Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT016. Antropologia e políticas de saúde

Na esteira de uma perspectiva etnográfica multi-situada, privilegiamos um diálogo com etnografias em antropologia da saúde, com ênfase nas práticas de poder que lhes são constitutivas. Consideramos uma gama de pesquisas que abrangem processos terapêuticos institucionalizados versus populares, processos de saúde-adoecimento, a construção de itinerários terapêuticos, tendo como pano de fundo uma miríade de políticas de saúde específicas. Indagamo-nos se tais políticas não apenas são dirigidas a coletividades, mas as (re)criam, na medida em que permitem a certos grupos adquirir visibilidade, produzindo identidades/alteridades. Deste modo, a legitimidade e o reconhecimento social dos mesmos encontra nas políticas governamentais de saúde uma esfera privilegiada de disputas de significados e identidades. A relação entre estes atores sociais, indivíduos, grupos e instituições, além de vírus, bactérias, objetos, equipamentos, ideias, valores e conceitos fazem parte de um cenário em que o Estado acontece de múltiplas formas. Convidamos, através desta imersão em diversos campos etnográficos que compõe a chamada antropologia da saúde, a um diálogo sobre as formas de agenciamento da vida, dos corpos e dos sujeitos na contemporaneidade.

Cristina Dias da Silva (Universidade Federal de juiz de Fora)
(Coordenador/a)
Sílvia Maria Ferreira Guimarães (Universidade de Brasília)
(Coordenador/a)


Notícias de meio do caminho: alguns desafios para as políticas de atenção psicossocial na região do Cone Sul do Mato Grosso do Sul.

Autor/es: Andréa Borghi Moreira Jacinto, Pedro Macdowell Taia Duarte Mota
O artigo tem intenção de registrar alguns desafios em torno da construção de políticas de atenção psicossocial voltadas a povos indígenas, no período de 2012 a 2015, considerando particularmente a região do Cone Sul do Mato Grosso do Sul, e o povo Guarani-Kaiowá. A gravidade dos conflitos territoriais e étnicos vivenciados por esses povos tem sido veiculadas e debatidas publicamente há vários anos, embora pouca mudança efetiva tenha ocorrido nesse cenário. Entre sofrimentos atrelados a tais situações, registram-se altos índices de suicídios, violências diversas, violações de direitos, e também necessidades decorrentes do uso de álcool e drogas. O ponto de vista a partir do qual se escreve traz experiências técnico/políticas da atuação dos autores – dois antropólogos e uma enfermeira - no governo federal, como analistas técnicos de políticas sociais no Ministério da Saúde. Não se trata de um artigo institucional, na medida em que não representa oficialmente o pensamento e a gestão institucional, mas trata-se de uma reflexão livre a partir desse lugar de prática, bem como de suas condições e implicações específicas. Após breve contextualização do campo da atenção psicossocial a povos indígenas, o artigo relata algumas ações entre 2012 e 2015 na região de Dourados. Registra um debate que atravessou o período a partir de demandas inicialmente apresentadas por Deputados Federais do Mato Grosso Sul, e pela Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul, solicitando a implantação de um serviço de atenção psicossocial no interior da Reserva Indígena de Dourados, tendo como modelo o Centro de Atenção Psicossocial. Essa demanda foi problematizada por equipes técnicas intersetoriais, que apontaram como contraproposta a discussão e elaboração conjunta, com a participação indígena, de dispositivos ou estratégias próprias e específicas de atenção psicossocial para povos indígenas, informados também pelas possibilidades do conceito de bem viver. Iniciado em 2012, esse debate parece reproduzir também tensões entre diferentes modelos de cuidado, sobrepondo tanto conflitos particulares ao campo da reforma psiquiátrica – como o desafio de substituir uma cultura institucionalizante e hospitalar por um modelo de cuidado com base comunitária, territorial e multiprofissional - , quanto tensões do campo indigenista, e das relações interétnicas envolvendo povos indígenas e estado, em que as referências da autonomia e do protagonismo indígena continuam enfrentando a cultura da tutela e do racismo, inclusive institucional. Trata-se de um relato de meio do caminho, que tem sobretudo a intenção de deixar uma memória do processo de elaboração de políticas sociais. E marcar um breve instante na longa e heroica caminhada Guarani e Kaiowá em suas relações com o Estado Nacional.
Apresentação Oral em GT

Antropologia e políticas de saúde para homens trans no Brasil contemporâneo – diálogos entre duas pesquisas

