Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

MR041. Vestígios, Restos e Substratos corporais humanos em seus diversos agenciamentos

Inserindo-se nos debates sobre ciência e tecnologia, essa mesa redonda visa explorar as fronteiras entre o “humano” e “não-humano”, fitando a coleta/arquivamento/uso de substratos materiais que, em algum momento de sua trajetória, podem ser significados como “vestígios humanos”. Podem ser eles: embriões armazenados em tanques de nitrogênio; sangue ou DNA em biobancos; vestígios corporais guardados em freezers de institutos de perícia; ossadas encontradas em escavações; fluidos corporais, órgãos ou tecidos ligados à reprodução, como a placenta e o sangue menstrual, engajados em pesquisas científicas e/ou procedimentos biomédicos. Em que sentido a caracterização desses substratos como “humanos” permite ou autoriza determinados agenciamentos em detrimento de outros? Ou seja, quais são as concepções que constituem esses substratos ora como materiais passíveis de serem utilizados em pesquisas científicas, ora como “excedentes” ou como "lixo”, cujo descarte implica uma série de dilemas (bio)éticos e (bio)políticos. Cabe explorar a relação entre a classificação desses substratos como “rastros” ou “vestígios” do “humano” e outras tensões que surgem quando esses materiais escapam os fluxos e destinos previsíveis (embriões convertidos em fetos que serão gestados, corpos mortos que passariam por rituais funerários apropriados, ou excrementos que seriam devidamente descartados de acordo com os pressupostos de higiene íntima).

Soraya Fleischer (Departamento de Antropologia/Universidade de Brasília)
(Coordenador)
Débora Allebrandt (Universidade Federal de Alagoas)
(Participante)
Claudia Fonseca (UFRGS)
(Participante)
Daniela Tonelli Manica (UFRJ)
(Participante)
Clarice Monteiro Machado Rios (Instituto Medicina Social/UERJ)
(Debatedor)


Os limites do “humano”: O agency (e complicações) de restos humanos em um laboratório de genética forense

Autor/es: Claudia Fonseca, Rodrigo Garrido
Tomando como universo empírico um laboratório de genética forense, seguimos a trajetória dos pequenos pedaços de tecido tirados cirurgicamente de cadáveres humanos para estabelecer um perfil de DNA. Observamos que transformar tecidos já testados em “lixo”, de forma a liberar o espaço físico para novas amostras, requer um investimento de energia institucional, envolvendo saúde pública, tribunais criminais, e cemitérios públicos. Ao longo do percurso, o material corporal se mostra um ator dinâmica que, no âmbito das mediações técnicas da atividade pericial, realiza uma complexa coreografia, tocando em questões quanto aos limites do que é considerado “humano”. Avançamos a hipótese de que, apesar das diferentes operações cunhadas para “objetificar” o material humano, transformando-o em resíduo descartável, os corpos acabam voltando para “assombrar” a produção científica de provas.
Trabalho para mesa redonda

A vida social dos embriões humanos produzidos na Reprodução Assistida(RA): criopreservação, descarte, doação e seus agenciamentos em uma clínica de Porto Alegre

Autor/es: Débora Allebrandt
Conforme a Lei 11.105/2005, a pesquisa com embriões é permitida no Brasil. Cabe a ANVISA controlar o número e o destino de embriões produzidos através do SISEMBRIO. Um banco de dados que controla a manipulação dos tecidos germinativos em todo o país. Para tanto, centros de RA devem enviar um relatório anual e confirmar o estado legal daqueles embriões que foram armazenados em seus tanques de nitrogênio. Para sua elaboração ocorre um ritual de ligações, TCLEs e assinaturas entre a clínica e as pessoas que contrataram serviços de criopreservação. Negocia-se o destino de seu material biológico. Tomo esse agenciamento como a construção de conhecimento sobre embriões e sua transição entre tecidos(descartáveis)/vida potencial(a ser preservada). Tal percepção assinala interseccionalidades na produção e gestão da política de ciência, responsabilidade e ética do uso e destino de embriões.
Trabalho para mesa redonda