Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

Prêmio Heloísa Alberto Torres


 

1º Lugar
Alexandre Jorge de Medeiros Fernandes (UnB) / Orientadora: Kelly Cristiane da Silva (UnB)
“O periódico Seara no Timor Português (1949-1973): práticas de mediação e integração institucional pela imprensa católica”

Menção honrosa
Magda Luiza Mascarello (UFPR) / Orientadora: Sandra Jacqueline Stoll (UFPR)
“O TERRENO E O BARRACÃO Experiências e práticas políticas de catadores de materiais recicláveis em Curitiba/PR”


O periódico Seara no Timor Português (1949-1973): práticas de mediação e integração institucional pela imprensa católica

Autor/es: Alexandre Jorge de Medeiros Fernandes
Esse artigo é um esforço de imaginação histórico-etnográfica voltado à compreensão da ação missionária católica promovida pela Diocese de Díli no Timor Português. Tal esforço foi estimulado pela leitura dos números do periódico Seara, publicado entre 1949 e 1973 pela Diocese de Díli, além de outros documentos acessados em arquivos e bibliotecas de Lisboa. Inspirado nas análises de Clifford Geertz e Eric Wolf sobre o papel dos “mediadores” para a produção de conexões sociológicas entre escalas globais e locais, argumento que uma das principais ações da Diocese de Díli consistia em harmonizar as ações dos missionários em Timor com as diretivas vindas do Vaticano e do Estado Português, atuando como uma mediadora que transmitia (e subvertia) os projetos globais da Igreja Católica. A produção e distribuição de Seara era uma das práticas pelas quais a mediação se realizava. A partir de uma perspectiva diacrônica sobre tais práticas, discuto transformações nos projetos da Santa Sé no Timor Português assim como nas versões que a própria Diocese de Díli dava a essas instruções.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Cercamentos Ambientais: Modos de uso dos recursos e conflitos socioambientais no estado do Paraná

Autor/es: Ana Carolina Rocha
A criação e implementação de reservas de proteção ambiental têm gerado conflitos sociais em diversos locais. Este trabalho discute a emergência destes na comunidade rural de Batuva, litoral do Paraná, em decorrência da criação e implementação da Área de Preservação Ambiental (APA) de Guaraqueçaba e da legislação subsequente, que proibiu acesso a recursos florestais que tradicionalmente a comunidade explorava para sobrevivência. Assim, realizei estudos sobre formas de uso dos recursos, manejo da terra e modos de vida, demonstrando como seus moradores habitam Batuva, como vivenciaram e reagiram aos conflitos que se instauram a partir da APA. O estudo argumenta que a criação desta, congregada a uma rígida e proibitiva legislação ambiental, configurou-se em um cercamento ambiental, conceito que desenvolvo a partir de Thompson (1987, 1998), e sua discussão sobre os conflitos gerados pela instalação dos cercamentos (enclousure) na Inglaterra do século XVIII. Em Guaraqueçaba, os cercamentos ambientais se estabeleceram a partir da década de 1980, quando tem início o processo de criação e implementação de reservas de proteção na região e a rigorosa legislação ambiental. As áreas convertidas em reservas ficam sob a tutela e controle do estado, que passa a proibir, criminalizar e fiscalizar o uso e acesso às áreas, desencadeando conflitos com as populações, que sempre acessaram e fizeram uso dos recursos florestais para a manutenção de suas subsistências e práticas culturais.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Será mesmo o diabo? Expansão da dendeicultura e o campesinato na Amazônia paraense

Autor/es: Claudiane de Fátima Melo de Sousa
A partir de 2004, no contexto do Programa Nacional de Produção e Uso de Biocombustíveis (PNPB) a expansão do dendê na região nordeste paraense recebeu acelerado investimento. Neste contexto a agricultura familiar foi incentivada a plantar dendê para fornecer matéria prima às empresas produtoras de biodiesel, entre elas a Vale e a Petrobrás Biocombustíveis. Esta pesquisa consistiu na interpretação dos impactos da dendeicultura no modo de vida camponês daquelas famílias que estão atreladas a estes grandes empreendimentos, e se estes impactos têm levado estas famílias à proletarização ou se ao contrário, elas têm criado estratégias de reprodução da agricultura camponesa para resistirem às investidas do capitalismo e se manterem como sistema de reprodução social e econômica. A pesquisa averiguou que embora haja um esforço deliberado para a expropriação das famílias e sua completa subordinação, as famílias integradas têm mantido suas práticas culturais e lutado para manter-se em seus sistemas culturais específicos. A integração não vem se dando sem tensões e disputadas de poder. De um lado a empresa desrespeitando a lógica da produção camponesa e de outro, camponeses integrados lutando para manter seu modo de vida.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