Autor/es: Camilo Braz, Prof. Dr. Camilo Braz – Universidade Federal de Goiás (UFG). Código de Inscrição: 8567867. Profa. Dra. Érica Renata Souza – Universidade Federal de Minhas Gerais (UFMG). Código de Inscrição: 2733862.
Neste trabalho, colocaremos em diálogo reflexões e dados etnográficos de duas pesquisas antropológicas realizadas no Brasil a respeito de homens trans e transmasculinidades. Tais categorias são aqui trazidas analiticamente: o termo trans constitui uma tentativa de abarcar os trânsitos de gênero, ou seja, experiências e práticas que desafiam a coerência heteronormativa e binária no que tange às expressões de gênero, incluindo tanto travestis, transexuais, transgêneros, intersexuais, quanto sujeitos que transitam a partir de outras categorias ou mesmo cruzam suas fronteiras, sem fixar-se em nenhuma delas. A primeira pesquisa, intitulada “Transexualidades e Saúde Pública no Brasil: entre a invisibilidade e a demanda por políticas públicas para homens trans”, foi realizada entre 2013 e 2015, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tendo sido financiada pelo CNPq. A outra, sob o título “Antropologia, transformações corporais e masculinidades: transmasculinidades no Brasil contemporâneo” teve início em 2014, na Universidade Federal de Goiás (UFG) e, a partir de 2016, passou a contar também com financiamento do CNPq. Considerando que são recentes, no Brasil, as discussões em torno da visibilidade e das demandas por políticas públicas para homens trans, pretendemos narrar tais processos e, simultaneamente, interpretar conjuntamente relatos de colaboradores das pesquisas acima mencionadas a respeito de seus itinerários e processos terapêuticos, incluindo desde práticas não institucionalizadas até as dificuldades na busca por atendimento e acolhimento médico especializado. Deparamo-nos com questões que giram em torno de paradoxos que marcam a vivência das pessoas trans no Brasil e colocam as interseccionalidades cada vez mais em debate. Por exemplo: se, à primeira vista, possuir recursos para atendimento particular ou acesso a um plano de saúde privado poderia indicar que as dificuldades estariam sanadas no que se refere ao acesso à saúde de homens trans, isso não ocorre quando se lida com um universo de médicos/as e outro/as profissionais da saúde que têm revelado estar despreparados/as para o atendimento às pessoas trans. A comunicação apresentará dados de campo em Belo Horizonte, Campinas, São Paulo e Goiânia. Nossa intenção é a de refletir, partindo dos relatos dos colaboradores, acerca das principais demandas, avanços e retrocessos em torno das políticas de saúde para homens trans no Brasil.
Apresentação Oral em GT

O Sistema de Saúde colombiano e as decisões ao final da vida.

Autor/es: Edna Rocio Rubio Galvis
Esta proposta sai do trabalho elaborado entre os anos 2011 e 2012 onde se faz uma aproximação à experiência dos processos de adoecer, padecer, e morrer, de cinco pessoas diagnosticadas com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), na cidade de Bogotá. A experiência destas cinco pessoas tem diferentes desenvolvimentos e permitem dar conta das diferentes formas de se relacionar com o sistema de saúde, de aceder aos recursos, e de afrontar o final da vida. O Sistema de Saúde tem passado por variadas reformas, mas uma dessas reformas acontecida no ano 1993, conhecida como a lei 100, marca o funcionamento do sistema de saúde sob os princípios neoliberais de libre eleição e eficiência. (Pereira, 2007). Esta lei tem dificultado o acesso à atenção em saúde para os colombianos, e foi apresentando falências, pelo qual o Estado teve que promover outras leis e decretos onde se tenta garantir o direito a saúde para as pessoas com doenças de alto custo, as órfãs e as catastróficas. A ELA se encontra classificada como uma doença catastrófica, no entanto, o relacionamento entre as pessoas e o sistema é conflitivo e desgastante sobre tudo para quem adoece. UMA CADEIRA DE RODAS: A doença ELA é definida pela biomedicina como degenerativa que “compromete os neurônios do córtex e o tronco cerebral e da medula espinhal.” (Peña, Ortiz, 2007:2). As cinco pessoas tinham diferencias socioeconômicas, e redes de apoio diferentes. A cadeira de rodas permite falar de aceso ao sistema de saúde, de qualidade de vida, e das decisões ao final da vida. Uma destas pessoas a trouxe desde Alemanha, a outra a recebeu graças ao apoio familiar, e o outro simplesmente não a teve nunca. Mas porque? Porque para conseguir uma dentro do sistema de saúde o tempo de espera é seis meses aproximadamente, inclui muitas mobilizações da pessoa para atender citações medicas, e ao final a pessoa pode morrer esperando-a. O FINAL DA VIDA: Pelas caraterísticas da ELA as pessoas se vieram diante de um prognostico de morte desde o momento do diagnostico, e sua aproximação a este momento se deu de diferentes formas. Quatro delas optaram pelas vontades antecipadas, e a outra pessoa optou pela eutanásia. Na Colômbia as vontades antecipadas estão regulamentadas desde o ano 2014 com a lei 1733 dos Cuidados Paliativos, e a eutanásia foi despenalizada no ano 1997 pela Corte Constitucional. A APROXIMAÇÃO TEORICA: A analise se fez a partir dos aportes teóricos feitos pelo Arthur Kleinman sobre a experiência (1991), as narrativas da doença (1988), e o sofrimento social (1997). Também a proposta de corpo tridimensional de Margaret Lock e Nancy Sheperd- Hughes do corpo tridimensional (1990), e os conceitos de biopoder e biopolitica de Michel Foucault (1996).
Apresentação Oral em GT

