Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT012. Antropologia do esporte: entre a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos

Durante as reuniões sucessivas que foram realizadas em versões anteriores da ABA consolidaram-se debates sobre as várias atividades desportivas, observando que se trata de uma área privilegiada para o estudo dos múltiplos significados que são construídos em torno de diferentes esferas da vida social. As pesquisas acadêmicas sobre esportes nos permitiu refletir acerca da formação das identidades sociais, bem como certas articulações e relações desportivas com outras temáticas relativas à política; produção social de jogadores e atletas, formas de sociabilidade; emoções; moralidades; redes sociais; cultura popular; violência; entre outras questões. Desta vez, temos a intenção de fortalecer a discussão em algumas rotas, especialmente as que se referem à relação entre o esporte e os políticos e a "política", os processos de construção do poder, redes de comércio, circulação de conhecimentos, atores e práticas, as relações entre os diferentes níveis de definição política. Um segundo eixo de discussão responde aos estudos do esporte e suas ligações com o mercado e a cobertura da mídia, respostas locais para as forças da globalização econômica, a tensão entre amadorismo e profissionalismo, o processo de seleção e formação de atletas, relações com o mercado, políticas e megaeventos esportivos. Acreditamos que, no ano dos Jogos Olímpicos 2016 estes eixos de reflexão se mostrarão produtivos.

Martin Christoph Curi Spörl (UERJ)
(Coordenador/a)
Matias Godio (Universidad Nacional de Tres de Febrero)
(Coordenador/a)
Tulio Augusto Velho Barreto de Araujo (Fundação Joaquim Nabuco)
(Debatedor/a)


"Sou o maior de todos!": Muhammad Ali, boxe e a construção de uma identidade étnica afro-descendente.

Autor/es: Daniel de Oliveira Baptista
Partindo da análise dos combates do pugilista norte-americano Muhammad Ali e da perspectiva que seus oponentes tinham do boxeador, a presente pesquisa procura investigar os diferentes discursos pelos quais uma identidade negra foi construída e ressignificada a partir da figura de Ali e da prática esportiva do boxe nos EUA nas décadas de 1960 e 1970. Para tanto, serão estudados fontes como documentários, biografias e autobiografias de boxeadores, reportagens e publicações de revistas esportivas referentes ao período dos eventos, e discursos de oradores e personalidades específicas da comunidade afroamericana. Observando-se alguns documentários oriundos de produtoras americanas, como os episódios biográficos da série Beyond The Glory, Sports Century e HBO sports, temos a construção da imagem de Muhammad Ali enquanto um “caluniador”, a partir dos ressalves dados pelas películas aos constantes comentários enérgicos de Ali contra seus oponentes. Em contrapartida, as produções biográficas que se detém apenas sobre a figura de Ali – sem maiores ressalvas em seus adversários –, apresentam sua vida através de seus posicionamentos políticos e momentos de ruptura, como sua recusa em lutar na guerra contra o Vietnã, sua conversão à religião do islã e a revogação de seu título de campeão mundial dos pesos pesados em fins da década de 1960. Esses últimos documentários foram produzidos, em sua maior parte, por produtoras canadenses e contribuem para outra construção representativa de Ali: a do herói negro. De herói a caluniador, as representações de Muhammad Ali através dos documentários variam de acordo com o país proveniente das produtoras das películas. Por que produtoras norte-americanas representam a figura de um boxeador negro, norte-americano, da década de 1960, de maneira tão distinta das produtoras canadenses? O que essas diferentes representações implicam nas narrativas que são construídas junto ao público telespectador? É por meio do questionamento dos motivos pelos quais as representações de um lutador variam de acordo com o país produtor dos documentários que a presente pesquisa busca fundamentar sua problemática e desenvolvimento. Objetiva-se, desse modo, a análise de eventos e tensões localizadas temporal e socialmente a partir de uma prática esportiva e a compreensão e investigação de como determinados fatores sociais contribuíram para estipular sentimentos de pertencimento de um grupo e a delimitação de suas fronteiras: religião, política e interação social.
Apresentação Oral em GT

Entre o público e o privado: reflexões sobre o discurso do legado através do emprego de forças públicas de segurança da Copa do Mundo FIFA 2014

