Anais da 30aRBA
ISBN n° 978-85-87942-42-5

GT007. Antropologia da Técnica

Este GT visa dar continuidade e consolidar a discussão sobre uma Antropologia da técnica iniciada na 29ª RBA e que vem ganhando proporção e interesse no Brasil. Nesse sentido, pretende reunir pesquisas com interesses etnográfico e analítico direcionados aos processos técnicos, entendendo-se como tal a sequência de interações entre humanos, artefatos, plantas, animais, minerais e ambiente de modo geral. Incluem-se nisto atividades de coleta, cultivo, criação, produção, uso e circulação, em diferentes escalas, inclusive de caráter industrial. Para compreender tais processos resulta significativo focar as práticas, os conhecimentos e as habilidades que estão na base das cadeias operatórias, não como mera projeção de uma tecnologia, mas como propriedades de ação sobre a matéria. Considera-se de grande relevância a abordagem de processos de transformação, sejam eles deliberados ou não, como mudanças sociais e econômicas, escolhas técnicas ou transferência de tecnologia através de políticas específicas. São também valiosos os enfoques dos processos políticos, entendidos como processos técnicos voltados a mobilizar, ordenar e hierarquizar forças de diversas naturezas (cosmológicas, laços de parentesco, obrigações de reciprocidade, etc.), definindo relações de poder e, assim, configurando sistemas sociotécnicos. Serão priorizados os trabalhos que apresentem investimento empírico e que voltam a atenção para processos técnicos como fator constitutivo da análise.
Alessandro Roberto de Oliveira (Universidade Federal de Goiás - UFG)
(Coordenador/a)
Fabio Mura (UFPB)
(Coordenador/a)
Sessão 1
Carlos Xavier de Azevedo Netto (Universidade Federal da Paraíba)
(Debatedor/a)
Jeremy Paul Jean Loup Deturche (UNiversidade Federal de Santa Catarina)
(Debatedor/a)
Sessão 2
Carlos Xavier de Azevedo Netto (Universidade Federal da Paraíba)
(Debatedor/a)
Jeremy Paul Jean Loup Deturche (UNiversidade Federal de Santa Catarina)
(Debatedor/a)
Sessão 3
Carlos Xavier de Azevedo Netto (Universidade Federal da Paraíba)
(Debatedor/a)
Jeremy Paul Jean Loup Deturche (UNiversidade Federal de Santa Catarina)
(Debatedor/a)

Rede sociotécnica da opala: etnografia da fabricação de joias no Festival de Inverno de Pedro II

Autor/es: Daniela Pereira Damasceno Santos
A partir do contexto etnográfico do Festival de Inverno de Pedro II – Piauí, em 2015, este artigo pretende argumentar sobre os processos técnicos utilizados na produção artesanal e comercialização de joias em opala do município. Refletimos sobre os fazeres da joia, o artesão não existe como uma categoria fechada, mas divide-se em diversas atribuições que estão dispostas em equilíbrio, com diversas atribuições técnicas e suas relações ao longo do processo produtivo da joalheria, tendo por fim o entendimento do sistema sociotécnico da opala. O fazer da joalheria envolve diversos atores, Humanos e não-Humanos. Então, tomando a opala como figura central do sistema no relato etnográfico, observamos o seu caminho pelas mãos dos diversos tipos de artesãos, após sair das mãos dos mineiros. Inicialmente vemos as identificações dos atores Humanos por nomenclaturas como: “artesão joalheiro” ou “ouvires” para os que desempenham a função de modelar o metal e criar a joia ao redor da gema; o “lapidário” que executa a função de modelar do corte da gema e de como será a disposição dela na joia pronta; e o trabalho do “joalheiro” (diferente de artesão joalheiro) que encarrega-se de conhecer todos os processos, materiais, formas e histórias, apesar de não chegar a executá-los, apenas para vender a joia com agregação de valor. Em cada escala de identificação, os artesãos exercem domínios diferentes de habilidades e conhecimentos, mostrados em momentos diferentes do processo produtivo. Também é observado a significância da gema, em suas mais diversas formas, cores, texturas e valores no tratar da joia pronta, e a modificação de sua aceitação e das técnicas de interferência sobre ela após as políticas públicas de fomento de identificação de Pedro II como a “terra da opala”. Ao longo de todo esse processo, a Opala torna-se então uma atriz que interfere diretamente nas relações Humanas, não apenas no setor joalheiro, mas nos diversos contextos da cidade, criando uma grande rede de identificação ao redor de si mesma.
Apresentação Oral em GT