Envelhecer com saúde: estudo etnográfico sobre políticas públicas para a pessoa idosa

Autor/es: Fabiela Bigossi
Essa comunicação pretende fomentar o diálogo entre a antropologia e as políticas de saúde através da discussão sobre as políticas públicas para o envelhecimento no Brasil e na França. A partir de uma etnografia multi-situada entre pessoas idosas de Maués – Amazonas, Veranópolis – Rio Grande do Sul e Amboise – França, esse trabalho visa apresentar as análises sobre a aplicação dessas políticas pelos poderes públicos locais em diálogo com especialistas da área da saúde e a aderência das pessoas idosas a tais políticas e discursos sobre saúde na terceira idade. A pesquisa visa também discutir as fronteiras do que consideramos políticas de saúde para o envelhecimento e sobretudo como essa dimensão de doença/saúde se articula com outros setores de atenção aos idosos, em especial aqueles dedicados à manutenção das identidades após a passagem para a aposentadoria, ainda hoje, o principal marcador das políticas públicas para o envelhecimento. A imposição contemporânea do “envelhecer ativo” e suas injunções sobre o corpo, individual e social, suscitam também a necessidade de refletir sobre a ampliação do olhar sobre os significados dados à saúde e, consequentemente, sobre a elaboração de políticas que visem construí-la e compreendê-la na sua prática cotidiana.
Apresentação Oral em GT

"Fazer emergir o masculino": noções de "terapia" na hormonização de homens trans

Autor/es: Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego, Rozeli Maria Porto (Professora Departamento de Antropologia e PPGAS, UFRN)
O presente trabalho objetiva discutir noções de “terapia” (hormonal) movimentadas por homens trans em contexto de manejo corporal. Isto é, em meio aos caminhos e as práticas envolventes à constituição de processos de administração de ésteres de testosterona (hormonização ou terapia hormonal), os interlocutores acionam o conceito de “terapia” – seja para se afastar ou para reiterá-lo. Por adjacências ligadas ao escopo patológico de suas transexualidades (“disforia de gênero”), o saber médico apresenta a injeção hormonal como parte do quadro geral de “tratamento” endócrino. A hormonização, geradora e fundamentada também por tropos, se materializa como momento importante na transição do corpo na vivência da transexualidade masculina. Marcados por diferentes acessos a saúde, de acordo com repertórios diversos que envolvem múltiplos capitais e posições de classe, “os” homens trans acessam a testosterona a partir de mercados informais, do consultório médico privado ou do atendimento público. A compra de receitas ou de ampolas “ilegais” de testosterona possivelmente adulteradas podem ser passos e riscos tomados como medida urgente de “fazer emergir o masculino” corporalmente. Os diferentes ésteres de testosterona, portanto, não são simplesmente devires, nem compõem sozinhas dispositivos. Enquanto substâncias químicas materiais, envolvem um mercado fármaco e um controle médico, variados tipos e aplicações, e um saber técnico que extrapolam ações individuais. Ao contrário de “transformar”, o hormônio é visto “adequando” ao externo algo que existente “internamente”, como objetivam os interlocutores. O texto se divide em duas partes, primeiramente, descrevemos o acesso médico e os tipos e aplicações da testosterona, majoritariamente compostos de cipionato ou propionato; à segunda, nos deteremos nas noções de “terapia” vinculadas à hormonização (cuja fuga do “terapêutico” não é unânime) sob diferentes repertórios capitais facilitadores e dificultadores envolvidos à sua concretização. O artigo é fruto de pesquisa de campo entre os anos de 2014 e 2015 realizadas em diferentes regiões do país. Sua metodologia envolveu incursão etnográfica entre núcleos de ativismo trans, e entrevistas em profundidade com os colaboradores.
Apresentação Oral em GT

