Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT015. Antropologia e crítica pós-colonial

O Grupo de Trabalho visa constituir um fórum para estudos e reflexões conduzidos na interface entre a antropologia e a chamada crítica pós-colonial. Desde ao menos a “virada reflexiva” nos anos 1980, as questões e dilemas da antropologia mundial têm se aproximado cada vez mais das preocupações deste campo interdisciplinar. Mas ao contrário de tradições antropológicas centrais como a estadunidense ou mesmo periféricas como a indiana, no Brasil este diálogo é ainda bastante incipiente. O GT visa agregar trabalhos que estejam pensando questões e trabalhando com conceitos compartilhados com a crítica pós-colonial, seja através de autores clássicos como Frantz Fanon e Edward Said, seja com discussões mais contemporâneas como as avançadas pelos subaltern studies (Chakrabarty, Spivak, Bhabha), o programa latino-americano da modernidade-colonialidade (Quijano, Mignolo, Escobar), ou a antropologia da religião e secularismo (Asad, Mahmood, Hirschkind). Serão especialmente benvindos estudos derivados de pesquisa etnográfica, realizados dentro ou fora do Brasil, mas que também demonstrem um bom domínio da literatura teórica em questão dentro e fora da antropologia. Os temas não precisam se restringir ao foco clássico em questões de raça e colonialismo, podendo incluir também discussões sobre nacionalismo, gênero, migrações, desenvolvimento, colonialismos internos, relações interétnicas, ciência e conhecimentos tradicionais, entre diversos outros.

Anna Catarina Morawska Vianna (Universidade Federal de São Carlos)
(Coordenador/a)
Leonardo Schiocchet (Austrian Academy of Sciences)
(Coordenador/a)


As políticas da diferença no Brasil, em uma perspectiva subalterna e descolonial: o caso das comunidades remanescentes de quilombo

Autor/es: André Luiz Videira de Figueiredo
O debate político-jurídico em torno das chamadas "minorias" pode ser pensado a partir de duas chaves: a chave da desigualdade, a apontar para a necessidade de políticas que promovam a igualdade material, e a chave da diversidade, que aponta para a necessidade de reconhecimento das formas particulares de ser no mundo. Neste trabalho, pretendo discutir o problema da "diferença" a partir destas duas dimensões, colocado nos seguintes termos: como pensar em uma concepção universal da política e dos direitos que dê conta das demandas particulares e plurais dos grupos? Os autores da teoria crítica do reconhecimento lograram êxito no diagnóstico da emergência desta tensão, mas apresentam dificuldades em resolvê-la sem escapar das armadilhas do individualismo liberal. Proponho, para este debate, um duplo deslocamento, tanto empírico (para casos de demandas por reconhecimento em contextos subalternos) quanto teórico (na crítica às formas hegemônicas de interpretação da modernidade a partir de uma "geopolítica do conhecimento"). Tal deslocamento pode ser útil para descortinar uma alternativa entre a multiplicidade fragmentadora e o universalismo descarnado, em uma concepção de totalidade que incorpore a heterogeneidade. Para tal debate pretendo lançar mão do caso das comunidades remanescentes de quilombo no Brasil, tendo em vista discutir não apenas os encontros e desencontros entre o global e o local, mas também os desafios da garantia dos direitos de minorias em contextos periféricos. As comunidades quilombolas foram afirmadas como sujeitos coletivos de direitos na Constituição brasileira de 1988, e tornaram-se, nos últimos anos, objetos de políticas que combinam reconhecimento e redistribuição. A observação da política quilombola coloca como questão as possibilidades de construção de uma proposta subalterna e descolonial de política e direito, que não precise se resumir ao status ou à dignidade dos sujeitos individuais e que possa, efetivamente, dar conta da construção de uma narrativa totalizante, de caráter intercultural. Tal reflexão nos levará ainda à percepção de que, no caso brasileiro, as políticas de reconhecimento étnico ainda não caminharam nesta direção. Pensar a questão étnica no Brasil a partir deste aporte teórico, portanto, permite conjecturar sobre os sujeitos que as políticas de reconhecimento fazem emergir, as suas condições de afirmação na política e no direito modernos e as dificuldades em torno da conjugação entre as pautas específicas dos movimentos e as demandas em torno de um projeto de transformação da sociedade.
Apresentação Oral em GT

