Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

MR038. Sofrimento, Política e Emoções

Esta mesa versa sobre as relações entre política, sofrimento e emoções. Insere-se em uma tendência mais ampla de teses antropológicas recentes que buscam articular os níveis micro e macro da experiência individual, em uma tentativa de superação de uma clivagem clássica da antropologia: o estabelecimento de pontes teóricas que permitam pensar o contexto global, em suas dimensões política, histórica e econômica, não apenas como pano de fundo para vivências localizadas, mas como algo que encontra tradução cotidiana em aspectos tradicionalmente considerados “micro” ou “subjetivos” – o sofrimento e as emoções.
Reunimos três projetos que buscam realizar essas pontes, abordando os temas “macro” da crise socioeconômica gerada pela adesão às “políticas da austeridade” na Europa; da violência de estado sob a forma da tortura; e da multiplicidade de leituras da “responsabilidade” por tragédias coletivas. Esse espectro temático permite destacar alguns aspectos específicos da compreensão das dinâmicas subjetivas e emocionais da vivência dessas experiências: a articulação entre esperança e resiliência em contextos de crise que abalam a própria noção de futuro; as formas de elaboração de experiências “traumáticas”, em sua relação com as noções de memória e de “trabalho do tempo”; e a tensão entre leituras secularizadas e leituras informadas por doutrinas religiosas acerca do problema da responsabilidade pelo infortúnio, com as implicações dessa tensão para as formas da ação individual.

Maria Claudia Pereira Coelho (UERJ)
(Coordenador)
Maria Antónia Pedroso de Lima (CRIA / ISCTE-IUL)
(Participante)
Ceres Gomes Víctora (UFRGS)
(Participante)
Cynthia Andersen Sarti (UNIFESP)
(Participante)
Jane Araújo Russo (IMS/ Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
(Debatedor)


“Não façamos do nosso choro o nosso desespero”: Sofrimento, política e emoções no contexto da “tragédia de Santa Maria”

Autor/es: Ceres Gomes Víctora, Monalisa Dias de Siqueira
Partindo de pesquisa sobre a “tragédia de Santa Maria”, esta comunicação apresenta uma reflexão sobre as imbricações entre emoções e política, tomando como referência duas formas de enfrentamento do luto pelas perdas provocadas pelo incêndio da boate Kiss. A primeira é o movimento político, onde a "luta por justiça” se apresenta como veículo de reorganização da vida dos familiares das vítimas. Nesse caso, emoções e política se entrelaçam “para que nunca mais aconteça”. A segunda é a espiritualidade de orientação kardecista, onde os significados, a relação com o evento e com outros agentes envolvidos são modelados pelos diferentes planos de existência humana e espiritual. Para eles, “quando tem que acontecer, acontece”, e aos familiares resta trabalhar pela “evolução espiritual” no plano da terra, através do exercício do “perdão”, da “gratidão” e da “caridade”.
Trabalho para mesa redonda

Reminiscências do sofrimento: o lugar do outro

Autor/es: Cynthia Andersen Sarti
O tema é o trabalho da memória de experiências de violência, tendo como referência a experiência de prisão e tortura durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), formulada como violência de Estado. A partir do testemunho de pessoas que a vivenciaram, busca-se analisar como essa experiência e o sofrimento que dela advém se inscrevem no curso da existência, atentando para a construção, nesse processo, das figuras da testemunha e da vítima. Supondo as emoções como linguagem, a inscrição desse sofrimento na vida remete à forma como a violência pode ser comunicada. O indizível da violência se relaciona não à impossibilidade de dizer, mas sobretudo à ausência de espaços de escuta. Implica, portanto, o outro. Problematiza-se, assim, a noção de trauma, com base na ideia de Veena Das de que o tempo é um agente no processo de negociações do sujeito com as possibilidades do mundo social.
Trabalho para mesa redonda

Construir o futuro sem esperança: precarização da classe média em Portugal.

Autor/es: Maria Antónia Pedroso de Lima
A atual crise socioeconómica em Portugal promoveu profundos impactos na organização da vida das pessoas e nas suas expectativas de futuro. Como se reconfiguram os quotidianos e as trajetórias de vida em situações de abrupta perda de rendimentos? Como se gere o sentimento de perda simbólica e material, de reconfiguração de estilos de vida? Como se vive um presente que caminha para um futuro sem esperança, onde a reação à crise se transforma na própria vida social? A partir de trabalho de campo com famílias de classe média de Lisboa e Porto, debaterei estas questões intersectando dimensões de classe, género e grupo de idade. Particular atenção será dada às relações de entreajuda e reciprocidade que têm ressurgido como forma de fazer face à crise, reativando redes de solidariedade de proximidade, que ressignificam noções de bem comum, justiça, dádiva e resiliência.
Trabalho para mesa redonda