Entre a dependência e a autonomia: a percepção de usuários de drogas em situação de rua sobre modelos terapêuticos instituídos em Belo Horizonte

Autor/es: Gustavo Satler Cetlin, Valéria Costa Pacheco Rita Espíndola
A percepção de usuários de drogas em situação de rua a respeito dos modelos terapêuticos instituídos é o tema do presente artigo. Resultado do mestrado em Ciências Sociais, utilizamos o método etnográfico na região central de Belo Horizonte, priorizando as narrativas dos sujeitos e sua interpretação das suas experiências de tratamento institucional. Para a seleção dos espaços pesquisados foi inicialmente realizado o mapeamento das áreas ocupadas por essa população e os movimentos desses sujeitos pela cidade, procurando situar as instituições de tratamento e de assistência social dentro dessa territorialidade. Os locais onde estão centralizados com mais intensidade os usuários problemáticos de drogas que vivem nas ruas de Belo Horizonte são: Viaduto das Bolas, Parque Municipal, Praça da Estação, Centro de Referência à População de Rua e Abrigo Municipal. Realizamos nesses locais entrevistas temáticas em profundidade, procurando compreender como os usuários problemáticos de drogas em situação de rua percebem os modelos de tratamentos oferecidos e instituídos para a sua recuperação. Buscamos igualmente analisar de que forma essas pessoas entendiam o próprio consumo e a nomeação de “doença” atrelada a esse ato. Na perspectiva dos entrevistados, os serviços de atendimento de fundamentam na exigência da abstinência e operam, para atingir esse objetivo, seguindo prescrições e protocolos que desconsideram os aspectos subjetivos envolvidos no consumo e o contexto social no qual ele ocorre. O acesso a esses serviços se torna possível mediante o consentimento do sujeito com a nomeação de "doente" e de “dependente”, representações sociais que implicam no prejuízo da autonomia e que, portanto, fundamentam uma lógica de cuidado heterônoma, perante a qual o "paciente" é identificado como aquele que segue passivamente as conduções técnicas dos profissionais. Por outro lado, a etnografia mostrou como esse sujeito se apropria da nomeação de “doente” para justificar sua condição de vida, manter o uso de droga e acessar as instituições para resolver problemas agudos relacionados ao seu cotidiano, o que afirma uma posição autônoma diante do funcionamento institucional. Ao mesmo tempo, recusam as representações negativas quando defendem sua liberdade de escolha e quando criam estratégias de redução de danos e cuidado mútuo na própria cena de uso. A análise revela como o uso de drogas acontece em um contexto social extremamente complexo, não necessariamente adoecido e marcado pela subjugação ao consumo, mas também como expressão de autonomia, auto-cuidado e solidariedade.
Apresentação Oral em GT

Modelos de assistência e identidades engendradas: notas sobre política e saúde mental no Brasil

Autor/es: Lilian Leite Chaves
Na primeira quinzena de dezembro de 2015, devido ao anúncio de nomeação de Valencius Wurch para o cargo de Coordenador Geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas, a luta antimanicomial ressurgiu na arena dos debates políticos acerca da saúde. Várias entidades e profissionais questionaram a nomeação do psiquiatra, tendo em vista a sua atuação frente a um hospital psiquiátrico no estado do Rio de Janeiro, denunciado pela violência e maus tratos, e o seu posicionamento contrário à extinção dos manicômios, eixo do projeto de lei para a Reforma Psiquiátrica. As críticas e ponderações ganharam formas em notas de repúdio ou apoio, abraços a Centros de Atenção Psicossocial pelo país, seminários, e na ocupação da sala da Coordenação de Saúde Mental em Brasília, autodenominada “Ocupação Fora Valencius”. Esse evento descortina uma disputa política que se ancora em vários embates constituintes do processo brasileiro de reforma psiquiátrica, sobretudo embates a respeito dos modelos de assistência em saúde mental. A discussão sobre modelos de assistência não se pauta somente pelas questões econômicas e administrativas, mas também pelos tipos de relações esperadas/planejadas entre profissionais e usuários, relações que dependem da estipulação dos profissionais habilitados para conduzirem tais modelos, do lugar ocupado pelos usuários no seu processo de sofrimento e no processo de atenção ao seu sofrimento. Dessa maneira, o que se evidencia é que as discussões se dão em torno de expectativas de legitimidade, visibilidade, reconhecimento, desembocando em conformações de identidades. O objetivo desse trabalho é, a partir do evento em questão e de uma etnografia em documentos de saúde, mostrar/resgatar como as posições ideológicas e técnicas na área da saúde mental conduzem a defesas e proposições de modelos de assistência que conformam ou possibilitam identidades bastante diversas, tanto para o corpo profissional, quanto para os usuários. Os documentos considerados referem-se principalmente aos relatórios finais das Conferencias de Saúde Mental e as leis, pois esses documentos são marcados pela participação social, onde é possível perceber as disputas de diversos atores sociais. Além disso, esses documentos são os pilares para as ações e os programas de governo que incidirão na vida dos profissionais e dos usuários.
Apresentação Oral em GT