Afro-descendentes na Índia: diferença e desigualdade

Autor/es: Andreas Hofbauer
No interior do Estado de Karnataka vivem alguns milhares de afro-descendentes, provavelmente há séculos. Eles dividem-se em três grupos religiosos (cristãos, hindus e muçulmanos) e falam línguas diferentes. São menosprezados pelos vizinhos como uma espécie de casta inferior; não são tampouco aceitos como iguais pelos seus respectivos irmãos de fé não-siddis. Só mais recentemente, com a luta pelo status de “scheduled tribe”, que garante aos beneficiários alguns direitos especiais (p.ex., cesta básica; bolsas de estudo; posse de terra), os três sub-grupos siddis começaram a interagir mais e a desenvolver estratégias conjuntas que visam criar uma identidade supra-religiosa capaz de superar linhas divisórias e barreiras internas. Entre os poucos estudos existentes sobre os siddis, podemos perceber duas tendências. A maior parte dos autores indianos enfatiza a integração dos siddis na sociedade nacional/regional para, desta forma, explicar tanto características culturais quanto discriminações sofridas pelo grupo. Assim, o primeiro trabalho de peso (Palakshappa,1976) trata os siddis como mais uma casta inferior que teria incorporado integralmente “a cultura hindu”. De forma parecida, Lobo, responsável pela elaboração de um relatório fundamental para a conquista do status scheduled tribe, define os siddis como uma tribo que “não preservou nada de sua cultura originária” e compartilha a maioria dos costumes com os seus vizinhos. Já Obeng, pesquisador ganês-norte-americano, discorda das análises dos colegas indianos, acusando-os não somente de ter exagerado a importância atribuída ao fator “assimilação cultural”, mas também de ter explicado a inferiorização dos siddis unicamente pela inserção subalterna na lógica indiana das castas. No seu contra-discurso, realça o fator “raça” tanto como critério de discriminação quanto como de identificação, e busca, assim, dar relevo àquelas experiências que os “indianos africanos” teriam em comum com todos os outros africanos e afro-descendentes. Valendo-me de uma intensa pesquisa de campo e de reflexões pós-coloniais sobre diferença e desigualdade, busco argumentar que as abordagens acima desenhadas tendem a essencializar e descontextualizar categorias-chave de análise (casta, tribo; raça). Mostrarei como casta, religião, fenótipo, tribo e africanidade atuam como marcadores de diferença e ganham, de acordo com os contextos e os posicionamentos dos agentes, maior ou menor importância em suas vidas. Minha estratégia analítica busca construir pontes possíveis entre abordagens antropológicas “clássicas” acerca da construção de identidades e reflexões críticas pós-coloniais a respeito dos discursos e posicionamentos hegemônicos e contra-hegemônicos.
Apresentação Oral em GT

Mulheres indígenas e políticas públicas: repensando espaços e agências políticas indígenas e femininas

Autor/es: Beatriz de Almeida Matos
Cada vez mais no Brasil mulheres indígenas tem se destacado como “lideranças” não só no âmbito de suas comunidades e Terras Indígenas mas também nas arenas políticas nacionais. Essas mulheres tem reivindicado a criação ou execução de políticas públicas específicas, voltadas para questões que consideram próprias de sua condição de mulheres e indígenas. Na esfera das políticas públicas voltadas para os povos indígenas no Brasil há um ideal de “igualdade”, que enxerga “empoderamento” e “autonomia” da mulher indígena apenas quando elas passam a ocupar espaços públicos, centros da praça, falar no microfone. Se o “dar voz” às mulheres indígenas tem gerado boas oportunidades de se conhecer melhor suas reivindicações, minha hipótese é que uma oposição de fundo entre “doméstico” e “público” (que, com as devidas transformações, é cara também a parte da etnologia amazonista) faz com que muitas ações políticas femininas fiquem marginalizadas ou nem sejam vistas como tal. A proposta é pensar espaços políticos femininos não imaginados pelas políticas públicas atuais. Ao mesmo tempo, procurei me apoiar tanto na experiência em campo com as mulheres indígenas como em minha própria e outras monografias que tratam das diferenciações de gênero entre os povos amazônicos como fundamentais para a constituição das pessoas, para evitar que se caia em uma projeção simplista de valores “secularistas” (Mahmood, 2005) ao analisarmos as relações entre homens e mulheres indígenas. Se há assimetria nessas relações, não nos parece ser possível defini-las em termos de hierarquia ou dominação. A partir da leitura de Mahmood (2005) e de sua crítica à pressuposição, central para o pensamento progressista e liberal, da universalidade de um desejo de “liberdade” e “autonomia” das normas e das relações de subordinação – e especificamente para as mulheres, de estruturas de dominação masculina – essa comunicação será um exercício de diálogo entre temas da etnologia ameríndia e da crítica feminista na antropologia.
Apresentação Oral em GT

Antropologia Feminista e Crítica Pós-Colonial na América Latina: Encontros e Desencontros

