objetos associados às pessoas mortas exercitam essa arte do esquecimento, já que seus ritos funerários impõem a destruição de qualquer resto físico e social dos mortos (Albert). Mas existe certa ambiguidade no que diz respeito à destruição das fotografias, as quais dependendo dos contextos, dos espaços, das gerações e da relação específica do fotografo(a) com os Yanomami, pode se permitir que as imagens sejam preservadas e dai talvez derive a possibilidade da conformação de um arquivo.
Apresentação Oral em GT