Uma análise sócio antropológica da Fístula Obstétrica em Moçambique

Autor/es: Lucia Helena Barbosa Guerra
Neste artigo resulta de etnografia realizada em Moçambique, onde lancei um olhar sobre a complexidade e experiências de mulheres que vivem com Fístula Obstétrica, doença resultante de complicações no trabalho de parto prolongado ou obstruído sem a devida assistência de profissional de saúde. Essas complicações são consequências da precariedade da rede de atendimento à saúde materna no país, mas também envolvem fatores culturais e econômicos que atingem principalmente as mulheres de países em desenvolvimento. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS: 2010) na Ásia e na África subsaariana existem mais de 02 milhões de mulheres sofrendo com a doença, em Moçambique são aproximadamente cem mil mulheres. A maioria desenvolve as fístulas ainda muito jovens e acabam sendo estigmatizadas pela sociedade, uma vez que a doença provoca perda crônica de urina e/ou fezes. Em Moçambique a cada mil partos surgem vinte novos casos de fístula , estes números fizeram com que o governo acelerasse esforços para facilitar o acesso à saúde através da criação da Estratégia Nacional de Prevenção e Tratamento das Fístulas Obstétricas. Abordar a dimensão sócio antropológica da Fístula Obstétrica em Moçambique significa olhar não apenas para a mulher (con)vivendo com esta doença, mas também mostrar a ações e políticas públicas que vem sendo desenvolvidas pelo governo moçambicano para tentar minimizar esta sofrimento. Questões inerentes à saúde e a doença tem sido estudados direta ou indiretamente por antropólogos desde o final do século XIX, possibilitando por meio da descrição e da análise etnográfica um acúmulo de conhecimento acerca das diferentes experiências de grupos sociais sobre esses fenômenos (Nakamura, 2009:27). Igualmente, sustenta-se que estas questões devam ser pensadas a partir dos contextos socioculturais específicos nos quais ocorrem, uma vez que as diferenças culturais podem influenciar na maneira como cada doente assume o papel de enfermo (Alves: 1993). É neste sentido que, este artigo objetiva mostrar as experiências destas mulheres sobre a Fístula Obstétrica, procurando identificar aspectos do processo de saúde-adoecimento e que são objetos da preocupação na vivência deste processo.
Apresentação Oral em GT

Saber falar com os “brancos”: intertextualidade e ação política em contexto intercultural (Reflexões sobre um discurso yanomami no Conselho Distrital de Saúde Indígena)

Autor/es: Marcos Antonio Pellegrini
A participação indígena em arenas públicas nacionais e globais tem destacado o caráter emergente da cultura e da identidade étnica e ampliado também os limites de seu mundo discursivo ou dialógico. No Brasil, a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, seguindo os princípios das Leis Orgânicas da Saúde, institucionaliza a participação comunitária com a criação dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena como instâncias colegiadas de controle social e cria novas situações de diálogo intercultural. Neste contexto, este trabalho trata do esforço dos Yanomami em comunicar-se com os não-índios partindo de suas próprias preocupações sobre o falar, e das estratégias utilizadas na ação política em um contexto que extrapola sua própria sociedade. Utilizando conceitos construídos inicialmente no campo da etnografia da fala e desenvolvidos pelos autores que se dedicaram ao estudo da performance, apresenta uma reflexão sobre um evento da fala num encontro formal e institucionalizado entre representantes indígenas, missionários, autoridades e profissionais de saúde, situação que propicia a reflexão sobre a disputa de significados e identidades.
Palavras chave: Políticas, Performance, Saúde
Apresentação Oral em GT

