Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT009. Antropologia das relações humano-animal

O campo das relações humano-animal, ou Animal Studies, teria emergido na década de 1970 em meio a movimentos de proteção animal que, não obstante, remontam ao século XIX. Na verdade, os animais participam das análises antropológicas há muito tempo. Algumas análises identificaram dois paradigmas correntes: um que pode ser chamado de materialista, em busca do animal “real”; e outro semiótico, pós-estruturalista ou simbólico, em busca de representações. Mais recentemente, a emergência de reflexões sobre o perspectivismo ameríndio realçou a centralidade dos animais em aspectos da vida religiosa e cosmológica de populações ameríndias, com um forte impacto nas conhecidas relações entre natureza e cultura. O presente Grupo de Trabalho pretende ser um espaço para reflexões teóricas e pesquisas empíricas acerca das relações entre animais humanos e não humanos, a partir de um viés antropológico. Serão aceitos trabalhos tanto sobre as percepções simbólicas quanto sobre relações concretas materiais entre ambos. Entre eles, destacam-se produções voltadas aos animais de estimação, de abate, de tração, animais da fauna silvestre brasileira ou estrangeira, caça, criações, rinhas, concursos, turismo, animais de laboratório; em meio urbano, rural ou entre populações ameríndias e mesmo fora do continente americano; relações cotidianas, científicas, religiosas, alimentares, ideológicas, morais, artísticas, legislação, políticas públicas, saúde, entre outras possibilidades.

Andréa Barbosa Osório Sarandy (UFF)
(Coordenador/a)
Flávio Leonel Abreu da Silveira (UFPA)
(Coordenador/a)


As “donas” dos crocodilos do rio Zambeze: Relatos de uma amizade socialmente indesejada

Autor/es: António Domingos Braço
As relaçoes que os humanos estabelecem com os não humanos são construídas segundo os contextos socioculturais e as representações coletivas imanadas a essas realidades particulares. Os simbolismos – expressos nas ideias que estão contidas nos contos, mitos, lendas e provérbios, nas falas e práticas cotidianas – imbricados na textura das identidades sociais das populações da etnia Sena, um grupo etno-linguístico de origem Bantu que habita no distrito de Marromeu, província de Sofala, em Moçambique, colocam as mulheres Sena como “donas” dos crocodilos (crocodylidae) do Delta do Zambeze. Isso, na tradução cotidiana, significa que elas têm o poder e o controle sobre o comportamento e as atitudes desses animais, podendo manipulá-los e ordená-los para fins de bruxaria, uma prática considerada antissocial e indesejada por essa sociedade. Esta comunicação, é um recorte de uma pesquisa em andamento e visa problematizar as questões pelas quais se estabelecem essas filiações traduzidas nesse “poder sobrenatural” que, culturalmente, é atribuído às mulheres e que se manifesta na capacidade que elas têm em dominar a natureza desses animais das águas doces, para fins pessoais. Os relatos foram obtidos a partir de um trabalho etnográfica realizado nessa região no período entre 2013 a 2015 e mostram como os discursos sociais criam esses laços – entre as mulheres e os crocodilos – e a cotidianidade a ratifica como realidade vivida.
Palavras chave: Mulher, crocodilo, Moçambique
Apresentação Oral em GT

Orquídeas versus Tartarugas Marinhas: narrando conflitos ocultos

Autor/es: Eliana Santos Junqueira Creado, Clara Crizio de Araujo Torres (1a autora) Eliana Santos Junqueira Creado (2a autora)
O presente artigo constitui um relato e análise de uma Audiência Pública ocorrida no município de Linhares (ES), na Universidade Aberta do Brasil (UAB), ao dia 29 de setembro de 2014, cujo tema em questão era a ampliação e modificação de uma ARIE (Área de Relevante Interesse Ecológico), localizada na vila do Degredo. A análise está focada nas performances e ações individuais (humanas) surgidas nas falas coletivas ao longo do episódio do evento, mais especificamente, as ações de agentes relacionados à conservação ambiental e agentes cuja atuação basear-se-ia em conhecimentos tecnocientíficos. Será abordado o movimento de agências não-humanas circunscritas nos conflitos desenrolados ao longo do evento e para além dele, explicando a conjuntura que conformou o antagonismo dos que estavam presentes na audiência, de um lado, os agentes preocupados com a defesa dos interesses de tartarugas marinhas (sobretudo a tartaruga de couro ou gigante), contrários à supressão de área ao sul da ARIE, e, de outro lado, os que argumentavam que a maior justificativa para a alteração era a proteção de orquídeas (o Jardim das Guttatas). No pano de fundo do debate, estava no entanto a construção de um porto, cuja presença foi obliterada pelos defensores da modificação da ARIE, e trazida à tona na fala de seus oponentes, a todo momento.
Apresentação Oral em GT

