Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT008. Antropologia das Catástrofes: abordagens e perspectivas.

Na perspectiva antropológica, as catástrofes, entendidas como eventos críticos e ou desastres, são eventos multidimensionais que configuram a memória social e provocam descontinuidade nas formas de organização social. A temporalidade desses acontecimentos ultrapassa o tempo cronológico e sugere a existência de um “evento em processo” que interliga as dimensões pré e pós-evento. Inerente a esta abordagem está a discussão das noções de construção, percepção e contestação de risco e uma análise das tensões e conflitos engendrados pelos diversos atores que vivenciam, narram e atuam nesses eventos.

Embora seja notável o interesse despertado por esta temática no âmbito da Antropologia desde fins do século XX, sua consolidação requer reflexões e debates contemporâneos tanto de ordem conceitual como metodológica. Nesta perspectiva, este GT receberá propostas de etnografias realizadas na América Latina que, entre outras temáticas, discutam: os deslocamentos forçados e realocações de moradia; as restrições políticas e práticas, que o Estado costuma impor sobre as comunidades definidas como “afetadas”; construções e percepções de risco; os conflitos e resistência entre políticas governamentais e grupos sociais; reconstrução sócio-cultural; conflitos territoriais e identitários; a produção de memórias; as experiências afetivas de pessoas afetadas pelas catástrofes; as representações artísticas dos desastres; a construção social do lugar e sobre ações para prevenção de catástrofes.

Gonzalo Díaz Crovetto (DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA/UCT/CHILE)
(Coordenador/a)
Telma Camargo da Silva (Universidade Federal de Goiás)
(Coordenador/a)
Virginia García-Acosta (CIESAS)
(Debatedor/a)


Conflitos e Afetos: o processo de construção de um movimento de familiares de vítimas da tragédia de Santa Maria

Autor/es: Ana Paula Arosi
A proposta de paper a ser apresentado neste grupo de trabalho versa sobre os conflitos existentes entre órgãos públicos (no caso, prefeitura e ministério público) e os familiares de vítimas do incêndio na boate Kiss, no interior do Rio Grande do Sul, em Santa Maria. No decorrer dos três anos de pesquisa junto aos familiares de vítimas e profissionais da saúde e da ajuda humanitária foi possível entrever que as formas de atuação e a simbologia utilizadas nas homenagens-protestos, organizados pelo movimento Santa Maria do Luto à Luta, são construídas não só com a intenção de provocar um impacto social na cidade, mas também como uma canal de diálogo com as instituições públicas. As referências na fala, nos graffites feitos na fachada da boate, nas charges encomendadas a um cartunista, são evidências de uma articulação política que buscar comunicar não só demandas aos órgãos públicos e internacionais, mas também a construção de uma memória social em contraposição à política do silêncio praticada pela prefeitura. Tal política está sendo investigada na interação com moradores em diversas situações cotidianas na cidade. Considero o desastre em Santa Maria, como foi referido no resumo do GT, como um "evento em processo" que interliga a identidade de cidade universitária e jovem com a imagem de cidade morta, como referem alguns moradores ao falar da cena noturna da cidade ou do rendimento do comércio local, ou mesmo pelos familiares, quando se referem ao que a cidade representa pra eles atualmente. No entanto, essa imagem da cidade está em disputa e o trabalho do tempo opera transformando afetos, identidades e conflitos.
Apresentação Oral em GT

Na trilha das tragédias: sofrimento e infotenimento

Autor/es: Ceres Gomes Víctora, Ceres Gomes Victora Monalisa Dias de Siqueira
Partindo de uma pesquisa etnográfica e documental, a presente comunicação tem como objetivo refletir sobre alguns dos efeitos da apropriação midiática do sofrimento, tomando como referência o caso que ficou conhecido como “A tragédia de Santa Maria”. O incêndio da boate Kiss, que vitimou 242 pessoas em janeiro de 2013, assim como outros eventos semelhantes, ocupou por vários meses espaços nobres na mídia nacional e internacional. A sua ampla divulgação, com particular atenção para o sofrimento dos familiares das vítimas fatais, transformou-se em um tipo de infotenimento que, como vamos argumentar, teve implicações sobre a vida das pessoas envolvidas. Além da exposição não autorizada de imagens e de aspectos privados da vida das vítimas e de suas famílias terem o poder de aumentar o sofrimento individual, também a transformação da experiência em uma mercadoria de consumo de massa pode produzir efeitos sobre as formas das relações sociais dessas pessoas. A partir dos dados das entrevistas com familiares de vítimas fatais levantamos a hipótese de que a liberdade tomada pela mídia para adentrar os dramas da vida pessoal dos parentes e amigos das vítimas, produziu uma (pseudo) intimidade entre pessoas conhecidas - ou nem tão conhecidas – que passaram a se aproximar também das famílias indagando sobre o que nossas interlocutoras descrevem como os “aspectos sórdidos” do acontecimento. Sugerimos que a preferência por esses aspectos nas abordagens pessoais possa estar relacionada com a valorização por parte da mídia apenas dos aspectos “negativos” o que pode produzir um achatamento da experiência dessas pessoas, ao mesmo tempo em que invisibiliza a dimensão produtiva da tragédia.
Apresentação Oral em GT

Notas etnográficas para uma antropologia da crise e da catástrofe: a “crise hídrica” em Itu (SP).