Autor/es: Cecília Maria Bacellar Sardenberg
Este trabalho ter por objetivo maior mapear, tanto geográfica quanto teoricamente, os traçados da crítica pós-colonial na América Latina, tal qual esboçados a partir das perspectivas da antropologia feminista. Mais precisamente, busca identificar, de um lado, os pontos em comum entre esses diferentes campos - a exemplo da crítica ao eurocentrismo dos feminismos ocidentais - e, de outro, os ‘desencontros’, com destaque para a crítica feminista ao viés androcêntrico presente nos estudos pós-coloniais. Por fim, se volta para o emprego dos conceitos de ‘descolonialidade’ e ‘interseccionalidade’ no campo da antropologia feminista latino americana, como meio de superação dos impasses na análise do entrelaçamento do racismo e do sexismo com a colonialidade do poder.
Apresentação Oral em GT

O véu islâmico e suas políticas: notas sobre gênero, religião, fronteiras do secularismo e nacionalidades

Autor/es: Helena de Morais Manfrinato
Ao tomar como foco de análise grupos que são atravessados por processos globais, é inevitável deparar-se com configurações imprevisíveis e conexões inesperadas, como a relação entre narrativas orientalistas, o crescimento do Islã no Brasil, o onze de setembro e a questão do véu islâmico. Ao mesmo tempo, essas relações se apresentam como um fórum privilegiado para se discutir Islã, cidadania e direitos humanos no Brasil, com a entrada de novas políticas seculares na cena pública. A imagem da mulher velada aparece como um símbolo da opressão religiosa islâmica hiper-ritualizada pelos media, configurando uma modalidade e um limite do secularismo ocidental. O véu representa uma religiosidade estrangeira – porque supostamente professada por uma população imigrante – e uma prática desviante do que se considera necessário à formação de um corpo secular, pleno de direitos. Confrontando seus limites e potencialidades, as mulheres muçulmanas, de modo independente, ou através de organizações e campanhas públicas, vêm inventando alternativas políticas ciborgues como o feminismo islâmico, torcendo e desvelando as relações de poder desses discursos e criando, com isso, novas formas de agenciamento do espaço público. Pretendo realizar essa discussão a partir de uma abordagem crítica de Edward Said (1997, 2003), bem como autores como Homi Bhabha (2013), Saba Mahmood (2005, 2006), Charles Hirschkind (2011), Talal Asad (1975, 2003), entre outros.
Apresentação Oral em GT

Algumas implicações do uso das noções de “ocidente” e “modernidade" na Antropologia

Autor/es: João Frederico Rickli
Este texto apresenta uma reflexão de caráter conceitual acerca das implicações de alguns usos das noções de "ocidente" e "modernidade" na Antropologia, a partir das elaborações de um certo número de autores e autoras (auto)reconhecidas como pós-coloniais, especialmente Spivak, Chakrabarty e Asad. O objetivo é apresentar algumas armadilhas teóricas que decorrem do uso irrefletido destes termos, sistematizadas aqui em três tipos de abordagens antropológicas que de alguma forma deles lançam mão: 1) aquelas que têm por fundamento (frequentemente não explícito) dicotomias decorrentes do par moderno/tradicional; 2) abordagens baseadas num dualismo metodológico, que nega acesso etnográfico a qualquer realidade que não seja moralmente circunscrita como local; e 3) abordagens que tomam o caráter universalizante do instrumental teórico moderno pelo seu valor de face, restringindo as possibilidades analíticas de uma antropologia das formas ocidentais modernas de organização social aos discursos dos modernos sobre si mesmos. Para tanto, o artigo primeiramente explora alguns tipos de definições, com variados graus de imprecisão, oferecidas pela literatura para os conceitos em questão. Em seguida passa a analisar cada um dos três tipos de armadilhas identificadas num conjunto limitado e relativamente arbitrário de textos antropológicos que abordam o “contato” em relatos etnográficos descritos como encontros entre, de um lado, “nativos" e, de outro, missionários, colonizadores e agentes de desenvolvimento. Finalmente, o texto apresenta um esboço de proposta metodológica para o estudo etnográfico de fenômenos e realidades sociais reconhecidos como ocidentais.
Apresentação Oral em GT