Autor/es: Eduardo Araripe Pacheco de Souza
Este trabalho é uma proposta de reflexão sobre as repercussões e resultados da realização dos megaeventos esportivos realizados no Brasil nos dois últimos anos, a Copa das Confederações FIFA 2013 e a Copa do Mundo FIFA 2014, especificamente sobre aqueles que repercutem na prestação do serviço de segurança nos estádios de futebol/arenas, notadamente, na utilização de recursos públicos em eventos privados, policiais e bombeiros militares, em estádios de futebol. A publicação da Lei 12.663/12, Lei Geral da Copa, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, em 05 de junho de 2012, para além das polêmicas produzidas em torno das garantias oferecidas pela União à Federação Internacional de Futebol Associados (FIFA), entidade promotora dos megaeventos esportivos realizados recentemente no Brasil, trouxe várias expectativas e interrogações sobre o emprego das forças públicas de segurança nos citados eventos e, principalmente, as repercussões no modelo de emprego dessas instituições no período pós-eventos. Este modelo, integrado e consubstanciado na responsabilidade compartilhada entre poder público e privado (FIFA), entretanto, ficou restrito a "era dos megaeventos", e passada a Copa do Mundo de 2014, as prevenções realizadas nos estádios locais voltaram a ter as mesmas características anteriores, com as mesmas precariedades estruturais e organizativas, descumprimentos das legislações por parte dos organizadores do futebol e, com a mesma tentativa de transferência de responsabilidades para o poder público, excetuando-se as prevenções realizadas em algumas arenas brasileiras, onde se percebe uma maior participação e atuação da iniciativa privada na gestão da segurança, mesmo sem alcançar o modelo vivenciado durante os megaeventos. Reflete-se, portanto, sobre as exigências dos instrumentos legais que regulam a realização de jogos de futebol, em estádios nacionais e locais, e, ainda, de que maneira a promulgação da Lei Geral da Copa repercutiu no modus operandi do fazer prevenções em estádios e arenas multiuso, o chamado "legado pós Copa".
Apresentação Oral em GT

Uma sociologia do óbvio – o futebol, a comunidade (nacional ou clubística) e a dádiva

Autor/es: Eduardo Fernandes Nazareth
O resultado esportivo da seleção brasileira de futebol na última Copa do Mundo realizada no Brasil decepcionou sobremaneira imprensa e torcedores. Dado o peso simbólico da tradicional competição e o apelo emocional que desperta, a derrota por 7x1 para a Alemanha levantou uma grande interrogação sobre a importância de nosso futebol hoje. Toda a estrutura de administração do esporte do país entrou na berlinda. Muitos atribuíram o alegado fracasso à incapacidade dos gestores do futebol brasileiro (tanto da confederação nacional quanto dos clubes) de sustentarem projetos esportivos sintonizados com a evolução do esporte. O tema suscitou toda uma discussão acerca da tradição personalista, coronelista e antidemocrática que se manteve intacta mesmo diante das forças de modernização do esporte, entendidas sobretudo a partir da introdução da lógica de mercado em seu meio. Não pretendemos aqui explicar as razões de nossos descaminhos futebolísticos. Consideramos importante nesse trabalho avançar na direção de compreender a atuação da força moral e afetiva de fundo entre torcedores, dirigentes e jogadores que se traduzem nas pressões sociais para que os mecanismos institucionais ou as práticas tradicionais de nosso futebol se movam mais ou menos intensamente. Entende-se aqui que as energias mobilizadas por torcida, jogadores e dirigentes, acumulando-se e repercutindo, amplificada pela imprensa e redes sociais, constitui a ambiência do mundo esportivo. Compreender a que lógica respondem contribui para definir um dos planos mais fundamentais dos eventos no mundo esportivo do futebol profissional apreciado por uma massa de interessados. Para compreender como se organiza esse complexo de relações, propõe-se aqui conceber essa ordem de fenômenos sociais como principalmente morais e simbólicos que, além de apresentar uma face meramente esportiva, envolve múltiplas dimensões – emocional, econômica, política, jurídica... – que podem ser muito bem exploradas como aspectos de um mesmo fenômeno total a partir da concepção da dádiva e das relações de reciprocidade que elas implicam. Propõe-se entender essas relações, portanto, a partir de uma lógica de troca simbólica, que envolve o pedir ou o exigir, o dar, o receber, o disponibilizar e o retribuir, em nome da grandeza das entidades coletivas (clubes ou seleções nacionais) com as quais se identificam as comunidades de que são parte. A lógica da dádiva ordena a distribuição de força moral, do prestígio e até de recursos econômicos. Poder-se-ia dizer que essa lógica vigora a despeito da força do frio interesse do mercado; às vezes aproveitando-se, às vezes chocando-se com ela.
Apresentação Oral em GT