“Cada doma é um livro”: A relação entre humanos e cavalos no pampa sul-rio-grandense

Autor/es: Daniel Vaz Lima
Neste texto apresento a dissertação de mestrado que consistiu numa etnografia sobre a relação entre humanos e animais no pampa sul-rio-grandense tendo como referência a interação estabelecida entre os domadores e os cavalos na doma. Essa relação constrói a própria técnica, as lides pastoris e o modo de vida. O domador é o artífice que possui a habilidade das técnicas de ensinar cavalos para atividades relacionadas aos trabalhos que envolvem a pecuária extensiva. É um saber/fazer constituído de diferentes momentos nos quais se acionam a utilização de determinados artefatos, estabelecendo uma interação em que o humano e o cavalo aprende formas de comunicação. Estes conjuntos de técnicas se classificam de acordo com a graduação da violência empreendida para domar o cavalo, embora, de acordo com os interlocutores, cada domador tem suas escolhas técnicas que são acionadas a partir da relação estabelecida com o cavalo. No processo é estabelecido uma interação em que o domador ensina o cavalo, e este, por sua vez, o ensina na habilidade da execução das técnicas, fazendo-o experienciar diferentes maneiras de praticar tal saber/fazer. O cavalo constitui-se como um agente que, conforme a sua personalidade, vai demandar o manejo de diferentes habilidades para ensiná-lo. O objetivo central desta pesquisa é contribuir às discussões antropológicas acerca das transformações que ocorrem na sociedade contemporânea – e também na área – acerca da relação entre humanos e não humanos.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

A Centralidade Das Crianças Calon: Notas Sobre a Infância Entre Os Ciganos Calon

Autor/es: Edilma do Nascimento J. Monteiro
Este trabalho objetiva apresentar a concepção de infância no grupo residente no Vale do Mamanguape, no litoral norte da Paraíba. Trata-se de um estudo de caso, realizado por meio de uma pesquisa etnográfica. A metodologia utilizada tem por base a etnografia, além de uma pesquisa bibliografia sobre antropologia da criança, etnicidade e grupos ciganos. Foi realizada uma observação participante nos moldes antropológico. Durante as incursões ao campo empírico foram aplicadas algumas técnicas da antropologia da criança (grupo focal e desenhos temáticos) e a técnica de entrevista com roteiro semiestruturado. A pesquisa permitiu conhecer a dinâmica vida cotidiana entre os Calon do Vale do Mamanguape. Sobretudo a pesquisa voltou-se para a concepção/vivência da infância entre os ciganos, ou seja, como são concebidos os processos sociais de crescer e se reconhecer Calon, em oposição ao mundo não cigano. Palavras-Chave: Infância, Crianças, Calon, Ciganos.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Tornando-se cacica: a emergência de mulheres lideranças políticas nas comunidades Guarani Mbya de Santa Catarina

Autor/es: Francine Pereira Rebelo
Este artigo tem como objetivo compreender quais os elementos permitiram que recentemente entre os Guarani Mbya emergissem lideranças políticas femininas, as chamadas cacicas. O estudo reflete sobre as implicações da atuação destas mulheres no cotidiano das comunidades nas quais estão inseridas, atentando principalmente ao contexto de lutas pela regulamentação de terras indígenas em Santa Catarina. A pesquisa foi feita através do acompanhamento de duas cacicas, Arminda Ribeiro (Para Poty) e Eunice Antunes (Kerexu Yxapyry), residentes respectivamente nas aldeias da Conquista (Jatay’ty), localizada em Balneário Barra do Sul, e do Morro dos Cavalos (Itaty), localizada em Palhoça, ambos municípios do litoral de Santa Catarina. Através das trajetórias, depoimentos e entrevistas com as cacicas e outros/as indígenas Guarani Mbya, foi possível traçar um perfil destas lideranças e elucidar quais fatores possibilitaram o aparecimento dessas figuras como representantes políticas.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

“Sou Criança Também”: Ser Criança e Ser Adulto no Canaã (MST – DF)