“ANIMAIS SÃO AMIGOS, NÃO COMIDA”: Reflexões acerca do grupo de vegetarianos e veganos em Goiânia.

Autor/es: Fabíola Ribeiro Duarte
Este trabalho é resultado de reflexões da pesquisa de mestrado em andamento cuja proposta é conhecer os saberes, valores e crenças do grupo "Vegetarianos de Goiânia". Os "Vegetarianos de Goiânia" é composto por integrantes vegetarianos e veganos que se conhecem por meio virtual através das redes sociais e posteriormente passam a se encontrar pessoalmente em reuniões mensais chamadas Veganic, onde compartilham alimentação vegana e discutem a respeito de arte, consumo, filosofia e proteção aos animais. Os Veganic’s acontecem na cidade de Goiânia por diversos locais, em parques públicos, casa de algum dos participantes ou até mesmo em restaurantes e lanchonetes que são direcionadas a este público. Embora haja um discurso dominante dos médicos e nutricionistas acerca de alimentação saudável com base em proteínas de origem animal o grupo se recusa a comer carne por motivos éticos. Uma diferenciação muito latente dentre esse grupo é do vegetariano e do vegano: vegetariano quando a pessoa retira a carne, de qualquer espécie, da sua alimentação; e vegano quando o indivíduo retira todos os produtos de origem animal de seu cotidiano. Na alimentação: carne, leite, ovos e mel. E no cotidiano geral: roupas feitas de couro animal, produtos que foram testados em animais. Animais são, em geral, utilizados como mercadorias em nossa sociedade ocidentalizada, seja para explorar o trabalho que eles podem desempenhar ou o produto final que podem fornecer. Esse viés econômico que transforma os animais não humanos em objetos de consumo é considerado parte da cultura, os Vegetarianos de Goiânia destoam dessa cultura dominante e criam uma comunidade abolicionista que deseja pôr fim aos usos de animais na sociedade e fazem críticas ao pensamento dualista natureza/cultura e animalidade/humanidade. Esse grupo exemplifica o novo paradigma ecológico que vem sendo trabalhado pela antropologia. São grupos que questionam a forma como os animais são tratados, e utilizam de percepção, sentimento e empatia para enquadrar os animais não humanos na esfera de agentes sociais.
Apresentação Oral em GT