Os craques da bola e o mundo dos bens: futebol e consumo na imagem pública de Leônidas da Silva

Autor/es: Everardo Pereira Guimarães Rocha, William Corbo (Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio)
Este trabalho analisa o lugar ocupado por Leônidas da Silva no mercado publicitário nas décadas de 1930 e 1940, auge de sua carreira como jogador de futebol. Vamos investigar as formas pelas quais, naquele contexto, o consumo e a narrativa publicitária se apropriaram do futebol para expandir hábitos de compra e, no mesmo movimento, aumentar a popularidade e a capacidade de mobilização social do esporte. Leônidas, um dos grandes jogadores da história do futebol brasileiro, era uma importante celebridade da época, presença recorrente em reportagens, entrevistas e fotos que iam muito além dos limites da imprensa esportiva. Seus hábitos, sua origem humilde, eventos de sua carreira, polêmicas nas quais se envolvia, jogadas e gols magistrais eram estampados nas páginas de jornais e revistas e transmitidos pelas ondas do rádio. Como é próprio das celebridades, Leônidas da Silva inaugurou lojas, estrelou anúncios, se tornou garoto-propaganda de algumas marcas e emprestou seu nome para produtos de sucesso - como o Cigarro Leônidas e o chocolate Diamante Negro. A construção de sua figura midiática revela muito sobre as representações das primeiras celebridades do esporte no Brasil e, ainda mais, apresenta um modelo de articulação entre futebol e consumo que, gestado naquele tempo, segue permeando o imaginário contemporâneo. Vamos, portanto, analisar como, na primeira metade do século XX, esporte e consumo intensificaram suas relações através da apropriação de grandes jogadores pela publicidade, em um processo de transformação dos craques do “universo do futebol” nas estrelas do “mundo dos bens”. O caso de Leônidas da Silva é emblemático. Sua fama, prestígio, idolatria e heroísmo, incisiva e constantemente expressos na mídia, são uma chave para entender essa experiência de construção de celebridades capazes de mobilizar multidões e, nesse processo, vender os mais diversos produtos e serviços.
Apresentação Oral em GT