Autor/es: Danilo Castro Magalhães
Em 2014, a região sudeste do Brasil atravessou um período de estiagem anormal que levou os reservatórios de água da região aos seus limites. Nomeada de “crise hídrica”, essa situação gerou ou intensificou conflitos pela água em meio urbano e expôs as fragilidades dos atuais modelos de gestão hídrica. Nesse contexto, a cidade de Itu, no interior de São Paulo, acabou ganhando projeção quando as imagens das barricadas, numa cidade há cerca de três meses “sem água”, chegaram ao noticiário nacional. Projetou-se que a cidade de São Paulo, em contagem regressiva para ficar na mesma situação, estaria prestes a “virar Itu”. Esse trabalho é resultante de quatro meses de campo vivido junto aos integrantes do movimento “Itu vai parar” (e sua rede de contatos), movimento que se articulou no momento mais crítico do período de desabastecimento vivenciado por essa cidade de 165 mil habitantes. O objetivo é reconstruir esse cenário entre colapsos – o ocorrido e o iminente – partindo das estruturas narrativas desse evento crítico e das imagens e afetos envolvidos na imaginação do risco de um colapso em São Paulo. O que as pessoas que vivem e se engajam num evento crítico desse tipo têm a dizer sobre ele? Entendendo a gramática da “crise” como o repertório disponível para lidar com uma situação de contornos ambientais, será possível abordar questões referentes à própria noção de crise – temporalidades, negociações de urgências, riscos, conflitos, incertezas, oportunidades – a partir de uma situação de escassez de água e revolta popular.
Apresentação Oral em GT

Haitianos no Brasil: a arte de caminhar para ser-no-mundo

Autor/es: Diego Correia da Silva, Norma Valencio
Existir exige um “estar em”, um “projetar-se em possibilidades”, que dentro de uma perspectiva compreensiva se vincula, fundamentalmente, a um “poder-fazer”, um “poder desempenhar”, um “poder lidar e se vincular” com os seus e com os outros. Nas duas últimas décadas, o Brasil tem sido um dos polos de atração de uma rede migratória que vem sendo consolidada entre os países pertencentes ao “eixo sul”. Entre outros casos, se destaca, a partir de 2010, uma maciça movimentação de haitianos ao Brasil. A literatura sobre o tema aponta o acontecimento de um terremoto, e a sequência da passagem de dois furacões, como evento estopim do fenômeno. O agravamento da vulnerabilidade socioambiental após os eventos desastrosos ficou evidente: a soma de mais de 250 mil vítimas fatais e 2,5 milhões de desabrigados; os sistemas de saneamento, de saúde e de educação destruídos; dificuldades na criação e obtenção de empregos; fragilidade institucional, disputas políticas e ações de ajuda humanitária de pouca eficácia; guerra entre gangues são questões que dificultam, ainda hoje, a possibilidade de recuperação do país, a mínimos considerados adequados. De tal modo, são considerados forças de expulsão do país. Após diversas polêmicas que surgiram devido à falta de preparo do Estado brasileiro em lidar com o recebimento e acolhimento dos haitianos (em termos legais e estruturais), sobretudo daqueles que chegavam pelas fronteiras localizadas no norte amazônico, foi reconhecida e atribuída uma situação legal dos imigrantes como de condição de refugiados, sobretudo pela insustentabilidade ambiental e econômica do país caribenho. Diante desse quadro, a presente proposta de pesquisa pretende uma análise de dados obtidos em pesquisa de campo no Estado do Acre, em 2015, das rupturas, (res)significações e elaborações exigida por sua condição de refugiado, e necessárias para a manutenção de uma situação que o sujeito considera fundamentais para a sua dignidade e sua condição de “ser-no-mundo”. Ou seja, os vínculos mínimos necessários em termos da sua existência física (alimentação, habitação, higiene), social (trabalho, obrigações para com seus entes que ficaram no Haiti, aprendizado de idioma, comprometimentos e afetividades) e cultural (identidade, espiritualidade, etc). De forma geral, a pesquisa a ser apresentada seguirá tratará as trajetórias que seguem dois caminhos distintos e complementares: a trajetória em termos da experiência de um deslocamento geográfico sujeito a um quadro de instabilidade socioambiental, e, por outro, as necessidades, dificuldades, auxílio na (auto)elaboração do sujeito social que busca a integração ao mundo que chega.
Apresentação Oral em GT

O urânio e seus desastres: discutindo os processos de publicização dos acidentes nucleares em Caetité-BA.