Técnica e trabalho em atividades de extração da borracha

Autor/es: Eduardo Di Deus, -
A sangria de seringueiras é a extração do látex destas árvores para a produção de borracha natural. Nas plantações de seringueiras do interior de São Paulo a sangria é considerada uma atividade crucial. Isto porque é a capacidade do sangrador, ou seringueiro, em realizar eficazmente precisas incisões nas cascas de centenas de árvores a cada jornada de trabalho que determinará a rentabilidade e viabilidade de um seringal. Trata-se de um ofício singular, que une a expertise no trato de uma espécie vegetal cultivada, um ritmo de trabalho e uma rotina similares ao trabalho industrial, com uma habilidade artesanal no manejo de facas específicas para realizar incisões precisas nas cascas das árvores. Trabalho rural, rotina industrial, habilidade artesanal. O ofício de sangrador é exemplar das limitações destas categorias classificatórias das atividades humanas. Proponho apresentar resultados parciais de pesquisa histórica e etnográfica sobre as técnicas de sangria em plantações no interior de São Paulo, especificamente na região noroeste paulista. A partir deste material pensar como da intersecção entre os campos de estudo sobre técnica e trabalho podem emergir interessantes ferramentas analíticas para contextos de engajamento em atividades produtivas.
Apresentação Oral em GT

Uma técnica de passagens: a caça panará na mata

Autor/es: Fabiano Campelo Bechelany
Esta apresentação desenvolve reflexões em torno do modo como os Panará habitam a floresta por meio da caça. Para os Panará, um povo de língua Jê, que habita as margens meridionais da floresta amazônica (entre o MT e PA), a caça é uma atividade periódica, com importância alimentar e social, realizada por meio de perseguição a animais na mata. Partindo da minha etnografia com o grupo, trabalho nesta apresentação o encadeamento de operações realizadas na caça. Essa cadeia, não propriamente regular e padronizada, é modulada pelos caçadores levando em conta propriedades do ambiente e dos seres que habitam a mata. Abordo as caminhadas dos caçadores, itinerários da experiência pelos quais percebem e conhecem a mata. Analiso alguns dos eventos da caça relacionados as ações corporais, com o objetivo de compreender o que chamo de modo caçador, uma individuação da pessoa e do corpo que implica determinadas disposições e percepções. Tais disposições possuem ritmos e forças, habilidades e agilidades, que afetam o conjunto sensorial e gestual dos caçadores. Constitui-se, assim, um campo operatório do caçador, onde se relacionam propriedades de ação do animal a ser predado e do ambiente da floresta. Neste trabalho, pretendo ainda sugerir a ideia de que a caça panará é um dispositivo de passagens. Com isso quero refletir sobre o seu processo como passagens da aldeia para a floresta, e de volta à aldeia (e, no presente, a passagem pela cidade). O movimento da passagem é um modo de habitar a mata, uma forma temporária que nem por isso é menos decisiva na constituição da pessoa e do sócius panará. Outras passagens se implicam na caça. A transformação na ação e nas disposições; o canal de comunicação entre espíritos e humanos; a transição pelo limiar, sempre em movimento, entre animais e caçadores; a vida e a morte. Operador, comutador e ao mesmo tempo registro de fluxos, a caça é um processo para penetrar a floresta e pelo qual a floresta adentra a vida na aldeia. Procuro explorar o modo como uma análise técnica faculta uma observação concreta dos acontecimentos de passagem da caça
Apresentação Oral em GT