As emoções dos torcedores no Novo Maracanã

Autor/es: Fábio Daniel da Silva Rios
Neste trabalho, apresento os pontos centrais de minha pesquisa de doutorado, e alguns resultados parciais obtidos durante a investigação, que foi iniciada em 2014 e se encontra em andamento. Nesta pesquisa, venho abordando o impacto da reforma realizada no Estádio Jornalista Mario Filho – o Maracanã –, entre os anos de 2010 e 2013, sobre o comportamento e as emoções dos torcedores. A reforma em questão teve como objetivo a adequação do velho estádio aos rígidos padrões de conforto e segurança exigidos pela FIFA e pelo COI para a realização dos dois principais megaeventos do calendário esportivo mundial: a copa do mundo de futebol masculino, sediada pelo Brasil em 2014, e os jogos olímpicos de verão, sediados pela cidade do Rio de Janeiro em 2016. Essa reforma também promoveu a adaptação do Maracanã a um novo modelo de estádio, que surgiu na Inglaterra, na década de 1990, e foi incorporado pela FIFA, tornando-se um paradigma internacional na década de 2000. O novo modelo consiste na transformação dos antigos estádios de massa em modernas arenas all-seater multiuso, visando oferecer melhores condições de conforto e segurança aos torcedores. Contudo, nesse movimento, não foi somente a arquitetura dos estádios que mudou. Também foram modificadas as normas de conduta exigidas dos torcedores – as quais se tornaram mais rígidas – e, sobretudo, o próprio perfil do público presente nos estádios: antes composto, em sua maioria, por homens das classes trabalhadoras, agora ele seria constituído majoritariamente por famílias de classe média. Em conseqüência desse processo de arenização, os estádios teriam se transformado em espaços elitizados de consumo e de controle, perdendo as características que lhes haviam consagrado historicamente como redutos da cultura popular. Em última instância, eles teriam perdido sua antiga atmosfera, tornando-se mais frios, ou menos emocionantes. Algo semelhante teria ocorrido ao Maracanã, em virtude da reforma para a copa e as olimpíadas. Em minha pesquisa, venho analisando justamente o alcance desse processo e suas conseqüências sobre o comportamento e as emoções dos torcedores cariocas. Para tanto, realizei trabalho de campo em jogos do Flamengo disputados no Maracanã, e entrevistas qualitativas com torcedores do clube. Minha hipótese é de que, embora possamos, de fato, identificar um projeto de transformação do Maracanã num espaço elitizado e disciplinarizado, esse processo não se dá sem conflitos, enfrentando a resistência de alguns grupos de torcedores. Assim, o que temos no Novo Maracanã é o embate entre diferentes formas de torcer, numa disputa em que as emoções aparecem como um elemento central, tendo em vista sua importância para a constituição de identidades e subjetividades nesse universo simbólico.
Apresentação Oral em GT

Do Estádio do Pacaembu para a Arena Corinthians: apontamentos sobre um período de mudanças

Autor/es: Gabriel Moreira Monteiro Bocchi
Nesta comunicação apresentarei algumas considerações de minha pesquisa de mestrado intitulada “etnografia da perspectiva torcedora sobre a troca de estádios pelo Sport Club Corinthians Paulista”, realizada no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP. Nela acompanhei torcedores corintianos ao longo do ano de 2014, período em que a equipe de futebol profissional do clube deixou de disputar as partidas sob seu mando no Estádio do Pacaembu, zona oeste da cidade de São Paulo, e passou a disputa-las na Arena Corinthians, zona leste. A Arena Corinthians foi construída entre os anos de 2011 e 14, no contexto de atualização das praças esportivas brasileiras para a realização de partidas da Copa do Mundo de 2014. Localizada no bairro de Itaquera seria tanto a sede paulista no Mundial da FIFA quanto incorporada ao patrimônio físico e simbólico corintiano, encerrando a carência do clube, imputada pelos rivais ao longo de décadas, de possuir uma praça esportiva de grandes proporções. Trata-se, portanto, de um equipamento com múltiplas significações, me interessando aqui a arena enquanto novo espaço simbólico do corintianismo, sem ignorar, evidentemente, sua relação com o megaevento de 2014. Da interlocução com torcedores do Corinthians em idas a campo, realizadas nos “últimos jogos” do time no Estádio do Pacaembu e nos “primeiros jogos” na Arena Corinthians, é possível pensar uma série de transformações nos modos de fruição dos jogos e na relação de torcedores com o futebol. As mudanças físicas e estruturais propostas pelo “Padrão FIFA”, como a proximidade entre torcedores e campo de jogo e cadeiras em todos os setores, marcam diferenças entre as praças esportivas. Elas são acompanhadas por outras alterações na concepção do futebol espetacularizado, em que os ingressos para setores populares passam por significativos aumentos no preço e decréscimo na oferta, em que a compra do ingresso é subsumida ao pagamento do “sócio torcedor”, em que os espaços para a venda de produtos oficiais do clube se mesclam aos espaços para torcer, notadamente ampliando e reforçando as atuações dos torcedores enquanto consumidores. Concomitante a tais mudanças outras tantas ocorreram em relação à socialidade e a citadinidade dos torcedores, a considerar que a região da cidade a ser frequentada também mudou: novos trajetos e locais para encontros são traçados pela cidade, sendo a etnografia composta, em grande parte, pelos desafios da circulação pela metrópole. Em um plano perpendicular, por fim, apresentarei brevemente etapas metodológicas da pesquisa em que as transformações vivenciadas pelos sujeitos nos objetos da pesquisa mobilizaram mudanças e rearranjos na própria pesquisa.
Apresentação Oral em GT