Das associações entre bem-estar, animal e produção: o caso da carne bovina

Autor/es: Graciela Froehlich
A industrialização da pecuária tem suscitado fortes críticas aos métodos empregados na produção de carne ao redor do mundo. De acordo com a publicação “Pecuária Industrial: parte do problema da pobreza”, a industrialização da pecuária caracteriza-se pela “alta densidade de concentração de animais e/ou pelo confinamento, pelas taxas de crescimento forçado, alta mecanização e baixos níveis de emprego” (WSPA, 2005: 13). As consequências desse modelo produtivo afetam o bem-estar tanto dos animais quanto dos humanos, e é crescente a associação da atividade pecuária ao agravamento da crise climática. A poluição do ar e da água, a perda ou redução da biodiversidade, a erosão, o desmatamento, a emissão de gases de efeito estufa são algumas das consequências associadas à pecuária, as quais perpassam toda a cadeia produtiva, desde as fazendas, até os supermercados. A cadeia produtiva da carne, em resposta às críticas colocadas por movimentos ambientalistas e de defesa dos direitos dos animais, tratou de incorporar mecanismos de mitigação em sua atividade produtiva por meio de certificações de origem e qualidade dos seus produtos (no caso aqui analisado, da carne bovina). Um objetivo de selos como esses é informar o consumidor de que as relações entre humanos e animais nas fazendas e abatedouros são positivas e respeitam as necessidades básicas do gado de corte. Tais certificações são o ponto de partida para as análises que desenvolvi em minha tese de doutorado e que apresentarei aqui de forma sintética. Na base dessas reflexões encontra-se a pesquisa de campo realizada em fazendas de criação de gado de corte possuidoras de certificações de boas práticas pecuárias. Manuais de bem-estar animal, livros, palestras e artigos científicos sobre o tema assim como publicações de divulgação de medidas de bem-estar animal também são fontes analisadas. A pergunta que orientou meus questionamentos no decorrer deste trabalho pode ser formulada da seguinte forma: o que um selo de bem-estar animal faz fazer? Ao longo deste artigo, pretendo demonstrar como a categoria de bem-estar animal é acionada e articulada por diferentes agentes nas fazendas de produção de gado de corte, no meio científico (o conceito de bem-estar animal utilizado pelas certificadoras é um conceito de base científica), de que forma é apropriada pelo mercado da carne bovina e pelos discursos em defesa dos direitos dos animais e do meio ambiente. Inspirada em Latour (2012), preocupei-me com as diferenças produzidas pela categoria de bem-estar animal, quais os elementos que ela mobiliza ao transitar entre debates científicos, de militância ecológica, entre administradores de fazendas – ou empresas de pecuária – e seus trabalhadores.
Apresentação Oral em GT

Afinidades vitais - humanos e animais na pesquisa científica

Autor/es: Iara Maria de Almeida Souza
Estudos acerca da interação entre humanos e animais em contexto de prática científica, em que estes últimos aparecem como componentes vivos do sistema experimental, usualmente estão voltados para a identificação do tipo de conhecimento obtido com o uso de modelos animais e com o processo através do qual o animal vivo é transformado em "animal analítico". Ainda que se reconheça que o trabalho com animais em pesquisa requer empatia dos humanos para lidar com eles, tal questão é bem pouco explorada e pouco se atenta para o vínculo necessário entre a atitude objetivante dirigida aos animais e outra que implica reconhecimento de sua subjetividade. Neste trabalho pretendo mostrar como se combinam na pesquisa com modelo animal, especificamente camundongos e ratos, dois modos de lidar com as semelhanças entre eles e os humano. o primeiro se caracteriza pela produção de uma equivalência, pautada na mensuração de aspectos específicos de processos biológicos comuns aos corpos humanos e animais. O segundo modo se fundamenta na existência de semelhanças em termos das capacidades físicas e afetivas entre entidades vivas capazes de trocas intersubjetivas. O argumento apresentado afirma que afinidades e mutualidade existem na prática científica e são elementos fundamentais para a pesquisa experimental.
Apresentação Oral em GT

Cachorros que atacam criação: reflexões éticas sobre a mobilidade e a vida social dos animais em ambientes rurais

Autor/es: Jorge Luan Rodrigues Teixeira, Dibe Salua Ayoub
Neste trabalho, discutimos as dimensões éticas de conflitos envolvendo cachorros no Sertão dos Inhamuns (CE) e no interior do município de Pinhão (PR). Nessas localidades, além de serem considerados animais de estimação, os cachorros auxiliam no cuidado da casa, na lida com os animais de criação e em atividades de caça. Identificados com seus donos e com as terras em que vivem, os cachorros transitam através de cercas e estradas e têm um papel crucial na constituição e na negociação cotidianas dos espaços rurais: a mobilidade animal produz relações, enseja narrativas e abre margem para outros movimentos. Tais deslocamentos, contudo, podem motivar conflitos agudos quando os cachorros atacam os animais de criação de seus donos ou, pior, de outras pessoas. Assim sendo, a vida social dos cachorros nas localidades onde realizamos nossas pesquisas vai além de sua relação com seus donos, adentrando e estremecendo a boa convivência entre pessoas que habitam uma mesma vizinhança. Tanto nos Inhamuns quanto em Pinhão, os cães que atacam bovinos, caprinos, ovinos e suínos são relegados à morte, ora produzida por seus próprios donos, ora por aqueles que sofreram os danos causados pelos cachorros alheios. Embora a morte dos cães seja convencionada como a solução para os transtornos realizados por eles, essas situações de ataque da criação e de perseguição aos cachorros são carregadas de reflexões éticas sobre seus modos de ser, sua relação com os outros bichos, com os humanos, e sobre as relações entre moradores que vivem perto uns dos outros. Esses momentos de tensão permitem-nos vislumbrar não só que cães e pessoas constituem-se mutuamente, e produzem as reputações uns dos outros, mas também uma socialidade que leva em conta as ações dos bichos, os quais participam das relações de vizinhança entre pessoas. Levando isso em consideração, refletimos sobre como nossos interlocutores lidam com os cachorros que atacam e matam criação e como ao observarem os deslocamentos e ações dos cães e agirem sobre eles as pessoas também estão cuidando do convívio umas com as outras. Ao pensarmos, a partir desses conflitos, sobre a ambiguidade moral dos cachorros nos Inhamuns e em Pinhão, entendemos a ética e a moralidade não como um conjunto de normas ao qual os comportamentos humanos e animais deveriam, necessariamente, obedecer e tampouco como um "domínio social" exterior às ações cotidianas, mas como uma forma de reflexão e de julgamento imanentes àquelas ações e à vida ordinária. Se tais animais, mais do que "domésticos", têm uma face pública (em que eles surgem como extensões dos seus donos e casas), parece-nos que as suas ações, assim como as dos humanos, são eticamente percebidas e avaliadas.
Apresentação Oral em GT