Entre mapas e narrativas: teorias e técnicas de navegação

Autor/es: Gabriel Coutinho Barbosa
Este trabalho aprofunda discussão sobre as técnicas de navegação praticadas por jangadeiros no litoral nordestino brasileiro, voltando-se aos debates teóricos mais amplos sobre o tema. São analisados dois grandes modelos ou teorias concorrentes: de um lado, a teoria dos mapas mentais; de outro, aquela que chamarei provisoriamente de prático ecológica. Com base em tais debates, indaga-se se, para localizar os pesqueiros por meio da técnica de “marcação por terra”, os jangadeiros valem-se necessariamente de alguma representação do espaço circundante e se, em caso de resposta positiva, a metáfora cartográfica do “mapa” é, de fato, a mais adequada para designar tais representações.
Apresentação Oral em GT

Fazer o Fogo Fazer: manejos e manipulações no Jalapão (TO)

Autor/es: Guilherme Moura Fagundes
Em minha pesquisa de doutorado tenho me dedicado a compreender as ações e percepções de manejo do fogo em um contexto que articula gestão de Unidades de Conservação e populações tradicionais na região do Jalapão (TO). O “Manejo Integrado do Fogo” (MIF) consiste em uma perspectiva de gestão ambiental presente em diversas savanas pelo mundo. Como o nome sugere, visa “integrar” saberes e práticas científicas e locais relacionadas ao fogo, no intuito de compatibilizar finalidades conservacionistas e agropastoris. No cenário do Jalapão, o MIF se alinha a um movimento recente de reabilitação do uso do fogo como “ferramenta” de manejo em áreas protegidas, com vistas a conservar a biodiversidade, assegurar os modos de vida tradicionais e diminuir a emissão de gases estufa. Embora seja corrente nos depararmos com a predicação de “ferramenta” dispensada ao uso do fogo com finalidades agropastoris, a pesquisa aposta em se perguntar como o fogo devém ferramenta em gestão de UCs e o que a antropologia da técnica teria a dizer a este respeito. Tal procedimento metodológico torna possível abordar etnograficamente os predicados convencionais atribuídos ao fogo para então acompanhar, em ato, seus estatutos técnicos. De início, uma característica das relações exercidas sob o signo da ferramenta é a conciliação da atividade do ente mediador ao ritmo do gesto corporal (Leroi-Gourhan, 1965). Ocorre, porém, que o fogo antropogênico adquire ritmos que extrapolam o gesto humano de ignição. Assim como os seres vivos, o fogo possui uma potência (dynamis) própria que o permite agir (Vernant, 1990). Portanto, enquanto uma ferramenta por si só não faz coisa alguma após o gesto operador ser cessado, já o fogo pode ser manipulado para que ele mesmo siga fazendo. A comunicação parte da diferenciação das modalidades de ação técnica em termos de operação (fazer) e manipulação (fazer-fazer), tal qual sugere a semiótica greimasiana (1979). Isto porque, no meu caso de pesquisa, tal procedimento metodológico possibilita incluir as agências tecnopolíticas do “fogo-ferramenta” sem ter de recorrer a ontologias animistas que são estranhas aos meus interlocutores no Jalapão. Na antropologia da técnica este caminho já foi aberto por Ferret (2012), a partir do legado de Haudricourt (1962), e tem possibilitado novas abordagens antropológicas sobre os universos animais e vegetais com enfoque nas ações técnicas. Em meio aos resultados parciais de minha pesquisa, a exposição buscará explorar o potencial analítico do conceito de “manipulação” em contextos onde as atividades de feitura extrapolam o enquadramento clássico da técnica como ações sobre a matéria.
Apresentação Oral em GT

"Eu e a câmera somos um só": Acoplamentos técnicos, técnicas corporais e o processo de filmagem durante protestos violentos