Saúde e Políticas Públicas para Quilombolas: o caso de Laranjal/Poconé/MT

Autor/es: Mariel Marostica Fernandes, Dr. Sueli Pereira Castro (Professora PPGAS/UFMT) Ms. Mariel Maróstica Fernandes (doutoranda PPGSC/UFMT)
O trabalho apresentado é resultado de um estudo que objetiva compreender as condições de saúde e o acesso à política pública de saúde das populações rurais remanescentes quilombolas no município de Poconé - Mato Grosso. Estado que, segundo a Fundação Palmares, possui 66 comunidades remanescentes quilombolas (CRQs) reconhecidos, e destas, 27 estão no município de Poconé. Estas comunidades gestadas historicamente por várias gerações de grupos familiares, que tem na ancestralidade a legitimidade da ocupação, guardam especificidades culturais e contam, atualmente com legislações específcas, que burocraticamente devem lhes garantir atendimento de forma equânime e integral, preconizadas a partir do Sistema Único de Saúde. Este sistema que se origina fruto do movimento social da Reforma Sanitária Brasileira, têm como preceito o comprometimento em atender as necessidades e especificidades de grupos populacionais. Considerando essas questões, atenção especial deve ser dada as populações remanescentes quilombolas, que vivem, geralmente, à margem dos centros urbanos e, consequentemente, dos serviços públicos de saúde, restando a elas a construção de estratégias para chegar aos serviços e receber um atendimento de qualidade que atenda suas necessidades. Mediante o objetivo proposto torna-se essencial compreender como a política pública de saúde destinada a essas populações, que se constituem a partir de aparatos burocráticos administrativos, vem sendo apropriada pelas mesmas, buscando-se entender como ela se efetiva nas ações dos sujeitos de direito. Para o desenvolvimento do trabalho selecionou-se inicialmente as Comunidades Quilombola de Laranjal, município de Poconé/MT. Dados levantados até o momento, assim como estudos já realizados com comunidades rurais do pantanal Mato-grossense, locus também da comunidade estudada, constata - se a ausência ou precariedade dos serviços. Somando-se a isso, o modelo assistencial e o processo de trabalho desenvolvido nos serviços de saúde tornam difícil às práticas da integralidade, equidade e universalidade para as populações rurais. Essa situação é traduzida por questões que envolvem o acesso, o acolhimento e a descontinuidade no atendimento, e, em as ações empreendidas desconsideram a pluralidade social e cultural no Brasil. O estudo, de cunho qualitativo, tem a etnografia como forma de se conhecer os quilombolas na sua dinâmica de luta pelo reconhecimento dos direitos, mostra-se significativos no sentido de se conhecer as especificidades das populações e suas reais condições de saúde, para posteriormente propor ações que vão ao encontro as suas necessidades, conforme o instituído na Agenda Social Quilombola (decreto 6261/2007).
Apresentação Oral em GT

Políticas de saúde, HIV e drogas: a perspectiva dos usuários e os desafios desses itinerários terapêuticos

Autor/es: Priscila Farfan Barroso, Daniela Riva Knauth
O presente estudo, em andamento, tem como objetivo a pesquisa de como os portadores de HIV/Aids que fazem/fizeram uso de drogas vivenciam os itinerários terapêuticos para amenizar as consequências de suas enfermidades. A partir do trabalho etnográfico em serviços de saúde especializados no Rio Grande Sul junto aos sujeitos em questão, deseja-se realizar a observação participante e entrevistas semi-diretivas ao longo de certo período. Tendo em vista o preconceito e estigma (PARKER; AGGLETON, 2001) sofrido por quem vive com HIV/Aids, e ainda tem um histórico de uso de drogas, os desafios para o acolhimento e tratamento na rede de atenção, tanto da Saúde Mental como a rede de atenção de Pessoas Vivendo com HIV, fazem com que estes criem estratégias e agenciamentos para diminuir o sofrimento desde o processo que reifica a desigualdade social (FASSIN, 2004). Portanto, a lógica de cuidado eleita (MOL, 2008) perpassa pelo modo como os sujeitos vivenciam os serviços disponíveis pelas políticas públicas. Estas estão baseadas em propostas internacionais e acordo entre nações, de modo que sua aplicação enfrenta as especificidades contextuais de atenção e atendimento dos usuários em questão. Assim, ainda em fase de revisão bibliográfica, investiga-se os meandros dessa (des) atenção e conhecer os movimentos dos sujeitos no contato com os serviços de saúde pública.
Apresentação Oral em GT