Autor/es: Israel de Jesus Rocha
O restrito debate em torno da produção de energia nuclear no Brasil, envolvendo quase que exclusivamente os especialistas do setor, parece sugerir ausência de reflexão sobre o ciclo de produção da energia no país. Além do alto grau de conhecimento perito que envolve a produção, seu papel no conjunto de matrizes energéticas no país parece indicar uma falta de interesse de atores diversos que não estão necessariamente implicados com o cotidiano de toda cadeia de produção. Dois problemas podem ser colocados a partir dessa ligeira percepção sobre uma possível ausência de discussão sobre a questão. A primeira está relacionada à presença/ausência de outros atores sociais além dos especialistas do setor; e a segunda, um desdobramento, aponta para os modos de existência do nuclear na heterogeneidade dos atores envolvidos na questão. Partindo de notas de um trabalho de campo em andamento, este texto procura discutir os problemas que envolvem o nuclear a partir de traços de uma localidade (a região de Caetité-Bahia) e seus desdobramentos (através dos deslocamentos dos diversos atores envolvidos) em cenários distantes do local e seus esforços de tornar a questão um problema que poderíamos considerar público. Neste sentido, os relatos, apontamentos, relatórios e documentos reunidos até aqui sugerem uma árdua tarefa dos atores em produzir "publicizações" dos diversos problemas decorrentes da extração do urânio na região e o modo como tais problemas tem ramificações que extrapolam seu contexto local. Parte-se então de um suposto teórico-metodológico que informa seguir os processos de publicização nos quais produzem e se envolvem os atores sociais relacionados à questão da extração do urânio e o nuclear.
Apresentação Oral em GT

Memórias da Promessa e do Fim do Mundo: testemunhos de deslocados compulsoriamente em função do enchimento do lago da Usina Hidrelétrica de Tucuruí.

Autor/es: Jorge Augusto Santos das Mercês, Voyner Ravena Cañete Nathalia Costadelle Pacheco
Objetivando compreender os sentidos atribuídos ao sofrimento social de deslocados compulsoriamente em função da construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí (UHT) e do consequente enchimento do lago, nos debruçamos neste artigo sobre os testemunhos (um tipo de memória marcado pelo eu estive lá) desses sujeitos para compreendermos como os mesmos experienciaram a ruptura da forma como viviam. Para tanto, recorremos a uma abordagem interpretativa no intuito de, através de pesquisas de campo nos municípios de Breu Branco e Tucuruí (ambos integram o mosaico da Área de Proteção Ambiental do Lago de Tucuruí), entrevistas semiestruturadas e não-estruturadas, compreender o fluxo da narrativa e os sentidos atualizados dos lugares de memória presentes hoje, trinta e dois anos depois do deslocamento compulsório provocado pela primeira fase das obras da UHT, nas vidas dessas pessoas. Como núcleo teórico para o desenvolvimento da pesquisa em questão recorremos ao conceito de memória de Ricoeur – a presença da coisa ausente através da lembrança em um agora marcado por uma intencionalidade atual numa exploração prática do mundo –, visto que é a partir desse tipo de memória que as categorias de “lugar” e “promessa” ganham sentido nos testemunhos dos deslocados compulsoriamente em foco. Concluímos, provisoriamente (a pesquisa está em andamento), que o sofrimento social do deslocamento compulsório é reelaborado pela memória desses agentes a partir de dois eixos: a) da promessa quebrada feita pela Eletronorte, dado que a empresa havia prometido casas de alvenaria e não cumpriu, havia prometido indenizações que, segundo os deslocados compulsoriamente, hoje e em reais, gira em torno de quarenta mil, mas não cumpriu, e que havia prometido terras suficientemente boas para a retomada de cultivos, mas não cumpriu, entre outras coisas que “ficaram só na promessa”; e b) do “fim do mundo”, no qual o sentimento de não-pertencimento à Breu Branco marca uma compreensão de ausência de lugar desde a ruptura desencadeada pelo deslocamento compulsório, marcado por uma compreensão desses sujeitos de que, como dizem, a partir de então “tudo foi para o fundo”. Esses eixos de compreensão sobre o sofrimento social do deslocamento compulsório que elaboram as memórias sobre os lugares que “foram para o fundo” serão sistematizados no presente artigo. Compreendemos a promessa e fim do mundo são complementares e os testemunhos variam entre um e outro, dessa forma, a memória das testemunhas do “fim do mundo” funciona tanto como um marcador de não pertencimento atual diante de um momento anterior e diferente, no qual a experiência de ter lugar era presente; como atualização das “promessas” não realizadas que poderiam, talvez, mitigar ou justificar para eles próprios esse sofrimento.
Apresentação Oral em GT