Autor/es: Igor Karim
Pretendo expor o caso etnográfico de um operador de câmera e sua experiência em filmar os confrontos entre a tropa de choque (Gendameria) e manifestantes, em Bucareste e Roșia Montană, na Romênia. Nestas situações, o cineasta por muitas vezes registrou eventos de abuso de poder e de violência por parte de policiais e assim tornou-se alvo recorrente de perseguição policial. Por meio da exploração das relações entre ergonomia, design de câmera, posição onde a câmera se situa em relação ao seu corpo e as técnicas corporais ativadas por este acoplamento, foi configurado um processo específico de produção de imagens que negociou acessos às áreas interditadas, suspendeu restrições de movimento e mediou conflitos com a polícia de choque. Sugiro assim, por meio de uma análise centrada nas técnicas do corpo, que o acoplamento técnico (entre corpo e câmera) desdobra certas relações, mediações e negociações que podem ser pensadas não somente como produtoras de imagens, mas como parte de um processo contínuo de engajamento com o ambiente.
Apresentação Oral em GT

Relações técnicas entre os Pataxó da Aldeia Velha e o Pontão de Cultura Bailux: Considerações sobre transferências e apropriações de tecnologia

Autor/es: Isaac Fernando Ferreira Filho
Este trabalho pretende analisar as ações de apropriação e transferência de tecnologia do Pontão de Cultura Bailux junto aos indígenas Pataxó da Aldeia Velha, localizada Bahia. As atividades do Bailux (Bahia+Linux) foram guiadas através de uma metodologia de “apropriação de tecnologia para a transformação social” denominada metareciclagem. Como um pontão de cultura, suas atividades possuíram cunho de natureza cultural e educativa. Em seu período de funcionamento com os indígenas, destacaram-se três importantes oficinas: informática básica, com o uso do sistema operacional GNU/Linux; documentação, através de recursos de fotografia e postagens em blog, e o projeto horta medicinal, onde os atendidos faziam registros visuais da horta medicinal da pajé da aldeia, colocando seus conhecimentos de documentação em prática. À luz do trabalho de Leroi-Gourhan (1965) a nossa análise focaliza as cadeias operatórias utilizadas pelos indígenas na apropriação dos materiais produzidos durante suas oficinas com o pontão, além de atentar nas relações que surgiram a partir de suas dinâmicas e ações políticas. Através das narrativas dos atores envolvidos, consideramos que desde o início dessas atividades foram desencadeados problemas, relativos tanto à infraestrutura, como a centralização dos computadores na escola da aldeia e ausência de um acesso mais amplo à internet; quanto as relações de poder com outras iniciativas, como o próprio ponto de cultura da aldeia – gerido em parceria com uma ONG, Instituto Tribos Jovens – que foi parceiro do Bailux por um período; e também a metodologia adotada. Apesar do término não satisfatório das atividades do pontão na aldeia, houve diversos tipos de apropriação dos conteúdos da oficina, seja de forma direta, onde um jovem indígena chegou a trabalhar como editor de imagem em uma empresa fora da aldeia, ou de forma indireta, no caso de uma jovem a qual as oficinas ajudaram-lhe a perder a timidez para trabalhar com atendimento ao público. Em observação ao cotidiano da aldeia, pós atendimento do pontão, encontramos um cenário um pouco diferente, seja por não funcionar mais projetos de inclusão digital, onde ponto de cultura da aldeia está sem funcionar, havendo apenas as aulas de informática da escola, ou seja, por uma nova configuração de acesso às tecnologias da informação e comunicação advindas do uso do smartphone e internet 3g. Apesar destas novas tecnologias facilitarem o acesso a determinado tipo de comunicação, elas possuem limitações, tanto na qualidade da internet, como também na solução de necessidades, por parte de alguns indígenas, de um uso mais completo que exige um computador, principalmente para trabalhos no campo do audiovisual, que foi o mais assimilado pelos indígenas devido as suas necessidades e interesses.
Apresentação Oral em GT

Os Processos Técnicos e a Construção Civil Contemporânea na Cidade de Rio de Contas (BA): permacultura, bioconstrução e a transformação dos materiais