Animais Veganos: dilemas da alimentação eticamente orientada imposta animais de estimação

Autor/es: Juliana Abonizio, Eveline Teixeira Baptistella
Atualmente, assistimos a inserção crescente de animais na esfera moral, tanto em razão de descobertas científicas, provenientes, por exemplo, da etologia cognitiva, quanto por meio da emergência de novas sensibilidades que se manifestam no crescimento de movimentos sociais que atuam na causa animal e nas propostas de leis que visam proteger animais e coibir maus tratos, como a proibição de animais em circo, de criação de animais para extração de pele usada como vestuário, dentre outras iniciativas. Neste contexto, destacamos o veganismo em sua vertente autointitulada abolicionista. Diferente de outros movimentos, como os protecionistas e bem estaristas - que são criticados por não romperem com a dominação especista - os veganos abolicionistas defendem a libertação de todos os animais da subjugação humana e, em termos práticos, boicotam o consumo de produtos que tenham ingredientes animais ou produtos cuja produção tenha causado qualquer tipo de sofrimento animal. Tais militantes adotam uma dieta livre de carne, mas enfrentam um dilema ético ao alimentar outros animais, que, pela situação de domesticação em que se encontram, dependem do ser humano para a sobrevivência, uma vez que cães e gatos são consumidores de carne e as rações destinadas a esses animais são produzidas com alimentos cárneos. Diante disso, há um dilema entre não se alimentar de carne e comprar carne para outros animais, em espécie ou em forma de ração, ou impor uma dieta vegana a outros animais, obrigando-os a uma conduta moral que foge a sua capacidade de escolha. As soluções para esses dilemas podem residir no mercado de onde vemos emergir rações vegetais para cães e gatos que aproveitam desse paradoxo, livram o dono da culpa e veiculam seu produto. Para compreender os entrelaçamentos entre as condutas morais e a alimentação de homens e animais no contexto do veganismo abolicionista e outros movimentos com os quais dialoga, recorremos à análise da publicidade de marcas de ração vegetal e, com uma etnografia dos espaços virtuais, coletamos centenas de debates sobre o tema que foram lidas a partir de referenciais da sociologia do cotidiano, antropologia da alimentação, estudos de consumo e etologia cognitiva. Os resultados obtidos apontam para uma remarcação da fronteira que separa e aproxima a animalidade da humanidade, ao inserir os animais na dimensão ética que caracteriza, para os humanos, o ato de comer, que transcende em muito a busca por nutrientes. Assim, a alimentação dos animais que era vista como um imperativo de sua natureza herbívora ou carnívora passa a ser inserida na dimensão cultural que caracteriza a alimentação humana e sujeita, por tanto, ao contexto em que se encontra.
Palavras chave: veganismo; pets; ração
Apresentação Oral em GT