Autor/es: Gustavo Belisário d'Araújo Couto
Este trabalho é resultado da pesquisa para minha dissertação de mestrado no acampamento Canaã (MST - DF). Nesta pesquisa, Rosa, uma mulher de aproximadamente 35 anos, disse que era criança também e que queria participar das sessões de desenhos animados que eu realizava para as crianças. Argumento que no Canaã crianças e adultos não são concebidos enquanto ontologias totalmente distintas. Ser criança e ser adulto são fluxos que atravessam crianças e adultos. Esse compartilhamento de fluxos permite uma convivência entre crianças e adultos no trabalho, na ação política do movimento, nas brincadeiras e na vida da ocupação. Argumento que esta concepção em relação as crianças e os adultos e a sua convivência possuem consequências epistemológicas grandes que devem ser levadas a sério pela Antropologia. Uma destas consequências que levanto é da importância de uma reflexão sistematizada sobre as diferentes formas de ser adulto. A provocação de Rosa no acampamento do MST no Distrito Federal lança desafios epistêmicos não só para a Antropologia da Criança como para toda a Antropologia.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Paisagens do Nordeste: Almofala dos Tremembé e os Tremembé de Almofala

Autor/es: Janaína Ferreira Fernandes
Trata a presente pesquisa da análise de alguns mitos e narrativas orais que circulam entre os Tremembé do Ceará. Tais narrativas giram em torno de discursos sobre Almofala, lugar no qual os discursantes moram e que é por eles considerada a terra dos índios Tremembé. A partir desses relatos pretendeu-se relacionar as formas pelas quais as pessoas experienciam a terra que habitam e os modos com que essa terra foi sendo transformada em território indígena. Para tanto, foram utilizados os elementos areia e pedras, que fazem parte dos discursos Tremembé sobre a terra, de modo a tentar compreendê-los como composições espaciais que perfazem a relação histórica daquele povo com Almofala. Além do mais, as análises estão voltadas para a diferenciação da ideia de território como lugar de ocupação tradicional do espaço por povos indígenas e a de terra como elemento de uma relação simbiótica com pessoas, no sentido de ser uma ferramenta discursiva e retórica.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Emoções, documentos e subjetivação: produzindo transexualidades em João Pessoa/PB

Autor/es: Juliana Ribeiro Alexandre
Esta pesquisa tem como objetivo compreender de que forma os componentes afetivos envolvidos na relação de transexuais com os documentos constituem modos específicos através dos quais essas pessoas se reconhecem e constroem seus corpos, seus projetos de vida e sua relação com os outros. Elegemos como campo de pesquisa duas instituições localizadas na cidade de João Pessoa (PB): o Centro de Referência dos Direitos dos LGBT e Combate à Homofobia e o Ambulatório de Saúde de Travestis e Transexuais. Nesses espaços analisamos as experiências de nossos interlocutores com os documentos observando dois aspectos centrais: a busca pela alteração de prenome no registro civil e a relação com os documentos produzidos pelos serviços de saúde tais como os prontuários, as receitas e os laudos psiquiátricos. Percebemos que, embora haja divergências quanto a percepção que os nossos interlocutores têm sobre a documentação que instrumentaliza os serviços de saúde, todos relataram experimentar constrangimento nas situações de interação social quando tem quem fazer uso de uma documentação que não está coerente com a performance e “fachada social” que assumem. Vimos ainda que a argumentação do sofrimento e do trauma tem embasado os processos jurídicos e se convertem em “narrativas de dor”, que apresentam forte potencial micropolítico na demanda por direitos para as “pessoas trans”.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Bem-vindas à prisão! Uma análise antropológica sobre o processo de admissão em uma prisão e mulheres

Autor/es: Leonardo Alves dos Santos
Este texto é um dos resultados da dissertação de mestrado apresentada em março de 2015 sob o título "Emoção e Penalidade: Mulheres no Complexo Penal Dr. João Chaves". O estudo buscava responder, qual o papel das emoções no cotidiano de uma unidade penal feminina. A pesquisa, realizada entre 2013 e 2015, foi conduzida através de entrevistas, observação participante e conversas guiadas no pavilhão feminino do Complexo Penal Dr. João Chaves em Natal, Rio Grande do Norte. Este artigo apresenta parte dos resultados obtidos e sua proposta é analisar o processo pelo qual passam internas e agentes penitenciárias em seus primeiros dias na prisão. Para a realização deste objetivo analiso, a partir do trabalho de Erving Goffman sobre instituições totais, os relatos autobiográficos dessas mulheres e as regras responsáveis pela modelação do self e controle de si. Em seguida analiso, a partir dos conceitos de trabalho e labor emocional da socióloga Arlie Hochschild, o cotidiano da vida nas celas de convivência e da função prática de agente penitenciária. Por fim, apresento as conclusões da análise com foco na influência do controle institucional e da emoção no fim do processo de modelagem do self institucional dessas mulheres.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Em defesa da dignidade: política, emoções e moralidades nas petições iniciais de requalificação civil de pessoas transexuais