Autor/es: Jean Pierre Pierote Silva
A proposta desse trabalho é apresentar as primeiras questões da pesquisa etnográfica em andamento que analisa os processos técnicos e os saberes praticados na construção civil contemporânea da cidade de Rio de Contas (BA). Localizada ao Sul da Chapada Diamantina (BA), Rio de Contas é uma cidade criada por Provisão Real de 1745, classificada como uma das primeiras novas cidades coloniais planejadas do Brasil. Nos últimos dez anos uma pequena rede de moradores formada majoritariamente por “pessoas de fora” tem se formado localmente, desde então, a construção de ambientes com a utilização de técnicas da permacultura e da bioconstrução tem sido uma prática constante. Essa rede define a permacultura como “um sistema de design utilizado para a criação de ambientes humanos sustentáveis e produtivos em equilíbrio e harmonia com a natureza”, questionando principalmente a forma com que os recursos naturais vêm sendo utilizados pelas sociedades industriais capitalistas. Uma das práticas presente no discurso da bioconstrução é o de optar pelo uso de materiais locais, retirados preferencialmente do próprio espaço onde se pretende construir e viver. A terra utilizada na confecção dos tijolos de “adobão”, ou na feitura do reboco da casa, deve ser retirada do terreno onde se deseja construir, pelo fato desse material possuir propriedades “naturais” que se integrariam de forma mais harmônica com o ambiente. Outra prática presente no discurso dos bioconstrutores está relacionada à inserção dos futuros moradores de uma casa nas etapas de sua construção. Amassar o barro, rebocar e pintar as paredes seriam formas de inserir a “energia” desses futuros moradores nas estruturas da construção, buscando maior integração entre moradores e ambiente, entendendo a casa como um organismo vivo. Desse modo, pretende-se produzir uma analise etnográfica pautada na prática da transformação de materiais refletindo sobre os limites do paradigma Homem/Natureza no que diz respeitos a relação entre a técnica, o humano e o ambiente.
Apresentação Oral em GT

Forças e definição da forma na produção das rendeiras de bilro

Autor/es: Júlia Dias Escobar Brussi
A partir de trabalho de campo realizado entre rendeiras de Canaan (Trairi – CE), pretendo me debruçar sobre o processo de construção da renda e o modo como o produto final reflete a qualidade dos gestos e movimentos realizados ao longo de sua produção. Muitos autores já apontaram a relação entre a repetição rítmica de determinadas sequências de ação e as formas que são geradas (Boas, 1951; Leroi-Gourham, 1987 e Ingold, 2013). A prática das rendeiras pode ser descrita enquanto uma atividade rítmica, tanto pela sequência dos gestos, quanto pelos sucessivos choques executados entre os bilros, que criam uma batida cadenciada. No entanto, a forma final da renda é mais influenciada pela força empregada sobre os bilros ao longo do processo, do que pelo ritmo de sua execução. A definição dos pontos da renda, seus contornos e formatos estão diretamente relacionados à direção e variação da força aplicada sobre os bilros ao longo de sua feitura. Proponho que a renda seja pensada enquanto um sistema de transmissão de forças e criação de forma, composto pelos músculos das rendeiras, suas mãos, seus bilros, espinhos e linha. Os músculos constituem a origem dos movimentos e da força que será aplicada sobre os bilros, são eles que possibilitam a variação do módulo da força e a tração dos fusos (e linhas) causados pelos estalos. Os bilros são os primeiros a sofrer a aplicação da energia muscular, transmitindo-a para a linha que, por sua vez, resiste às forças de tração aplicadas pela mão. Em algumas situações, o fio pode não aguentar a intensidade dessa força e se romper. As funções dos espinhos nesse sistema são múltiplas, mas todas estão relacionadas à manutenção das formas já definidas, à estabilização das forças e direcionamento das mesmas. A renda, suas formas e padrões resultam, portanto, dos gestos envolvidos em sua produção, da variação de forças aplicadas durante esse processo e da maneira como tais forças se estabilizam, considerando as propriedades dos materiais. A peça finalizada guarda o registro das ações e movimentos que a constituíram. Assim, o investimento de tempo, o cuidado e a atenção ao longo do processo podem ser observados na trama já finalizada.
Apresentação Oral em GT