"Bicho Mau": encontros com cobras peçonhentas em Urucuia, MG

Autor/es: Luzimar Paulo Pereira
Na zona rural de Urucuia, Minas Gerais, os relatos de encontros com as mais diversas espécies de cobras peçonhentas fazem parte das conversas cotidianas dos seus habitantes. Presentes nos mais variados contextos, as narrativas tratam das qualidades naturais, morais e sobrenaturais dos animais assim como dos riscos que representam para os seres humanos. Por outro lado, a partir dos relatos, os encontros também contribuem para construir ou destruir as reputações das pessoas. Nessa apresentação, pretende-se descrever e analisar tais narrativas com o intuito de apreender os modos pelos quais os habitantes das áreas rurais de Urucuia concebem suas relações com as cobras e as maneiras pelas quais os animais agenciam as interações entre os próprios seres humanos.
Apresentação Oral em GT

Entre Tatuquiras e Curupiras: a percepção dos processos de adoecimento a partir da relação entre animais e humanos na Resex Tapajós-Arapiuns/PA

Autor/es: Maria Lucia de Macedo Cardoso
A circulação de agentes causadores de doenças entre animais silvestres e seres humanos tem se expandido mundialmente, na medida que aumenta a pressão populacional nas fronteiras de ambientes naturais relativamente conservados e que diminui a biodiversidade, resultando em epidemias de difícil controle pelas organizações públicas de saúde. Com o objetivo de desenvolver estratégias de monitoramento da emergência de zoonoses e de implementar ações de intervenção na área de saúde e conservação da biodiversidade, o Programa Institucional Biodiversidade e Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz realiza pesquisa na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns no Pará. De caráter multidisciplinar, o estudo analisa, entre outros aspectos, a percepção da população ribeirinha e indígena dos processos de adoecimento a partir das relações entre animais e humanos. Em duas expedições de campo em 2015, foram aplicados questionários a cerca de 200 adultos e realizadas diversas entrevistas abertas, além de observação de campo em 17 comunidades da Reserva. Esse artigo é a primeira aproximação de análise dos dados coletados nessas expedições. Baseado na contextualização cultural, social e histórica da região, faz-se uma descrição dos tipos de doenças que essa população identifica e como percebe sua relação com os animais. Observam-se as explicações sobre os fatores envolvidos na transmissão: contato com os animais; agentes transmissores; atividades de caça, extrativismo, pesca e agricultura; alimentação; aspectos sobrenaturais e condições ambientais, entre outros. Esses dados são analisados considerando que a diversidade de conhecimento dessa população possui origem cultural variada – em que se destacam os saberes de origem ameríndia e de tradição ribeirinha, e os relacionados com informações transmitidas pela mídia e por agentes de educação e saúde. Tais conhecimentos se sobrepõem e interagem, compondo uma percepção “híbrida” da relação humanos-animais e doenças e, numa perspectiva mais ampla, da concepção de natureza e cultura. Dialoga-se, assim, com a literatura antropológica sobre as relações humanos-animais e sobre a concepção de saúde e doença na Amazônia, avançando sobre os aspectos de ordem social e cultural que devem consideradas ao trabalhar com o tema na região.
Apresentação Oral em GT

Entre “araganas” e iguarias: as cabritas na comunidade quilombola de Palmas, em Bagé/RS