Autor/es: Lucas de Magalhães Freire
Este artigo é produto de uma pesquisa etnográfica empreendida ao longo de 2014 no Núcleo de Defesa da Diversidade Sexual e Direitos Homoafetivos (NUDIVERSIS) da Defensoria Pública do Rio de Janeiro e tem por objetivo apresentar uma análise das petições iniciais de requalificação civil produzidas no âmbito do núcleo. Busco abordar quais são os recursos argumentativos acionados para que os pedidos de alteração do registro civil de pessoas transexuais sejam julgados procedentes e como estes se fazem a partir de uma imbricação entre compromissos políticos, deveres morais e apelos emocionais. As alegações contidas nestes documentos seguem uma determinada linha: inicialmente, produz-se a condição de vulnerabilidade dos sujeitos, que são descritos como vítimas de experiências constantes de discriminação e violência, gerando, assim, incessante sofrimento; o sofrimento deve ser amenizado pela efetivação daquilo que é concebido enquanto “seus direitos”, os quais, supostamente, garantiriam o pleno exercício da cidadania e a dignidade. A leitura das petições revela que diversas estratégias são postas em prática pelas operadoras do Direito. O “Princípio da Dignidade da Pessoa Humana” funciona como uma espécie de fio condutor da argumentação e se desdobra em apelos e considerações de cunho moral que extrapolam as justificativas baseadas no conjunto de códigos, doutrinas etc. que compreendem o panorama normativo positivado do Direito e suas interpretações consagradas.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Formas De Socializaçõ dos Indígenas Xavante com Deficiência na aldeia NAMUNKURÁ

Autor/es: Luciana Moura de Carvalho
Este estudo constitui uma análise pormenorizada de como vive o indígena com deficiência suas dificuldades, possibilidades e acessibilidades. Avaliando-se desde o nível de socialização do indígena com deficiência junto a comunidade e sua aceitação nos diversos espaços da aldeia na vida da comunidade no dia a dia de forma geral, as produções recentes legais que se voltam para a socialização deles de forma mais efetiva na comunidade. Considerações são realizadas a cerca da visão que a comunidade faz sobre o aspecto em questão o tais como: O que são estes deficientes, o que pensam sobre eles, o que julgam necessário para socialização do deficiente: na comunidade, na escola, na vida cotidiana, nos rituais, nas brincadeiras. O deficiente visto em sua singularidade, o entendimento de pessoa humana para o Xavante. A interpretação nativa de que a “deficiência” teria surgido junto com o contato com o homem branco também é um forte indicativo sobre a indigenização Xavante da deficiência. O meio de pesquisa empregado neste trabalho foi o bibliográfico e o presencial trabalho de campo, limitando-se esse último a visita in loco a aldeia Namunkurá, e o acesso a sites disponíveis na WEB, atentando as suas limitações.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

O TERRENO E O BARRACÃO Experiências e práticas políticas de catadores de materiais recicláveis em Curitiba – PR

Autor/es: Magda Luiza Mascarello
Nos últimos anos os catadores de materiais recicláveis passaram a apresentar-se como um segmento ocupacional que demanda ser reconhecido e valorizado pelas políticas públicas, mobilizando demandas que acionam diversos atores e organizações sociais e estabelecendo-se paulatinamente enquanto sujeitos de direito. Nesse processo, eles vêm buscando uma redefinição da categoria, transformando-se de pessoas que vivem do lixo em trabalhadores urbanos que coletam materiais recicláveis. Por meio de pesquisa etnográfica realizada junto à Associação de Catadores Mutirão, em Curitiba – PR, este estudo traz uma reflexão sobre as experiências e práticas políticas dos trabalhadores desta organização e, por meio das singularidades de seu modo de vida, busca apreender suas experiências políticas. A partir da reconstituição da trajetória do Mutirão e no movimento vivido por seus protagonistas, pode-se perceber que ao mesmo tempo em que os catadores catam materiais recicláveis também recolhem e tecem relações e conexões que modulam suas práticas e estratégias políticas.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Poéticas de gênero e a transexualidade das fotografias bordadas