Mães Terapeutas Populares

Autor/es: Thereza Cristina de Souza Mareco
As mães que atuam como terapeutas em classes populares surgem como uma figura central, pois em tais contextos as pessoas buscam, primeiramente, o esgotamento das práticas terapêuticas na rede familiar, de vizinhança e outras para, posteriormente, buscarem outras fontes de cuidados. O trabalho apresenta este recorde de gênero com o intuito de observar como a mulher decide sobre o cuidado no ambiente familiar e se relaciona com o profissional de saúde no jogo de relações de poder que acaba se inserindo. Foram entrevistadas 8 mulheres, 2 residentes de Ceilândia-DF e 6 de Taguatinga-DF, região vista como periferia de Brasília. Entende-se o cuidado aqui quando essas mulheres atuam fazendo o diagnóstico no que diz respeito a saber se seus filhos estão doentes ou não, a gravidade do adoecimento e criando conceitos e práticas terapêuticas que nem sempre são as mesmas dos médicos. Desse modo, essas mulheres decidem/negociam sobre o itinerário terapêutico, quando devem cuidar por meio de práticas populares, quando devem levá-los ao médico. A figura do médico é acionada nos casos em que as mães acreditam ser necessário, revelando situações quando demonstram domínio sobre a prática biomédica.
Apresentação Oral em GT

Sistemas de saúde em conflito: A saúde indigenista e luta pela manutenção do corpo forte Canela

Autor/es: Carlos Lourenço de Almeida Filho, Edna Ferreira Alencar
Os Canela possuem forma própria de representar o corpo, que implica em concepções específicas sobre o que é saúde e doença. O Corpo forte (Amorim Oliveira 2008) é equivalente a concepção de saúde e é instituído a partir de conjunto de regras e tabus que devem ser seguidos para que o corpo se torne, e seja mantido, forte. As concepções estão diretamente relacionadas ao conjunto de preceitos que compreendem desvios de conduta moral, práticas corporais, dieta alimentar e higiene corporal. O não cumprimento destes preceitos produz a poluição do corpo e, como consequência, torna o corpo fraco, ou seja, doente. Os dados utilizados neste trabalho são parte da minha pesquisa de mestrado. O objetivo do trabalho é mostrar como as concepções sobre saúde e doença mantidas pelos Canela são levadas em consideração nas ações de atenção à saúde indigenista realizadas pelo Estado brasileiro aos povos indígenas; e como se dá a relação entre os profissionais que prestam serviços de atenção a saúde e as concepções dos Canela de corpo forte, seguindo as diretrizes da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), por intermédio do DSEI, que objetiva articular o sistema ocidental de ação para a saúde com os sistemas tradicionais de ação para a saúde, levando-se em consideração as peculiaridades de cada comunidade e o perfil epidemiológico. A conclusão mostra que suas concepções de saúde e doença não são compreendidas pelos agentes dos programas de atenção à saúde levado ao povo Canela da aldeia Escalvado, localizada no estado do Maranhão, que se pautam pelo modelo ocidental de atenção à saúde por meio do Pólo Base de Barra do Corda responsável pela atenção à saúde dos Canela.
Pôster em GT