A técnica e a textura: reflexões sobre arte e criatividade inga

Autor/es: Tatiana Helena Lotierzo Hirano
Qual empreendida por Ingold (2012), a crítica ao caráter hilemórfico das análises sobre a arte propõe deslocar a atenção de um entendimento da obra como forma, para outro, que a percebe como formação. Acentua-se o lado sempre inacabado do trabalho artístico, que se define enquanto coisa – um agregado de fios vitais que acontece, motivado pelas relações entre a matéria e as forças que a percorrem. Ingold desdobra sua proposta de certas considerações do artista Paul Klee (1973), retomadas por Deleuze e Guattari (2004): conforme ele explica, “a arte não busca replicar formas acabadas e já estabelecidas, seja enquanto imagens na mente ou objetos no mundo. Ela busca se unir às forças que trazem à tona a forma” (Ingold, op. cit., p. 26). Esta comunicação procura pensar tal deslocamento e suas implicações, sob inspiração do trabalho do artista ingano Kindi Llajtu e da maneira com que ele mesmo o descreve. Para Kindi Llajtu – autor de pinturas e intervenções com superfícies e artefatos variados –, cada elemento de uma obra artística pode possuir uma espécie de vida própria: segundo o artista, uma linha não é necessariamente reta, mas pode ser um caracol, que se contrai e expande, um rio, uma canoa ou uma vasilha. Além disso, as coisas não são apenas modificadas sob a ação e segundo as intenções do artista; antes, elas reagem a isto, trazendo à tona suas texturas. As declarações de Kindi Llajtu convidam a vislumbrar um modo particular de conceber a relação entre técnica e texturas, assim como certas relações entre processos técnicos e uma criatividade (Wagner, 2010; Hirsch e Strathern, 2004) inga. Na aproximação com Ingold, gostaríamos de propor algumas reflexões em torno dessas ideias e de seus possíveis desdobramentos. Referências bibliográficas citadas: Deleuze, G.; Guattari, F. A thousand plateaus. Trans. B. Massumi. London: Continuum, 2004. Hirsch, Eric. & M. Strathern (orgs.). Transactions and Creations: Property Debates and the stimulus of Melanesia. Oxford: Berghahn, 2004. Ingold, Tim. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais. Horiz. antropol. [online]. 2012, vol.18, n.37, pp. 25-44. Disponível em: . Último acesso: 07/03/2016. Kindi Llajtu. “A mi pintura le gustaría llegar a la textura de la piedra, de un árbol o del agua”. Mundo Amazonico, [S.l.], v. 5, n. 1, pp. 245-251, sep. 2014. Disponível em: . Último acesso: 16/02/2016. Klee, P. Noteboooks, volume 2: the nature of nature. Trans. H. Norden. Ed. J. Spiller. London: Lund Humphries, 1973. Wagner, Roy. A invenção da cultura. São Paulo, CosacNaify, 2010.
Apresentação Oral em GT

Solidariedade, reciprocidade, cooperação e mercado: controvérsias sobre o turismo comunitário

Autor/es: Lea Carvalho Rodrigues
Propõe-se discutir os princípios das propostas de turismo comunitário, assentados nas noções de solidariedade, cooperação, respeito à vida, conservação e aproveitamento sustentável dos ecossistemas e biodiversidade. Questiona-se sobre os riscos concretos dessas iniciativas tendo em tela o caráter altamente competitivo e predatório das atividades turísticas e, ao mesmo tempo, avaliações efetuadas sobre as fragilidades das iniciativas de turismo comunitário existentes, instadas a assumir, cada vez mais, posturas que tencionam a lógica solidária com a de mercado. Por outro lado, sugere-se que a opção do turismo comunitário é sobretudo estratégica, como forma de proteção da comunidade frente aos interesses do capital turístico, o que faz repensar os modelos e recomendações em prol da adequação das atividades à lógica mercantil.
Trabalho para mesa redonda