O suicídio indígena entendido como catástrofe

Autor/es: Lívia Dias Pinto Vitenti
Se a noção de catástrofe é fecunda, sua definição permanece complexa. Primeiramente, ela reagrupa eventos que podem parecer muito heterogêneos. São assim chamados de catástrofes, ao mesmo tempo, cataclismos cuja origem é natural e tragédias produzidas pela vontade ou incapacidade do homem. De qualquer forma, trata-se de eventos calamitosos que alteram gravemente ordens regulares, seja de sociedades, comunidades ou meio-ambientes. Apesar de tal heterogeneidade, a catástrofe será sempre o evento trágico que descrevemos como tal porque constatamos a amplitude e o desastre de suas consequências. Igualmente, na grande maioria das vezes o que define catástrofe é a amplitude das consequências, é a morte coletiva. Frente a isso, e considerando que o número de suicídios tem aumentado drasticamente em algumas sociedades indígenas do Brasil, significando muitas mortes em um curto espaço de tempo e afetando todos os membros da comunidade, propomos discutir como o suicídio em contextos indígenas poderia ser enquadrado na categoria de catástrofe. Para tanto, partiremos da discussão acerca do chamado efeito Werther, ou suicídio por contágio. Em outras palavras, quando uma pessoas em uma comunidade se mata, não é incomum que outras pessoas sigam os mesmo passos, criando um efeito em cascata, ou “suicide cluster”.
Apresentação Oral em GT

“O mar está tomando o que é dele” Percepções sobre espera e catástrofe na praia de Atafona, RJ

Autor/es: Maria Cláudia Martinelli de Mello Pitrez
O presente trabalho busca apresentar algumas reflexões oriundas do campo de doutorado em torno das experiências e percepções de moradores e visitantes quanto à espera do que está por vir com a catástrofe do avanço marítimo na praia de Atafona, situada no litoral norte do estado do Rio de Janeiro. Desde a década de 50, o avanço do mar vem modificando a localidade, favorecendo um cenário a beira mar onde há anos que tem praia, com momentos de lazer e contemplação diante do balanço das águas mais tranquilo e manso; e anos que não tem praia, quando o mar vai para tudo que é lado, revirando areias e reavivando camadas entrepostas de terra, ruínas e histórias. Com mais de 14 quarteirões de casas destruídas, muitas histórias e narrativas são tramadas quanto às afeições e aflições atreladas aos efeitos catastróficos e sublimes do universo marítimo. O simples ato de caminhar pela beira da praia entre ruínas e contemplar o mar são movimentos que acionam um jogo constante de produção de sentimentos, memorias e pertencimento com o lugar. Nota-se que, na construção social da imagem de Atafona, o entrelaçamento entre ritmos, ora de alvoroço e ora calmaria, perfazem a paisagem e a memória dos seus moradores e visitantes diante do dinamismo das águas que se configura ali. As percepções e experiências afetivas das pessoas que perderam suas casas e que foram acompanhando a praia se transformar também refletem um entrelaçamento dinâmico e plural quanto às interpretações sobre risco, sofrimento, perda, destino e desastre. A espera do novo avanço das águas provoca uma suspensão quanto ao que está por vir, expressando uma trama complexa de correlação semântica e sentimental entre práticas e discursos religiosos e ecológicos disponíveis na localidade. Dessa forma, entendendo o avanço e recuo das águas como um “evento crítico” (DAS, 1995), este trabalho pretende apresentar alguns dados etnográficos afim de elucidar e contribuir para novas perspectivas metodológicas e conceituais em torno dos enlaces e manifestações que situações críticas provocam nos sentimentos de pertencimento com o lugar.
Apresentação Oral em GT

“Lá Onde o Rio Está Enterrado”: Itacuruba, identidade e memória em um “não-lugar”

Autor/es: Maria do Socorro Fonseca Vieira Figueiredo, Germana Fonsêca Figueirêdo Médica Germanaf.figueiredo@gmail.com
“Lá Onde o Rio Está Enterrado”: Itacuruba, identidade e memória em um “não-lugar” Maria do Socorro Fonseca Vieira Figueiredo Profa. Doutora em Antropologia Socorrof_figueiredo@yahoo.com.br Germana Fonsêca Figueirêdo Médica Germanaf.figueiredo@gmail.com GT 008 – Antropologia das Catástrofes: abordagens e perspectivas Este estudo, recorte da pesquisa realizada durante o doutorado em antropologia na UFPE, trata da relação identidade, memória e lugar a partir do exílio a que populações são submetidas para permitir a edificação de grandes barragens voltadas à produção de energia elétrica, e dos processos de desordem/reorganização envolvidos nestes contextos. Entre tantas populações atingidas, buscamos uma aproximação com o universo de Itacuruba, cidade localizada na microrregião do Sertão Pernambucano do São Francisco, construída para reassentar os moradores da antiga Itacuruba, que em 1988 teve 27% de sua área inundada, incluindo sua sede e terras agricultáveis pela construção da Barragem Luis Gonzaga (Lago de Itaparica). Não é possível desconsiderar que a construção de uma usina hidrelétrica envolve um complexo jogo de atores, conflitos, emoções e poder. No “não-lugar” (nova Itacuruba), o discurso da população é de perda de identidade, de uma vida em profunda crise de sentido em um espaço vazio de marcas de memórias. Itacuruba foi apontada, por meio dos dados do CREMEPE 2006, como a cidade brasileira que mais se utiliza de antidepressivos, sendo, também, a detentora do maior índice de suicídios, estando este índice bem acima da média mundial. As narrativas das pessoas da nova Itacuruba, falavam sobre: morte, depressão, falta de fé, identidade perdida, parecendo revelar o grupo à beira de um precipício (espaço em que parados olhavam o vazio). Entretanto, os sussurros presentes nas entrelinhas destes relatos davam pistas de que pelas frestas de um luto continuamente vivido, movimentos de vida emergiam do inerte, como velhas raízes, que das entranhas da terra submersa se estendiam rompendo, contornando obstáculos, até o espaço atual, trazendo seiva constituída de memórias compartilhadas. A memória jogando com o tempo, enquanto híbrido de tempos, dar a ver linhas de fuga tecidas pelo grupo com pertencimentos e reconhecimentos, que conduzem à resistência, embora distante das antigas proteções, e apontam para o eterno movimento de recriação.
Apresentação Oral em GT