Doença e cuidado em genética: o caso da doença falciforme

Autor/es: Georgia Kessia Cavalcanti da Silva, Anatil Maux
Este trabalho traz à baila as categorias do cuidado e adoecimento, em relação as tendências e o desenvolvimento contemporâneo das interações entre medicina e genética, na composição dos novos padrões de saúde e adoecimento, tomando como base o caso da doença falciforme, na Paraíba, Brasil, convencionalmente tratada de “disease black” entre a genética e medicina (em razão da estigmatização da doença). Aqui, pensamos sobre sociabilidade e políticas de saúde para a população negra como foco na produção de conhecimento para o entendimento dos desafios e das implicações éticas das práticas médicas. O objetivo do estudo é compreender os aspectos relacionados ao impacto provocado no cotidiano do adoecimento genético e sobre as famílias, a partir da descoberta do traço/doença falciforme. Partimos dos relatos colhidos durante um ano de pesquisa, sobre o “adoecimento genético: estudo sobre o caso da doença falciforme”, com geneticistas (profissionais, professores e pesquisadores), gestores de saúde (Secretaria Municipal de Saúde e área de saúde da população negra no município de João Pessoa) e representantes da Associação de Portadores de Anemias Hereditárias/ASPPAH, explorando-os para demonstrar os resultados, dramas e dilemas vividos e compartilhado pelos “irmãos de foice”, que segundo eles, as políticas são adequadas, mas, o cuidado ofertado não respeita o doente, na medida em que não reconhece seu sofrimento: embora o estado possua uma cobertura de 73%, persiste uma deficiência na qualidade/qualificação dos profissionais, e a ausência de um programa de aconselhamento genético às famílias e aos portadores do traço falciforme. Trata-se, portanto, da experiência da doença, observada através de apropriações sociais do conhecimento disponível em diferentes redes de informação nas quais as famílias se mobilizam para compor um saber sobre a doença e organizar um projeto familiar de cuidado e gestão da reprodução social, articulando diferentes dimensões da vida pessoal e coletiva. Isto é, suscita discussões públicas sobre as consequências éticas, legais e sociais a despeito do adoecimento e cuidado em genética. Em termos de resultados, este trabalho ratificou que pessoas em condições sociais desiguais continuam sendo negligenciadas, e estigmatizadas, relegando o sofrimento das pessoas e famílias, de um suporte genético para a reprodução e o casamento, e, para a condução do diagnóstico em termos da diferença entre traço e doença falciforme, da implementação gradual, lenta e tardia das políticas locais, a ausência de informação, e os meandros da ética no fazer profissional, podendo criar mais discriminação.
Pôster em GT

Epidemia de Chikungunya entre os Pankararu

Autor/es: Sandra Monteiro de Souza
Contextualizando os Pankararu Os Pankararu são um povo indígena que vive nas proximidades da margem do rio São Francisco, totalizando 14 aldeias distribuídas em uma reserva indígena de 8.100 hectares localizada entre os municípios de Jatobá, Petrolândia e Tacaratu, localizados no estado de Pernambuco. Atualmente, os Pankararu são aproximadamente 7 mil indígenas distribuídos em 14 aldeias em uma reserva de 8.100 hectares. Até 1935, os Pankararu falavam uma língua Tupi-guarani. Mas, a partir dos anos seguintes, por conseqüência do envolvimento contínuo com o homem branco e práticas opressivas que visavam por o fim aos regimes de saberes e modos de viver dos Pankararu, esses passaram pelo esquecimento da língua materna além de outras práticas. No entanto, os Pankararu se reinventaram e fortaleceram sua identidade em um processo de resistência. Os Pankararu têm muitas fontes de sabedoria e vida. Fazem uso de práticas de cuidado como os tratamentos terapêuticos por meio do uso ervas medicinais e também são curados em rituais pelos Praiás, os quais representam toda força encantada Pankararu, que representam junto com o ritual do "Toré", marcas de identidades e resistências culturais dos Pankararu. A Chikungunya entre os Pankararu Para os Pankararu, os jovens e adultos atribuem a doença Chikungunya ao mosquito Aedes Aegypti, porém para os mais velhos não é uma doença adquirida através do mosquito, mas sim pelo vento, pois segundo eles “em um instante estamos bons e em outros estamos caídos”, fazendo assim uma relação com a mudança do vento bom para o vento mau. Desse modo, os Pankararu, para combaterem os sintomas da doença, além de tomar a medicação receitada pelo médico, alguns indígenas tomam chás e banhos de ervas medicinais, como também vão aos rezadores da comunidade para que os curem, retirem aquela doença. Essas rezas são feitas pela manhã, antes do meio dia e antes do sol se pôr, pois para eles com a reza o sol levará a doença embora, nas partes do corpo que estão doendo eles passam uma mistura feita com casa de barro de abelha com cachaça. O surto epidêmico de chikungunya nos Pankararu Desde dezembro de 2015, 14 aldeias da Terra Indígena Pankararu sofrem com a doença, a aldeia mais afetada foi a Espinheiro, localizada no município de Tacaratu, com mais de 300 casos, adultos e idosos foram os mais afetados. Espinheiro tem um pouco mais de 500 pessoas, está localizada próximo à cidade, onde o processo epidemiológico se iniciou. Algumas aldeias tiveram casos isolados da doença, onde os que apresentaram foram tanto adultos quanto idosos e crianças, vale ressaltar que alguns deste contraíram a doença fora da aldeia. Este trabalho pretende discutir a atuação dos serviços de saúde oficiais entre os Pankararu.
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