Autor/es: Marília Floôr Kosby
Este estudo etnográfico apresenta uma primeira reflexão a respeito das implicações mútuas entre os humanos, as cabritas, as cangalhas, o mato e os chamados “campos de pedra” na construção e perpetuação, enquanto território negro, do quilombo de Palmas, localizado em um distrito rural homônimo, no município gaúcho de Bagé. A “criação” de rebanhos de cabritas é uma das poucas atividades pecuárias executáveis nas áreas de terreno com aclive, solo pedregoso e densa vegetação arbórea da região em questão. Os principais consumidores da produção de cabritas dessa região são as casas de religiões de matriz africana da região sul do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre, o que gera algumas controversas entre os produtores. Aqueles mais afinados com órgãos técnicos, como Embrapa e Emater, acreditam ser “um desperdício” que uma carne tão saudável seja destinada massivamente a rituais religiosos, podendo haver investimento na criação de um mercado de consumo da mesma como comoditie – o que contribui para que a comunidade quilombola se aproxime dos padrões de produtividade exigidos àqueles que buscam se beneficiar dos programas estatais de incentivo à produção rural e permanência no campo. Outras famílias da comunidade até criam as cabritas próximo de casa, com certo controle de sua reprodução e manejo regular, mas sem controlar com tanto afinco o jeito “aragano” desses animais se deslocarem pelo espaço, sem respeitar muito os aramados, as estradas, os limites impostos pelo mato e a propriedade. Neste caso, não há investimentos na construção de abrigos e a compra de alimentos específicos, pois “o mato sempre deu tudo” que é preciso para uma produção alta de cabritas saudáveis. No território abrangido pela comunidade quilombola de Palmas vivem 37 famílias, que fazem uso coletivo da área e dos recursos naturais. Assim, as cabritas são identificadas por seus donos pela cor da pelagem, ou discriminadas por marca ou sinal particular nas cangalhas (triângulo de madeira usado no pescoço dos animais para dificultar que eles atravessem cercas). Apesar das diferenças aparentemente polarizadoras, é fundamental ressaltar que ambos “criadores” realizam o manejo voltado para o consumo próprio e/ou do mercado religioso, ou seja, controlando mais ou menos o deslocamento dos rebanhos, contando com as providências do mato (alimento e abrigo), com a autonomia das cabritas na proteção contra predadores (ao contrário das ovelhas, elas conseguem defender os filhotes recém-nascidos dos zorros, ou cachorros do mato) e na prevenção de doenças (cabritas raramente pastam, preferindo comer folhas de árvores ou arbustos, o que evita contaminação por verminoses).
Apresentação Oral em GT

Os porcos como materialidade, metáfora e metonímia nas cirurgias experimentais para produção de um dispositivo de assistência circulatória

Autor/es: Marisol Marini
Em meio aos testes laboratoriais de validação de dispositivos de assistência circulatória chamados de “coração artificial”, a relação entre cientistas e porcos em cirurgias experimentais emergem de maneira contundente. Tais tecnologias estão sendo desenvolvidas em um laboratório localizado em um importante hospital especializado em cardiologia de São Paulo. Compreendidos no atual cenário associado às doenças cardiovasculares, os dispositivos de assistência circulatória são tecnologias projetadas para substituir ou auxiliar a função cardiovascular de pacientes que sofrem de falência cardíaca. O desenvolvimento de tais tecnologias se justifica pelo alto índice de mortes relacionadas às doenças cardiovasculares, consideradas uma das principais causas de morte no Estado de São Paulo, bem como no Brasil e em quase todo o mundo. Diante da escassez de órgãos, o “coração artificial” apresenta-se como uma alternativa para prolongar a vida de pacientes que aguardam na fila de espera por um transplante, provisória ou definitivamente. A cirurgia de implantação das tecnologias em porcos caracteriza-se como o teste in vivo, que é uma série de procedimentos precedida dos testes in vitro, nos quais o funcionamento e eficácia dos dispositivos são avaliadas. Respeitando acordos morais e legais que garantem direitos aos animais utilizados em pesquisa, tais testes são entendidos como fundamentais para a validação das tecnologias para que possam ser utilizados em humanos. Como um dos objetivos de tais experimentos é avaliar e definir parâmetros hemodinâmicos, além de avaliar o desempenho da bomba no modelo animal, é importante que o tamanho e a capacidade de fluxo sanguíneo sejam similares aos dos corações humanos. Por isso os porcos são os animais escolhidos para os testes. Nesse sentido, os porcos são entendidos como semelhantes, mas ao mesmo tempo distintos dos humanos. A relação instituída entre cientistas e porcos é da ordem metafórica e metonímica, pois por um lado há uma contiguidade entre humanos e porcos, ao mesmo tempo em que aquele animal representa ali toda a sua espécie; e também especista, ilustrando o antropocentrismo intrínseco à tais métodos científicos. Tornados objetos tanto quanto os instrumentos e materiais ali presentes, os porcos sacrificados são utilizados como meios de atingir validação científica à tecnologia desenvolvida. Porém emergem também como sujeitos, como a descrição dos procedimentos permite demonstrar. O objetivo, portanto, é descrever as práticas sociomateriais (Mol, 2002) por meio das quais tais tecnologias emergem, instituindo relações e o entrelaçamento entre humanos e não humanos, entre entidades tradicionalmente vistas como exclusivamente naturais ou sociais (Callon, 1986; Latour, 1994, 1997, 2004, 2012).
Apresentação Oral em GT