Autor/es: Marcela Roberta Guimarães Vasco
Neste artigo, são exploradas algumas das principais contribuições da pesquisa “Imagens Trans: as relações de transexuais com suas fotografias de infância”, desenvolvida no âmbito do mestrado. Explorando dois campos de conhecimento aparentemente tão distintos - os estudos da transexualidade e a antropologia da imagem -, essa pesquisa propôs uma abordagem mais particular tanto da transexualidade quanto da imagem, explorando os possíveis encontros, contornos e emaranhados das linhas que as ligam.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Ser criança em uma comunidade moçambicana: dinâmicas de socialização e universos infantis a partir de uma experiência etnográfica

Autor/es: Marina Di Napoli Pastore
Nos últimos anos, estudos com a infância buscam compreender os modos de ser criança através do cotidiano e contextos específicos das culturas e sociedades as quais pertencem, colocando-a como protagonista de sua história e buscando a desuniversalização do termo infância. As crianças africanas, por sua vez, são postas como “fora do lugar” por não seguirem os padrões e normas das crianças europeias e norte-americanas. Através do diálogo com autores da antropologia da infância, sociologia e educação, algumas indagações foram formuladas, trazendo para a questão o que é o ser criança em uma comunidade moçambicana. O objetivo aqui é discutir sobre a criança moçambicana na antropologia e o uso da etnografia enquanto metodologia de estudos com crianças. A pesquisa de campo ocorreu no bairro da Matola A, em Moçambique, durante um período de 5 meses. As narrativas utilizadas trazem experiências, atividades e espaços de significação das crianças neste trabalho, como suas casas, bairro e escola. Considera-se o uso da fotografia enquanto recurso articulador na etnografia com crianças, além da necessidade de pesquisas que desconstruam os modos como as infâncias são pensadas de maneira universalizante, mas pautadas em espaços-tempos específicos e contextualizados. Palavras-chave: infância; antropologia; criança; narrativas; Moçambique
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Rinhas de Galos no Litoral Norte Paraibano: performances em um esporte interétnico

Autor/es: Rafael Leal Matos
Esse trabalho é uma etnografia sobre as performances envolvidas em brigas de galos realizadas no litoral norte do estado da Paraíba, Brasil – região caracterizada pelo contato interétnico histórico entre índios da etnia Potiguara e a população não indígena. Já que as rinhas ocorrem dentro e fora da área indígena, com índios e não índios, essa pesquisa se caracteriza como um exercício antropológico de compreensão de uma situação limite, que envolve clandestinidade e fronteira étnica. Como, então, se configura a interação entre índios e não índios num evento ritual masculino, ilegal, marcado pelo enfrentamento simbólico e que tem animais não humanos enquanto personagens centrais? Para responder essa questão, tomo a abordagem da “antropologia da performance” (Victor Turner e Richard Schechner) como filtro epistêmico e metodológico e analiso as rinhas com o intuito de compreender e descrever quais rotinas, cenários, personagens e conflitos estão implicados nessa prática. Tendo em vista que os nativos encaram a briga de galos como um esporte em que o galo é o atleta e os humanos são seus treinadores, apoio-me nesse trinômio (esporte, atleta e treinador) para interpretar as performances dos animais humanos e não humanos. Palavras-chave: Briga de Galos, Antropologia da Performance, Contato Interétnico.
Prêmio Heloísa Alberto Torres

Nós, os Outros e os Parentes: Política e Povos Indígenas no Contexto de Implantação da Hidrelétrica de Belo Monte

Autor/es: Roberta Aguiar Cerri Reis
Em meio às reuniões entre lideranças indígenas, representantes do governo federal e funcionários da empresa executora daquela que seria a maior hidrelétrica do Brasil – UHE Belo Monte, atualizava-se um movimento político contra formas pensadas como hegemônicas. Enquanto bordunas e flechas suspendiam-se diante dos olhares, documentos administrativos e termos técnicos se misturavam às duras falas políticas das lideranças indígenas. Ao participar daquelas reuniões, entendi que eventos institucionalizados podiam ser vistos como um cenário que permitia a ação e a atualização do movimento político dos indígenas da região do médio rio Xingu. Este trabalho é resultado de um estudo realizado a partir da análise de documentos burocráticos, entrevistas, conversas e, principalmente, pela minha participação observante como servidora pública e antropóloga no Ministério da Saúde (Secretaria Especial de Saúde Indígena - Sesai) em reuniões entre lideranças indígenas, agentes estatais e representantes de uma grande empresa privada - Norte Energia S.A. - durante os anos de 2011 e 2015. Esta etnografia me permitiu observar as possibilidades e os limites de participação indígena no contexto de implantação da hidrelétrica de Belo Monte, bem como seus desfechos no processo de articulação política dos povos indígenas localizados na bacia do médio rio Xingu.
Prêmio Heloísa Alberto Torres