Reubicación de poblaciones afectadas por inundaciones: la falsa atención a la disminución de la vulnerabilidad social.

Autor/es: María Magdalena Hernández Hernández
El problema de investigación que se desarrolla en este trabajo se inserta dentro de los estudios específicos de las reubicaciones por desastres asociados a fenómenos naturales, como son las inundaciones. La reubicación por definición implica un estado de mejoría en las condiciones sociales del grupo o familias afectadas. En el caso mexicano las reubicaciones han resultado en situaciones totalmente desfavorables para la población reubicada, con lo cual tiende a incrementar la vulnerabilidad social, ya no sólo ante desastres, sino ante eventos sociales o políticos impuestos por el gobierno o por la iniciativa privada. Esto tiene que ver con el proceso de exclusión de dicha población en los planes y programas de la reubicación, aun a pesar de que en el discurso gubernamental se declara que es deber del Estado proteger la vida de los afectados y buscar un lugar seguro para restablecer las actividades diarias de la población a reubicar. Se presentan dos ejemplos de reubicaciones por desastres asociados a inundaciones. La primera es una reubicación realizada a raíz de la desaparición de la comunidad llamada La Junta Arroyo Zarco, población campesina localizada en la región mexicana de la Sierra Norte de Puebla, en el municipio de Tenampulco, que en 1999 como consecuencia de la crecida del río Apulco quedó destruida en su totalidad, la mayoría de sus habitantes lograron sobrevivir. La segunda es una reubicación urbana localizada en el municipio de Centro, en el estado mexicano de Tabasco, creada a partir de que la ciudad de Villahermosa, ubicada en el mismo municipio, se inunda en el 2007, por el mal manejo de las presas de la región y no por el “cambio climático”.
Apresentação Oral em GT

“O lugar da ‘tragédia’: a percepção do ambiente em um bairro friburguense atingido pelo desastre de 2011”

Autor/es: Maria Suellen Timoteo Correa
Este artigo é fruto de minha pesquisa de mestrado construída através do trabalho de campo realizado ao longo de 2014 no bairro Córrego D’Antas, em Nova Friburgo, na região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Alguns de seus moradores e trabalhadores foram observados nas suas relações entre eles, com o Estado e na sua condição de vítimas, sejam parentes ou conhecidos das vítimas do desastre ocasionado por grande volume de chuvas, enchentes e deslizamentos ocorridos em janeiro de 2011 na localidade. A pesquisa priorizou a observação e o acompanhamento das ações e movimentos voltados à reconstrução do bairro, destacando as iniciativas da sua Associação de Moradores. Na etnografia foram descritos e analisados dramas, representações, sociabilidades, estratégias e conflitos nas ações e participações, interligando-os à categoria “tragédia” de 2011. A análise permeou vários atores envolvidos na reconstrução, mas o foco foi direcionado aos moradores que participaram ou dialogaram com a Associação, além das suas relações com outras instituições. Vale destacar que a maioria destes atores considera seu envolvimento a partir de 2011. Com a observação das situações de campo, algumas percepções e categorias dos moradores sobre o bairro, a catástrofe e a política foram levadas em conta, além de uma análise inicial do funcionamento de associações e do Estado. Para tanto, a “tragédia” como “evento crítico” e sua questão imagética no bairro foram tomadas como ponto de partida para a participação desses atores. Com isso, neste artigo foi possível estabelecer ligações entre a construção social do lugar e o impulso da ação dos atores em prol da luta pela reconstrução do bairro, tomando como instrumentos reflexivos conceitos como “lugar-trauma” e “territorialização” e “desterritorialização”, dentre outros. Na presente produção, o recorte se dá nas potencialidades dos cenários do bairro e sua destruição, relacionadas às memórias anteriores e percepções do ambiente pelos moradores e como estas foram envolvidas na política do bairro e de sua reconstrução, assim como nos diversos elementos envolvidos nos engajamentos dos moradores. Um exemplo destes elementos será apresentado, a partir de um episódio envolvendo os moradores e a prefeitura, a partir do Plano Diretor da cidade. Por fim, a ideia é apresentar o ambiente em constante construção (e até mesmo agência), assim como os atores que, imersos nos fluxos dos materiais, reposicionam-se e reformulam a percepção sobre esse ambiente. No caso desses moradores, a reformulação e percepção perpassaram pela participação política de diversas maneiras.
Apresentação Oral em GT