O frigorífico na aldeia: sobre o trabalho nas indústrias de carne para os Kaingang do Toldo Chimbangue

Autor/es: Míriam Rebeca Rodeguero Stefanuto
O presente trabalho dedica-se a investigar quais as implicações para os Kaingang do Toldo Chimbangue de sua recente inserção nas indústrias de produção de carne na região da cidade de Chapecó, Santa Catarina. O trabalho nos frigoríficos, que apresenta uma organização específica e que abate animais e produz carne em quantidades industriais, se contrapõe e se relaciona a diversas outras práticas e conhecimentos Kaingang. Este trabalho se debruça principalmente sobre os aspectos que dizem respeito aos animais, à alimentação a o trabalho. Grande parte dos moradores do Toldo Chimbangue se relaciona de alguma forma tanto do modo industrial de se abater animais e produzir carne quanto da caça e da criação, uma vez que a maioria da população já esteve ou continua empregada em algum frigorífico da região de Chapecó; muitos mantêm criações – normalmente de suínos e aves – nas proximidades de casa, e que a caça vem sendo retomada aos poucos acompanhando a recuperação das florestas. Assim, a partir da pesquisa etnográfica e da contraposição desses elementos, pretende-se ampliar o conhecimento a respeito das aldeias que passaram a fornecer trabalhadores indígenas para estes frigoríficos.
Apresentação Oral em GT

Armas, armadilhas e territorialidade: a caça e a pesca Baniwa vistas pela ótica da comunicação não-verbal

Autor/es: Thiago Lopes da Costa Oliveira
O presente trabalho enfocará as relações humano-artefatos-animais no Alto Rio Negro, a partir de uma etnografia dos Hohodeni, clã Baniwa que vive no rio Aiari, afluente do rio Içana – um dos formadores do rio Negro. O foco da apresentação serão as tecnologias de caça e pesca deste povo, tomando artefatos como armas e armadilhas, assim como as técnicas de localização, captura e abatimento de animais como objetos privilegiados de análise. De um lado, estes artefatos e conhecimentos técnicos serão descritos como objetificações do conhecimento territorial e etológico dos Baniwa; de outro, eles serão analisados a partir da noção de "comunicação não-verbal", cara ao arqueólogo e antropólogo Pierre Lemmonier. Neste último sentido, visa-se descrever, especialmente, aquilo que os humanos aprendem, e como aprendem, dos e com os animais que eles caçam e pescam. As dimensões analíticas a serem levadas em consideração serão a mitologia e as histórias de caçadores e pescadores, de um lado; e a fenomenologia da caça e da pesca de outro.
Apresentação Oral em GT

Biocativeiros, conservacionismo e defesa animal: mapeamento de conflitos a partir do caso Parque Dois Irmãos (Recife)