Cultura e colonialidade nas relações Brasil-África

Autor/es: Leticia Maria Costa da Nobrega Cesarino
O paper visa refletir, a partir de uma perspectiva pós-colonial, sobre uma noção que tem sido avançada e trabalhada por autores latino-americanos como Rodolfo Stavenhagen, Pablo Casanova, Roberto Cardoso de Oliveira, e mais recentemente, por nomes ligados ao programa da Modernidade/Colonialidade (Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Arturo Escobar): a de colonialismo interno. A reflexão se dará a partir de um caso concreto, o das relações internacionais entre Brasil e continente africano, desde que o Itamaraty inaugurou sua política africana no início dos anos 1960 até os avanços recentes no registro da cooperação sul-sul. Mais precisamente, proponho pensar aquilo que José Flávio Sombra Saraiva chamou nos anos 1990 de "gramática culturalista" nas relações diplomáticas Brasil-África enquanto uma modulação pós-colonial do Orientalismo saidiano, caracterizada por uma projeção, para o plano internacional, de preocupações e discursos referentes ao colonialismo interno brasileiro, em particular no modo como os afrodescendentes têm sido historicamente incorporados em narrativas hegemônicas de identidade nacional através da chave da "cultura".
Apresentação Oral em GT

Circulações pós-coloniais: estudo sobre intelectuais indianos na Europa

Autor/es: Vinicius Kauê Ferreira
Este artigo propõe uma análise de circulações profundamente constituintes do debate pós-colonial: a trajetória intelectual de cientistas sociais indianos que constroem sua carreira na Europa. Exploro aqui dados de minha pesquisa de doutorado em curso junto a intelectuais indianos trabalhando no Reino Unido e na Alemanha, na qual reflito sobre tópicos como trajetórias, representação de si, produção de sujeitos, sentimentos de pertença e globalização das ciências sociais, tendo em vista o cruzamento entre marcadores como gênero, classe, origem e casta na construção de carreiras acadêmicas e do campo das humanidades. Para esta pesquisa, tenho realizado trabalho de campo ao longo de nove meses no Reino Unido e na Alemanha, onde tenho realizado uma etnografia de importantes centros de pesquisa além de entrevistas em profundidade com um numero importante de antropólogos, sociólogos, historiadores, politólogos e professores de Literatura em diferentes instituições de ambos os países. Tenho também realizado entrevistas pontuais em outros países, tais como a Suíça e a França. Além disso, esta pesquisa confere um lugar central à obra desses intelectuais que, muitas vezes mas nem sempre, inscrevem-se eles mesmos no debate pós-colonial. Para esta comunicação, proponho refletir sobre como o debate pós-colonial indiano tem produzido condições concretas para essas circulações transnacionais e como esses sujeitos têm eles mesmos se apropriado deste debate na construção de suas próprias trajetórias e obras. Para tal, evoco um campo de disputas marcado por ambivalências e discursos de legitimidade que parte da conhecida critica subalternista contra os discursos produzidos pelo Norte global sobre a Ásia do Sul (GUHA, 1982), passando pelos ataques que os subalternistas sofrem de intelectuais tanto do Atlântico Norte quanto da Índia (ASSAYAG, BENEI, 2000; SPIVAK, 1989; MOREIRAS, 1998; KABIR, 2013), até as narrativas, respostas e apropriações realizadas pelos intelectuais com quem tenho dialogado no contexto de minha pesquisa. Portanto, proponho uma análise do pós-colonial desde dentro, a partir das narrativas articuladas por pesquisadores que estão no centro deste debate hoje. Como pensar o pós-colonial em relação às circulações contemporâneas de pesquisadores, seus sentimentos de pertença à academia indiana e europeia, ou ainda a conceitos como diáspora? Neste estudo, o pós-colonial é não apenas um quadro conceitual mobilizado para fins de interpretação teórica, mas o próprio objeto de análise através de uma etnografia junto a sujeitos que encarnam este debate.
Apresentação Oral em GT

Interfaces da imigração haitiana contemporânea para o Brasil: “raça” como marcador colonial na Amazônia ocidental

Autor/es: Washington Luiz Dos Santos Assis
A proposta deste trabalho é apresentar o resultado parcial de uma pesquisa etnográfica iniciada em 2014 na fronteira ocidental da Amazônia brasileira. O objetivo desta comunicação é oportunizar uma reflexão sobre a influência do sistema colonial enquanto corpo discursivo na constituição de desigualdades. Neste estudo analisaremos as interfaces da imigração haitiana contemporânea para o Brasil a partir de teorias pós-coloniais e decoloniais, para que se possa refletir acerca dos processos de subalternização de imigrantes haitianos na Região amazônica, especificamente no contexto de Porto Velho, Rondônia. Realizaremos, também, reflexões acerca das feridas coloniais (Fanon, 1968; Mignolo, 2009) na interrelação desses sujeitos em território brasileiro, considerando os mais diversos tipos de inferiorização e subordinação, em especial as marcadas pela raça.
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