Considerações sociopolíticas acerca da crise hídrica em Itu (SP)

Autor/es: Pedro Gondim Davis
O ano de 2014 foi marcado por um acontecimento de enormes proporções na cidade de Itu, interior do estado de São Paulo. Por quase doze meses a população local se viu privada do abastecimento regular de água. Dentre muitos termos cunhados para nomear esse evento (seca, racionamento, calamidade pública, falta d’água), um dos mais difundidos e utilizados foi o termo crise. É, portanto, a partir das vias abertas (e expostas) pela crise da água (ou a crise hídrica) que eu pretendo ensaiar reflexões tendo por base os dados etnográficos até aqui produzidos. Atuando como um fenômeno de potencial totalizante, a experiência da falta de água foi responsável por instaurar, segundo os ituanos, uma espécie de desordem generalizada na cidade. Contudo, os mesmos relatos e memórias que recuperavam as tensões dos tempos de crise permitiam entrever outro tipo de movimento: a inauguração de distintos ordenamentos com lógicas próprias (ora particularizados, ora provisoriamente articulados ou coletivizados) no intuito de improvisar soluções a fim de reorganizar tanto quanto possível o cotidiano. Logo, o tratamento da severa escassez de abastecimento de água em Itu a partir da chave da crise funciona como uma janela privilegiada não apenas para as formulações acerca do seu correlato aparentemente imediato, a desordem e o caos (tal qual descrito pelos ituanos), mas também para as concepções nativas acerca das noções de ordem que prevalecem ali – inclusive aquelas referentes às práticas provisórias que emergiram na tentativa de ordenar a agitação ressequida enfrentada pela população local. Ao mesmo tempo, a situação de crise fez com que os ituanos se confrontassem com a implosão de uma série de arranjos produtores de efeitos de permanência capazes de neutralizar (e naturalizar) as operações e as conexões que fazem funcionar todo o aparato de captação, tratamento, circulação, distribuição e consumo da água. Se o fornecimento regular de água no espaço urbano é simultaneamente responsável por uma espécie de “dupla fabricação de Natureza” e pela “materialização do fluxo rotineiro da ordem” (sobretudo doméstico, mas não apenas), o seu persistente mau funcionamento trouxe à tona elementos e agentes muito diversos, revelando relações e redes sistematicamente encobertas. A partir da brecha proporcionada por essa falha decisiva na operação de purificação (tal qual entendida por Bruno Latour) alguns atores sociais passaram a remontar redes sociotécnicas normalmente invisibilizadas, a partir das quais se promoveu o questionamento do caráter puramente “natural” do problema da falta de água e a ampliação do rol de agentes (humanos e não-humanos) implicados nesse evento – com consequências decisivas em diferentes níveis e esferas da vida social ituana.
Apresentação Oral em GT

Vulnerabilidade socioambiental, desastres naturais e mudança cultural: uma análise da Defesa Civil Municipal de Natal

Autor/es: Rylanneive Leonardo Pontes Teixeira
Os desastres naturais consistem em fenômenos e desequilíbrios da natureza, causados ou não pela ação antrópica, fazendo parte dos modos de vida e adquirindo, na contemporaneidade, uma característica de ocorrência maior do que em outras eras, tanto da evolução da natureza quanto das formas de sociedade. O aumento da ocorrência desses desastres pode está relacionado a desequilíbrios impulsionados por pressão social e cultural, interferindo no equilíbrio dos ecossistemas naturais. Além disso, este aumento pode indicar a descontinuidade nas formas de organização das comunidades na medida em que as populações atingidas por esses eventos, principalmente, as mais pobres, estão mais suscetíveis e vulneráveis às consequências e aos riscos provocados pela ocorrência dos mesmos. Nesse sentido, é de suma importância observar como as dimensões social e ambiental se relacionam com as situações de vulnerabilidade resultantes da ocorrência de desastres naturais. Assim sendo, o presente estudo versa acerca da vulnerabilidade a que estão sujeitos os indivíduos ou grupos sociais da cidade do Natal, no Rio Grande do Norte, a situações de risco ambiental. Sendo o objetivo deste trabalho apreender as continuidades e descontinuidades sociais e culturais vividas pelas populações de Natal, provocadas pela ocorrência de desastres de origem natural em áreas vulneráveis. A metodologia configura-se por uma pesquisa de cunho qualitativo com um estudo de caso da Defesa Civil Municipal de Natal, buscando perceber de que forma as populações e a referida instituição da Administração Pública Municipal estão preparadas para uma mudança cultural em situações de desastres naturais. Ademais, para a realização da pesquisa e posterior desenvolvimento deste trabalho, utilizamos como instrumento de coleta de dados as entrevistas semi-estruturadas, fazendo uso, no intuito de analisar e interpretar os dados, da triangulação de métodos como técnica de análise. Toda a pesquisa foi realizada ao longo do ano de 2015. A conclusão da pesquisa resultou na identificação da vulnerabilidade socioambiental e dos desastres naturais como uma problemática sociocultural que ainda está pouco impregnada na cidade do Natal, sendo que há tempos que o município vem passando por problemas e/ou desafios referentes à questão, causando perdas às pessoas, materiais e, até mesmo, familiares; mas que ainda não existe uma modificação do comportamento cultural e que incida sobre as políticas públicas.
Apresentação Oral em GT