Autor/es: Ivo Raposo Gonçalves Cidreira Neto, Brunna de Andrade Lima Pontes Cavalcanti
Segundo o artigo 1° da Lei Federal nº 7173, de 14 de dezembro de 1983, configura-se como jardim zoológico qualquer coleção de animais silvestres mantidos vivos, em cativeiro ou em semiliberdade, expostos à visitação pública. Criados no século XIX, como locais de lazer e exposição de curiosidades, os zoológicos passaram por uma reformulação no século XX, passando a enfatizar outras funções além do entretenimento. Os pilares do biocativeiros modernos são: conservação de espécies; desenvolvimento e aperfeiçoamento profissional; pesquisa cientifica; educação ambiental e lazer (SANDERS & FEIJÓ, 2007). O novo modelo estabelece a biologia da conservação como foco, é o pressuposto que guia as denúncias de conservacionistas contra o Parque Estadual Dois Irmãos, situado na Região Metropolitana do Recife. A partir do ano de 2014, os questionamentos à instituição ganharam repercussão porque articularam as questões técnicas às denúncias de maus tratos, que tiveram repercussão entre defensores de animais e na imprensa. As polêmicas a respeito deste zoológico são representativas de disputas, ganhando relevância em outros estados brasileiros, contrapondo as formas tradicionais de gerir os zoológicos, as demandas conservacionistas e sua articulação tensa com os grupos de defesa animal. Neste trabalho, realizamos um mapeamento das concepções em disputa nesse caso, a partir de uma análise documental de materiais institucionais do Parque Dois Irmãos, matérias publicadas em jornais pernambucanos (Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio), relatório de vistoria do Ministério Público de Pernambuco (MP-PE) no zoológico e publicações do Movimento Por um Novo Parque Dois Irmãos – principal articulador das denúncias. Entre os anos de 2009 e 2011, as matérias publicadas na imprensa local versavam majoritariamente sobre a função de lazer do zoológico, destacando a chegada de novos animais e a programação voltada para crianças (NETO, CAVALCANTI & LIMA, 2014). Já em 2014, após a vistoria do MP-PE e a criação do Movimento, a morte de animais e às más condições dos recintos passaram a ganhar espaço na mídia corporativa e nas redes sociais. Paralelamente, porém, os próprios ativistas envolvidos nas denúncias envolvem-se em debates sobre a legitimidade da própria existência dos zoológicos. A rotina de um animal em cativeiro difere substancialmente do comportamento na vida livre. Portanto, confinar animais em um Zoológico exige dos profissionais envolvidos a percepção do ponto de vista do animal, voltada para o seu bem-estar. Esses acontecimentos midiáticos reforçam a ideia de que esta instituição permanece na concepção ultrapassada de zoológicos. A direção do Parque prioriza o entretenimento, deixando de lado os outros pilares que configuram o zoológico moderno.
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Voando baixo sobre os humanos: garças e urubus no Ver-o-Peso (PA)

Autor/es: Matheus Henrique Pereira da Silva, Raphael Santos Mercês
A proposta deste trabalho é a de investigar as relações interespecíficas de humanos e não-humanos, neste caso, comerciantes, turistas, transeuntes e os urubus-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) e garças-brancas-grandes (Ardea alba) nas áreas correspondentes ao Complexo do Ver-o-Peso (incluindo a Pedra do Peixe e a Feira do Açaí), bem como o perímetro do Centro Histórico de Belém (PA) e seus diferentes espaços: a Praça do Relógio, a praça Dom Pedro II; caminhos e descaminhos que se estendem ao longo do entorno da Igreja de Santo Alexandre, seguindo o fluxo de deambulações cotidianos que envolvem tais relações, contatos e misturas realizadas entre os agentes naquele contexto. A partir de uma etnografia em curso na cidade busca-se problematizar o emaranhado de interações – tensionais ou não – de tais agentes que efetuam povoamento e convívio rotineiro, suscitando a configuração de dinâmicas ecológicas urbanas, visto que os urubus-de-cabeça-preta e as garças-brancas-grandes agenciam e compartilham as paisagens, compondo seu habitat em seus movimentos sazonais junto à dinâmica populacional, a exemplo da alimentação de detritos orgânicos recebidos dos humanos, depositados nas lixeiras, ou que são atirados nas águas. O que descompraz nossos sentidos, no entanto, é o que atrai os bandos (avifauna) e outros animais que de alguma maneira percebem que podem se beneficiar das dinâmicas daquele espaço – cães errantes (Canis lupus familiaris), pombas domésticas (Columba livia), ratos (Rattus rattus) - de forma a exercerem um comensalismo que é também um mutualismo com os humanos. Ou, ainda, o communal roostings nas arvores da praça D. Pedro II como é o caso dos urubus (e das garças na Praça Batista Campos), incluindo suas possibilidades de termorregulação, ou facilidade vôo no inicio da manhã, entre outras. Portanto, consideram-se agenciamentos relativos às territorialidades humanimals com a água, os espaços urbanos e suas infraestruturas, o descarte e acúmulo de lixo, as formas de higiene (e sua ausência), os usos do corpo pelos praticantes dos lugares, entre outros aspectos. Destarte, quando olhamos para as práticas compartilhadas por humanos e não-humanos buscamos, ainda, seguir os jogos concernentes as proximidades e distanciamentos entre eles, à medida que traçam vivencias na possibilidade de compartilhamento dos espaços onde alhures natureza e cultura se entrelaçam.
Pôster em GT