Palavra gasta, "cultura" e invenção da cultura: relatos de uma experiência etnográfica nos/dos jogos indígenas mundiais

Autor/es: Luciana de Oliveira
O artigo parte, por um lado, da experiência etnográfica de participação I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMPI), que aconteceram de 23 de outubro a 1 de novembro de 2015 em Palmas (TO). Tal experiência envolveu tanto a observação participante nos jogos e nas rotinas da arena e da feira indígena armadas no complexo construído para o megaevento, quanto a coleta de materialidades midiáticas (panfletos publicitários, capas de jornais locais, site institucional e cobertura jornalística local e nacional) e a realização de entrevistas com alguns integrantes do grupo de comunicadores indígenas que trabalhou na cobertura do evento. Por outro lado, parte de uma reflexão que sublinha a invisibilidade de questões indígenas (não necessariamente de falas sobre os indígenas) nos espaços públicos brasileiros, reafirmando relações ontológicas que envolvem a história de contato oportunizada pela colonização e seus corolários. Atualmente, permanece a colonização do olhar para tais questões, embora, à força de movimentos político-culturais de resistência indígena, algumas rupturas se ensaiam e fazem sobre(vi)(ver) formas-de-vida contemporâneas e pretéritas, evidenciando a centralidade dos povos indígenas na geração de um protagonismo político e, por que não, desportivo. No texto, o gesto metodológico é o de colocar as experiências do discurso oficial e midiático bem como à lógica de consumo do corpo e dos objetos indígenas e uma proximidade a eles performada para câmeras fotográficas, filmadoras e celulares - máquinas de apagamento e silenciamento acionadas sob os holofotes da arena olímpica - ao lado dos esforços tanto de negação dos jogos (como é o caso dos Kaiowa do Conselho Aty Guasu) quanto de invenção da cultura, de diálogo interétnico com base na "cultura" e de indigenização das imagens e dos jogos como formas de existir de um outro modo criados pelos indígenas participantes. Os jogos, portanto, também fazem (sobre)viver para si e para os outros a cultura e a “cultura”, pois permeiam essas relações a “cultura”, com aspas, tal como a define Carneiro da Cunha (2009) num jogo recíproco de objetificações que de algum modo possa garantir o diálogo intercultural, ainda que este seja sempre permeado de equivocos (VIVEIROS DE CASTRO, 2004; 2005; 2008). Podem, desse modo, tanto significar tentativas performáticas de captura subjetiva quanto a possibilidade de invenção da cultura e de políticas de subjetivação ou tecnologias de si que fazem dobrar, à luz de outra intensidade, o jogo (como forma de competição) e o jogo (como forma política de disputa).
Apresentação Oral em GT

"Um Pelé Louro": a trajetória de João Havelange, os empresários e o mecenato da Copa do Mundo de 1970 à luz da antropologia econômica

Autor/es: Luiz Guilherme Burlamaqui
A Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 1970 é celebrada como uma das mais virtuosas da história do futebol. Como já escreveram Antônio Soares e Marco Salvador, a percepção de que o futebol arte afigura-se como um corolário natural do talento à brasileira, o longo trabalho de preparação técnico e físico da Copa do Mundo de 1970 foi silenciado pelas narrativas elaboradas a posteriori. A preparação física, estimada em dois milhões de dólares, entretanto, apenas foi possível graças à atuação de um conjunto de empresários. Embora noticiado na grande imprensa, o fato foi igualmente silenciado pelos historiadores. Na tradição historiográfica hegemônica produzida no Brasil, a ditadura militar tem sido pensada como um fenômeno exclusivamente militar, e os civis que deram suporte ao regime foram marginalizados das narrativas históricas predominantes. Sob esse aspecto, a Seleção Brasileira não é apenas metonímia do futebol-arte, mas caso típico de instrumentalização política de uma equipe de futebol. Nesse paper, discutiremos o mecenato dos empresários da Copa do Mundo de 1970 à luz da antropologia econômica (sobretudo Viviana Zelizer e Marcel Mauss). Buscamos, assim, responder as seguintes questões: Quais as suas implicações? Como o mecenato uniu civis e militares? Quando investimento econômico tangencia o investimento simbólico, e de que forma a moral econômica entrecruza a narrativa política?
Palavras chave: dádiva; nacionalismo; dinheiro
Apresentação Oral em GT