Histórias de resistências: desastre região serrana 2011

Autor/es: Simone Santos Oliveira, Sergio Luiz Dias Portella
A participação social vem se tornando central na medida em que se multiplicam as crises nas relações entre o governo, a ciência e os conhecimentos especializados, de um lado, e os cidadãos, suas organizações e comunidades de outro. As consensualidades discursivas sustentadas na ideia de participação embasam as iniciativas de agências nacionais e internacionais envolvidas no financiamento das respostas a situações extremas, no sentido da exigência da participação social nos projetos que apoiam. Mas parece que as características que em situações normais são quase invisíveis, naturalizadas, ficam expostas e exacerbadas em situações de crise social, produzindo exclusão daqueles que alegadamente se quer incluir. Mesmo que referendada em todos esses discursos, e em muitos casos promovendo uma sintaxe própria, hoje ainda não se sabe como tornar a participação social impactante na resolução dos problemas mundializados e na superação da inadequação das respostas dos governos aos mesmos. E, na maioria das vezes, somente a resistência às políticas públicas propostas podem indicar uma participação pública autêntica por parte das populações. Resistências individuais de pequenos lavradores. Resistências culturais como de quilombolas. Resistências de comunidades e bairros inteiros aos laudos técnicos que defendiam a saída de suas terras, com o apoio de outros estudos técnico-científico que se contrapunham aos estudos oficiais. O registro e análise dessas resistências às políticas públicas propostas no pós-desatres do evento extremo de 11 de janeiro de 2011, nas cidades serranas do norte do Estado do Rio de Janeiro, Brasil, é parte da pesquisa empreendida pelos autores. Essas experiências revelam a busca de superar um conjunto de ações-manobras em que a população é desapropriada da capacidade de lidar com a vivência de seu desastre. Como nas fábricas fordistas do início do século passado, em que, pela aplicação da administração científica do trabalho, o conhecimento comunitário, local, e pessoal vai sendo extraído e impessoalizado em relatórios e registros técnico-científicos.
Apresentação Oral em GT

Memórias e impactos da enchente de 1974: por uma abordagem espaço-temporal dos desastres

Autor/es: Viviane Kraieski de Assunção
A enchente de 1974 marcou a história do município de Tubarão, localizado no sul do estado de Santa Catarina, Brasil, e a de seus moradores. Segundo dados oficiais, a enchente de 1974 causou a morte de 199 pessoas e desalojou 60 mil dos 70 mil habitantes da cidade na época. O número de mortos, no entanto, é contestado pelos moradores que vivenciaram a enchente. A imprensa noticiara, durante e após o fenômeno, que a estimativa do número de mortos chegaria aos milhares. Relatos de moradores afirmam a existência de valas comuns para enterrar corpos e o grande número de desaparecidos, o que não é confirmado por documentações oficiais. A memória da enchente está presente no relato de moradores do município (inclusive daqueles que não a vivenciaram) e nos monumentos de homenagens às vítimas. Deste modo, argumenta-se que a enchente é parte do imaginário social dos moradores, que participa da construção e organização da memória coletiva do município (Halbwachs, 1990; Woortmann, 2000). O trabalho aqui apresentado resulta de uma pesquisa em andamento sobre os impactos da enchente de 1974 sobre a reconfiguração socioespacial do município de Tubarão. Argumenta-se que a análise espaço-temporal de um desastre – entendido não apenas a partir de seus condicionantes naturais, mas entrelaçado a aspectos socioculturais (Ribeiro, 1995) – permite a compreensão do aspecto processual do fenômeno e da complexidade de seus impactos. A primeira etapa da pesquisa foi centrada na localidade do Morro da Caixa, por meio da realização de uma etnografia e da realização de entrevistas em profundidade, que buscaram acessar a memória dos moradores sobre a enchente e as mudanças que ocorreram na localidade desde então. Antes da enchente, o Morro da Caixa era conhecido como local de moradia de “pobres e negros”. Temendo novas inundações, indivíduos de camadas médias e altas passaram a habitar a localidade, o que ocasionou um encontro entre indivíduos de camadas sociais distintas. A presença destes moradores levou a mudanças nas representações da localidade, além do estabelecimento de relações de conflito entre moradores de diferentes classes sociais. Nesse sentido, a enchente é compreendida como um evento crítico, seguindo as concepções de Veena Das (1999), por impactar a forma como os sujeitos entendem e concebem o mundo, suas formas de subjetivação, e, mais especificamente, por alterar seus modos de significação do espaço. A investigação também apontou que a percepção de risco de novos desastres está atrelada a um processo de gentrificação da localidade, que, de acordo com Smith (2007), produz paisagens urbanas voltadas para o consumo de indivíduos de maior capital econômico.
Apresentação Oral em GT