Pão de Açúcar Esporte Clube: metamorfoses de um projeto social

Autor/es: Marina de Mattos Dantas
O Pão de Açúcar Esporte Clube (PAEC) foi um dos primeiros clubes-empresa a surgir no Brasil, assumindo a característica de entidade com fins lucrativos em suas práticas. Inaugurado em 2004 como projeto social do Grupo Pão de Açúcar (GPA) o clube tinha como objetivo formar “atletas para os gramados” e “cidadãos para a sociedade”, segundo a filosofia da própria empresa. Concomitantemente à formação/produção de jogadores para o mercado futebolístico, o clube buscou durante sua existência alcançar a elite do Campeonato Paulista, ascendendo, em sete anos, da série B à série A1. Desde 2014, o clube se mantem na primeira divisão, buscando também conquistar uma vaga em alguma série do Campeonato Brasileiro para inserir-se em um circuito mais amplo do futebol profissional. Porém, entre 2004 e 2014, o PAEC passou por modificações, sendo possível identificar ao menos quatro momentos ao longo de sua existência que indicam formas diferentes, porém complementares de se fazer futebol no Brasil: 1) O da formação das categorias de base do clube como projeto social no interior do que o GPA chama de “iniciativas de responsabilidade socioambiental e qualidade de vida”, funcionando como uma espécie de negócio social; 2) O da formação da equipe profissional e a alteração de nome para Audax Esporte Clube, mudando sua estratégia de captação de jogadores e apontando para uma postura diferente em relação ao mercado com a conquista de um público torcedor; 3) Em decorrência de mudanças no controle das ações do GPA, assumido pelo grupo francês Casino, o Audax foi vendido para Mário Teixeira – dono do Grêmio Esportivo Osasco. Naquele momento, o clube deixava de se caracterizar como um projeto social, ainda que continuasse investindo na chancela da “responsabilidade social” na formação do atleta. 4) O quarto momento se refere ao empréstimo dos jogadores e da comissão técnica do clube – agora Grêmio Osasco Audax Esporte Clube – para o Guaratinguetá Futebol Ltda, clube que participou com a equipe citada da Série C do Campeonato Brasileiro no ano de 2014. Após três anos de pesquisa percorrendo esses momentos – através do acompanhamento do clube em jogos, entrevista com jogadores e outros funcionários, e da análise de documentos publicados pelo clube –, foi possível levantar pistas sobre como, de projeto social, o PAEC gradualmente se instituiu como exemplo de formação de atletas e de gestão sustentável. Em tempos de consonância entre futebol e racionalidade neoliberal, o investindo em capital humano na formação de jogadores – capacitando-os para se gerirem e serem geridos no mercado como empresas – explicita faces do jogador que se constroem enquanto este circula no mercado profissional.
Apresentação Oral em GT

Jogando pela esquerda: a experiência da Copa Rebelde como crítica a Copa do Mundo da FIFA