A batalha de Okinawa acabou?- Memória, diáspora e fluxos setenta anos depois da II Guerra

Autor/es: Yoko Nitahara Souza
2015 marcou setenta anos da Batalha de Okinawa. A mais sangrenta da II Guerra Mundial, a maior da história contabilizando 250.000 mortos. Um terço da população de Okinawa pereceu durante a batalha. As narrativas estão registradas nos muitos museus e monumentos a exemplo do Himeyuri no to, nas cavernas Chimuku e Chibichiri, nos penhascos de onde civis se suicidaram, no local para onde milhares de corpos foram levados e sobre eles se amontoou pedras chamado Kompaku no to. Ouvi pessoalmente relatos como de Keiko Taira, uma das 59 sobrevivente do naufrágio do navio Tsushima Maru torpedeado pelo submarino americano Bowffin quando levava cerca de 1300 civis, a maioria crianças de Okinawa para as ilhas principais do Japão o mesmo Kiyoko Hijirida, que se escondeu ainda criança nas ohaka, os grandes túmulos familiares em formato de Omega, cujo nome é kame ko baka ou casco de tartaruga, mas alude ao formato do útero feminino. O choro de sua irmã mais nova poderia denunciar toda a família, então foi tirada da ohaka e foi morta. Os locais marcados pela guerra são muitos e visitei vários deles em Okinawa. Fui em pouco museus no Japão, como o museu etnográfico de Osaka, Minpakku kinen koen e não vi nenhuma referência à II Guerra. Em Osaka e Kyoto Os castelos em e seus biombos ilustram batalhas da época dos Samurais e aludem ao poder do shogunato. De modo radicalmente inverso, em Okinawa não há um único museu que não tenha alguma referência à Batalha de Okinawa e o castelo de Shuri, sede do independente reino de Ryukyu, ilustra as relações que mantinha recebendo visitantes e negociando em seus portos. A etnografia multisituada (Marcus 1995) empreendida no Havaí em fevereiro e março de 2013 e no arquipélago de Okinawa, ao sul do Japão entre dezembro de 2013 e junho de 2014 e iniciada em diversos estados brasileiros como Paraná, São Paulo e Distrito Federal entre a comunidade nikkey e okinawana especificamente, foi atravessada de ponta a ponta pela memória da trágica catástrofe representada pela Batalha de Okinawa. Muitos okinawanos com que conversei buscam compreender como se passaram os dias, semanas e meses deste verdadeiro holocausto. Neste trabalho apresento a trajetória de vida de alguns okinawanos e descendentes, de diversas gerações e países, acerca de suas pesquisas independentes e memórias sobre a Batalha de Okinawa. A percepção de que a presença massiva das bases militares americanas mesmo após a reversão administrativa ao governo japonês em 1972, mantendo um diversificado e numeroso aparato de guerra é tido por muito okinawanos como o prolongamento da Batalha de Okinawa. Como a Antropologia pode atuar? É possível interpretar as diversas vozes que proliferam acerca das manipulações históricas de eventos críticos (Daas, 1995)?
Apresentação Oral em GT

Das agulhas ás greves - Museificando à memória

Autor/es: Maysa Luana Silva
Este trabalho foi desenvolvido no projeto de Implantação do Museu de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas. O objetivo é apresentar o processo de transformação da fábrica Laneira, no museu universitário, a Casa dos Museus da UFPEL. A indústria Laneira Brasileira Sociedade Anônima, instalada no bairro Fragata, encerrou suas atividades no final dos anos de 1990, e hoje se encontra em deterioração. Dessa forma, a equipe do MUARAN (Museu de Antropologia e Arqueologia) foi a Laneira junto aos antigos operários e operárias para entender as dinâmicas da fábrica. Ou seja, o funcionamento e a significação da fábrica em suas vidas, dada a relação entre trabalho e memória. O empenho deste estudo está em analisar os aspectos da perspectiva memorial a partir da visão dos ex-funcionários (as) da Laneira, que nos apresentaram a fábrica a partir de narrativas por vezes, dolorosas. Para poder problematizar a questão que Candue Joel traz em seus estudos sobre memória, tradição e identidade. Ele denomina como “memória das tragédias”, ou seja, o patrimônio que se constitui a partir da memória por vezes dolorosa da lembrança, o que em nosso contexto serve até mesmo para reivindicar a importância do histórico de greves, processos judiciais e hostilidade do ambiente fabril da Laneira. Relacionando a cidade de Pelotas, a qual apostou na industrialização, pois muitas fábricas de notoriedade estavam na cidade. Mas esses grandes investimentos nas fábricas, resultaram na imensa desvalorização dos direitos dos trabalhadores (as). Decorrente à importância da memória coletiva vinculada à luta. Portanto, o objetivo é apresentar de que forma a catástrofe pode se transformar em patrimônio, e como estes processos podem refletir na história de trabalhadoras e trabalhadores que mantiveram relações rancorosas ou afetuosas com aquele espaço, que definitivamente não será mais o mesmo.
Pôster em GT