Autor/es: Raphael Piva Favalli Favero
O presente trabalho tem como ponto de partida uma etnografia realizada nas quatro edições da Copa Rebelde dos Movimentos Sociais, torneio-evento organizado pelo Comitê Popular da Copa de São Paulo entre dezembro de 2013 e julho de 2014. A proposta do torneio era reunir diversos movimentos sociais da cidade e ocupar o espaço público com um evento que congregasse a prática futebolista, apresentações teatrais, músicas e debates, promovendo uma crítica ao modelo de Copa do Mundo da Fifa. Três edições da Copa Rebelde foram realizadas em um terreno que abrigava antigamente o Terminal Rodoviário da Luz, no centro da cidade de São Paulo e uma outra edição do evento ocorreu durante uma manifestação do Movimento Passe Livre na Marginal Pinheiros, segunda via expressa mais importante da cidade, no mesmo momento em que era disputada a partida entre Uruguai e Inglaterra, válida pela primeira fase da Copa do Mundo da Fifa. Em suas quatro edições, a Copa Rebelde reuniu uma multiplicidade de pessoas e grupos, entre moradores do entorno do terreno da Luz, ativistas, jornalistas e militantes ligados a diversas lutas sociais. Em consonância com as observações de Toledo (2014), de que a antiga critica que enxergava o futebol como "ópio do povo" parece ter se deslocado para a Fifa e de que esse esporte, no contexto de realização da Copa do Mundo, ganhou centralidade em diversas lutas sociais e permitiu o surgimento de criativas intervenções no espaço urbano, pretendo apresentar algumas questões que surgiram da observação e participação nesses eventos e que se relacionam as propostas desse Grupo de Trabalho. Uma delas foi a constante negociação sobre os valores que deveriam conduzir a prática esportiva na Copa Rebelde, encarada pelos organizadores do evento também como um momento de confrontação ao modelo de futebol representado pela Fifa. Dessa maneira, os jogos não tinham juízes, incentivava-se a formação de times "mistos", onde mulheres e homens jogariam juntos, e condenava-se o "excesso de competitividade" dos participantes. Ainda, a partir da trajetória de alguns dos idealizadores do evento, marcadas pela participação em eventos de caráter semelhante em outras localidades e na inserção em redes de ativismo transnacionais, seria possível problematizar o estatuto do local e do global na produção dessas criticas ao mega-evento da Fifa. Até que ponto esses arranjos, como a Copa Rebelde, podem ser entendidos somente como respostas locais as forças da globalização econômica? Esse recorte parece interessante por elucidar outra perspectiva e escala na circulação transnacional de conhecimento, atores, práticas e repertórios que não somente a conduzida pelo modelo Fifa.
Apresentação Oral em GT

“Fale conosco e não sobre nós”: dádiva e associativismo no contexto dos megaeventos e das políticas de prevenção da violência no Brasil através da criação da Associação Nacional das Torcidas Organizadas (ANATORG).

Autor/es: Rosana da Câmara Teixeira
O associativismo torcedor no Brasil ganhou novo impulso, feição e características com a criação da Associação Nacional das Torcidas Organizadas (ANATORG) em 2014. Sem dúvida, a atuação da Federação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro (FTORJ) exerceu um papel fundamental nesse processo engajando-se, desde 2008, no debate público acerca da legitimidade da participação de tais associações no espetáculo futebolístico. A modernização dos estádios, tendo em vista a realização dos megaeventos no Brasil (Copa do Mundo em 2014 e Olimpíadas em 2016), a legislação vigente caracterizada pelo controle, monitoramento e punição dos agrupamentos e a criminalização dos mesmos estão entre os fatores que estimularam a definição de uma agenda de reivindicações e o início da luta por direitos. A partir da mediação política exercida por lideranças de diferentes estados, tanto nas bases, junto aos torcedores, quanto nos espaços públicos, abertos especialmente, pelo Ministério do Esporte, se observa um esforço crescente de mobilização contra a elitização do futebol. Para serem reconhecidos como atores legítimos, nas discussões sobre políticas públicas de prevenção da violência no país, está em jogo, a capacidade das torcidas organizadas abstraírem as rivalidades, aliando-se em torno de interesses comuns. Nesse sentido, a ANATORG vem definindo estratégias de ação, dentre as quais, encontra-se a elaboração de projetos sociopedagógicos para redução dos conflitos, inspirando-se no Projeto Torcedor (Fanprojekt) desenvolvido na Alemanha a partir dos anos 80. Com base no pensamento de Marcel Mauss argumenta-se que as torcidas de futebol estão desafiadas na atualidade a substituir as trocas agonísticas e o ciclo de vinganças que têm pautado a sua história, pela aliança, pela dádiva, aprendendo a se opor sem se massacrar. Nesta apresentação pretende-se discutir as condições e fatores que tornaram possível a constituição de uma entidade nacional (ANATORG), assim como desafios e perspectivas que se desenham. A pesquisa tem como fundamentos metodológicos narrativas das lideranças envolvidas neste movimento coletivo, assim como, o acompanhamento e registro etnográfico das suas ações nas arenas públicas.
Apresentação Oral em GT